Jogam-se cartas viciadas sem selo…

Jogam-se cartas viciadas sem selo…

rio manchado pelo sangue negro do fogo
ardem-me as mãos calejadas pela insignificância
atravessam a rua pés descalços, filas sem destino

[fugitivos da reclusão domiciliaria, suicidam-se]

pensam que pensam livremente, enganados
presos a consciência do nada, que nada elegem…

tocam bateria no quarto andar, e eu moro em moradia
que me importa o ruído da noite, se eu durmo de dia
e tudo é tão sujo, este chão, mas não me curvo

apenas olho o céu, e o fumo que sobre mim se abateu
há portões que se fecham, e reclamam das eras do muro
dos assalariados governamentais, e doutros deputados tais
viciam os jogos, vencendo os mesmos
e aplaudem como roubos adestrados
sorrindo na sua artificial liberdade
[e lutam como Cervantes contra moinhos de vento]
não percebendo que o mal, não esta fora, esta dentro

falam, discutem ameaçam com greves
mas vergam-se a falta de pão individual
o colectivo nada é, irmãos, quais irmãos
viva a meritocracia do ter, não do merecer
que me importas que morras aqui ao lado
escrevo, rio, bebo e fodo…

[e fodo-vos em prol de um egoísmo tacanho]

o resto, o resto são danos colaterais sem sentido
que a mim, a mim, nada me incomoda
das palavras que não leio, para não saber…
apenas rio, e sofro, pelo sofrer humano
de tudo querer e nada ser feito, nada fazer…

jogam-se cartas viciadas sem selo,
em caixas de correio electrónico
dizendo que se disse, sem dizer
sem nunca se comprometer, para não perder…
que jogo viciado este em que vamos morrer…

Alberto Cuddel
06/05/2021
13:55
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIX

Vento da vida de mim me escorre…

Vento da vida de mim me escorre…

Soprou a vida no alto da colina
A morte corre afoita pelo vale
De que me vale toda adrenalina
Os dias e a pressa que resvale
Se nada se me aproveita, morte
Tempo que de paz nada tem
Tempo construído e pouca sorte
E eu não me encontro em ninguém!
Soprou a vida um pouco de paz
A morte espreita enviesada
Cousas belas que o amor me traz
Vida mal vivida, mal tragada
Gasta no nascimento concedido
O mundo deixa-me quedo
Emprenhando a alma pelo ouvido!
Mas por impulso de vida
Não por cansaço ou medo
Não fico, estou de partida,
E o sol, que me morre no rosto
E o vento que me corre em morte
Há um que de graça no sol-posto
Uma rua suja, a húmida e corte…
Os pés rasgam-se nas solas
As mãos vazias, com fome
Tudo o que nos dão, esmolas
Sociedade hipócrita, consome…
Soprou a vida, e morreu
Assim como nos fez Deus
Não sou dia ou noite, eu
Apenas um sussurro, um adeus…

Alberto Cuddel
04/05/2021
18:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVIII

A vida

A vida

Corria a farta sombra à minha frente
O sol no prumo do dia, bailava e sorria
Sob nuvens brancas e cheias a luz mente
E a sombra que eu perseguia desaparecia!

E segui o sol, como os dias sem gloria
Desta vida arrastada pelo tempo nu
Os pés arrancam o pó, num olhar cru
Vê portas e janelas, verdes da história!

A vida chama a lua nocturna e branca
Há na imensidão do tempo, carência
Esse tempo esperança onde nos lança…

A sombra, sequelas do pecado da luz
Que se faz humanidade por convergência
Na saudade esconde-se por detrás do capuz!

Alberto Cuddel
23/04/2021
10:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVII

Eles vieram de longe e chamaram-me

Eles vieram de longe e chamaram-me

eles vieram de longe e chamaram-me
eu, chamaram-me a mim?
que só agora havia chegado à meia-idade
um pouco antes do sol do meio-dia
podia ter sido tudo, mas chamaram-me
além dos desertos caminham árvores
marchando contra a humanidade que mata
carrego no peito uma pedra, açoitam-me
correm regados de dejectos na borda da estrada
e sigo em sentido contrário, busco a sua origem
defronte da igreja alguém pede esmola
ao pé da escola, apenas pedem palavras
e frases que nos levem ao saber do pensamento
cada um pede o que lhe faz falta
alimento, sempre alimento, ora corpo, ora alma
e sigo em direcção ao que me clamam
não tenho porquê ir, ou porque não ir
então vou, vou porque me chamam
dirão que perco tempo, os melhores dias
que estou resignado à sorte, minha sorte
mas dentro de mim há reservas colossais de tempo
de presente, de amanhã, de futuro e pós-futuro
de pretéritos perfeitos guardados do estômago
tenho ainda metade do tempo todo
eu que carrego a idade madura nos olhos
que rompi meias solas nos pés…
e sigo porque me chamaram
negociando baixinho com os conspiradores
a derradeira hora da chegada
podia ter sido tudo, um abraço
um beijo, um aconchego, companhia
mas fizeram-te acreditar que seria mentira
e sigo então sem esperança
apenas porque me chamaram
a rua atravessa o regato ali à frente
depois da curva à direita, um pouco antes do castelo
e todo pedem clemência, compaixão
vêm de todo lado, mascarados de quem não são
porque se o fossem não viriam e não pediriam
eu vim, sim vim, mas porque me chamaram…
aqui estou…. cheguei…
somente eu, já sem palavras…

Alberto Cuddel
22/04/2021
16:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVI

Esse ventre esquelético que me pensou…

Esse ventre esquelético que me pensou…

nascem as nuvens rasas a oeste
nessa poeira continental que me invade
sou a cor do tempo que me fez
eu que fugi do homem e povoei o inóspito
eu que me fingi crente que inventei deuses
– que rasguei cânons pela promessa de lucro
quantas vezes idolatrei esse ventre esquelético que me pensou?
arte ilusória de brincar com o pensamento enganando as palavras…

de que me valem os pactos com o inimigo, se negoceio com deus
a paz com o diabo…

pudesse eu aniquilar-me no desejo de deixar de existir,
dar corpo à antimatéria que me corroí as entranhas.
pudesse eu imobilizar-me no desejo apenas de estar quieto,
até que o coração abrandando o ritmo, parasse nas batidas sincronizadas.

pusesse eu tornar-me folha em branco
onde coubessem todas as ideias do mundo,
para que o pensamento se desligasse

depois de tudo isto nasceria, não pela arte aleatória da fecundação
mas pela matemática do pensamento fecundo…

depois de nascer, seria poeta, desses que escrevem poemas perfeitos
com métricas perfeitas e rimas sonoras, ricas claro,
que rimas pobres não fazem história…
escreveria sobre o sol, pois o sol existe…
mas escreveria apenas de dia
porque aqui, aqui de noite o sol não brilha…

nascem as nuvens rasas a oeste
nessa poeira continental que me invade
sou a cor do tempo que me fez
um poema no deserto que agita as canas…

Alberto Cuddel
20/04/2021 01:55
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LV

A minha terra

A minha terra
Minha de verdade!
Essa que me viu nascer gente
Onde nasceu o sol, já quente
E adormece bem longe da cidade!

Longe está esse porto de abrigo
Rasgo da montanha sóbria
Pelo olhar virgem que inebria
Pecado, cometido por castigo!

A ti retorno em plena vida
Cada instante que me acolhe
A água límpida assim molhe
Enquanto espero a despedida
Caminho que me fazem os pés
Pelo perfume do rosmaninho
Subindo a ladeira devagarinho
Encontras nas pedras quem és!

De cima que o olhar corrompe
Do passado da história, fulgor
Faz-se há mesa vitoria, amor
Que a voz altiva nos interrompe!

Hoje tudo quase sem dono
Pelas gentes que daqui partiram
apenas os velhos, os novos fugiram
e os montes por limpar ao abandono!

Despois vem as ideias
Os sonhos dos desempregados
Aram campos abandonados
E nos campos sonhos semeias!

Pudessem ainda os avós ver
A nova vida que agora se faz
Dessa nobre vontade mordaz
Que na terra se faz nascer!

Alberto Cuddel
18/04/2021 3:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIV

Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

magras, tuas mãos alargam-se sobre quem a vida sequestra
ainda que os braços pendam sem forças
sob o jugo do peso da discórdia
erga-se a vontade da vida, partilha do pouco
uma vontade de ser, apenas amanhã…

há na fecundação da palavra essa vontade decrescente
esse parir esdruxulo das ideias rasgadas pelo arame farpado da fuga
– já estive preso mas libertei-me
– já foi militante e solado de uma guerra ignorante onde não pensava…
tudo pelo conforto crasso de uma côdea de pão bafiento
que a morte deixava a cada dia dependurada
na maçaneta da porta que nunca era fechada…

eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…
essas ideias pré concebidas que que a fé não se contesta
como a fezada de uma partida de futebol sem adversário…

onde te morreram as certezas?
plantadas no pinheiral do tempo como forma memorável de uma eternidade…
e mandaram-te plantar tâmaras… e morreste… sem nunca entender o porquê…

a poesia tem exactamente essa serventia:
pensar que serve para pensar, em rigorosamente coisíssima nenhuma…
desde que rime, no ritmo certo, tudo está longe, do que já foi perto…
há ninhos de barro, e jarros de palha…
mandaram-te ir, e tu foste…
porque não conhecias o não e a sua forma de o pensar…

morreu ontem a Primavera, e os frutos cariam maduros,
não porque são livres ou pensam, mas porque assim chegou o seu tempo…
e veio o Verão, e o olhar o céu, de olhos fechados, enquanto tostam ao sol…

Alberto Cuddel
17/04/2021 3:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIII

Ondulação metódica do caos que é o ser

Ondulação metódica do caos que é o ser

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

e os degraus eram três
depois dos dois que antes estavam sujos
e eu descei-os, deixei-os para trás
lá onde a infância morre…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

ecoava o cravo na nave vazia
esse ferir das cordas como quem mata
estridentes e lancinantes notas sem rosto…

e eu, eu tu, ali diante do altar…
a minha mão na tua, e pusemo-nos andar
a cidade vazia, o cheiro de morte no ar
não há vida para la porta, para lá do chão…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas minhas palavras…

tantos de nós, de vós fechados em conchas
túlipas que secam em campos murados
sem palavras que nos alimente a alma
em raízes voláteis e secas de conhecimento…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

começa a haver noite e frescura,
em vozes que aparecem daqui e dali,
e vales e montes, e mãos e pés que caminham…
trovões e bombos…
músicas do tempo de agora,
de ontem que se lembram…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

As paredes oprimem e aquecem,
fecham ideias em janelas abertas,
o mundo entra dentro do quarto, da sala, mas prendem-me o corpo…
neste intervalo de tudo o que sonho e escrevo,
perco-me procurando-me entre as brumas que não chegam e nevoeiros,
meras recordações turvas dos copos
que tilintavam entre gargalhadas e brindes…
eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

“Amores entre aromas de café”*
a vontade de o dizer de pé,
de o gritar, poemas de amor, ridículos, como ridículas as cartas…
nesta vontade de escrever silêncios, calo-me e fico, apenas fico…
nessas pedras empilhadas, o sino que chama
nesses rumos longínquos do tempo que passa
a lua vem… não arrefece, não aquece, não chega ninguém…

e eu?

Eu vou amar-te…
para que me perca
ainda que me encontre,
nas tuas palavras,
que levemente atiras na despedida
“amo-te ainda que não o saibas…”

Alberto Cuddel
02/04/2021 4:44
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LII
*Livro de Tomé Nicolau

Getsêmani

Getsêmani

por trinta pratas osculas o teu mestre
pela avareza entregas aos carrascos quem te fez…

há nessa arte sempiterna de fazer luz do fruto
iluminando a escuridão da mente humana
nobre óleo de oliva, puro na pedra moído
que angular se fez sustentando a fé invisível
insolúvel na fonte da vida, fé de samaritana…

pela espada feres por ela serás mordido
tu que vives na glorificação da calúnia
em palavras floridas e rançosas, escolhidas
na agrura do arrependimento enlaças-te
batendo com a mão no peito, culpado…

descalça-te e faz o caminho, penitencia-te
percorre o pó das pedras que o chicote colocou
esse que te leva à glorificação do sacrifício
em pleno circo romano, declara-te trágico
e que me morra o espírito, nascendo alma nova
pela água podes ser resgatado à luz…

que se faça “Getsêmani” em ti e de fruto
te faças luz, e que da tua boca as palavras
que proclamas aos homens, se façam luz…

Alberto Cuddel
01/04/2021 05:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LI

Corpo-Abrigo

Corpo-Abrigo

Há nesse Corpo-abrigo uma esperança de vida, uma sorte, um desejo-amor, uma fórmula mágica que nos recolha do mar, que nos faça acordar do desespero da solidão. Há nesse corpo-abrigo uma calma que me espanta, um querer que me arrebata, uma força que me chama, e nele quero existir, nele faço-me, a ele me entrego na plenitude humana de ser tudo, e completo.

Depois desabrigo-me neste calor que se avizinha, nesta fúria do caminho em corrida, em que a noite minga, e o tempo faz-se luz e cansaço, e depois, depois aninhamo-nos no espaço curto de um abraço enquanto esperamos pela frescura ampla da madrugada, e amamo-nos quando todos estão calados…

E antes que a vida nos separe, juramos sentires eternos, ali diante dos céus, das estrelas e do paraíso, porque de inferno literal estão os dias cheios e fartos de uma separação rasgada imposta por uma sociedade corrupta inimiga da felicidade humana…

E no teu-nosso corpo-abrigo existimos plenamente além da realidade física, somos alma ungida e abençoada pelos espíritos livres que nos vagueiam pela mente…

Somos a perfeição do que de nós fizemos, mesmo antes da vida ser vida estávamos destinados a existir… ser eternamente confiança, corpo-abrigo meu…

200 – palavras

Alberto Cuddel
30/03/2021 09:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha L

Imagem de João Gomez photography

Poética XV

Poética XV

…se escrevessem de mim, seria meramente um ponto
ali, escarrapachado no fundo da folha, no canto inferior direito…
talvez tivesse um traço hirto por cima
que admiração, um ponto… e tudo era ele, apenas final…

vieram os dias e as noites e a moléstia do conformismo
e as palavras que vagueiam ausentes, sem um calor que as ergam
já não me advém os sonhos, ou o desassossego da criação
as coisas são o que são, e tu morreste… nem um adeus…
nem uma carta, uma despedida… simplesmente desististe de acordar…

atiro-me para uma rua vazia, que nunca me leva a lugar algum,
nem mesmo esse parapeito alto da janela fechada,
em aros verdes e vidros transplantastes,
que ocultam o azul que se faz reflexo olhar.

nitidamente os passos dados nunca significam nada,
no sonho, nem a queda do precipício deste pesadelo sem fim que é a vida…
ainda que as nuvens me amparem,
por entre beijos salgados, por lágrimas de amor,
juras eternas e tempos perdidos no transito por uns meros vinte minutos,
sim vale a pena, ainda vale a pena…
já as lagrimas da saudade essas jamais apagaram
e as velas ardem iluminando as noites em perfumes de canela e maça…

neste tempo quase tão irreal quanto o sonho, nada é, que não o façamos…
e eu? Que tão pouco sou e quase nada faço… apenas sobrevivo ao tempo…
esse que passa sem macula, esse em que estamos presos dentro de nós mesmos
revelando que afinal nada somos, nem número… apenas um ponto…
no final da folha… no canto inferior direito…

Alberto Cuddel
27/03/2021 17:25
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIX

Poética XIV

Poética XIV

hirtos mastros erguem orgulhosamente bandeiras…
onde vos mora a pátria?
no chão? na voz?
no coração, na alma humana?

sou filho das gentes com quem me cruzei
filho do mundo e da língua que falo
enteado adoptado pela terra onde vivo
herdeiro das palavras já escritas
filho bastardo da literatura marginal

filhos dos mestres que me ensinaram
e de ti, madrasta filosofia que me ensinaste a pensar
e de ti alucinado poeta que me obrigaste a descobrir-te…

filho da rima e do ritmo do fado,
do vira do Minho e do volta a virar…
sou filho das gentes, não do lugar…
é nesta pátria língua que nos conhecemos
não na poeira dos pés, não nas pedras do monte…

quem somos e quem nos fez…
como viemos, onde estamos
pouco importa… apenas sei
que me entendem…
e ser humano é partilhar o que se sabe…
com outros que nos compreendem…
isso é ser… existir…
o resto…
bem o resto é apenas naturalmente natureza…

Alberto Cuddel
26/03/2021 15:15
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVIII

Poética XIII

Poética XIII

Há na noite vadia,
Pronuncio de sede
A leveza das palavras
E esse querer livre que nos consome…
Há copos partilhados
Segredos bebidos nos lábios
Voltas nocturnas nas dunas
E bronzeados de lua…
Esse tesão consumido
Querer gravado nos silêncios
E vírgulas em contramão.
Contra-ordenações da interpretação
Orgasmos nas exclamações
E comboio que passam
Sem a noção real das rimas
Caldeira cheia de carvão…
Pouca terra, pouca terra
Água que nos enche a caldeira
Mel bebido nos lábios
Em prece oração fálica
Bebes segredos da poética
E entre autores, ética…
Ninguém mama da inspiração
Apenas beija os seios
Do amago da significância…
Entre as eloquências da aparência
És… de Prada despida mulher
Rubro batom nos lábios
Verniz encarnado, nas faces de quem lê…
Assim é o orgasmo poético
Bebido lentamente
Em copos de poemas…
Engarrafados no tempo
Em que o poeta sadino
Com escarnio e bem-dizente
Cantava os orgasmos da corte…
Em resposta e contra-resposta
Que o ignorante nos pague a conta
Deste poema grosso
Que nos enche a boca…

Alberto Cuddel
22/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVII
Poema resposta a Cristina Pinheiro / @asas da Cris

“Cabaré”

Gosto da noite vadia
Ostenta luxo e fantasia…
Sinto em mim odor sexo. ainda quente…
Excitante rotina de prazer!
Sou menina vestindo oiro
Talvez Prada ou Gucci talvez!
Me reinvento dia a dia
Neste alegórico trilho
Que preenche a minha vida…
Desfilando pelo baile
Oiço risos de engate
Derivam estes por vezes
Do Grant’s já embebido
De um coração desesperado…
Sim, gosto que olhes para mim
E me chames para ti…
Mas presta atenção… tem coragem
Olha-me nos olhos da verdade
Ouve o bater do coração…
Somos dois seres tão iguais!
Lembra-te que um dia eu também fui criança
Talvez criada no Nada…
Quedas mais quedas eu dei
Fiquei desenformada do que um dia talvez fui…
Tantas vezes o odor do vício desprezível me agoniza
E então vomito estas sequelas vividas…
De mim fujo!
Transformando-me então naquela boneca vestida de Prada preenchida d’um nada…

Cristina Pinheiro

Foto de João Gomez photography

Poética XII

Poética XII

o corpo essa alma móvel na perseguição do Olimpo terreno
arte de sonhar diferente do estar, sentir o sol em dias de chuva
uma linhagem de interpelação permanente, sou, és, onde estamos?

olhamos lado a lado a vida que nos passa pelos pés
essa vitória do espírito sob o corpo nosso
olhar os montes para lá do por do sol,
e o vento nos cabelos, o amor ali, na ponta dos dedos

juremos juntos segredos nossos, não da vida
mas da alma que sonha além do homem e da terra
além da vida e da existência, segredos pensados em sonhos
e neste desassossego da escrita, em que as palavras existem
somos apenas apêndices de uma alma velha que se desmembrou
vidas cruzadas e repovoadas pela história…

lemo-nos, nesses silêncios ocultos por de trás das vírgulas do tempo
no contorno acidentado das vogais…
há nas palavras esse rasgo de vitória
essa força sobre-humana de gritar ao papel palavras da alma…
essas que o corpo guarda em prisões neurónicas
quando à alma já não é permitido chorar…

sabes poeta… tenho inveja dos que não lêem…
esses não conhecem a tua angústia…
assim, sofro, não por mim… mas pelas palavras que te nascem…

Alberto Cuddel
19/03/2021 17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

Poética XI

Poética XI

neste olhar distante, olho…
por essa nesga verde
por entre troncos hirtos
esse caminho de fuga
fechado, estreito, sem destino.

nessa frincha de céu visível
deposito os sonhos, como ovos que capto na lente
nessas nuvens que passam livre para lá do portão
aponto a nesga do olhar que ninguém vê…
confundidos entre o verde da vida
e todos os outros que se erguem estáticos do chão…

essa esperança que vive para lá da vedação…
para lá do hoje e do amanhã…
para lá deste carreiro cotiado até ao portão de tábuas…
e as tábuas… essa prisão eterna do corpo…
“ repousarás na terra numa caixa de tabuas,
sete pés abaixo do chão…”

e escondo-me aqui, bem aqui entre um tronco e o outro
e olho, o carreiro, pelo cristalino
enquanto sonho, com essa esperança de fuga
virtudes da liberdade, de pois de transpor as tabuas…
espirito e alma… livres dos vícios terrenos…

Alberto Cuddel
15/03/2021 16:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

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