Sentei-me amanhã chorando o ontem

Sentei-me amanhã chorando o ontem

Nesse passado que nunca aconteceu
Futuro que nunca nasceu e cresceu
Choro calado lágrimas frias
Rosto gasto enterrado nas mãos
Enquanto na minha alma ainda morrias!…

Ó padrasto auguro das esperanças
Ó arvores partidas pelo meio
E veio a geada e o vento, o sol espreita
Nuvens cinzentas cruzam os rios
Há corações de pedra, sorrisos…
Vidas ceifadas pelo ego do homem
Numa felicidade enganadora que professo…

Sentei-me olhei distante o amanhã
Chorei a esperança sangrando
Joelhos e ferida, pés descalços
Cobertores húmidos e rasgados
Jornais com notícias atrasadas
Voam, voam, sem destino
Já sem esperança no olhar…

Sentei-me amanhã chorando o ontem
Antes que o hoje me arreganhe o peito
Antes que de desnude a alma
Que na transparência me abraces
Olhando o íntimo do teu medo!

Alberto Cuddel
23/10/2018
Marvila. Portugal

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Semente morta!

Semente morta!

Seara queimada onde não nasce nada,
Negra tristeza na queda ao abismo,
Estatua negra, fria, assim desnudada,
Desprovida de todo o seu irrealismo!

Solidão do querer, as flores mortas,
Fechadas que estão as tristes portas,
Deambulo pelo saber de ontem perdido,
Preso na garganta o grito gemido!

Anafado corpo atirado a um canto,
Cantam demónios em gritos de pranto,
Pedras que rolam na escarpa da vida,
Corrida permanente, viagem de ida!

Terramoto abatido, conversa fiada,
Certezas de tudo, palavras de nada,
Pedras que rolam da altiva escarpa,
Cordas que quebram na fúria da arpa!

Suicídio das palavras escritas na água,
Frases de um outro mar onde desagua,
Infecção na caneta que geme de dor,
Morte a quem que sonhou ser escritor!

Arrependimento que mata a cada noite,
Uivos bradam no ar nocturno como acoite,
Fantasmas despertam do ontem passado,
Perdoado, não esquecido, agora lembrado!

À solidão gabo-te a sorte,
Perdida, esquecida,
Desistindo da morte!

Grito socorro na sala vazia,
Angustiante ninguém ouvia,
Canto escuro aninhado no nada,
Uma flor morta, vazia jarra!

A semente não germinou,
O sonho morreu, acabou!

Alberto Cuddel

Que jamais cale o que em mim calei

Que jamais cale o que em mim calei

Neste silêncio dormente que gritei
Nesta dor arrancada do peito pelas costelas
Neste coração arrancado que me bate na mão
Toda a dor, de não dizer “não”…

Já não sei sem sou, o que de mim brota
Nesta cinza atmosfera que me envolve
Nasço e renasço a cada dia, para morrer depois
Morri e ninguém me contou.

Os poemas são meros punhais cravados no tempo
Nesse tempo em que morro a cada silaba
A voz trémula afónica nada diz, árvores de sombra
Luares encobertos, braços que não abraçam
Lábios secos e gretados de fel que não beijam
Línguas afiadas como punhais…

Corri pelos teus braços
Fugi pelo medo da felicidade
Neles morri nessa saudade
Tudo que era para ser
Que nunca foi…

Alberto Cuddel
25/10/2017
Sob Reserva Privada

Faz de mim tua viagem!

Faz de mim tua viagem!

Quero fazer-te em meu corpo viajar,
Sentir o ardor de tua pele queimando,
Dar asas à paixão, sem freios e direcção,
Fazer voar a tua fantasia, ser em ti,
Corpo que arrepia, que ferve, que geme,
Fonte dos sonhos em mim sem direcção,
Realização sem pudores dos desejos carnais,
Fazer da noite luxuriosa fonte de pecado
Dando-te todo o prazer contigo ao meu lado
Leito quente feito de doce aventura
Onde me perco na candura de teu corpo,
Entrega total neste amor ancestral
Fazendo aflorar todo nosso prazer carnal
Onde não existam regras, preceitos,
Onde o tempo não se perde, se conquista
Onde apenas só o nosso amor Exista!

Alberto Cuddel

Se amo não me basta, quero saber-me

Se amo não me basta, quero saber-me

Que sejam brandas as horas nessa lonjura
Ancorado na profundidade da tua alma
Não me basta amar-te, quero saber-me
Quero saber-me de ti e por ti nos gestos!

Descobre-me debaixo da rudez da face
Nesta alma carente e incompreendida
Sorriso tantas vezes roubado do semblante
Hoje, depois de um ontem sorrio, sei-me!

Não busco a compreensão das palavras
Sons proferidos sem sentido nos lábios
Tão pouco beijos apressados de despedida
Procuro gestos, um gesto que me diga…

Procuro as borboletas que morreram
As andorinhas que nasceram e partiram
As nuvens que desenhavam céus a correr
A brisa no rosto que nos levou a nascer…

Olha-me além dos olhos, além do visível
Além do que dou e do que sou, Amor,
Completa-me a alma, a carência de afecto
Encontra-me, preenche-me no que te dás!
Se te amo, não o digo, sabe-me nos gestos
Nesses teus onde me desejo saber!

Alberto Cuddel
21/10/2018
Sob Reserva Privada

Retalhos reinventados!

Retalhos reinventados!

Reinventamos a cada dia,
O amor, a sedução, alegria,
A Felicidade, a saudade!

O ontem?
Onde está o ontem?
Receitas passadas hoje reinventadas,
Novamente, novo a cada instante,
Uma pedra no caminho,
Uma rosa que floriu,
Um rosto por de trás de uma janela,
Uma palavra, um jardim,
Um querer, decisão, desejo,
Um roubado e doce beijo,
A Primavera, a reinvenção,
O dia, as quatro estações,
A queda da lagrima na partida,
A gélida saudade do Inverno,
A ânsia da chegada primaveril,
O fogoso calor do encontro,
Reinvenção diária,
Celebração do Amor!

Alberto Cuddel

Amarra-me definitivamente a ti

Amarra-me definitivamente a ti

Sejam as palavras soltas na brisa tempo
Soltas numa lívida e aflorada pele
Seja o meu corpo amarrado na entrega
Querer induzido pelo perfume da pele
Um despertar salvífico do prazer
– Seja eu homem, nas mãos firmes que me contornam
 Nos gestos que me levam os beijos
Nos lábios quentes que me induzem à língua
Na língua quente que me enlouquece!
Seja eu carne da alma, no querer que me percorre
Deliro sob teu corpo desnudo, liberta-me…

 Leitos dormentes de cansaço
 Onde me arrebatas num sussurro
 – Ama-me, agora!

 Sejas tu despertar para o mundo
 Sejas tu consciência de um futuro
Eterno seja cada momento, cada vontade
Cada profunda penetração nos desejos mútuos
Cada promiscua troca de fluidos…
  Cada pecaminoso orgasmo concedido a dois…

Deixa-me, liberta-me de mim…
Quero percorrer-te sem demora
Mapear o teu corpo nas mãos
Conhecer-te nos lábios, beber-te longamente
Quero-me onde me queres, entre ti
Amarrado ao teu desejo meu querer
Quero-te querendo-me na sintonia do prazer
Gemamos juntos, declamando um longo orgasmo!

Olhemos o tecto e o amanhã
Na solidão acompanhada de um abraço
Respiremos juntos, em silêncio o mesmo ar
Saltemos do ninho, juntos sob a água quente
– Volta Amar-me, hoje e sempre!

Alberto Cuddel
20/10/2018
Sob Reserva Privada

Nesse amor que edifica e onde me esperas

Nesse amor que edifica e onde me esperas

Nesse amor que me doas livremente,
No sorrir distante ao acordar
Dessa espera que dói, ao esperar
Nessa vontade que edifica ao abraçar!

Vem e beija-me, estampa-me o teu sorriso a cada dia, a ti me entrego de alma limpa, a ti me dou pela vontade de dar, nessa espera que nos dói, gravamos a fogo na alma essa vontade de estar, de edificar o tempo e a certeza que o amo é a liberdade de ficar!

Sejamos esse amor que nos queima, essa vontade do corpo, o abraço da noite, o cansaço, esse sorriso dos lábios, sejamos o gemido partilhado, esse movimento sincronizado, essa vontade consumista de ver o erguer da aurora e voltar amar, sempre como uma primeira vez.

Nesse amor que me doas livremente,
No sorrir distante ao acordar
Dessa espera que dói, ao esperar
Nessa vontade que edifica ao abraçar!

Alberto Cuddel
19/10/2018
Marvila, Portugal

Mar de Letras!

Mar de Letras!

Pequeno,
Fragilmente só,
Remando contra a ignorância,
Perdido na fantasia do sonho,
Histórias, contos, poemas, letras,
O infinito mundo da solidão,
Embrenhado no jardim
Florido, nas hipérboles,
Do solstício das metáforas,
Rimas, epopeias, tragedias,
Romances, amores, fantasia,
Infinito mar, a cada rede uma frase,
Cada anzol, uma rima, cada remada,
Nova descoberta, um avanço,
Livros, pensamento em forma de tinta,
Tinta em forma de palavras,
Palavras que geram imagens,
Sonhos, personagens!
Remo, perdido no saber,
Deslumbrado,
Criança que vive em mim!

Alberto Cuddel

Elo!

Elo!

Não, não és metade de mim,
Sim, és tu, o suporte do todo,
Dos meus difusos fragmentos,
Partes de uma vida moldada em ti!

Cada pedaço, cada sentimento,
Cada emoção, cada angustia,
Em ti está ligado como cimento!

Ligas-me, num único ser,
Numa única vontade,
Numa verdade, num viver!

Fragmentos soltos, perdidos,
Chorosos, desligados, sofridos,
Longe e ausente, distante,
Assim em pedaços me deixas,
Se partes, quebrando os elos,
A magia que por ti me une!

Alberto Cuddel

Amizade,

Amizade,

Estado palpável do sentir,
Corpo perfeito do amar,
Sem interesse, apenas pelo dar,
É um deixar tudo e correr,
É não esperar retorno,
É um sorriso na tristeza,
É sentir o sentir de outrem,
Amizade é amar o próximo,
É cumprir um mandamento,
É receber e dar alento,
É sofrer polo outro,
É fazer nosso um outro coração,
Amizade é o tudo que nos une!

Alberto Cuddel

Noite, e copo de vinho!

Noite, e copo de vinho!

Rodopiava encorpado no frutado sabor,
Licor da solta libido, medicina da solidão,
Solução aquosa fermentada em amor,
No cristalino vaso, lua por companhia!
Solidão preenchida no adamascado gole,
Sons do oriente, luar crescente, ausente,
Solidão em mim, lembrança, quente corpo,
O leito vazio, um quarto sombrio,
O silêncio gritante cidade vazia,
Partida, o copo por companhia,
Busco no nada, na longínqua lua,
Meu olhar com o teu cruzar,
Completando, o vazio que em mim deixaste,
Apenas o vinho, o gato, o perfume de teu ser,
Nos lençóis, húmidos, quentes, amarotados,
E minha alma, cansada, dormente, exausta,
Feliz por um momento,
Uma noite,
Mais uma noite!

Alberto Cuddel

Cansei de fingir

Cansei de fingir ser quem não sou,

Cansei de ler em ti o meu sentir,

Decidir cair, vertiginosamente no eu,

No que realmente sou, na minha verdade,

Bani definitivamente de mim o verbo,

As suas múltiplas conjugações,

Bani o passado, o presente, o futuro,

Rasurei o meu dicionário interior,

Torno-me eu na minha negra plenitude,

Na minha fria, escura e oculta verdade,

Arranquei de mim, o verbo,

Serei feliz, decidi ser feliz,

Apenas na pura antítese da felicidade,

Torno-me amnésico consciente,

Esquecimento meu que deixou

De apenas te lembrar,

Risquei de mim o verbo Amar!

Sírio de Andrade

Cheias declamações

Cheias declamações

De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Nesse murmúrio cadavérico do poeta morto
 – Herança d’outrora, bancos de escola
Nessa espera diligente que nos batam, leve, levemente
Por mim ninguém clama, há gaivotas no jardim…

Suspende a boca e o desejo,
Suspende a rima e o beijo
Enche o peito de amor perpétuo
E Leonor? Qual brancura, qual clamor
Pela verdura, de faces rosadas,
Blusa decotada e desalinhada
Corre cambaleante,
Seu marchante…

Há abismos na praia
 – Eu que nunca soube velejar
Há velas apagadas sem qualquer aniversário
Onde nos mora o léxico do pastor
 – Rebanhos contados, lençóis desalinhados
Não há sono, nunca houve,
Como adormecer na abundância dos teus seios?
 Janelas abertas em dia de chuva
 Corpos molhados enquanto dura
Por França morre-se
 Como se por amor se vivesse
Entre Marte e o sertão, que se dobrem bojadores,
Adamastores, e todos os cabos hirtos e viris
Desbravemos os corpos do não,
Em “sim’s” gritados, que desassossego este?
 – Vem Maria, fujamos juntos para o Egipto,
David derrubou o gigante, e Caim cheio de ciúme
Matou, como quem mata o amor!
De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Alberto Cuddel
05/11/2018 06:06
Lisboa, Portugal

Sacrifício!

Sacrifício!

Era noite, mais uma noite escura,
Uma estrela, apenas uma brilhava,
Nada, ninguém, sem versos de cura,
Sem rimas, significado que lhe dava!
Apenas mais um poema, desses sem nada,
Sem motivo, palavras, apenas me foi pedido,
Assim do nada, sem pensar, desfilam flores,
Cores, cinzentos, meu pensamento,
Linearmente corre tons prateados,
No lunar branco reflectido, nas águas
Desesperante solidão das respostas
Não, ninguém, mas falava? Não,
Respondia de surdina, embrenhado
Na conclusão açucarada de uma partilha,
De um explícito e físico acto de ser
Humano condenado à expectante
Santidade almejada, do amor dedicado
Ao divino corpo devoto de metade de mim,
Assim erguido no altar, oferecendo-me,
Eu em toda plenitude da minha rastejante
Humilde e ténue entrega a ti, em sacrifício,
Por prova, não de fé, não de entrega,
Mas num narcisista orgulho, de me por ti,
Me tornar NADA!

Alberto Cuddel

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