No tempo em que semeei vogais…

No tempo em que semeei vogais…

ontem não calei a boca do mundo
rasguei os céus
rasguei a terra
semeei-a com os meus sonhos
com meus pensamentos
espremi as nuvens e os ventos
eles gritaram impropérios,
lírios, e frutas maduras
entusiasmo e delírios
medos e gemidos de dor
respirações arfadas de prazer
ontem não calei a boca do mundo
somente a minha
esperei os silêncios gritantes da germinação…

e nasceram os versos…

Alberto Cuddel
29/10/2020
23:10
Poética da demência assíncrona…

amarra-me os pulsos

amarra-me os pulsos
inscreve-me a alma
sem tempo possui-me
faça-se em mim a poesia…
reveste-me de mansidão
seja eu eterna pertença
tem-me em ti, movimento certo
longe, perto, ali… ali mesmo
debaixo de ti… apenas teu…
volúpia da libido que arde no corpo
luz que me inunda querer da alma
percorre-me em beijos o corpo nu
profana-me o desejo no sentir que se ergue…
faz de mim amante perfeito
satisfação do teu corpo
escravo do teu sentir…
faça-se em mim toda a rima
todo e querer em cada estrofe
fonte de vida que te inunda o ser…
enlouqueces-me… na profundidade do olhar
cavalga em mim madrugadas lentas
que nos buscamos nos corpos
encontramos-mos na alma…
gozamos obliquamente… demoradamente…
respiramos… beijamos…
recomeçamos… como uma primeira vez..
e repetimos… uma busca cega…
amar é arte que se renova
que se deseja, que não se cansa…
e depois? depois nasce o dia
e o dia é depois de agora
agora é o nosso querer…
esse suor que nos escorre na face..
cavalga em mim madrugadas lentas…

Tiago Paixão

Nuvens de algodão não sabem a torradas

Nuvens de algodão não sabem a torradas

seria cevada e broa, açúcar amarelo
um sabor salgado de mar
esse ventre da memória rasgado na herança
e toda a infância ali, junto ao céu da boca…

o cheiro da terra molhada, o pinho dos montes
e o primeiro beijo, roubado ente canas
ainda sinto o cheiro do carvão,
e o calor das carruagens…
nas mãos o frio da escola…

seria a memória traição da certeza
no empedrado do caminho os aros
esse compasso marcado pelos cascos…

deitado na erva sinto…
viajo pelo horizonte dos sentidos
na certeza que as nuvens de algodão,
não sabem a torradas…

Alberto Cuddel
26/10/2020
16:34
Poética da demência assíncrona…

Há uma voz que se ergue como alma de um povo

Há uma voz que se ergue como alma de um povo

há palavras escorridas de um amor
há na procura, uma angústia nocturna
no embargo do olhar uma voz tremula
e desejos do corpo insatisfeitos na alma

e essa vontade de deus que nos julga e subjuga no tempo
à mulher, fosse o teu tempo outro
e essa negritude dos gestos, essa fome de ansiedade
esse cantar amargurado a saudade que nunca possuíste
e o fado
não seria o mesmo fado que carregaste no semblante…

“Tinha duas mãos abertas
E o sentimento do mundo
Tenho agora as mãos desertas
E um desgosto profundo”

e tinhas esse amor a dar
essa vontade de Deus
agora saudade de a cantar
uma canção a todos os teus…
há um amor eterno, um sofrimento magoado
há esse encanto na voz e em ti Portugal
todo ele é som, todo ele é fado…

Alberto Cuddel
25/10/2020
20:43
Poética da demência assíncrona…

Na profundidade da alma

Na profundidade da alma

desci à profundidade obscura da minha alma
procurava em mim o silêncio do mundo
aquele pedacinho de nada que me permite pensar

  • as ideias não se calavam discutindo ferozmente
    entre o coração e a mente, quem teria razão?
  • e eu? que importância tinha em mim?

para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo,

  • nada faço. nem a mim mesmo ouso dizer:
    quem seria se fizesse?
    tudo isto deixa-me exausto,
    nesta loucura de pensar a consequência da palavra escrita

não falemos mais.
as coisas que se amam, os sentimentos que se sentem guardam-se com a chave d’aquilo que amamos
o «pudor» é a arte de se fazer cofre no coração.
a eloquência profana-os quando os pensamos
porque sentir é não pensar,
e sentir é agir sem o medo das consequências

não há excitações ou meditações
na profundidade da alma tudo se revela

  • cristalino sem as sombras
    projecções da luz da consciência, da razão…

na obscuridade silenciosa da alma
somos essencialmente sentir
sem os julgamentos humanos das “LEIS divinas”
e lá construímos impérios e castelos
lá somos apenas nós, maleficamente egoístas…

Alberto Cuddel
25/10/2020
17:50
Poética da demência assíncrona…

Hoje não me apetece falar

Hoje não me apetece falar

Hoje não me apetece falar, depois de mais uma mulher ter sido vítima da uma masculinidade que não aceito, de um sentimento doentio de posse que nem na escravidão admitia. Não consigo falar de amor, da vida, de beleza, quando mais alguém perde a vida, às mãos de uma sentimento e tipo de relação ignóbil.

Ainda há pouco escrevia que amar é fácil, difícil é foder, afinal, o difícil é aceitar a decisão do outro, aceitar que quando alguém está connosco esse alguém esta porque quer, e não porque nos pertence. E sobre isso recebi alguns comentários que infelizmente demosntam bem que existem homens com grandes dúvidas sobre a sua forma de agir. Que não sabem nem respeitam os desejos das mulheres, que não sabem nem aceitam o que a mulher quer na vida e ao seu lado.

Será assim tão difícil ao homem, ao ser humano aceitar que nem sempre as coisas resultam? Que ninguém é de ninguém? Para quê tanta violência?

Mas o meu pensamento hoje vai para as crianças que sem culpa de nada, por um sentimento inqualificável de homens que nem homens sabem ser deixam milhares de crianças órfãos de mãe e pai.

A. De Alberto Sousa

Nunca pedirei permissão para voar…

Nunca pedirei permissão para voar…

nunca pedirei permissão para voar
para cruzar os céus dos sonhos em tons laranja
que jamais permita a minha alma perder as asas
que nos pesadelos da noite sejam de fogo
na virtude consciente do querer suicida que me abastece
nas folhas cor de cobre que me cobrem o chão que piso
ou nas folhas frágeis que despontam com o orvalho
nunca pedirei permissão para voar…

ergo-me diante do horizonte de medo
há nos céus esperança…,
essa que vos morre nos bolsos vazios
enquanto tristes caminhais de olhos no chão
na mudança que se espera, há esperança
mas essa mudança nasce em vós,
quando erguerdes o olhar para o amanhã…
sonhai, sem medos de voar, não espereis
não espereis permissão para voar…

largai as máscaras que vos ocultam o rosto
enfrentai os medos, vesti as asas do sonho e voai…

há no pairar sobre as águas uma vontade
ide e pescai vontades, esperança…

nunca pedirei permissão para voar…
simplesmente vou, até poder pousar
onde o sonho e o futuro me levar…

Alberto Cuddel
21/10/2020
18:56
Poética da demência assíncrona…

Entrevista

Fui entrevistado para a revista do VILLA. Leia a entrevista no link.

Douglas Delmar entrevista o poeta português Alberto Cuddel

Amor ou a arte de foder

A maioria das mulheres dizem que os homens não sabem amar, mas eu digo o oposto, a maioria dos homens não sabe é foder…

Amar é simples, são pequenos gestos do dia a dia, ajuda, carinho, atenção, compreensão, diálogo, isso é simples… Agora foder? Isso sim é complicado… Planear os preliminares com horas ou dias de antecedência, uma mensagem, uma palavra, um gesto erótico, um elogio… O manter a libido no auge, o toque, o cheiro, a excitação… A emoção, o sentir, a entrega da alma, a fantasia, o induzir o desejo… Isso sim é complicado, isto para não falar no investimento colossal no orgasmo dela, quais as posições que o facilitam, que tipo de orgasmo devemos provocar, qual o investimento a ter em conta para a elevar ao Olimpo? Pois é, amar é fácil, agora foder? Só está ao alcance de muito poucos…

Vale a pena pensar nisto…

A. De Alberto Sousa

Sob epígrafe – Tributo a Sebastião Alba

Sob epígrafe – Tributo a Sebastião Alba

Atropelos da Vida

há uma desilusão no ar
no asfalto negro espera-me a morte por atropelo
cruzei mares e oceanos, caminhos de terra
depressão humanitária da desilusão…

há sempre essa vida simples
de acordar com o sol
sonhar estrelas enquanto os homens roubam…

nesse lado oculto da poética
movo-me por entre as sombras das vielas
na procura do pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.

não tenho medo da morte
mas sim medo que a morte me esqueça…

Alberto Cuddel

Vampira do meu querer…

Vampira do meu querer…

Pudesse eu calar esta fome em mim,
Atingisse eu o apogeu celibatário de ti
Extinguiria o fogo que me consome
Sangue bombeado, ânsia disforme
Pensamento tolhido, corpo de mulher
Libidinoso sonho erótico, ser em ti
Consumir-me nos loucos movimentos
Escravo do teu ávido e sedento prazer
Sossega-me, deixa-me repousar
Lenções escarlates, húmidos e quentes
Deixa-me repousar no conforto do teu seio
Reconforto de me saberes teu
Sempre, e só, servo dos teu desejos!

Sírio de Andrade

Momentos de outra vida VII

Momentos de outra vida VII

… treme em privação todo o meu corpo, na abstinente e louca paixão, reclusa prisão de não te ter em mim, ausente vontade do teu toque de midas, digitalização do toque que me eleva à louca e orgásmica explosão hormonal, sentir com que me privas.

Madrasta vida, que me previa do másculo ser que me completa, na possuída vontade de dar corpo ao amor que me emana nos poros. Quero-te, no imediato, no já, angustiante espera… vem, chega, toma-me como tua que sou, promessa jurada, confirmada na virginal vontade de ser permanentemente tua, realiza em mim a loucura de fazer gemer todo o amor que me transborda, apenas na caricia afável da minha doce Alma!

Pyxis de Andrade

No dia estupidamente frio como que de Inverno…

No dia estupidamente frio como que de Inverno…

adormeço quase a medo quando amanhece
porque há dias que nos amanhecem no olhar
ali, mesmo antes do sonho, de te sonhar
sinto o tudo que finjo, antes que sofra o que sinto…

se poeta fosse o que deveria ser?
e homem quem seria se o fosse?
deveria existir uma forma de encontrar as coisas
de lhe sentir o sentido, de as ver de fora
de olhar a tempestade a partir de dentro
como a totalidade do universo, não o infinito
mas esse conhecimento parcial da totalidade
como numa clareira, rodeado da floresta
mas reconhecemos a clareira na sua totalidade
reconhecemos a floresta, e a irracionalidade que a habita

mas como é que eu sei se teria sido feliz?
como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
do que teria sido, que é o que nunca foi?
e assim é tudo arrependimento,
e o arrependimento é pura abstracção.
dá um certo desconforto
mas também dá um certo sonho…
sonhar a possibilidade do que poderia ter sido
essa existência do tempo que foi sem o ser

poderia não ter casado, poderia não o ter escrito
poderia também nunca ter equacionado
ou duvidado do que foi concretizado
existem essa infinidade fria de ses, e se…
pelo menos é melhor pensar que é assim.
é um quadro de casa suburbana, alguém me espera
é uma boa paisagem íntima de cabelos castanhos
e os remorsos são sombras por detrás dos olhos azuis
em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme
se não tivesse percorrido o espaço do silencio
esse que mediava a não pergunta
e na não resposta afirmativamente positiva
“sim”…

mas o dia está frio, estupidamente como Inverno
e chego, como gelado, e adormeço a teu lado
ali, mesmo ali quando amanhece…

Alberto Cuddel
17/10/2020
03:22
Poética da demência assíncrona…

O meu eu…

Esta não é uma experiência poética, mas sim apenas uma forma de interagir… Este era o aspecto que tinha mais ou menos quando escrevi o primeiro poema, já lá vão mais de 29 anos… Gostaria que quem passasse por este texto deixasse uma mensagem, um olá, um está tudo bem, um li… Gostaria de saber quem me lê… Um enorme abraço e bjinhos…

Anúncio…

Anunciemos ao mundo o desejo que nos percorre o corpo, gemamos juntos, em movimentos compassados, libertemos toda esta nossa fúria que contemos no corpo… enfrentemos a noite e o mundo juntos, de cabeça erguida, se o que nos move é o amor, o prazer, usemo-lo em todo este desejo que nos assalta…

Sejamos o movimento contrário
Em movimentos amplos e ordinários
Gritemos o prazer e o gozo que nos escorre
Sejamos a noite desperta a lua que nos condena
Sejamos prazer aos olhos do mundo…
Sejamos amor… desejos contidos nas mentes…
Sejamos amor ao recolher… ocultos pela janela…

Sorve-me, bebe-me, agora, neste silêncio que nos abraça, sejamos boca e língua, dedos e braços, e sejamos prazer novamente, até que o dia nasça em nós…

Tiago Paixão

Primavera

Primavera

Na encruzilhada do entardecer
Amanheceu a saudade como breu
Neblinas de uma alma adormecida
Choros e prantos de um sofrer
Onde se anuncia a Primavera?

Rumores arrastado pelo caminho
Mãos estendidas à solidariedade
Passos de saltos travados, sozinho
Cega seja, como és na verdade!

Sementes contorcidas de dor
Humidade da terra, canto das aves
Renovação da vida, das flores o odor
Expiação dos pecados, beijos onde cabes

Destino traçado partido no chão
Aves nidificando esperam o Verão
Passos que se perdem dados ontem
Nunca encontrados pelos que sentem…

Ó incúria da Curia em posse
Desse deus que apregoais
Vinde, vinde mais, mais…
Se de vos partilhásseis o pouco que fosse
Seriam mais, bem mais, à luz de Deus…

Vinde anais da memória, revelai
Uma outra e nova história
Escrita em punhos de sangue
Vós que me escutais agora,
Em boa verdade, apenas mudai…
Sede novos a cada hora…
Renovai, sede vós também a Primavera…

Alberto Cuddel
15/10/2020

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