Arte ou a ilusão de sonhar

Arte ou a ilusão de sonhar

o que não temos, ou não ousamos,
ou não conseguimos,
podemos possuí-lo em sonho,
é com esse sonho que fazemos arte.

nessa brancura da alma, ousamos o caminho
alheados dos espinhos que a realidade nos crava
prosseguimos descalços sem medo dos pregos
viver dói… e há-de doer e moer a alma
profanando o desejo e a vontade de ser
deixamos de agir pelo medo de perder?

continuamos a pintar arco-íris em dias de sol
regatos vivos em pleno verão
sem peixes secos pelo sol, colhemos maças…

o sonho é a arte de idealizar a impossibilidade
até que da arte se faz possível, e a realidade acontece…
assim, naturalmente, como se do nada
em pleno março, sem folhas, florissem as amendoeiras…

Alberto Cuddel
05/02/2020
06:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Ah o sonho martelado no tempo da terra que é pouca.

Ah o sonho martelado no tempo da terra que é pouca.

nesse ranger metálico que avança
acordo estremunhado das noites
sonho de criança perdida no natal
um pouca terra, uma esperança…

nos vagões desgovernado ócio
a vontade férrea, o escalar da madeira
um dia de semana, um dia de feira
a morte que espreita, um sócio…

e o sonho de terra que é pouca
uma ilha perdida no mar
as nuvens, os olhos a vê-las passar…

a esperança adormeceu
banhada em tons de prata…
pelos dourados da máquina que avança…

Alberto Cuddel
01/02/2020
20:54
In: Nova poesia de um poeta velho

Ah se eu tivesse forças para desertar

Ah se eu tivesse forças para desertar

Ah se eu tivesse forças
As palavras seriam troncos
E ramos, sustentadas por raízes fortes
Seria fustigado pelo vento
Mas morreria de pé…

Se eu desertasse como as folhas
Voaria ao som do vento
Partiria sem ter tempo
E morreria no chão
Ali, pisado sem memória do que fui
Verde, frágil, amarelado, dourado
E livre, pro uma fracção de tempo
Por um efémero momento
Feliz…

Ah se eu tivesse forças para desertar
Arrancava-me do chão e partia
Pelo deserto árido, onde me mora o oásis…
E aí… aí me enterraria no chão e podia morrer feliz…
Ah se eu tivesse forças para desertar…
Não seria poeta, mas um homem qualquer…
Sem palavras e sem memória…

Alberto Cuddel
01/02/2020
19:19
In: Nova poesia de um poeta velho

A luta pelo supérfluo.

A luta pelo supérfluo.

lutamos pelo tempo que não temos
pelo beijo que não demos
pelo abraço que perdemos
pelo vento que não sentimos
pelos que morreram sem ter nascido…

lutamos pelo supérfluo da vida
pelo passado que não podemos mudar
pelo futuro que nunca sabemos será assim
e deixamos que o presente aconteça,
ali, mesmo ali diante dos lábios fechados
dos braços caídos, e dos silêncios,
dessas palavras não ditas…

na luta pelo supérfluo
esquecemos a essência da vida
o sol no rosto, o toque da pele
aquela paisagem que nos deslumbra
aquele beijo, ai… o beijo…
um “amo-te” fora de tempo
um até logo atirado à pressa…
na luta pelo supérfluo esquecemos…
de viver agora, de fazer do já um poema
de fazer da vida uma festa…
nem que tudo se resuma a um mero olhar…

Alberto Cuddel
31/01/2020
17:22
In: Nova poesia de um poeta velho

Esperança desse medo de ficar

Esperança desse medo de ficar

deitou-se no horizonte o medo
asas da alma que te elevam
sem que partas a lugar algum
bosques de silêncio onde te fitam os olhos
ribeiros mansos que correm
por ente avencas que se agitam, uma sombra,
olha comigo o rio, de mão dada
olha, não digas nada, espera a foz, esse desaguar
essa vontade de ser, de estar…

nas escaleiras solitárias
essa esperança,
esse medo de ficar,
o ir, o chegar…
o não for e o não estar…
e o existir ali, mesmo ali, na tua mão
de mão dada, olhando o rio…

Alberto Cuddel
27/01/2020
03:23
In: Nova poesia de um poeta velho

Carências…

Carências…

há na esperança do corpo
uma carência de alma
uma saudade que espera
um abraço inquieto
uma mão que procura
um olha que se repousa
lábios que se apertam
vestes que esvoaçam…

há no tempo que falta
uma falta de tempo
corpos que definham
na vontade de ser um no outro
da pele que deseja
extenuados fumegam
ali, apenas ali
morta que foi a carência de corpo
realizados que são os desejos…
navegam abraçados pela realidade do sonho
ate que o dia os separe…

Tiago Paixão
#Afúriadasaudade
11-02-2020

Corrida contra o tempo que voa em sentido oposto

Corrida contra o tempo que voa em sentido oposto

corria a vida no asfalto
orvalho que se faz vida na erva
noite que agoniza na alvorada
tempo que se ergue de salto
passos pesados lar abandonado…

amor que se faz fome no abraço d’amanhã…

lá fora existe o mundo e a esperança de chegar
existes tu e os braços abertos
existem as raízes da verdade
e as velas que navegam ao sabor do vento
amarrando-me no porto…
existe esse gume que me liberta…
o tempo que voa em sentido oposto
e esse amor real nos corpos genuínos
e essa perplexidade do silêncio dos beijos
um florir que desponta
um natal que se faz
a porta da rua que se fecha atrás de mim
e eu?
preso voluntariamente do lado de dentro
do teu coração…

Alberto Cuddel
25/01/2020
02:03
In: Nova poesia de um poeta velho

Amemo-nos depois de adormecer…

Amemo-nos depois de adormecer…

Selemos a noite em licores de beijos
Troquemos de copos, de luz
Dispamos os corpos
Desfolhemos as pétalas
Escancaremos segredos, fantasias
Envergonhem-se as sombras e o soalho
Espalhemos a luz e os corpos pela casa…

Seduz-me, lentamente, nesse caule espinhoso
Nas pétalas que te contornam os seios,
Na subtileza dos beijos, nos sussurros da voz…

Conta-me os teus segredos, os teus medos…
Amar-me-ás?

Que a noite morra, que nasça o dia em nós…
Ama-me no abraço de ver o sol raiar…
Que se fechem os olhos, que nos adormeça a alma…
Que descansem os corpos, enquanto nos amamos
Secretamente…

Tiago Paixão
08/04/2019

Olha comigo o sol que se deita

Olha comigo o sol que se deita

demos as mãos,
olhemos o tempo que nos resta
esse que para no abraço
esse que se faz dia no cansaço
esperemos juntos o tempo que falta…

beijemo-nos na boca
como sempre nos beijamos
que nos abrace o sol
que nos envolva a noite
demos as mãos…

olha comigo o sol que se deita
marquemos encontro aqui
por acaso, mas aqui
aqui onde estou, onde estás
e demos as mãos
abracemos os amor que nos resta
no tempo que nos falta…

olha comigo o sol que se deita
e comigo espera que ele se erga
todos os dias, contigo, comigo
de mão dada…

Alberto Cuddel
19/01/2020
06:05
In: Nova poesia de um poeta velho

E o precipício ali, tão perto à distância de um passo…

E o precipício ali, tão perto à distância de um passo…

Quantas vezes Sírio me chamas, e o precipício ali, tão perto à distância de um passo… e as palavras calam-se, não há amor que nos salve, chove, apenas chove, deixamos de ouvir as vozes do mundo, as vozes que choram, que nos esperam, e caímos no comodismo mundano do dia a dia, desistido de lutar, deixando cair esta armadura pesada que vestimos todas as madrugadas, as palavras escorem rio a baixo, manchadas de sangue da batalha… e o precipício ali, tão perto à distância de um passo…
Não há dias nem noites, palavras amigas, os beijos esquecidos, a paixão que se esvai, o medo que nos abraça, o perigo que nos trespassa, não há versos contidos, apelos, chamamentos, não há poeta, não há marioneta, apenas o corpo inerte de um homem ferido, um escritor mal parido, imaginário e sombrio…
Ali parado diante do passo que tudo silencia… o choro, a dor, a comida no prato, o desespero da palavra não proferida, e o abraço que tudo liberta, tão longe… amor adormecido, salvífico beijo… espera-me, espero-te…
E o sol nasce, a esperança toca-lhe o rosto, a mão estendida, o segredo gravado… esse amor que ninguém entende, trazido do passado… espera-me, espero-te…

Coleccionado o tempo que não têm, longe lado a lado…

E o poeta? Esse que não escreve, esse que não vive, esse que não é, que nunca foi e nunca será, esse que morreu sem ter nascido, esse que do ventre nunca foi parido, esse que nunca lutou, nunca perdeu e nunca ganhou, o poeta, que nunca amou, que nunca se deitou ou levantou… o poeta que foi sonho e nunca sonhou… olhou de frente, despiu o aço luzente, largou a espada, a lança, o lenço, o papiro e a pena, despiu-se do homem, deu um passo e caiu…

Na solidão do orgulho leia-se:
Aqui jaz o sonho de quem nunca foi… mesmo antes de ter sido…

Alberto Cuddel
19/01/2020
05:45
In: Nova poesia de um poeta velho

O inverso de agora

O inverso de agora

neste já que aconteceu antes de agora
nesta pressa sem destino e sem recurso
nesta fome solta a que chamam saudade
há uma vontade férrea de ser presente
corpo, alma, mente…

há uma espera pedida
um querer anunciado
um abraço prometido
o prazer de uma vida…

neste inverso de agora
essa promessa de saudade
um ficar pela verdade
uma fidelidade jurada
uma vida anunciada…

neste inverso de agora,
há o amanhã
e o acordar
antes mesmo de o sonhar…
amor, cheguei, sem ter ainda partido
fiquei…

Alberto Cuddel
18/01/2020
02:03
In: Nova poesia de um poeta velho

Abandonemos as noites

Abandonemos as noites

Abandonemos esses dias de rectidão,
rasguem-se as vestes que nos oprimem
Com que nos vestem os olhares,
sejamos nós, apenas nós… sem condenação
sejamos corpos em ebulição, sejamos amor,
sejamos desejo, tesão sem pudor…

Sejamos nós, eu, tu, num qualquer lugar,
numa qualquer hora, onde der para ficar que seja já, que seja agora…
quero-te possuir em mim, despudoradamente,
sem pressa, na garra da vontade, sejamos corpos,
beijo, boca, sejamos posse, doce e absoluta…

abandonemos as noites no abraço sem tempo
encontremo-nos dentro da alma um do outro
sejamos vida e tempo eterno, sejamos corpo
sejamos gemido, grito, prazer, sejamos orgasmo,
sejamos viver… sejamos anúncio desse amanhã…
deste sempre existente que existe…
sejamos a saudade furiosa que nos consome…
a cada noite… a cada dia…
pela impressibilidade das horas…

Tiago Paixão
#Afúriadasaudade
07-02-2020

Aquece-me a alma…

Aquece-me a alma…

abraça-me o corpo,
arrepia-me a cada toque
abarca-me os seios
gélidas são as noites de solidão
essas onde o teu calor se ausenta
quero-te, permanentemente
quero-te em mim e por mim
quero o teu prazer, a tua loucura
a tua entrega, a tua dádiva…
quero que me ergas, que me deites
que me leves, que me tragas
que me faças, que me desfaças…
aquece-me a alma a cada jorro…
a cada antes, a cada depois
a cada abraço, a cada beijo
nesse compasso, descompassado
em que nos fundimos…

arde-me no peito
o teu desejo
o teu querer…
arde-me na vida
a certeza deste sentir…
aquece-me a alma…

Tiago Paixão

Esquizofrenia perseguida

Esquizofrenia perseguida

Desisti de saber qual é o teu nome
Se por um acaso ainda o mantens
Na desventura da vida, da tua fome
Sopro da fama, incúria mantens reféns

Perseguição alucinada, dom que não tens
Mas na tua loucura todos de ti o desdenham
Vês sombras na noite, fantasmas sustens
Pobre poeta circunscrito, rimas aponham

Chamar-te a ti poeta -autor, talvez engano
Ainda que do grotesco seja gosto humano
Sejam as palavras que te envaidecem, enfim!

Desisto de opinar o que quer que seja
Da tua crença e louca pertença igreja
Tua loucura nunca me mudará a mim!

Alberto Cuddel
15/06/2017

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