Textos avulsos

às vezes repugna-me a leitura de comentários avulsos sobre uma actualidade irreal apenas porque o ego se impôs na escrita e não fizeram o que desejavam fazer, como crianças revoltadas e amuadas acabrunhadas a um canto da sala ainda de castigo… E ficam ali congeminando teorias e relações teóricas sobre os erros de um poder superior a quem culpar pelo facto de não aceitarem a sua humanidade.

solutampoetica

Foram-se as pedras e as ideias

Foram-se as pedras e as ideias

Abandonei voluntariamente o trono
E todas as escadas onde me ergui
Esqueci-me da noite, das palavras e de ti…

Deixei que o pensamento vagueasse na rua,
Que a fome roesse a mente, desilusão
Deixei de pensar um tudo e os sonhos
Correm as águas por valetas porcas e secas

Vi a luz apagar-se nos homens
A morte correr, espreitando janelas
E tubos fumegantes, por entre roupas rasgadas
E moços de calças baixas, rindo em grupo
Sob corpos estendidos no chão…

Não há pedras que se atirem
Ou escritas na areia de cabeça baixa
E as ideias? Prendem-se escondidas
Por entre massa cinzenta e paredes de cálcio
Calam-se as vozes, discriminam-se os que pensam
E todos pintam de dourado, os fios que pendem
De uma triste bola cimeira, onde nascem duas bolas
Que esbugalhadas seguem o rebanho…

Fetidamente escorrem os dejectos pelas soleiras,
Esperas timidamente na “fila” papel plástico estendido
Onde hipotecas os dias, e as noites, nos gestos mecânicos
Engordando os já gordos senhores do mundo…

Foram-se as pedras e as ideias…
Condenaram-se os mestres à pobreza
E os doadores de DNA, geram-te
Mas não te educam…
Esqueceram de te ensinar a pensar…
A censura do mundo dita, e tu ordeiramente
Fazes… Fezes a que chamas vida…

Alberto Cuddel

Sem explicações

Sem explicações

Nunca o soube explicar
Mas é tudo tão vazio
Tão cheio de nada
A menos que te encontres
De quem escreverei
Numa constante explosão de versos
Plagiados vezes sem conta
Repetindo ideias repetidas
De uma beleza unidireccional…
Provavelmente lês, como quem lê
Procurando-me onde nunca estive
Quem sabe irás encontrar-te depois
Ou antes do depois numa imagem
Aleatoriamente escolhida para o efeito…

Depois sentas-te tomando café
Ou uma qualquer outra bebida quente, ou fria
E mesmo que não o queiras pensas
Pensando no nada, no vazio
Ou meramente num texto cheio de letras onde nunca estive…
Às vezes penso que sou chato, e nessa chatice apenas mais um
Que escreve pensando que sabe, ou que sabe pensando escrever.
Nunca expliquei o porque, também nunca o soube explicar
Há explicações que não se explicam, não se dão, apenas o conceito
Da explicação que não existe, nem nunca existiu…

Anda assim, penso-me poeta,
Apenas porque me chamam,
Se não mo chamassem não viria
Mas vim, mesmo que não o saiba de mim explicar…
Apenas escrevo, como se me esvaziasse, eu que nunca estive cheio
Nem vazio de explicações de coisa nenhuma…

Alberto Cuddel
03/02/2018
04:05

Espero desesperando

Espero desesperando

“Quantas vezes espero egoisticamente
Num acto puramente narcisista de ser poeta
Que me leiam e reconheçam, valor”

Nunca palavras soltas me emprestam rimas
No sentido desinteressado de ser poesia
Onde me vês beleza? Sente-me sentindo-te
Nunca me ficarás a dever a leitura, o ler…

Na vã poesia de que me acusam, finjo
Emprestando-me as palavras, sinto-me
Não ludíbrio, mentindo-me, espero apenas
Desesperando que me aceite o que sou
Actor atento dos que não escrevem
De todos os que gloriosamente sentem…

Nunca me importei com quem bate na porta
Abro-a a quem desejo, escuto apenas sons
Solto esperanças e desejos de olhares sábios
Olhos que me devoram a alma, que sentem
Longas folhas brancas, letras negras
A luz no brilho do olhar, criança
Na alegria de me encontrar finito
Num sentir alheio a minha dura vontade…

Olho um poema como único, sem dono
O dono sou eu, a mão que o escreveu
Desconhece-me no que nunca fui…

Alberto Cuddel
31/01/2018
21:00

Imortalidade

Imortalidade

Concedei-me ó deuses a vida
Dessa terrena sem fim
Onde almejo ser alma
Doce mel advém do fruto
Que amaldiçoado sejas
Corpo vão que me condenas
Entre uma maçã e a morte…

Inquieta-me o desejo
Desejos de carne e prazer
Esses de mortalidade vã
Na virtude sou, letra, poema
Teorema irrealista da divindade
Não, não, não…
Nunca serei saudade,
Imortal, na leitura,
Nas letras, no sentir…

O dom, esse em brasa
Gravado a fogo no olimpo celeste,
Habita-me, habita-te,
No conhecimento
Que a terra te concede
Ao leres-me…

Alberto Cuddel
22/01/2018
21:17

A poesia é vento

A poesia é vento

A poesia e vento da emoção que sopra
Por entre arvoredos de sentimentos
Vento que me veste de folhas, que me despe
Vento que sopra que leva e traz na brisa
Que se encontra, que se perde nas areias…

A poesia vive do movimento, o vento da alma
Do sentir, do amor, da vida, da alegria
Da tristeza, da saudade, da dor, da verdade
Sopram ventos na colina, na clareira da noite…

Nos sons da folhagem encontro-me no vento
Esse que me limpa a alma, nesse que viajo…
Onde se agitam as arvores e as ervas,
Onde me deixo levar nas letras que deixa…

No vento escuto… a poesia que me traz de longe…

Alberto Cuddel
21/01/2018
20:02
#Solutampoetica
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E neste momento diz o poema:

E neste momento diz o poema:
Neste poema que diz,
Que conta e fala, que declama
Neste poema com voz, que canta
Que se encanta nos lírios
Que nos fala de grilos
Do calor do Verão, das noites…
Neste poema que nos diz a poesia
Que grita e geme, que rima
Da tia, da sobrinha, da prima
Neste poema com mãe, sem pai
Com os irmãos longe, perdidos no mar
Neste poema em que morremos por amar
Neste poema que nos fala
Tudo é vida, tudo é saudade
Tudo é voz e liberdade…
E neste momento diz o poema:
O poema não é poeta, apenas verdade…
Alberto Cuddel
18/01/2018
18:44
#solutampoetica

Vou ali reflectir…

Vou ali reflectir…

Ajoelhei-me enfrente ao espelho
  (pensei para mim mesmo)
 Que fazemos nós no mundo,
Nós? Eu e todos os meus eus…
Todos nós…

Eu na imensidão da minha solitária solidão
Nada sou, nada fui, nada procuro em mim mesmo,
Tudo o que fizer será apenas a mim,
  – Este reflexo incomoda-me, imita-me, faz-me velho

Às vezes penso na imagem que tenho à minha frente
Decrepito, gordo, sem auto confiança, tímido
Um pseudo-intelectual metido a poeta
 – Tenho pena, tenho realmente pena deste reflexo
 (podias ter tantas mulheres)
Os dias passam por ti, como vinagre, como fel
Conservas-te igual a ti mesmo, apenas um pedaço de carne
Uma prisão desta alma inquieta que aprisionaste em ti…

Vou ali voltar a reflectir, mesmo assim
Nunca irei gostar do reflexo…

Alberto Cuddel
17-01-2018
20:00
#Solutampoetica
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Podia ir ali…

Podia ir ali…

Podia ir ali gritar que te amava, mas mesmo assim não te teria, podia prometer-te que falhava, perguntar-te se casavas comigo, podia ir ali, e não fazer nada… Mas porque iria? E se podia ir ali porque não fui?
Podia ir ali e nada dizer, nada fazer, nada ajudar, nada dar, mas para que dar-me ao trabalho de ir e nada fazer, mas fui, uma teimosia minha, pelo acto de ir, foi, só para que não dissessem que podia ter ido e não fui, então fui, fui ali, não sei fazer o que, não sei porque, ou como fui, mas tenho a plena certeza que fui, não me podendo acusar de não ter ido.
Podia ter ido ali e fui, tenho agora em mim a certeza que fui, nada prometi, também nada gritei, mas lembro-me de te ter sussurrado suavemente ao ouvido enquanto dormias que ainda hoje te amava…

Alberto Cuddel
14/01/2018
06:21

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Só agora nesta hora escrevo um poema de amor

Só agora nesta hora escrevo um poema de amor

Nesta rua onde passas
Onde o amor me trespassa
Como perfume que me enlaça
Adentra as narinas inflamadas
Inundando-me os pulmões…
Amo-te, a plenos pulmões
Não num coração cansado
Trespassado por setas
Por cupidos de asas
Mas nos pulmões
Por onde se passa o ar
Por onde entre o cheiro
O perfume a peixe das tuas mãos…
Vendes, manejas a sardinha,
A faneca e a raia sem espinha
E amo…
Como anunciando do centro
Da praça onde sentas
Esse teu corpo cansado
“- Peixe fresquinho”
“- À mulher, doce varina,
Que eu amo assim fresquinha…”
“- Ó gaiato metido a poeta
Desta varina atleta
Não a levas à faina…”

E nesta rua onde passas,
Onde o amor me trespassa
Como perfume que me enlaça
Adentra as narinas inflamadas
Inundando-me os pulmões…
Grito bem alto…
– Amo-te varina…
Faz de mim a tua sina…

Alberto Cuddel
14/01/2018
06:10

Hoje foi o dia em que escrevi menos

Hoje foi o dia em que escrevi menos

Hoje foi o dia em que escrevi menos
podia como nos outros dias ter escrito mais
mas escrevi menos convicto da minha certeza
bem menos, e escrevi menos muitas vezes
podia ter escrito mais, seria uma escrita como outra qualquer
mas estou decidido a escrever menos,
nem igual, nem mais, apenas menos…

Há dias assim que me podia dar para mais
mas perderia todo o seu filosófico significado
não me comprometeria a decisão
mas convicto de mim mesmo e da fé inabalável
escrevi menos, menos do que normalmente me escreveria,
agora tenho a firme certeza que muitas vezes antes de agora
nunca antes tinha escrito tantas vezes menos…

Hoje foi o dia em que escrevi menos…

Alberto Cuddel
14/01/2018
06:00

Tudo é chão vazio e árido

Tudo é chão vazio e árido

Tudo é tempo e tudo é perda
às vezes encontro-o
mas outras há que o perco
mesmo que lhe desconheça o sentido
ou tão pouco a virtude de ser…

Tudo está tão perto e tão longe
inatingível, quase impossível de tocar
mas toco no chão, nesse que piso com os pés
os sujos e os limpos e perfumados
oleados e limpos com cabelos loiros…

Tudo é chão vazio e árido
sem consciência da existência do amor
nada dás, tudo desejas reciprocamente
tudo é tão vago sem consciência
tudo tão distante e azul
ou verde que cresce
matando a aridez dos dias cheios
de longos pequenos nadas…

Alberto Cuddel
14/01/2018
05:53

Ressalva poética ou devaneio…

Ressalva poética ou devaneio…

Nunca esperei ser entendido ou interpretado à luz dos poemas soltos que inscrevo e descrevo, nem tudo são os meus dias e sentires, alguns meros desabafos povoados de palavra soltas e lidos sem contexto. A poética é não um exercício de escrita pessoal, mas uma ilusória tentativa de escrita de sentimentos do mundo, cada leitor irá interpretar-me segundo o seu conhecimento de vida, segundo a sua cultura emocional.
Não bastam as belas palavras, os belos sentimentos, mas a realidade das coisas, o apelo e apego á vida de cada leitor, para que cada um o sinta com seu, não um mero texto de desilusões ou saudades cantadas por um poeta distante… A poesia heterónima encerra em si uma falsidade latente de personagens completas e fingidas que se encaixam na visão intemporal da sociedade presente e futura. A poesia não é uma arte presa ou fechada, a poesia é vida, mas também morte, a poesia é partida ou ponto de chegada, aberta a todas a sensibilidades…

Alberto Cuddel
12/01/2018
0:50

Novos olhares

Novos olhares

Nos novos olhos areados de luz
Perdes a visão da alma inquieta
Onde se formam as dores cinzentas
Na busca do entendimento de ti mesmo…

Deixei-me levar quando me deu a mão
O amor molda-nos a alma por dentro
O sofrimento parte como vivência certa
Na dor encontro o ser felicidade dada!

Na perda dos tempos em que não foste
Nesses em que não viveste por mim
Na pressa das horas que não caminhaste
Em que os dias passaram bem depressa
Em que não demos as mãos caídas
Em que não amamos por amar…
Nos dias em que não vivemos
Apenas desejava que me visses
A mim por um novo olhar…

Alberto Cuddel
10/01/2018
23:18

O que foi e que passa

O que foi e que passa

O que foi e que passa
Por essa beira da estrada
Morrem os sonhos de calçada
Por entre pés descalços…

O que foi e que passa
Arco descrito do sol
Arco-íris perseguido
Chovam beijos na lembrança…

O que foi e que passa
A dor da despedida
A alma entregue e despida
Os sonhos dessa bendita…

O que foi e que passa
Pelas andorinhas e borboletas
Rodas e bicicletas
Roda a cima, roda a baixo…

O que foi e que passa
Não voltará a passar…

Alberto Cuddel
10/01/2018
03:16
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