Corpos… apenas isso

Corpos… apenas isso

Cenário do desejos mudos e quedos,
Raios de lua afagam-te os cabelos.
Lábios húmidos, desejo de beijos,
Lua sonâmbula adormecida,
Ondulantes formas de mulher,
Perpetuamente dormente…
Olhar cego e reto como destino
Entre o cansaço do dia e o desejo de carne,
Tolhem o olfacto as nuvens pardas de baunilha,
Mãos que se cruzam junto ao peito
Entre o abraço dos corpos,
O calor que apenas restou!

Olhemos as horas,
E o tempo que resta,
Ceus rasgados pelos raios de sol!

Alberto Cuddel®
25/07/2016
in: Tudo o que ainda não escrevi

Amar

Amar

Amar! só d’um amor que tenha vida…
Não que sejam só tímidos os beijos
Sem que fique pelos delírios e desejos
Mas pela acção duradoura e esclarecida!

Amor que vive e brilhe! Luz fundida
Que venha de mim – nunca desejos
Nem artes do corpo – teus arpejos
Amor entregue como forma de vida!

Amor realizado em nós, noite do dia
Realizado sorrindo, firmeza dos braços
Nevoeiro das palavras, sempre fantasia…

Nem de mim o sol ou a lua erguida…
Nem corpos celestes, vazios espaços
Com posso ser nada se o amor tem vida?

Alberto Cuddel®
26/07/2016
in: Tudo o que ainda não escrevi

Movimento

Movimento

Peito que se inclina,
Pernas que se movimentam
Olhares que se fixam,
Braços que se enrolam!

Sonhos partilhados
No balanço do tempo,
Amor compartilhado,
Assim vamos vivendo!

Alberto Cuddel®
27/07/2016
in: Tudo o que ainda não escrevi

Nós

Nós…

Nós e todos os outros antes de nós
E todos os outros que virão depois
E que farão de nós o que outros foram…
Seremos muitos e mais, e seremos o colectivo…

E de todos os outros de quem nem se lembra a existência
Grãos de areias que não reza a história da nossa humanidade
Todos eles pais e mães da nossa pátria terrena
Todos eles essência da existência…

Há nos caminhos percorridos
Um percurso de sangue
Uma mescla de ADN
Uma raça humana que guerreia
Entre a morte e a saudade…

Porque de nós e de outros como nós
Se faz uma história…

Alberto Cuddel
16/11/2020
18:00
Poética da demência assíncrona…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Palavras mote de uso obrigatório:
“Homens, trabalham, lâmpada, morte, fonte, escuro, nascente, sombra, pedra, loucura, procura, lugar, saída.”

Nascem do prazer do trabalho, tempos passados após a loucura
Desejo concedido pelo génio da lâmpada que se esfrega,
Esse bater das marés em pedra dura, bate que bate e fura…

Remam os homens barcaças de vime
Ventos que os acoitam de frente
E corre o sol alto com medo da sombra
Os montes erguem-se preguiçosos…

Trabalham as mães, os cueiros e a terra
A água na nascente, fonte da vida
Nos caminhos de pedra solta
Há uma procura da saia, uma mão que as prende…

Partem noite escuro, de encontro à morte
A faina não perdoa, nem a barriga de fome
Nessa procura divina, por uma saída…
Caminha a fé sob as águas neste lugar…

Num disléxico poema, uma vida cinzenta
Uma prece ao tempo, um filho no ventre
Uma espera apertada, uma alma dilacerada…
Nascem do prazer do trabalho,
Tempos passados após a loucura…

Alberto Cuddel
15/11/2020
12:50
Poética da demência assíncrona…

Se houvessem arco-íris

Se houvessem arco-íris

Se arco-íris houvessem no mar
E escadas que que erguessem aos céus
Quem teria eu de subornar nos infernos
Para que todos os teus beijos fossem meus…

Malditos sejam todos os caminhos, que nos cruzam as cidades
Malditos sejam as saudades, e todas as aves sem ninhos
Ergui muralhas de areia molhada, escondi tesouros na estrada
Cortei nuvens de algodão, luzes coloridas de uma canção…

Se houvessem arco-íris onde se esconde o caldeirão
Subornaria o duende, e plantar-me-ia no coração…

Erguem se as copas aos céus, por entre os degraus do olimpo
Há no templo de Salomão, ainda perdão a este impio…

David, David, porque de Abraão viemos?
Há moças que correm de espada
E rapazes soltos sem matilha…
Por um justo, foste poupada…
Por uma pecadora condenada…

Se arco-íris houvessem no mar
Os ventos não me abandonariam à má sorte
Longe persegue-me a calma, e a morte…

Se houvessem arco-íris
Em pomares de pêssegos maduros
Tudo seria calma, tudo seria apenas futuro…

Alberto Cuddel
14/11/2020
20:50
Poética da demência assíncrona…

Olhar…

Olhar…

olho-te nesse olhar amedrontado de um intensa vida…
olho as palavras atiradas sem ver os lábios que as proferiram…

olho a alma despida com que te entregas ao mundo
nessa praça vazia, olho com um novo olhar
como quem procura uma vida que há-de chegar
(-)há uma folha que cai, junto as milhares que jazem…
confina-se a vida pelo medo de a viver
(-)há uma morte que espreita no medo…

rasgam-se os verbos do silêncio pelos passos do indigente
segue indiferente à vida que já não corre
há espaço no mundo… há praias desertas…
há céus que não são cruzados
e há trabalho sem horário que já não sai do quarto
agarrados as raízes do local que habitam
não há tempo, sem que o tempo morra
não há quem olhe o mundo de olhar nu
olham pelo ecrã, pelos números, mas não pela janela

há um olhar que se perde,
a vida segue, indiferente ao tempo
apenas prevalece o medo de a viver
como este novo olhar levantado do chão e do medo…

Alberto Cuddel
13/11/2020
14:17
Poética da demência assíncrona…

A nobreza das palavras livres

A nobreza das palavras livres

a realização sem a mácula da realidade é o amor
amo o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para mim, em amá-los
nessa liberdade absurda de nos confinarmos em nós mesmos
o resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar,
as cores da morte da noite ou a púrpura gasta antes de a vestirmos,
a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio
há uma mágoa que paira sobre a nossa hora de desengano.
assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.

tinha uma aversão visceral pelas palavras que se espraiam
nessa fluidez filosófica da metafisica poética e ao mesmo tempo
não tendem para o infinito os poemas?

meu destino foi outrora em vales fundos, voos altos
desertos imensos e sonhos áridos, nessa busca pelo oásis
o som de águas que nunca sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos.
o copado das árvores nessa absorvência do sentir alheio, um sequestro negro
que esquece a vida era verde sempre nos nossos esquecimentos.

sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor,
mas um desconforto estético e uma irritação sinuosa.
não pelo conhecimento empírico do que sei,
mas pela ignorância de não saber o que ainda não li…
não é por bondade que isto acontece,
mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo,
mas para os outros também,
e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros,
dói-me que qualquer animal da espécie humana ria à custa de outro,
quando não tem direito de o fazer
porque a ignorância não é um defeito, às vezes até uma virtude
quando ela é exercida com humildade…

não sei escrever metricamente, – não sei
isso não me faz superior ou inferior
nem ridículo, nem ignorante
apenas revela uma inadaptação a um conhecimento…

vedaste o jardim floridos dos versos, blindaste as palavras de alfazemas
na vocalização és… sempre foste poeta
há uma nobreza em quem martela a língua de artifícios gramaticais
mas não há espanto, e é o espanto que me absorve diante
no descrever vagaroso do florir de uma violeta…
amo o tempo e o tempo que ele demora, o poema…
esse florir das palavras até se tornarem semente…

Alberto Cuddel
01/11/2020
18:50
Poética da demência assíncrona…

Junto a este tronco de carvalho…

Junto a este tronco de carvalho…

Já não chove, e se chovesse quem seriamos nós de diferentes
Eu chamei-te, tu chamaste-me, viemos os dois
E olhamos a vida sem máscaras, sem distanciamentos
Apreciamos os pássaros, sozinhos, em bando
E as nuvens que correm ao vento, e falamos em silêncio
Desta vida que nos corrói por dentro
Que nos separa em dois lados, tudo tem dois lados
O lado de dentro, o de fora, o de cima e o de baixo
O lado certo e o errado, o lado da vida e o da morte
O meu lado e o teu…

Não gosto de poesia, disseste-me tu noutro dia
Não te convenço, tão pouco te confronto com a vida
Com essa que corre nos corredores dos hospitais,
Nas bibliotecas vazias, nas salas do parlamento…
Vergonha senhores, vergonha…
Tudo é porque assim é, assim é decidido, e tu discordas

Fazes bem em discordar, mas o que fazes para mudar?

Depois sentamo-nos, estamos bem aqui…

Façamos três tendas…
Fluem as palavras, rimas imperfeitas no movimento das folhas
Não há folhas no chão, o carvalho, nem caduca nem persistente
O carvalho não tem lado, perde e ganha, aprende…
Onde nos mora o sentido da conversa?
Nesta véspera de amanhã que há-de chegar
Entre o fumo da cera e do cigarro, fluem as palavras certas
Esse louvor da memória da nossa herança linguística
E Diniz? Será que dissertava para Isabel, ou outras o escutavam?

Falemos de tudo? Do néctar de baco, esse que nos aquece as orelhas e a mente
Ou dos prazeres do Eça, do exilio, desses opiáceos que no aliviam a imaginação
Aqui bem aqui debaixo deste carvalho, existimos os dois, e lá?
Para la dos limites circulares deste jardim, quem somos?
Quem sou? Quem és?

Esperemos a noite, e depois vamos, cada um para seu lado,
Porque tudo na vida tem um lado, e este é aqui, debaixo do carvalho…

Alberto Cuddel
30/10/2020
19:00
Poética da demência assíncrona…

Às vezes, leio-me e comento-te…

Às vezes, leio-me e comento-te…

Na imensidão do pensamento
Penso, às vezes penso
Penso que me basto
Nas palavras que produzo
Às vezes, penso,
Penso que sou tão ignorante
E depois? Depois leio-te
Leio-te a ti poeta
Que me contas outra vida
Outras rimas, outras terras
Amores novos e virgens
Leio-te, na minha originalidade
E sinto-me pequeno,
Infinitamente pequeno
Plagiador até,
As palavras que escrevo
Não são novas em mim
Não brotaram do meu ser
Mas do que li,
Do que contigo aprendi
Ao ler-te também a ti…
Repouso em ti poeta
A consciência,
O cinzento pensar
Que bebo nas tuas
eloquentes palavras
soltas, livres, vivas
nas frases, nas rimas
na sofreguidão da fome
de te ler, de te interpretar,
e comentar, na ânsia
pagã, de sentar-me à tua direita,
lendo-te e encontrando-me
na significância da tuas
puras e elaboradas palavras!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda na escrevi 49

Se quereis conhecer-me…

Se quereis conhecer-me…

se quereis conhecer-me não me procureis nas ambiciosas palavras
nos versos que grito ou nas palavras que calo
procurei-me nos silêncios… nessa visão oculta do feminino da alma…

na fragilidade da vida, morro… como se morre ao nascer, morrendo semente…
e o rio corre diante do murmúrio da saudade da chegada
há uma palavra que escorre por entre a vida do deslumbramento
uma lágrima que escorre na clareira enquanto voa um condor que espera…
no corpo quente de sereia que me encanta, em silêncio fecho os olhos
repudio a consequência e sonho-me livre, diante da abstinência

nos silêncios que grito, escorrem-me mentiras nos versos que declamo
no antagonismo da morte, vivo amplamente o prazer de estar vivo

penso sem consequências a hipótese da comprovação científica
pela experimentação do resultado confirmo,

grito mais nos silêncios do que nas palavras em que minto…
não sente o poeta o que escreve?
mas desce ao inferno na busca da dor perfeita, da repulsa e do grito…

se querei conhecer-me, descalça-me, veste a minha vida e percorre os meus caminhos…

abraça-me, abraça-me longamente o silêncio
e porque me quis a alma, assim o fiz, de mim mentindo
tudo afirmei, dizendo toda a verdade ou meramente o seu oposto…
e olho a sorrir o titulo da folha…
e sei que nem mesmo eu me conheço

apenas por que ainda me procuro onde nunca estive…

Alberto Cuddel
10/11/2020
23:30
Poética da demência assíncrona…

Dizer “Amo-te” não é um mero dever,

Dizer “Amo-te” não é um mero dever,

Este inferno de partir – ah… E eu parto!
Por onde foi a vontade… quem ma roubou?
Esta ignóbil certeza, trabalho, coisa que me consome
Que vida? – A vida que em nós se constrói –
Fogo que me arde, cinza que esvoaça
Quando? Quando? Por quanto tempo?

Eu sei, sei, mas ainda assim quero,
Reconhecer tacteado o teu mundo,
Não sei por quanto tempo te ausentas,
Ou as historias que nunca vivi
Nunca foi um sonho – ou se meramente sonhei?
Oh! Que enfadonho é este partir…
Que me obrigam, aí de mim! Quero recuar?

Só me lembra que não irei, fico
Eu decidi… tornou-se luz dentro de mim,
E os meus olhos, que enxergaram além,
Em leituras do teu corpo, clamam firmes
Que faço ao saber? Fico, vou, deixo-me?
-só sei que nada sei!
Mas nessa hora nem sequer comecei!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 50

Fúria de amar…

Fúria de amar…

não são as palavras quentes
mas os longos movimentos da língua
essa traiçoeira que nos percorre a espinha
nos amplos movimentos do beijo
digladiam-se as bocas pelo tesão das mãos
caiam as veste… rasguem-se as roupas e os pudores
percorram-se os corpos, descubram em si mesmos o prazer
toquem-se…
toquemo-nos…
beijemos todos os cantos, recantos, vales e montanhas,
sorvamos o regato que escorre…
apreciemos os sabores almiscarados do desejo
mostra-me o teu olimpo, a tua louca divindade
faz-me reconhecer o teu céu…

ergue-te, ergue-me, deitemo-nos
lento, forte, seguro, rápido…
forte, fraco, todo ou apenas parte…

conduzamos a noite longa pelo querer
saber é descobrir, estudar, gritar, gemer
procurar constantemente a sintonia inversa
chegar ao orgasmo, agora, já, depressa…

cair extenuados, encharcados
abraçar, beijar, conversar, carinho, devagarinho
e tudo outra vez,
sem pensar, no sofrimento do ninho…

amanhã?
amanhã voltamos a nos apaixonar…
tanto de novo a realizar…
a descobrir, amar…
porque foder, não é morrer
mas voltar a nascer
a cada dia que nos queiramos envolver…

Tiago Paixão
04:10 – 11/11/2020
A fúria da Saudade

Aquém do desejo

Aquém do desejo

A tarde caiu-me
Nas pálpebras pesadas
Cansaço do dia!
Mesmo assim as mãos vagueiam…
Tacteiam sonhos no ar,
Formas redondas e húmidas
Na pureza do teu desejo…
Como desejo, apagar as notícias de ontem
E ficar apenas na doçura do teu beijar…

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi-52

Ecos do vento

Ecos do vento

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…
há na parede caiada um rasgo de alecrim
sorris, mas segues caminho diante dos desempregados
esses que te fitam por detrás das cortinas com medo da morte…

e fecharam as lojas e as caves…
fecharam as hortas e as adegas
não há ecos de talheres nem brindes…
os cafés parcos, não lançam baforadas de fumo
não se dizem poemas, não se discute, não se insultam árbitros…
confinaram-vos a alma, pelo medo da morte…
enquanto eras novo, fugias do sol…
abraçavas corpos, partilhavas copos…
depois infectavas os avós que morriam…
e as tias dos lares, as crianças da escola,
e os enfermeiros médicos, e tudo recomeçava…

agora olhamos o eco do vento que passa
sem que ninguém passe por nós…
e de noite? ninguém…
apenas os desempregados espreitam
os outros que ainda tem trabalho…

e essa merda de medo…
quando as regras de tão simples foram esquecidas…

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…

Alberto Cuddel
11/11/2020 02:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha III

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