Ecos do vento

Ecos do vento

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…
há na parede caiada um rasgo de alecrim
sorris, mas segues caminho diante dos desempregados
esses que te fitam por detrás das cortinas com medo da morte…

e fecharam as lojas e as caves…
fecharam as hortas e as adegas
não há ecos de talheres nem brindes…
os cafés parcos, não lançam baforadas de fumo
não se dizem poemas, não se discute, não se insultam árbitros…
confinaram-vos a alma, pelo medo da morte…
enquanto eras novo, fugias do sol…
abraçavas corpos, partilhavas copos…
depois infectavas os avós que morriam…
e as tias dos lares, as crianças da escola,
e os enfermeiros médicos, e tudo recomeçava…

agora olhamos o eco do vento que passa
sem que ninguém passe por nós…
e de noite? ninguém…
apenas os desempregados espreitam
os outros que ainda tem trabalho…

e essa merda de medo…
quando as regras de tão simples foram esquecidas…

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…

Alberto Cuddel
11/11/2020 02:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha III

Liberdade de escrever longamente…

Liberdade de escrever longamente…

“No dia brancamente nublado entristeço quase a medo
E ponho-me a meditar nos problemas que finjo…
(…)
Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.”

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro.

há no fingimento da realidade uma chuva miudinha que me turba o olhar
e penso, penso longamente do riso em riste, no punho erguido e na intolerância
não serão apenas humanos, sem catalogação de cor, raça, religião?
ou graça nessa humanidade perdida uma ignorância de lesa-a-pátria?
amaldiçoado o povo que não ri dos seus próprios defeitos, erguendo as mãos
defendendo uma fé cega da qual desconhece o fundamento…

a ideia de humanidade é minha, tão somente minha que não a evangelizo
creio que a realidade me consome as entranhas, pelo não questionamento
nua é a facilidade com que se crê, sem criticismos do que se escuta
tudo se toma pela verdade, mesmo que a mentira se escancare diante dos olhos…

já fui do tempo em que existia ciência,
em que as hipóteses de tese careciam de comprovação
hoje é uma mera questão de opinião crente…

as verdades não são perfeitas por serem escritas
mas antes por o ter sido questionadas, comprovadamente…
penso que a verdade é uma mera conclusão da irrealidade do sonho
e o mundo avança de mentira em mentira
perigosamente rumo a um passado que haviam esquecido…
reactivam-se as cameras de gás… há milhões em fila, rumo ao extermínio…
não dos corpos, mas dos ideais libertários de uma vida de pensamento livre
de uma vida com futuro…

ontem viajei o mundo mais rápido que o som, hoje não…
e calamos as vozes livres, porque elas condenam-nos…
por um bando de peçonhas que se acham donos da palavra…

“Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.”

Alberto Cuddel
10/11/2020 1:37
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
venha deus e escolha II

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