Promessas e desejos…

Desafiado por Ruth Collaço a escrever sobre uma imagem

Promessas e desejos…

há nas chaves dos desejos uma promessa de sonho
esse querer acordar noutro tempo e noutro lugar…

há um caminho de realidade a percorrer
não sonhar, não criticar, não idealizar…
mas um caminho de ficar, de esperar,
um caminho a cumprir, a prevenir…

de que me valem os sonhos se o amanhã não existir
de que me valem os desejos de beijos se não houver a quem beijar…

não basta criticar… mas sim também fechar a porta…

Alberto Cuddel
19/01/2021 18:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIV

Com a gentil autorização de:
https://www.facebook.com/joaogomezphotography

Aniversário

Aniversário

A cada dia desta alma velha
Segue-se uma noite sombria
Entre um acordar e um adormecer
Sabe-se viva, no seu viver…

No tempo em que festejava o meu aniversário
Não era feliz, não conhecia a felicidade
Faziam-me bolos, festas e presentes
Mas eu, eu não podia ser feliz…
Eu não escrevia nesse tempo…

No tempo em que festejava o meu aniversário
Em que esperava o amanhecer,
Não conhecia o viver ou o prazer
De não celebrar, de não esperar
De viver cada dia como ultimo…
Hoje, não celebro, não faço anos…
Hoje, apenas faço e conto os dias…

No tempo em que festejava o meu aniversário
Em que os pais, irmãos, tios e avós
Se juntavam à mesa em festa, celebrando
Nesse tempo, eu apenas estava ali…
Hoje, hoje sou, existo, sem saudades desse tempo
Esse tempo foi, existiu, hoje passa
O tempo passa sucessivamente
Por entre minutos e segundos
Descontando vida….

Hoje, apenas não faço anos
Deixei de os fazer ou contar
Deixei de me importar com o receber
Hoje, apenas o calendário me dá notícias
Desse tempo passado em que fazia anos…

O tempo passa,
A cada dia desta alma velha
Segue-se uma noite sombria
Entre um acordar e um adormecer
Sabe-se viva, no seu viver…

Alberto Cuddel
14/01/2018
00:10

Poema inspirado num poema de Álvaro de Campos
Aniversário de 15/10/1929

Um outro

Aniversário

Diz o calendário e minha mãe que hoje foi domingo
Diz o calendário e minha mãe que hoje choveu
Diz o calendário e minha mãe que as 15:00 nasci!

Dizem, mas a verdade é que não me lembro…

Não me lembro do tempo em que não via as cores
Não me lembro do tempo em que não sabia ler
Não me lembro do tempo em que não sabia escrever
Não me lembro do tempo em que nasci…
Não me lembro do tempo em que não sabia amar
Não me lembro do tempo em que não me conhecia…

E tantas vezes não me lembro
de alguma vez me ter lembrado
Que hoje é o meu aniversário!

Mas afinal hoje,
Um dia após ontem,
Um dia antes de amanhã
Hoje é o dia em que muitos
Lembram o que poucos esqueceram…

Alberto Cuddel
14/01/2017

E porque o meu aniversario é amanhã…

E porque o meu aniversario é amanhã…

o dia do meu aniversario é amanhã
não é hoje, e se não fosse amanhã, ou se não fosse lembrado, nada aconteceria
já houve um ano em que foi hoje,
porque tu com todo o teu amor de mãe, te enganastes
mesmo com aquele bolo de dois andares e cobertura de açúcar, com perolas brilhantes
não foi no dia que havia de ser, mas um dia antes…

o meu aniversario não é hoje. mas quem se importa? comemoramos o quê?
mais um dia de conhecimento? a subtracção de um dia à esperança de vida?
que me importa o somatório dos dias em que vivi, se em tantos deles dormi…
porque não contamos as noites? mas apenas os anos?
quem se importa com os anos?

virão os Invernos, e depois as Primaveras…
e os abraços prometidos, beijos desejados
as sementes perdidas, as sementeiras dos campos
virão as chuvas e as neves, as tardes quentes…
e virá o tempo que não se conta, e o outro que passa…
e esse tempo que perdemos a caminho de coisa nenhuma

o meu aniversario é amanhã
um dos aniversários que tenho, dos tantos que inventei e que poucos se lembram
ainda há muitos que recordam aquele domingo chuvoso…
seriam umas quinze e trinta, e irrompi por entre as pernas da minha mãe
e gritei… não me importo se o esquecessem… já não me faz falta que o lembrem
já vivi mais, do que me falta viver…

o meu aniversario é amanhã…
nem todos se lembram
mas eu sei que descontarei ao que me resta
um dia, aos dias que me faltam…

o meu aniversario é amanhã…
e mesmo que não fosse
o mundo seria o mesmo mundo
e eu o mesmo que sou…
mesmo que ainda não saiba
o tempo que me resta…

Alberto Cuddel
13/01/2021 00:05
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XI

Ecos das palavras solitárias gritadas contra os gigantes de pedra

Ecos das palavras solitárias gritadas contra os gigantes de pedra

dessas palavras gritadas sem resposta
eco inglório de um por do sol esquecido
há a reconquista do beijo, passo a passo
beijo a beijo… enquanto contamos andorinhas que não chegam
rasgamos as vestes dos que se cobrem a coberto da pressa
sem tempo para dois dedos de conversa, de face oculta
pela mão do amigo, vivem, numa qualquer cobertura de um palácio

– há quem tenha bons amigos…

“sábio é aquele que conhece os limites da sua ignorância”
e grito contra gigantes de pedra palavras vãs e solitárias
dessas que não mandam cantar um cego
mas que nos aliviam a alma…

– onde morrem os poetas sozinhos?

sinto perante o rebaixamento dos outros não uma dor,
e grito esse desconforto, mas é um desconforto estético e uma irritação sinuosa.
não é por bondade que isto acontece, mas por malicia, não pelo asco
mas sim porque quem se torna ridículo não é só para mim que se torna ridículo,
mas para os outros também, e irrita-me que alguém esteja sendo ridículo para os outros,
dói-me que qualquer animal da espécie humana escarneça à custa do outro,
os outros que se rirem à minha custa não me importo,
porque de mim para fora há um desprezo profícuo e blindado.
mas dos outros? dos outros enraivece-me…

    - e os poetas sozinhos, riem-se do cair da noite?

resisto ao silêncio que mata atirado contra as paredes brancas
há neste estado de coisas uma solidão estatal
como se para gritar, todos se virassem de costas
sempre olhei o cume dos montes como absurdo
como que a altura do mesmo fizesse tardar do dia
ou simplesmente adiantar a noite…

    - e os poetas sozinhos, desenham silêncios em palavras gritadas… 

contra uma bola de hélio, que arde no firmamento…

Alberto Cuddel
11/01/2021 00:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha IX

Teu …

Teu …

Sou sem rumo certo,
Marido trofeu, poeta teu,
Amante insatisfeito, insaciável
Incansável de teu ser…
Sou, um pouco do tudo
Sonhado, que em ti foi
Por mim realizado!

Alberto Cuddel

Luares de sangue

Luares de sangue

rasgam-me o peito as palavras ladradas e as cadelas no cio
nesses uivos contidos por sopros na noite…
há demónios soltos na planície árida de uma folha vazia

rubras são as horas negras da solidão
cálidos os pecados ocultos pela devassidão máscula
em doces palavras escritas por dedos trémulos
egos inflamados habitantes de decadentes corpos…

há lobos feridos em peles de cordeiro
e cordeiros mal vividos moribundos que se arrastam
curandeiros que os procuram, curam e domesticam
aprisionando-os em grades tépidas de algodão…

e fodem… sob o peso da lua que os esconde

esses lobos velhos em espíritos juvenis
como se morressem depois, felizes…
matando e ferindo a matilha alfa que deixaram
na segurança da toca…
há luares de sangue que se erguem no rebanho…

Alberto Cuddel
10/01/2021 05:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VIII

sem titulo

sem titulo

sem titulo
sem versos
sem rimas
sem ideias
sem mensagem
mas que raio de poema,
sem imagem
sem tema!

apenas assim,
como um céu nublado,
preludio do sol,
esse sim amado!

fora eu poeta,
fora eu autor
escreveria um mundo
um mundo de amor!

Alberto Cuddel®

Somos

Somos

Eco da palavra pensada
Eco da palavra fingida
Eco da palavra sentida
Palavra, verso, poesia!

Rima, parelha, saudade
Letras, sentir, verdade,
Poema, som decorado
No coração gravado!

Somos poesia,
Do dia a dia,
O poema da nossa vida!

Alberto Cuddel

28/06/2016

Um poder misterioso

Um poder misterioso

entre aquilo de que é feito
e o seu feitio, o porte…
essas escadas que não dão para porta nenhuma
a não ser para a janela da dispensa da casa da tua vizinha
e que subo devagarinho numa esperança vã
como que num golpe de sorte lá fosses pedir açúcar…

e depois as andorinhas não voltaram
e não partiram as cegonhas
e os flamingos nunca mais foram vistos
e o tempo ficou seco
como secos estavam os meus olhos
que fitavam o fim da estrada
sem que chegasses…

há um poder misterioso
nesse pedaço de peito
que levaste contigo
fazes me falta sabias?
fazes-me falta…
mesmo que nunca tenhas sido minha…
mesmo que eu nunca to tenha dito
fazes-me falta
andorinha…

Alberto Cuddel
01/01/2021 16:07
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VII

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

Temo que o erro não seja uma inaptidão para a assertividade
Mas uma constante desconcentração visual pela a exactidão do pensamento…

Criticamente escrevo mais lentamente do que a velocidade do pensamento
E voam os dedos no teclado minúsculo, ou no desenho artístico das letras
Nessa inadaptação ao querer que seja já sendo o que foi
Penso que pensar não seja arte, mas uma ferramenta técnica de vida
Pensar é num acto simples estar vivo…
Sendo a poética a arte da inutilidade linguística
O deslumbramento frásico sobre a beleza da curvatura das vogais
Em pleno acto isolado de voar no céu da boca
Assim são as opiniões estabelecidas
E o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões.
Como estão cheias de árvores as florestas ou deixaram de o ser.

Ser poeta é:
Ter a arte e o engenho de perder tempo, nesse tempo que não tem
Enquanto rodeado de ninguém observa um pássaro que nada num céu sem estrelas
Enquanto Santo António prega sem martelo sermões às sardinhas
Que num acto de misericórdia divina
Foram condenadas por bruxaria à expiação dos pecados pelo fogo…
Ser poeta é amar todo o universo contido numa gota de água que cai
E encontrar num lago a gota de chuva perdida…
“É amar assim perdidamente” todo o mundo e toda a gente
É olhar a alma por dentro e descobrir que não tem cor
Nem raça ou credo… e que os deuses se revoltam
Por não terem uma cerveja gelada…

E neste acto glorificado pelos canos das espingardas
Que deram liberdade aos cravos…
Os poetas morrem… enjaulados pelas prateleiras poeirentas da biblioteca…
Sem que as palavras mudas gritem em pleno Rossio…
Há vida para lá da rima… o poeta, fugiu…

Alberto Cuddel
29/12/2020 03:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VI

Quando se fala com poetas

Quando se fala com poetas

Calam-se os olhos vendados
Deixamos que nos gritem as palavras
Que a alma se exponha
Que as veste se rasguem

Quando falamos com poetas
Tapamos os ouvidos e vemos
Abrimos a boca ao improviso
Sentimos a dor do amanhã
Como se nos tivesse morrido um Filho
Apenas ontem, ali diante dos nossos braços…

Quando se fala com um poeta
Olhamos incrédulos o nosso reflexo
No espelho do seu sentir…
Como se nos lesse, em cada silêncio…

Alberto Cuddel
Poema resposta a um poema de Ruth Collaço
29/12/2020
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha V

Entre a fúria do querer ou o acto enjeitado de votar

Entre a fúria do querer ou o acto enjeitado de votar

Podia ser tesão essa visão plena das propostas explanadas para a vida do homem
Mas era tão somente desprezo…

Entre o acto do beijo e a cruz traída por escassas moedas
Opto pelo nulo, quem sabe até uma abstenção branca
Há nesse acto de escolha um que de másculo
De sentir ali, o poder na ponta dos dedos
O imaginar o orgasmo sentido pelo vencedor
E o desastre eleitoral do vencido… sim é a cara de desalento que me enche de tusa…

De cartão em punho avança o eleitor
Lê, dita, escolhe, rabisca e vem-se…
Está escolhido, agora aguarda os preliminares daqui a cinco anos
Enquanto como cidadão continua a ser fodido…
Mas há uma vez, uma única vez, que os fode…
De tempos a tempo o eleitor, fode-os…

E depois as promessas… o namoro incontido…
O tesão dos debates, ali, diante dos seus olhos
Os candidatos lutam por ele… pela sua cruz…
Mas o eleitor escolhe, de entre todos escolhe um…
Mas o que lhe dá tusa é foder todos os outros…

Porque o orgasmo está:
Entre a fúria do querer e o acto enjeitado de votar!

Alberto Cuddel
26/12/2020 03:12
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha IV

Mediocridade do beijo…

Mediocridade do beijo…

…teria fodido muitas mulheres,
Dado prazer até, amado…
Mas nada é tão medíocre que o sonho de beijo
Nada é tão ignobilmente medíocre
Quanto o desejo de apenas as beijar…

Se é para ser que seja, mas que seja tudo…
Não apenas o cultivo do poucochinho…
Do quase nada, era para ser, mas não foi
Do não foi bem, mas quase….

Teria fodido muitas mulheres nos sonhos
Mas o fodido seria sempre eu
Pelo facto de tê-las amado a todas
Por inteiro, sem reservas, apenas perdas
E tudo apenas por beijo….
Um beijo pelo universo
O universo por um rebuçado….
Teria sonhado foder muitas mulheres
Mas no final o fodido era eu….

Alberto Cuddel
13/10/2020 4:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha I

Diário Branco

Diário branco

Definem-me pelo tudo que tenho, sendo o eu o nada que possuo
Nem os meus pensamentos gritados ao vento são posse minha,
Perdem-se na chuva de gritos perdidos nos ouvidos do mundo,
Espero apenas que a lua se deite, para que amanheça em mim,
E por fim, descanso, do cansaço que o pensamento me causa,
Noite branca, dormente na inquietude pensante total e vazia,
Fustigam-me ideias suicidas de novos versos e reversos poéticos,
Poema inacabado, borboletas que esvoaçam perdidas no mar,
Doce imagem do teu corpo nu, vestido com a alma apavorada
Triste solidão que te conforta, no vazio silêncio que a noite dita!

Ai de ti poeta das rimas feitas e frases vazias,
Onde te deitas? Tabuas negras e frias!

Tenho mais certezas que duvidas, pois duvido de todas a certezas,
As dúvidas que me assaltam, espreme-me, esvaziam-me
Deixam-me nu, nunca me acostumo a despir-me das palavras,
Nem à ideia de que as gaivotas fogem do mar,
Ou que sejam as andorinhas a comandar a Primavera,
A casa essa está fechada, nada aberto, nem porta nem janela,
-mesmo assim duvido, que mesmo fechada vivas nela.

Nunca esperei um fim, um principio,
Tudo segue um rumo, um destino,
Um sussurro, um abafado grito,
Desdigo-me, minto, finjo
Nem de ti, nem de mim, nada dela,
Que me contas, do tempo do nada?
Porque te finges ser um tudo,
Se no tudo que do alfabeto se pesca
És meramente actor, um mero poeta!

Alberto Cuddel®

Aborrecimento!

Aborrecimento!

Passo adiante, apressado e constante,
Que aborrecimento, ver-te assim caído,
E sonho distraído, vago e ausente,
Diferente, indiferente a tanta gente!

Corra o mundo,- grite o mundo insanidade,
Que aborrecimento, que suja esta a cidade,
E esse vestido preto, onde me fazes sonhar,
Dispo-te o pensamento, na alça descaída,
Que me importa, não deixo perder-te no olhar,
Saio, não saio, fico, sonho e passo a saída!
Que aborrecimento, que faço eu da vida?

E chove, algures no mundo,
Aqui e agora pouco importa,
Sei-me indiferente, ao sol,
À chuva, ou a uma qualquer porta!

Que aborrecimento,
Tudo por um preto vestido,
Que quis em teu corpo despido!

Alberto Cuddel

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