Alma rasgada pelos espinhos da vida

Alma rasgada pelos espinhos da vida

cravei a fogo em lapide inclusa
rip aqui jaz um poeta sem versos…

esperei como quem espera o tempo que basta
como se o amanhã fosse agora e já não houvesse segredos
as árvores agitavam-se adivinhando o futuro
e partiam as andorinhas… as cegonhas, ai as cegonhas
e as garças e os patos… todos partiam…
e eu? e tu… ficamos ali, indiferentes ao passado que mudou
a um presente que não existe, a um futuro perdido…

e calaram-se os versos…
teceram uma coroa com os silêncios
e coroaram-no de espinhos…
as palavras trespassavam-lhe a carne
as metáforas, queimavam-lhe a pele
e as ironias e hipérboles secavam-lhe a garganta…
pelas três da tarde, chegaram-lhe à boca um poema,
a custo declamou um verso e expirou…

a biblioteca adormeceu, rasgada ao meio
entre a dor da perda, e a certeza de viver nela tudo o que sobra…
a palavra ressuscitou o poeta…

Alberto Cuddel
11/06/2021
03:00
Alma nova, poema esquecido – III

Cúpula do tempo

Cúpula do tempo

É nessa cúpula do tempo
Na dualidade de ser palavra
Que me divido, entre a loira e a morena
Tempo enraivecido pela pasmaceira das horas
Há um verde de esperança que me brota do silencio
E flui a conversa e o trago, entre um cigarro e o outro
Discutimos, discutimos longamente
Como um casal velho…
Eu e tu, maldita caneta que teimosamente não escreves…

(…)
Nesse vento distante que te agita os braços
Um sussurro veraneio, um chamamento
Um pedaço de vida que se agita, um cigarro cortado
Uma palavra fresca, solta assim na mesa
Como uma conversa distante sem nexo, sem sexo, apenas poema
E a vida acontece à mesa, ali à distância dos dedos
Palavra a palavra…
Enquanto se saboreia o tempo
Pleno de companhia…

Alberto Cuddel
11/06/2021
00:30
Alma nova, poema esquecido – II

Desafio de Ruth Collaço, Foto de João Gomez photography

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

eco do tempo que se faz voz em majericos
ecos da porta da igreja e a voz dos mexericos…

arrastas pelo chão o nome de mulher
na invenção de um leito de uma noite qualquer
dizes-te voz da consciência,
bates no peito em obediência
mas és meramente invejosa da vida alheia…
que as almas do purgatório te perdoem
e todas as outras que escorregaram na vida
solteiras à força de trabalho criaram uma filha…

há essa voz de eco que o tempo esquece
mas que o povo sábio enaltece, na letra de um fado
antes que a vida te leve, pelos bairros de alfama
és força vida entre o tejo e o sado…
amada por tantos os que te deitaram na cama…

ó mulher, doce mulher… onde te mora a liberdade?
na inveja de muitas, as que te escarnecem na rua
pura inveja de vida, por a sua sorte não ser a tua!…

Alberto Cuddel
07/06/2021
Alma nova, poema esquecido – I

O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel 
24/05/2021 
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXV

Apaguem-me a luz…

Apaguem-me a luz…

rasguem-me a alma e cosam-me a túnica
apanhem-me do chão, colem-me os cacos
ou apenas deixem-me, ali espalhado ao tempo…

apaguem a luz e partam… aqui nada há a ver…
deixei de me importar… deixei de viver…
que me advenham os ventos e tempestades
que me esqueçam as humanas almas…

que me enclausurem nos calabouços do tempo
sem esperança nas palavras que me anoitecem
rogo-vos celtas divindades que me tomem
que me levem na viagem eterna, sem luz e sem lanterna
sem a visão do caminho, que me deixem, só, sozinho…
não me importa o gelo eterno, ou o calor do submundo
apenas quero a paz do silencio, e a luta comigo mesmo…

vão, vão, desapareçam… mas apaguem a luz…

Alberto Cuddel 
22/05/2021 
12:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIV

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

“Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar.”

Bernardo Soares

sofri em mim, os males do mundo e os erros que cometi
rasguei-te o peito no sofrimento das palavras,
essas que se cravam na alma como punhais…

e as almas e foram, e a dor que ninguém disse
os pés no chão, o gelo das águas…
a brisa no rosto, areia molhada,
e esse querer… essa força que me chama…
mas a dor é para ser sentida, a culpa para ser carregada…

aqui, bem em baixo, afastando-me do alto onde estou
em desnivelamentos de sombra, dorme ao luar,
ao longe, dormes e contigo a cidade inteira.

há um desespero em mim, uma angústia de existir
dizes “culpado”, mas presa a mim carrego a culpa da dor
essa que extravasa de mim todo sem me exceder,
compondo-me o ser nessa vontade de morrer
em ternura, na pressa de te arrancar do peito a dor
e do olhar a minha imagem…
e eu caminho, sem pressa, já sem tempo, sem medo, dor ou desolação.

apenas caminho, sem pressa e sem destino…
na esperança vã de que me purifiquem as águas
a culpa que minha alma carrega…

Alberto Cuddel 
19/05/2021 
02:43
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIII

Entrevista

Olá a todos ontem dia 09/06/2021 participei no programa Todos Juntos Seremos Nós, um programa da Rádio Limite conduzido por Celeste Almeida!

Deixo-vos aqui a gravação do mesmo:

Janela

Janela

Da janela da tua alma,
Escancarada à calma maresia,
Perco-me no movimento,
Ondular do teu sentir!
Brisa leve que me acolhe,
Por inteiro no teu ser,
Asas que me elevam,
Que me fazem voar em ti,
No teu querer,
No teu saber,
No teu desejo,
Doce sabor do beijo,
Alma minha que me junta,
No disperso pensar,
No abrangente sentir,
Que faz luz na escura noite!

Janela, visão do teu olhar o mundo,
Imagens de mim a cada segundo,
Que me congrega como um espelho,
Que me prende na visão,
De ser e ver através dela!

Alberto Cuddel
06/07/2015

Encontro…

Encontro…

Nas artes perdidas das palavras
Invento quimeras, conquistas
Reinvento-me poeta
Escrevo em ti o desejo
Inscrevo em mim a sedução
Lanço nas ondas da manhã
Paixões perdidas na noite
Rumo a terra, porto seguro
Raio de luz que me guia
Na calma e aprazível
Baixa-mar, elevas-me
Conquistas-me,
No louco movimento,
Com que me rebolas na alma
As curvas do teu corpo,
Perco-me nas palavras
Para me encontrar em ti!…

Alberto Cuddel®
30/12/2015

Atreves te a sonhar o ontem

Atreves te a sonhar o ontem

Longe no horizonte o velho telhado,
Caído e derrubado como o tempo,
Fumegante braseiro arde em silêncio,
No ar cansado dormente do cão pastor,
Pastos despidos abandonados,
Chocalhos pendurados, imoveis,
Rebanhos extintos, ausentes,
E tu, sentado sonhando o ontem!


Alberto Cuddel®
08/01/2016

Entrego-me

Entrego-me

Como se eu do nada fosse
perfume em que me denuncio
flor de lótus em tua posse
apaixonadamente por ti no cio

sou mulher, fémea, feitiço
em ti enredo, teço, aperto
laços sem dares por isso
preso em mim sempre perto

em ti escrevo meus segredos
ocultos desnudados de tudo
teu corpo na ponta dos dedos

como se eu em ti existisse
entre o parco luar meu escudo
nele por ti apenas me despisse

Alberto Cuddel®
08/01/2016

O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel
24/05/2021
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LXIV

Na saudade do tempo que tenho, há apenas o tempo que espero…

Na saudade do tempo que tenho, há apenas o tempo que espero…

Na solidão que nos damos, silêncio
Apenas duas respirações cortadas por um beijo
Suave, quente, que te nasce na nuca
Um morder de lábios, aprisionando o desejo…
Esse sonho de ontem que amanhã espero…

As horas também são feitas de saudade
Mas na verdade, em pranto espero
Que amor não são palavras, mas gestos
Que fazer amor são cadilhos pequenos
E sexo, nada mais é que confirmar no corpo
A exultação maior da dádiva e orgasmo
Da união que gravamos na alma!…

Penetro-te profundamente a alma
Sem que me vejas,
Sem me encontres nos versos,
Consumação do desejo…
Nos espaços vazios dos versos e dedos…
Entre sonhos e desejos, entre silêncios e beijos…

Que se toquem os nossos olhares
Que te adentrem no teu corpo
Sem licença, sem contemplações
Todas as palavras, todo o tesão…
Provoco-te, deliciosamente
Provocação de me provocares…
Fiel ao desejo oculto no querer…
Não vejo, vendo o movimento
Das palavras que crescem em ti…

E espero… que os corpos se unam…
Nesse fulgor que a paixão imprime
Não importa o lugar, a hora
Apenas nós… apenas tu, apenas eu…
E este querer que nos condena…

Tiago Paixão
18:05 28/05/2021

Afúriadasaudade

Querer, na resposta do desejo

Querer, na resposta do desejo

Há nessa vontade, um querer de beijo
Uma taça que se bebe, brindando
Que se veste de sabor e doce desejo
Um toque que se arrasta brincando
Suave, firme, sem pudor ou pejo
Que se faz sede, nos lábios adentrando…

Voltas

Voltas ao querer, a esse corpo desejo
À loucura firme das palavras que brotam
À suavidade do sopro, ao toque da pele
Ao sonho, à viagem da alma, à paixão…

Voltas, partes…

Fica-me o chão vazio, o odor no ar
Esta vontade de estar, de ficar
Esse abraço quebrado, esse sonho adiado…
E a noite, a noite morre, ali, com o sol na face…

Tiago paixão
28/05/2021

Decidir Amar

Decidir Amar

Amor,
Que se faz,
Que se decide,
Que faz feliz,
Que é triste na ausência,
Que nos aquece na tristeza,
Que nos constrói,
Que nos educa,
Que nos conduz,
Que nos eleva,
Que nos faz,
Ser quem somos…
O Amor de Deus,
O Amor de Mãe,
O Amor de Pai,
E o Amor a quem decidimos Amar…

Alberto Cuddel
28/11/2013

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