Liberta-me

Liberta-me

Liberta-me da opressão do desejo
Das vontades inscritas no corpo
Da fúria constante calada no beijo
Na língua, no calor e no sopro…

Liberta-me de mim mesma na alma
Profana-me as carnes, eleva-me ao prazer
Sê em mim toda a tua máscula vontade
Adentra-me no movimento que me desejas
Faz-me tua, agora, já, hoje,
Que se calem os céus e os infernos
Quero o prazer mundano da paixão
Dessa que me formiga nos dedos
Que me dá calores, fogo, tesão…
Cala-te… bebe em mim tudo
Para que a eterna fome se sacie…

Ama-me na plenitude de sermos
Apenas e só amantes eternos do prazer…
Caminhantes do amor eterno
Desenhado em corpos forjados
Pela abstinência do tempo…

Tiago Paixão

Pedaços de mim!

Pedaços de mim!

Tropecei,
Caindo, escaqueirando-me no chão,
Pedaços, soltos, grandes, pequenos,
Tropecei na ilusão da carne, prazer,
Sentindo sozinho o abandono de mim,
Deixei-me adormecer no embalo,
Das belas e maldosas palavras!

Caminhando,
Caindo, escaqueirando-me no chão,
Pedaços, soltos, grandes, pequenos,
Dos cacos, apenas o sentir,
Permanecia, sustentava,
Cacos, recolhidos um a um,
Por ti, na pura humildade,
Reordenados, remendados,
Nada formava, nada existia!

Parti-me,
Caindo, escaqueirando-me no chão,
Pedaços, soltos, grandes, pequenos,
Pedaços moídos, triturados, feitos pó,
Para de novo moldar, formar, aprender,
Educar, renascer, do pó, da cinza!

Ergui-me,
Caindo, escaqueirando-me no chão,
Pedaços, soltos, grandes, pequenos,
Reaprendi, aprendi a ver, andar,
A caminha lado a lado, a viver,
Não em mim, não por ti,
Mas através de um nós!
A dois sendo um!

Alberto Cuddel
07/07/2015

Nada vejo!

Nada vejo!

Fecho os olhos, nada vejo,
Memoria em mim de teu corpo,
Sensual, manancial de prazer,
Som de teu respirar, compassado,
Ofegantemente rouco,
Murmuro de doces palavras,
Odores perfumados que se fundem num abraço,
Mãos, dedos que desenham no ar,
Percorrem rios delirantes de desejo,
Sabores, salivas degustadas,
Despudorado erotismos que nos consome,
Revolve e envolve,
Na arte consumada do orgasmo,
De tornar uno o querer, o desejo,
De ser, ficar, estar
Um só prazer, partilhado,
Tornando una a carne,
De uma alma partilhada!

Alberto Cuddel
10/07/2015
Amor e Erotismo

Deixem que vos diga…

Deixem que vos diga…

Deixem que vos diga…
Que sem ocupação não há cansaço,
Que sem amor não há saudade,
Que sem prisão não há liberdade,
Que sem mentira não há verdade!

Deixem que vos diga…
Que vontade não é prazer,
Que fazer não é saber,
Que saber é partilhar,
Que partilhar é amar!

Deixem que vos diga…
Que para estar vivo não basta viver,
Que para acreditar não é preciso ver,
Que para correr é preciso andar,
Que para doar é preciso amar!

Deixem que vos diga…
Que vemos sem olhar,
Que ouvimos sem escutar,
Que tocamos sem sentir,
Que ficamos sem partir!

Deixem que vos diga…
Que se olharmos,
Que se escutarmos,
Que se tocarmos,
Que se sentirmos,
Podemos ficar,
E ver, sentir, ouvir,
Os pedidos de socorro,
Que quem nada tem,
Dos que não tem o que comer,
Dos que não tem onde dormir,
Dos que estão sozinhos,
Dos que clamam por carinhos!

Alberto Cuddel
13/07/2015

Fome

Há em mim essa fome de desejo que me consome o corpo, essa vontade férrea de te possuir todos os orgasmos que me condena a alma. Essa concomitancia aguda que me percorre a ponta dos dedos, que me enrola a língua, que me enrijece os músculos… Essa loucura rubra de te despir apressadamente, de te percorrer o ventre e os seios nos lábios… Essa loucura sonhada e desejada de tornar real o querer… De sentir o sopro do teu gemido no ouvido… De contar todas as correntes elétricas que te percorrem os cabelos… Quero sentir-te… Fazer-te deuza do meu império… Ser dono e senhor do mel que te escorre pelas coxas…
Quero f@der-te até amar-te até ao infinito…

Tiago Paixão

As chaves da saudade

As chaves da saudade

entre promessas e desejos de uma paixão crente
há essa impossibilidade de distância a percorrer
não daqui a aí… mas a distância do sonho à realidade…

há esse movimento circular de rodar, de contornar o corpo
esse querer consciente de beijo, de te desnudar a alma
como viagem persecutória ao combustível do desejo…
será a viagem da vida essa loucura de sonhar o orgasmo?

entre chaves e portas, entre promessas e desejos
sonho-te liquidamente em mim, como a viagem
em que ao plano físico atrelamos os sonhos
desejo e saudade, do que será, depois de ter sido…

entre promessas e desejos, carregamos o sonho…

Tiago Paixão
19:46 19/01/2021
a fúria da saudade

Rubro Perigo

Rubro Perigo

ensaias em paisagem despida o sonho da Primavera
reveste de desejo a fome dos dias, rubras vestes

somas ao querer o rubro perigo de te degustar
mostra-te doce, quente, libidinosa
nessa vontade de existir pelo prazer de degustar
a alma anceia o que o olhar come
talvez o suave gosto da paixão escorra dos lábios
talvez seja amor, esse anseio venenoso de prazer…

naturalmente somos medo, na adrenalina do querer
mergulhamos de cabeça, esse toque dos lábios
a suavidade dos dedos, o despir arrepiado
a colheita, a prova gastronómica do orgasmo
tudo um rubro perigo
porque os olhos também comem…
e antes agora… que morrer de saudade
do que foi, sem nunca ter sido
pelo menos uma vez…

Tiago Paixão
13:40 22/01/2021
a fúria da saudade

Sê em mim…

Sê em mim…

não me esperes na lassitude do tempo
vem, procura-me, encontra-me em ti
faça-se em mim segundo a tua vontade…

nesta ânsia de me amares, provocas-me
desperta-me o corpo dormente
na volúpia latente, desse corpo quente…
na insanidade louca desse amor
sobes em mim, como serpete
que me enleia nos beijos, nos ósculos
nas mãos, nesse olhar que me devora…

mata-me o tédio dos dias, enlouquece-me
renovadas noites, uma e outra vez…
beija-me, percorre-me o corpo e bebe-me..

afasta de nós a monotonia do ser
incendeia a paixão adormecida do cansaço
faz-te em mim, sê em mim,
mulher, amiga, amante…
roubemos as noites em nosso leito
adormeçamos só no raiar da aurora…
façamos amor, sempre e também agora…
que as noites se façam dias, que os dias sejam notas
e os beijos segredos, e na voz doce…
desejo-te, toda agora…
despe-te de tudo
veste-te apenas de mim…

Tiago Paixão

Havia uma estrela a caminho…

Havia uma estrela a caminho…

em frias palhas deitado,
um ideal, sonho humano
messias anunciado…
comunista… comunista…
fariseus de mãos erguidas colectam…
colectam o soldo do dia…
pelo seu nome tudo é curado
acaba a inveja, seu bolso é esvaziado…
e os camelos passam… pelas ruas, pelas portas
por buracos de agulhas, e bolsos ficam recheados…

que de Belém não escape ninguém…
que em Canã se taxe a água que foi vinho
a César o que é de César… há soldo a ser roubado…
que se condene quem cura sem cobrar
Barrabás, Barrabás, condene-se o justo…
não pela justiça, mas pelo povo
a justiça o justificou, o ilibou
mas o povo na praça o condenou
e aos militares ordenou, faça-se a nossa justiça

crucificai-o… crucificai-o…

o povo acampado na rua, sob o sol e sob a chuva
assim o demandou… povo sábio, ignorante
instrumentalizado pelo sacerdócio
fazem santo o criminoso, e condenam o salvador do povo…
mas o bolso, fica cheio, não o de césar sem dinheiro…
mas do Levita, do Fariseu, o Sacerdote, e de todos os que os rodeiam
os Senadores do Senado, e os homens de branco…
os juízes que lavam as mãos, e outros que os olhos fecharam…

crucificai-o, crucificai-o…

(eu mantenho o meu… status, serei salvo, pago a minha salvação)
que morram os que pedem, os que tem fome não me servem,
que morra o doente, o milagre não é de gente,
por Deus toda a nossa vontade seja imposta na terra pela força das armas
porque o povo é “JUSTO… inocente, mas muito justo”

Amém…

António Alberto Teixeira Sousa
In: Sonho perigoso de um futuro que pode acabar
00:50 02/12/2022

A Grande Mentira e a Ascenção do Nazismo(qualquer associação com a atual realidade não é pura coincidência)

A Grande Mentira e a Ascenção do Nazismo
(qualquer associação com a atual realidade não é pura coincidência)

A grande mentira (do alemão, große Lüge) é uma distorção grosseira ou deturpação da verdade, usada especialmente como técnica de propaganda. A expressão alemã foi cunhada por Adolf Hitler, em seu livro Mein Kampf, de 1925, para descrever o uso de uma mentira tão colossal que ninguém acreditaria que alguém “pudesse ter o atrevimento de distorcer a verdade de forma tão infame”. Hitler afirmou que a técnica foi usada por judeus para culpar o general alemão Erich Ludendorff, que foi um proeminente líder político nacionalista na República de Weimar, pela perda da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. O historiador Jeffrey Herf diz que os nazistas usaram a ideia da grande mentira original para virar o sentimento contra os judeus e provocar o Holocausto.

Herf afirma que Joseph Goebbels e o Partido Nazista realmente usaram a técnica de propaganda da grande mentira que descreveram – e que a usaram para transformar o antissemitismo de longa data na Europa em assassinato em massa. Herf argumenta ainda que a grande mentira dos nazistas foi sua descrição da Alemanha como uma terra inocente sitiada contra os judeus internacionais, que os nazistas acusaram de ter iniciado a Primeira Guerra Mundial. A propaganda nazista alegou repetidamente que os judeus detinham o poder nos bastidores na Grã-Bretanha, Rússia e Estados Unidos. Espalhou alegações de que os judeus haviam começado uma guerra de extermínio contra a Alemanha e usou essas alegações para afirmar que a Alemanha tinha o direito de aniquilar os judeus como autodefesa.

No século XXI, o termo foi aplicado às tentativas de Donald Trump de contestar os resultados da eleição presidencial de 2020 nos Estados Unidos. A grande mentira neste caso é a falsa alegação de que a eleição foi roubada dele por meio de fraude eleitoral, e a escala dos proponentes da reivindicação culminou com a invação de apoiadores de Trump ao Capitólio dos Estados Unidos.

Hoje a “grande mentira” ataca às minorias étnicas, religiosas, emigração, e de género… Baseada na ideologia que o estado é corrupto, que as polícias não tem poder, potenciam a violência e ódio social para descontentamento geral das populações e assim reforçarem poderes, hoje baseada nessa mentira populista, grande parte da população aceita que o poder das autoridades seja aumentado, que a sua autoridade não seja questionada, que sejam cortados todos os apoios sociais, potênciando o aumento da criminalidade, introdução do discurso religioso na política, exaltação de um nacionalismo bacoco e totalmente esgotado.

“Deus, Pátria, Família”

Exultação de uma maior “liberdade” laborar, iludindo a massa trabalhadora com menos impostos e segurança sócial, com a ilusão de maiores ganhos, podendo “saltar” dê empresa em empresa com contratação individual, um mesmo trabalho, salários diferentes dependendo da amizade ou do que ofereces ao empregador…

Um Retrocesso dos direitos das mulheres, regresso aos “valores” morais do século passado, onde nomeadamente o divórcio só era concedido com motivo válido. Mas em que a mulher tem direito a ficar em casa alimentada pelo Marido…

Uma estupidificação em massa da população com a liberdade de escolha do ensino, público ou privado, em que cada escola escolhe os seus programas… Escola para as massas e para as elites diferenciadas…

Um ataque deliberado à veracidade do jornalismo, a repetição de ideias populistas sem concretização factual, ou sem mostrar as consequências. Nunca enumeraram valores, nunca mostram que direitos serão retirados, que cortes serão feitos e que tipo de política querem concretizar…

Assim começou o nazismo… E para muitos desses senhores desses movimentos o holocausto é uma invenção dos livros de história ou um mal extremamente necessário para acabar com um cancro financeiro dê uma sociedade em decadência…

Vale a pena pensar nisto…

Graças a alá, isso hoje não acontece porque Jeová está no comando…

Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Leva-me para casa, abraça-me esta noite

Leva-me para casa, abraça-me esta noite
não me deixe só, com os meus silêncios…

arranca-me da estrada, faz-me acreditar
dá-me a tua mão, relembra-me de amar…
beija-me no olhar, para que te possa ver
para me lembrar, que não vale ainda morrer…

leva-me para casa, abraça-me esta noite
não me deixe só, com os meus silêncios…

ilumina-me os sonhos, tristes e enfadonhos
arranca-me as palavras, que me mordem o peito
levanta-te comigo, leva-me contigo
mostra-me outra vida, sem ser triste e ferida…

leva-me para casa, abraça-me esta noite
não me deixe só, com os meus silêncios…

leva-me para casa, abraça-me esta noite
deita-te comigo, sonhemos o amanhã
antes que seja tarde… leva-me para casa…

António Alberto Teixeira Sousa
In: Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…
20:54 07/08/2022

Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Eu não sonho possuir-te. Para quê?

“E já que queremos ser estéreis, sejamos também castos, porque nada pode haver de mais ignóbil e baixo do que, renegando da Natureza o que nela é fecundado, guardar vilãmente dela o que nos praz no que renegámos. Não há nobrezas aos bocados.
Sejamos castos como eremitas, puros como corpos sonhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas…”
Bernardo Soares

Que o nosso amor seja uma prece, genuflectidos diante um do outro por entre gemidos e bocas cheias de fecundo saber. Que todos os nossos momentos sejam rosários cadenciados no estudo da décima, que a Salve-Rainha advenha dos teus lábios, que Avé maria te leve á loucura, que o Pai-nosso venha apenas no fim, antes da nossa glória… sejamos castos um no outro, sejamos estéreis os dois.

Tudo findará, mas nos iremos prevalecer à fé dos homens, homem e mulher, e fecundaremos de novo a terra, inventando novos deuses, novas fés, sendo deuses, de pedra e de pé…

Escrever é lembrar-me das coisas, de ti e de mim, possuo-te aqui na memória em que nos escrevo, creio tantas vezes que caminhamos num abismo vazio de vida, porque tudo apenas parece, chegamos mesmo a dar saltos temporais entre um momento de lucidez e outro, no pleno tempo que, entretanto, passa, somos marionetas programadas por uma vida civil e uma sociedade militarizada pelas regras e leis… esquecemos de orar, de meditarmos um no outro em posições impossíveis de Yoga… sejamos francos, sinceros, às vezes queremo-nos, outras esquecemo-nos…

Sabes já ontem escrevia versos, e achava-os bons de verdade, mas hoje sei que não, são apenas versos como tantos outros versos escritos por outros tantos que escrevem versos bons. Lembrei-me disto como de outra coisa qualquer de um livro qualquer que poderia estar a ler como “Depois do Fim”. Tenho que te pedir perdão, não é fácil, mas há verdades e segredos que devem ser ditos, antes que me consumam por dentro e me corroam as entranhas. – Ontem traí-te…

(silencio)

Sei que não é fácil ler, acredita muito mais custoso é para mim escrever-te, mas é a verdade, ontem sonhei que te fodia, e tu não estavas ali comigo, estavas a trabalhar como de costume, mas cometi em sonho o terrível pecado da fornicação com mulher casada, sem que estivesses comigo… não sei se me poderás perdoar ou até se cresce em ti o desejo de vingança e o cometas também, comigo sem que esteja contigo…

Este tempo intermitente mata-me… e eu adormeço, como um morto-vivo… ando por aí… até que te possua em mim…

António Alberto Teixeira Sousa
In: Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…
04/08/2022 

Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Solidão do léxico que me acompanha…

Não sei o que mais virá em mim revolver a conjugação verbal que calo… essa concomitância do sentir tão irritantemente absurdo na busca pelo novo, quando o velho nada tem a oferecer, e fico… já não me apetece dar os passos que devo dar, não me apetece mudar, mudar dói, crescer dói, aprender dói… para que ser, se tudo aos teus olhos se resume a esse absurdo tão familiar e natural do ter… e eu tenho, e posso ter tudo…

Ergo-me atónico da mesa do café, como se nunca me houvesse ali sentado cansado de olhar o mundo, e tu passas por ali como um desafio ou a tentações de Cristo, e eu? Finjo em mim que te resisto, não pelas formas do corpo, mas pelo desafio do espírito, tu fêmea, dona e senhora do mundo, na tua certeza multitarefas sabes, como sempre soubeste que podes por tu criar toda a humanidade. Isso revolta-me, o facto de me saber apenas escolhido, sem a mínima hipótese de ser eu dono do meu destino…

Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência. A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as saias do pensamento, e vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida, como se procurasse nesse corpo e na descoberta do prazer nas sinapses neuróticas a razão humana do sofrimento da criação. E Deus criou-te, eu nasci de ti Mulher, solidão do universo que me acompanha… quero-te porque de ti descendo, para te absorver em mim nesse sentir complexo de tudo sentir…

António Alberto Teixeira Sousa
In: Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Ontem a véspera de hoje…

Não esperei o amanhã, nem tão pouco a saudade dos beijos que se perderam na vontade sem nuca terem sido saboreados pelos meus lábios, não, não esperei, sentei-me e parti dali sem rumo certo. Olhei-te ainda como numa despedida acenando lenços brancos enquanto o barco zarpava rumo a um planeta distante… tudo era tão certo e tão real, a vida era essa certeza inquieta de ser uma existência virtual da perseguição da vontade…
Olhei inquieto o espaço vazio entre mim e o querer sair dali as paredes de um âmbar fosco aprisionavam-me os sonhos, mas eu voava entre as ervas daninhas e o pouco milho que imaginava, não havia água, mas chovia no meu olhar… entre os girassóis atordoados por uma luminescência plena, sem vontade própria de seguir um rumo inexistente, apenas as caturras quebravam o silencio dos campos, não havia corujas, nem ratos, nem noite… tudo era cientificamente aborrecido…
Tive ideias de levantar-me e partir, mas o destino era em mim incógnita… para onde se nem na morte a certeza existe… saia dali, e ia… sem destino, sem rumo, sem futuro, sem metas ou objectivos, tudo estava ali pronto, bastava um pensamento, comia, na ilusão de ficar saciado, bebia… dormia, beijava-te até… nem tinha a possibilidade de sentir saudade, tudo era tecnologicamente satisfeito, todas as vontades, todos os desejos… como sentia falta de ontem, desse tempo em que corria atras de tudo, que tinha sonhos reais, desses que nunca são realizados…
E ontem era tão somente a véspera de hoje, de um tempo sem futuro e sem desejo… resta-me um, morrer… e o hoje que nos proporciona a vida não permite…


António Alberto Teixeira Sousa
In: Sonho perigoso de um futuro que pode acabar…

Conversa (descon) fiada

Conversa (descon) fiada

Revolves palavras ditas ao vento,
Retidas no tímpano ouvido adentro,
Matutadas, digeridas, meditadas,
Soltas e perdidas, assim em nadas,
Num tudo do adestrado pensar,
Que lhe dão um outro significado,
Palavras sequestradas a compensar,
O conteúdo pensado adulterado!

Conversa de parvos mal sintonizada,
Conversa falada, fiada, gritada, calada,
Diálogo de surdos ralhada na exaustão,
Por ideias banais de um qualquer cidadão!

Esgrima de argumentos, sujos no chão,
Por uma palavra ou comprido palavrão,
Conversas da treta da trampa não passa,
Até que um se cale ou aja uma desgraça!

Cabeças duras que de duras são surdas,
Burras não são mas vestem albardas,
Para no fim num abraço, ou desistência,
Acabasse a discussão e toda a abstinência!

Conversas fiadas sem terem razão,
Acabam sempre por dar discussão,
Calem-se as vozes que alto gritam,
Olhem, o céu, os outros e reflictam,
Se calados ficarem sem contrariar,
Saímos todos um pouco a ganhar!

Conversa fiada,
Não leva a nada!

Alberto Cuddel
17/07/2015

“Reflexões do dia de hoje”

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