Silêncio

Meu silêncio…

Inexplicável…
Uma tristeza profunda assola meu peito…
Solidão…
Pensamentos tristes, que desvanecem…
Como nuvens no ar…
De alguém que chora e jura…
Jamais tornar Amar!

Que tortura esta, que arde no meu peito com tal fulgor?
Como fui eu capaz de partilhar contigo meus credos…
Contar-te minhas alegrias…
Minhas tristezas…
Meus medos?!…
Tristeza nas grades da ilusão,
Onde meus pensamentos ponho…
E nesta prisão, vai morando meu sonho…
São fortes e densas as amarras das quais não me consigo salvar…
Vida….
Amor?…
Porque me agarras?

Por favor vem salvar-me…
Mostra-me um horizonte lindo…
Onde eu possa viver…
Deixa-me mostrar tudo o que sinto…
Deixa-me de novo nascer…
Crescer, acreditar e Viver…
Deixa-me Amar-te.

Alberto Cuddel

Março de 1992

Dormindo e acordando, agora e depois,

Dormindo e acordando, agora e depois,

Talvez sonhando
Cansado, cansado
Desta distância
Tão vazio e tão cheio
Tão certo e tão concreto
Nesta certeza que dói
Neste sentir que mói
Tão perto, tão perto
Ai, bem ai dentro do peito…

Que sejam os dias alvuras
As noites madrugadas
Que sejam meses, semanas
Tão perto, tão certo
Este querer concreto
De viver sempre
Ai, bem ai dentro do peito…

Que se mar, rio que leva
Que seja hoje, amanhã
Beijos nos silêncios
Lábios e risos
Que seja saudade
O sorriso dos olhos
É na verdade
O amor que de ti carrego
No peito certo,
Tão longe, aqui tão perto!

A ti meu amor
Que a vida seja nossa!

Alberto Cuddel
01/10/2018

Há rasgos de luz que nos cortam a madrugada!

Há rasgos de luz que nos cortam a madrugada!

Há sonhos despertos
E mares que nos acordam
Há sempre uma vastidão no peito
Um sentir certo, um querer perto!

Há rasgos de luz que nos incendeiam
Há um calor no corpo que nos acorda
Cama de espuma das nossas vidas
Pegadas em areia molhada maré vazia

Há sonhos na madrugada
Um cheiro a café e beijo
Há passeios de mão dada
Há em mim o teu desejo!

Há rasgos de luz que nos cortam a madrugada
Há um tempo sem pedir nada
Na vida de um verde olhar
Há esperança por amar!

Alberto Cuddel
01/10/2018

Nesta poesia inteira,

Nesta poesia inteira,

Nesta poesia inteira,
Metade de mim,
Metade de ti mesma,
Uma certeza, o poema vive,
A vida de cada um de nós!

Nesta poesia inteira
Em lágrimas de cabeceira
O sorriso de um acordar
Uma certeza de amar!

Nesta poesia inteira
Vivo eu vives tu
Sem permissões a poesia
Vive sem eira nem beira!

Nesta poesia inteira
Vive o presente
Um passado diferente
Um futuro sagrado poente…

Alberto Cuddel
08/10/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

A tua nudez inquieta-me

A tua nudez inquieta-me

A tua nudez inquieta-me
Nela abstraio-me da ocultação da alma
No corpo que adentra a barra do desejo
Ocultas-me o teu pensamento como cortina
Matreiramente escondes-te, não te conheço!

No vocábulo preso nos lábios
Silêncio sem perguntas, incómodas
Escondes-te por detrás de uma mão tremula
E o poder que tuas formas tem no olhar!

Poder no disfarce e corajoso
Onde pode cair o mundo dentro de ti
E tu? Airosamente passeias
Na realidade oculta de nada ter a mostrar
Ainda assim a tua nudez inquieta-me!

Alberto Cuddel
17/05/2017
08:13

Peço ao tempo chuvoso um raio de sol

Peço ao tempo chuvoso um raio de sol

Peço calma e ao frio o teu abraço
Peço desculpa longínqua ao sul
Pelo calor que roubou à noite…

Declarei saudades robustas
Idealizadas em corpos crescentes
Num tempo fechado e embalado
Enclausurado nessa caixa que bate…
Que nos move e inquieta
           Que ama em surdina
Tudo é momentâneo
     Tudo é o que nos dizem as mãos…

Peço ao tempo cinza
Que se abra, que se mostre
Que se faça vivo e crente
Quente nos lábios em palavras nuas
Que longínqua seja a nossa verdade
Encerrada em nós mesmos como segredo
Degredo aflorado das nuvens negras
Essas que se abrem e se espraiam
Mostrando o sol da tua alma
Abraçando-me nesse olhar doce…
Onde já tanto choveu…
Alberto Cuddel
19/01/2019

Nesta noite que Deus trouxe…

Nesta noite que Deus trouxe…

Deixei que te escorressem pelos pés
Estrelas fartas de cristal e silêncios
E palavra contaminadas de dúvidas
E incertezas certas que te habitam a alma…
Urrei gritos silenciosos de fel, calado
Mordendo os lábios por dentro…

Depois dos dias e das noites que estão por vir
Irás sorrir, longamente, demoradamente
Esquecendo as noites em que as estrelas te caíram aos pés…

Eu irei abraçar-te nesse sorriso, irei gritar essa alegria
Depois, depois virão novos dias, novas noites,
Meramente nossas, como Deus a nós as entregou…

Neste entretanto inglório do tempo que não passa
Entre clareira de silêncios e gritos mudos de saudade
Correm os ponteiros ao norte e contra a sorte
Numa espera triste, fria, sombria, incerta…
Nesta noite que Deus trouxe… não me deixou ficar a luz do olhar…

Alberto Cuddel
18/01/2018

Queria ter tempo para coisa nenhuma, e simplesmente para tudo…

Queria ter tempo para coisa nenhuma, e simplesmente para tudo…

Queria ter tempo
Eu? Eu mesmo?
Eu que quando nasci já havia feito dezoito anos?
Para que quero essa medida relativa
Essa coisa redonda a que chamam tempo?
Esse minuto longo em que esperamos
Que a casa de banho fique desocupada…
Ou esse minuto breve em que saboreamos um beijo?
Queria ter tempo para escrever com palavras novas
Dessas belas e indecifráveis, apenas como referência a ti…
A ti que me esperas em noites longas e ausentes
A ti que o tempo passa a correr quando estamos juntos…
Queria ter tempo para coisa nenhuma ao teu lado
E o tempo contigo é simplesmente tudo…

Eu que nunca fui criança
Que nunca tive sonhos de criança
Que nascia a ler e com herança
Que não escolhi o que tinha lido
Eu poeta, que um dia disse e gritei
HOJE, HOJE NASCI….

E mesmo assim, depois de tudo e de todo o tempo
Ele, o tempo, é curto, espaçado, ausente…

Falta-me o tempo para quase tudo
E com o pouco que tenho
Não faço quase nada…

Ainda assim, o tempo é tão pouco contigo,
E tão longo quando estou ausente…

Alberto Cuddel
17/01/2018

Sonhando os sonhos já sonhados, esperando a realidade da alvorada…

Sonhando os sonhos já sonhados, esperando a realidade da alvorada…

Deste-me a solidão noite inteira
Entre o sono e o despertar
Em lençóis de areia e dunas
Linho e estopa por bordar
Debruçada na janela sob o sol nascente
Os dedos como brisa percorrendo as formas
Aldrabando a solidão dos dedos em mão aberta
Grito do eterno desejo, esperança da chegada
Longamente esperei teu vulto
Em copos vazios de águas passadas…
Movida por dedos engenhosos…

Acendi-me nos sonhos,
Percorri-me nu nas marés
Despido de todas as certezas
Ondas, que vem, que vão
Vem, vão…

Que loucas são as noites
Por entre estrelas e pérolas
Anéis de ouro e safiras
Sonhos e desejos
E beijos, beijos,
Beijos, beijos,
Beija-me e prova-me
Em lábios dormentes
Chega, quero-te chegada…
Antes que me desperte a alvorada
Deste sonho adormecido…
Veste-me, nu, nu…
Destes sonhos já sonhados…

Alberto Cuddel
15/01/2019

Nesse abraço…

Nesse abraço…

Nesse abraço cabe tudo
O calor, o medo, o amor
A segurança, a confiança e o perdão
Nesse abraço cabe o mundo
Cabe o meu coração e o teu…

Nesse abraço cabe o mar
O céu, a terra, o meu e o teu
Cabe a vida, o ontem, o hoje
Cabe até o amanhã sonhado…

Nesse abraço, cabemos nós
Na convicção que entre os nossos braços
Vivemos… mesmo que nada mais importe
É nos meus braços que te quero
Que te encontro, que te espero
Como quem segura o tempo
Que tantas vezes se perdeu
Por entre os dedos abertos…

Nesse abraço com que te quero abraçar…

Alberto Cuddel
12/01/2018

De onde vivi, para onde olho?

De onde vivi, para onde olho?

Caem-me as névoas nos olhos olhando o fim da rua
                Que noite cai tão escura em avenidas largas
                                        Janelas estreitas de vidros partidos…

Olham-me com olhos tristes os olhos que me fitam
              Nunca conheci outro alguém que me olhasse assim
                                        Longamente, demoradamente, diferente dos teus…

Esse olhar de mãe que me condena quando parto pelo mundo
Olhos que choram a felicidade do encontro na palavra perfeita
Olhas que amam, que brilham na chegada…

As névoas desse mar interior nas vivências em poemas de mel e limão
Não há como fazer amor na pele da palavra, no sereno florir das coisas
São livros cheios de sentir que me iluminam os dias, e me dão brilho ao olhar…
E olho ao longe, sentires alheios aos meus, em rimas perfeitas de palavras cheias…

Eu que tantas vezes me dei, que tantas vezes me esvaziei
              Apenas olho, com olhos de ver, as coisas e as almas
                                   Que em mim passeiam crentes que são gente que vive…

E vivo… tantas vezes morto, por não saber de mim…
                        Sabendo sempre onde pertenço…
                                    E pertenço-te, desde sempre sem o saber…

Alberto Cuddel
11/01/2019

Que tempo é este?

Que tempo é este?

Que tempo é este em que acordas do sono?
Em que voas acordado em sonhos negros
No trespasse gelado nas águas da alma?
Morrerias se voltasses, se acordasses do sono…
Queria voltar a ser criança, apenas criança
Sem o saber de hoje, sem o falso amor dos grandes
Apenas queria ser pequeno, com pequenos sonhos…

Os significados dos dias em mares salgados do olhar
Só comparavelmente ao abraço do teu sorriso
Esse que me lanças no cruzamento das mãos
Sob lençóis quentes e húmidos, entre beijos de licor
Nesse tempo quero ser quem sou, ainda que seja
Tudo o que perdi, corremos atrás do tempo que já não temos…
Mas que juramos conquistar a cada minuto…

Que tempo este sem dias de memória, sem história
Na espera pelo tempo que tudo traga e tudo faça
E sabes, tudo depende do sim ao tempo
Enquanto ainda digo não, ainda digo espera-me…

E mesmo assim sonho o tempo todo
Com o tempo, que será apenas nosso
Sem pressa que a noite chegue, que o dia acorde
Que a saudade morra, sim, não quero ser criança
Quero ser quem sou e quem me fazes ser…

Alberto Cuddel
11/01/2019

Sonhos ou realidades verdes…

Sonhos ou realidades verdes…

E gritei…
Gritei pois então, e acordei
Acordei como quem nasce
Desse pesadelo que é a realidade
Criada ou inventada por “Deus”…

Nada me diz, nem nada me apraz
Que as espigas cresçam hirtas aos céus
Que as nuvens baixem aos ilhéus
Que andem ou corram atrás
De sonhos verdes em verdes prados…

Compreendi que os sonhos são os pesadelos dos gestos
E nada mais é infinito que um desejo impossível
Que nada há de real ou verosímil
Na confluência do desejo másculo
Numa satisfação ilusória a passageira
Arrepiando-me a espinha quando acordo…

E choro na delicadeza supra humana
De ficar sem partir, sabendo onde haveria de ir
Nesse destino que me espera chegar,
Sonho realidades verdes, a cada novo olhar
Iluminando a alma, com o perfume de me veres chegar…
Sofro pelo que sou, não pelo que devia ser
Isso, isso é apenas o resto do tudo que será
Nesse chão que se desapega dos pés
Em realidades de gestos, nos medos do depois
Verdes lágrimas fartas, pendem do olhar
Não por tristeza, mas por saber que vou chegar
Acordando do sonho para verdes realidades
Ali, bem ali, ao alcance de uma mão, um braço,
Um corpo, um abraço… de um lar…

Alberto Cuddel
08/01/2019

Desta mudança que se faz tarde…

Desta mudança que se faz tarde…

Correm os dias como regatos inverneiros
Correm as horas como carneiros com fome
Longe do calor do peito o tempo morre
Desta mudança que de faz tarde, choras…

 (onde te mora essa vontade?)
“Não me venhas, nunca mais venhas, imperdoavelmente”
Mudam-se os dias sem vontade,
Mudam-se as vontades com as noites…
 – Pecas, pecados de sonhos, morrendo e matando a vida…

Desse tempo que arregaço e consumo
 Nas voltas danadas do mundo
  Morro sem um sim
   Nascendo por fim de mim
A vontade férrea de mudar, o que já não é igual
Que me morram no peito e nas pernas
As malformadas vontades de voltar…

Desta mudança que se faz tarde,
Cedo compreendo o que me falta mudar…
Mudando tudo, fico por mudar, EU!…

Alberto Cuddel
05/01/2019

Sabes o número de vezes que disse não?

Sabes o número de vezes que disse não?

Nessa busca da verdade em monossílabos,
não encontro paralelo com os rios que me brotam do ser,
pelas ruas esconsas desta noite que me abraça
procuro respostas onde apenas existem interrogações…

Nessa gaivota que paira sobre o mar
não há segredo, apenas vento, apenas medo
nos rostos dos seres invisíveis que habitam as águas
esse esperam o “não”, o “não” que seja agora
prolongando o momento eterno de um “agora”…

Nesses “nãos” que são afirmativos na intenção
há intenções robustas e firmes
outra tão frágeis e ténues, como ténue é a luz no crepúsculo,
não é a noite que me abraça, mas a luz que me abandona…
o número de vezes que disse não é irrelevante
válida é a força com que ele se manteve…

Alberto Cuddel
15/01/2019

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