Na profundidade da alma

Na profundidade da alma

desci à profundidade obscura da minha alma
procurava em mim o silêncio do mundo
aquele pedacinho de nada que me permite pensar

  • as ideias não se calavam discutindo ferozmente
    entre o coração e a mente, quem teria razão?
  • e eu? que importância tinha em mim?

para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo,

  • nada faço. nem a mim mesmo ouso dizer:
    quem seria se fizesse?
    tudo isto deixa-me exausto,
    nesta loucura de pensar a consequência da palavra escrita

não falemos mais.
as coisas que se amam, os sentimentos que se sentem guardam-se com a chave d’aquilo que amamos
o «pudor» é a arte de se fazer cofre no coração.
a eloquência profana-os quando os pensamos
porque sentir é não pensar,
e sentir é agir sem o medo das consequências

não há excitações ou meditações
na profundidade da alma tudo se revela

  • cristalino sem as sombras
    projecções da luz da consciência, da razão…

na obscuridade silenciosa da alma
somos essencialmente sentir
sem os julgamentos humanos das “LEIS divinas”
e lá construímos impérios e castelos
lá somos apenas nós, maleficamente egoístas…

Alberto Cuddel
25/10/2020
17:50
Poética da demência assíncrona…

Nunca pedirei permissão para voar…

Nunca pedirei permissão para voar…

nunca pedirei permissão para voar
para cruzar os céus dos sonhos em tons laranja
que jamais permita a minha alma perder as asas
que nos pesadelos da noite sejam de fogo
na virtude consciente do querer suicida que me abastece
nas folhas cor de cobre que me cobrem o chão que piso
ou nas folhas frágeis que despontam com o orvalho
nunca pedirei permissão para voar…

ergo-me diante do horizonte de medo
há nos céus esperança…,
essa que vos morre nos bolsos vazios
enquanto tristes caminhais de olhos no chão
na mudança que se espera, há esperança
mas essa mudança nasce em vós,
quando erguerdes o olhar para o amanhã…
sonhai, sem medos de voar, não espereis
não espereis permissão para voar…

largai as máscaras que vos ocultam o rosto
enfrentai os medos, vesti as asas do sonho e voai…

há no pairar sobre as águas uma vontade
ide e pescai vontades, esperança…

nunca pedirei permissão para voar…
simplesmente vou, até poder pousar
onde o sonho e o futuro me levar…

Alberto Cuddel
21/10/2020
18:56
Poética da demência assíncrona…

Entrevista

Fui entrevistado para a revista do VILLA. Leia a entrevista no link.

Douglas Delmar entrevista o poeta português Alberto Cuddel

Sob epígrafe – Tributo a Sebastião Alba

Sob epígrafe – Tributo a Sebastião Alba

Atropelos da Vida

há uma desilusão no ar
no asfalto negro espera-me a morte por atropelo
cruzei mares e oceanos, caminhos de terra
depressão humanitária da desilusão…

há sempre essa vida simples
de acordar com o sol
sonhar estrelas enquanto os homens roubam…

nesse lado oculto da poética
movo-me por entre as sombras das vielas
na procura do pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.

não tenho medo da morte
mas sim medo que a morte me esqueça…

Alberto Cuddel

No dia estupidamente frio como que de Inverno…

No dia estupidamente frio como que de Inverno…

adormeço quase a medo quando amanhece
porque há dias que nos amanhecem no olhar
ali, mesmo antes do sonho, de te sonhar
sinto o tudo que finjo, antes que sofra o que sinto…

se poeta fosse o que deveria ser?
e homem quem seria se o fosse?
deveria existir uma forma de encontrar as coisas
de lhe sentir o sentido, de as ver de fora
de olhar a tempestade a partir de dentro
como a totalidade do universo, não o infinito
mas esse conhecimento parcial da totalidade
como numa clareira, rodeado da floresta
mas reconhecemos a clareira na sua totalidade
reconhecemos a floresta, e a irracionalidade que a habita

mas como é que eu sei se teria sido feliz?
como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
do que teria sido, que é o que nunca foi?
e assim é tudo arrependimento,
e o arrependimento é pura abstracção.
dá um certo desconforto
mas também dá um certo sonho…
sonhar a possibilidade do que poderia ter sido
essa existência do tempo que foi sem o ser

poderia não ter casado, poderia não o ter escrito
poderia também nunca ter equacionado
ou duvidado do que foi concretizado
existem essa infinidade fria de ses, e se…
pelo menos é melhor pensar que é assim.
é um quadro de casa suburbana, alguém me espera
é uma boa paisagem íntima de cabelos castanhos
e os remorsos são sombras por detrás dos olhos azuis
em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme
se não tivesse percorrido o espaço do silencio
esse que mediava a não pergunta
e na não resposta afirmativamente positiva
“sim”…

mas o dia está frio, estupidamente como Inverno
e chego, como gelado, e adormeço a teu lado
ali, mesmo ali quando amanhece…

Alberto Cuddel
17/10/2020
03:22
Poética da demência assíncrona…

O meu eu…

Esta não é uma experiência poética, mas sim apenas uma forma de interagir… Este era o aspecto que tinha mais ou menos quando escrevi o primeiro poema, já lá vão mais de 29 anos… Gostaria que quem passasse por este texto deixasse uma mensagem, um olá, um está tudo bem, um li… Gostaria de saber quem me lê… Um enorme abraço e bjinhos…

Anúncio…

Anunciemos ao mundo o desejo que nos percorre o corpo, gemamos juntos, em movimentos compassados, libertemos toda esta nossa fúria que contemos no corpo… enfrentemos a noite e o mundo juntos, de cabeça erguida, se o que nos move é o amor, o prazer, usemo-lo em todo este desejo que nos assalta…

Sejamos o movimento contrário
Em movimentos amplos e ordinários
Gritemos o prazer e o gozo que nos escorre
Sejamos a noite desperta a lua que nos condena
Sejamos prazer aos olhos do mundo…
Sejamos amor… desejos contidos nas mentes…
Sejamos amor ao recolher… ocultos pela janela…

Sorve-me, bebe-me, agora, neste silêncio que nos abraça, sejamos boca e língua, dedos e braços, e sejamos prazer novamente, até que o dia nasça em nós…

Tiago Paixão

Primavera

Primavera

Na encruzilhada do entardecer
Amanheceu a saudade como breu
Neblinas de uma alma adormecida
Choros e prantos de um sofrer
Onde se anuncia a Primavera?

Rumores arrastado pelo caminho
Mãos estendidas à solidariedade
Passos de saltos travados, sozinho
Cega seja, como és na verdade!

Sementes contorcidas de dor
Humidade da terra, canto das aves
Renovação da vida, das flores o odor
Expiação dos pecados, beijos onde cabes

Destino traçado partido no chão
Aves nidificando esperam o Verão
Passos que se perdem dados ontem
Nunca encontrados pelos que sentem…

Ó incúria da Curia em posse
Desse deus que apregoais
Vinde, vinde mais, mais…
Se de vos partilhásseis o pouco que fosse
Seriam mais, bem mais, à luz de Deus…

Vinde anais da memória, revelai
Uma outra e nova história
Escrita em punhos de sangue
Vós que me escutais agora,
Em boa verdade, apenas mudai…
Sede novos a cada hora…
Renovai, sede vós também a Primavera…

Alberto Cuddel
15/10/2020

Violem todas as probabilidades

Violem todas as probabilidades

“É-lhe lícito escrever um poema onde se violem todas as probabilidades — logo que, é claro, a violação dessas probabilidades não implique directamente uma falha na natureza do poema, como seria, por exemplo, o anacronismo num poema histórico, o erro psicológico num drama, etc. A verdade pertence à ciência, a moral à vida prática.”

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa.

esvaziemos o mar…
pesquemos licitamente todas as aves do céu
ceifemos flores
cultivemos amores em canteiros de prata
reguemos tudo com natas…
não há na probabilidade matemática
nenhuma estatística que me confirme
nasci do amor pela certeza crente
não pela ciência humana…

tenho rasgado páginas de romances
escritos a carvão em folhas de milho
escorrem as águas no regato, nuances
de um convívio que se fez filho…

é lícito, todo o prazer humano é lícito
consentido pelos deuses em nós…

Alberto Cuddel
13/10/2020
12:55
Poética da demência assíncrona…

Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam

Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam

são compradores de sonhos e ilusões
pequenos sonhadores compulsivos como crianças
todas as pequenas inutilidades alimentam, confortam
são possuídos por uma atitude feliz
como uma criança que apanha conchinhas na praia…

compram com um abraço sorrisos
com uma mão estendida, pão
compram a inocência a alegria de possuir um punhado
de ter ali tudo, porque sim, porque quis…

o crime! roubar-lhe bocados exteriores da alma
proibir a sua aquisição por carência monetária
crime hediondo esse de lhe roubarem o mundo
arrancar-lhe pedaços de sonho! — choram como um Deus a quem roubassem um universo recém-criado.
como se perdessem o amor que nunca souberam existir…

e são felizes os compradores de coisas inúteis
como crianças que brincam com aviões de papel
ou barcos em pleno porto de mar, ali na borda do regato…
Alberto Cuddel
11/10/2020
14:40
Poética da demência assíncrona…

Correm as pedras em ribeiros secos

Correm as pedras em ribeiros secos…

-sabes amor onde nos mora o desgosto?
há nos ribeiros secos um anúncio de vida
nuvens trovejadas de saudade e peixes
desses que saltam por entre a corrente
enquanto sobem em direcção à morte…

há verdade na vida
há sonhos da impossibilidade
há sono sem cansaço?

corroem-se os cascos na margem
em mares nunca dantes navegados
em corpo de mulher amaldiçoados
sopram ventos abortivos da saudade…

onde vos moram os beijos?

rasgadas sejam as redes que procura o amor no cântico
ilusões disformes das pedras afiadas…
há nas curvas prazer, desse imediato que se vem…

correm as pedras em ribeiros secos
nas mãos apenas punhados de nada
bolsos vazios e garrafas de água…
do amor nem vestígios, nesta carteira vazia…
há quem procure e encontre amor às prestações
com cartões, promoções…
a prazo…

Alberto Cuddel
05/10/2020
13:55
Poética da demência assíncrona…

Teia de arame, ou a ratoeira das moscas

Teia de arame, ou a ratoeira das moscas

Bailam borboletas pretas em estômagos vazios
Há uma febre baça, que pelo olhar nos passa
Correm os finados em direcção à terra barrenta
E há barcos encalhados no caís…

Tia Maria, você sabia? Claro que sabia…:
A filha da padeira, sobrinha do picheleiro
A neta da florista, irmã da modista
A que se metia com o taxista
Que namora com o engenheiro
Enrabichada pelo empregado da retrosaria…
Está de esperanças…
E todos esperam que o pai se apresente
Contando que com todos os que ela se deitou
Apenas o gay da esquina se manifestou…

-não é meu, mas poderei cria-lo com muito amor e carinho…

Olha os perigos,
de se sentar no comboio antes dos outros se levantarem…mas não sabe da melhor, o outro que era ladrão, o que batia na mulher, o aldrabão que vendia alpista… esse que desviou o barco na ribeira, está preso…

-preso vizinha? Era tão bom homem, ainda noutro dia enquanto o meu Manel trabalhava ele me fez a manutenção da canalização, e quase de borla….
-preso sim senhora, que eu vi, não é que o meliante, partiu um vidro de uma casa devoluta, onde vai parar este mundo com atitude semelhante…

Bailam ditados e ditos em cabelos arranjados
Há mascaras que protegem e tecem outras vidas
Palavras desmedidas por cameras de vigilância
Mais um doente, deve ser coração já la vem a ambulância…

Correm os finados, sobreviventes do dia…
do acidente sempre se salvam os defuntos…

Alberto Cuddel
01/10/2020
03:30
Poética da demência assíncrona…

Mediocridade do beijo…

Mediocridade do beijo…

…teria fodido muitas mulheres,
Dado prazer até, amado…
Mas nada é tão medíocre que o sonho de beijo
Nada é tão ignobilmente medíocre
Quanto o desejo de apenas as beijar…

Se é para ser que seja, mas que seja tudo…
Não apenas o cultivo do poucochinho…
Do quase nada, era para ser, mas não foi
Do não foi bem, mas quase….

Teria fodido muitas mulheres nos sonhos
Mas o fodido seria sempre eu
Pelo facto de tê-las amado a todas
Por inteiro, sem reservas, apenas perdas
E tudo apenas por beijo….
Um beijo pelo universo
O universo por um rebuçado….
Teria sonhado foder muitas mulheres
Mas no final o fodido era eu….

Alberto Cuddel
13/10/2020 4:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha I

Para quê tanto pudor?

Para quê tanto pudor?

Existe um exacerbado pudor quando a temática é sexo, escrevo sexo e logo correm, “não é sexo poeta, é fazer amor”, desculpem? É que nem uma coisa nem outra é foder mesmo… É maravilhoso juntar o amor ao sexo, sem dúvida alguma, mas não confundamos as coisas, sexo é a forma mais intensa de dádiva e partilha, de entrega e de cumplicidade… Atenção que eu não falo do sexo egoísta em que um dos parceiros se “alivia em minutos ou segundos”. Mas de prazer físico intenso sem pudor, que dois parceiros partilham sejam qual for o sexo ou orientação de cada um. Se a essa intensidade física juntarmos a intensidade da alma, o amor, então sim tudo será pleno.

Mas para que tanto pudor? Será que alguém acha que os pais não foderam para eles nascer? Que a mãe não gemeu, que não chamou por Deus enquanto o pai lhe dava prazer? Amar e fazer sexo é algo natural, aliás sexo é mais natural que amar, ninguém entrega a vida por sexo, mas sim por amor, e isso é anti natural…

Escrevo poesia erótica, sim, não tenho pudor nisso, acho mais excitante a formação da imagem no cérebro e a capacidade de transmitir desejo e sensações, que qualquer “filme ou foto”, a poesia erótica é o preliminar da palavra, o anúncio do gesto e do prazer…

Deixem-se de pudores, e se não gostam, olha removam a amizade…

Partilho a foto sensual de um modelo masculino, como repúdio à exploração e degradação da exposição do corpo feminino como objeto sexual do machismo.

António Alberto Teixeira de Sousa

Poema para ti

Poema para ti

Sabes de que cor são os meus olhos?
São verdes, como verde é a esperança
Essa que ondula junto ao esteio
Junto ao vermelho esfarrapado
Que me corre nas veias, nas artérias
Bombeado vezes sem fim, jorrando
Lágrimas ensanguentadas vertidas
Nessa dor de ser humano, e errar!

Sabes de que cor são os meus cabelos?
Castanhos, já também pintados de prata
Dessa que espera por nós, sem pressa
Neste tempo agarrado à terra como leito
Folhas de Outono como coberta,
Numa outra espera de nascer, ser novo!

Sabes de que cor são os meus dias?
São cinza, coloridos pelas pinceladas
Da tua essencial existência, as palavras
Arcos que brotam do teu ser, desejo
Sou tela, espelho de ti mesma, sou aguarela
Óleo, carvão, sou tinta, sou folha…
Tu, és tudo, uma parte simples de mim
E eu?
Eu sou apenas parte do que de mim reténs!

Alberto Cuddel
02/10/2018

Ilusão?

Ilusão?

Reconheço-me estupefacto
Nas águas que me escorrem pelas mãos,
Lágrimas vertidas, areias soltas nos pés,
Neblinas de ideias de homens pequenos,
E madrugadas nascidas do ventre das mães,
Escorro-me onde o vento desfaz as tempestades
Na calma dos corpos… tão belos.

Vejo os horizontes, e os desertos
O voo libertino das aves, asas aladas,
Na palma das minhas mãos escorrem sonhos
Que morrem na rebentação das marés
Por entre luares de Abril, onde navega o coração
Na paisagem gretada pelo sol dos que vivem.
Forço-me navegante no azul do teu olhar
Onde me perco na esperança de me encontrar
O meu corpo sangra, inunda os campos

Desvirginando a terra e as ilusões!

Alberto Cuddel, in “ O silêncio que a noite traz”, página 49, Orquídea Edições, 2018.

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: