O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel 
24/05/2021 
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXV

Apaguem-me a luz…

Apaguem-me a luz…

rasguem-me a alma e cosam-me a túnica
apanhem-me do chão, colem-me os cacos
ou apenas deixem-me, ali espalhado ao tempo…

apaguem a luz e partam… aqui nada há a ver…
deixei de me importar… deixei de viver…
que me advenham os ventos e tempestades
que me esqueçam as humanas almas…

que me enclausurem nos calabouços do tempo
sem esperança nas palavras que me anoitecem
rogo-vos celtas divindades que me tomem
que me levem na viagem eterna, sem luz e sem lanterna
sem a visão do caminho, que me deixem, só, sozinho…
não me importa o gelo eterno, ou o calor do submundo
apenas quero a paz do silencio, e a luta comigo mesmo…

vão, vão, desapareçam… mas apaguem a luz…

Alberto Cuddel 
22/05/2021 
12:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIV

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

“Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar.”

Bernardo Soares

sofri em mim, os males do mundo e os erros que cometi
rasguei-te o peito no sofrimento das palavras,
essas que se cravam na alma como punhais…

e as almas e foram, e a dor que ninguém disse
os pés no chão, o gelo das águas…
a brisa no rosto, areia molhada,
e esse querer… essa força que me chama…
mas a dor é para ser sentida, a culpa para ser carregada…

aqui, bem em baixo, afastando-me do alto onde estou
em desnivelamentos de sombra, dorme ao luar,
ao longe, dormes e contigo a cidade inteira.

há um desespero em mim, uma angústia de existir
dizes “culpado”, mas presa a mim carrego a culpa da dor
essa que extravasa de mim todo sem me exceder,
compondo-me o ser nessa vontade de morrer
em ternura, na pressa de te arrancar do peito a dor
e do olhar a minha imagem…
e eu caminho, sem pressa, já sem tempo, sem medo, dor ou desolação.

apenas caminho, sem pressa e sem destino…
na esperança vã de que me purifiquem as águas
a culpa que minha alma carrega…

Alberto Cuddel 
19/05/2021 
02:43
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIII

O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel
24/05/2021
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LXIV

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos, como se tivéssemos acabado de gritar todas as palavras para o papel, como que um despejar da alma… Depois vazios, calamo-nos…  

Olho aquela imagem reflectida no espelho, vazia… Desconheço-me… Não estou ali, estou nas palavras, na alma das vírgulas, nas pausas, nos silêncios…  

Perguntei-me de seguida, pelo resto das vogais que me sobram, onde nasceram as consoantes, que segredo o nosso de vivência sem contacto, onde nos sobra a tempo sábio e o outro sábio tempo onde obramos o pão dos dias? Que saudade tempo renova e matiza o querer diante do sofrimento que te imponho nas palavras segredo que lês? 

E gasto o restante silêncio cheio, em pensamentos vãos, sem um perdão, neste vazio que me enche…  

Mais que tudo deserdei-me do teu peito… Mas não chores, não acordes os passarinhos, não entristeças as flores, deixa que o sol te aqueça e abraça o dia… Quem sabe um dia, depois da madrugada, eu me volte a encher de palavras, eu me volte abrir, para te abraçar na plenitude do perdão que se faz com as mãos…  

Alberto Cuddel 
13/05/2021 
18:27 
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXII

“ilumina-me”

“ilumina-me”

Que sejas a sarça ardente que me ilumina as auroras

antes que me amanheçam os dedos,
que te procure o olhar nas estrelas ardentes
que sejas fogo que me abraça em manhãs de segunda-feira…
que sejas palavra e voz que chama [ilumina-me]

que a luz ténue que te ondula na alma, se faça fogo
que a chama que te bruxuleia nas mãos se faça plena
que os gestos teus contaminem e contagiem [ilumina-me]

sinto, como quem sente o vazio, esse desejo de nada…
essa vontade de tudo, sem caminho e direcção
de braços abertos, espero o amanhã… [ilumina-me]
antes que me arrebate a noite, antes que me preencha o negrume…

faça-se luz na nave, nesses passos contidos, enquanto deitado…

caminhar pesado, lágrimas vazias de água…
e depois do adeus… a cada fim de tarde…

[ilumina-me]

Alberto Cuddel
11/05/2021
14:40
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LXI

Nesse acordar de amanhã

Nesse acordar de amanhã

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
entre a esperança no acordar, uma vida vazia
um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…

mundo mudo, silêncio mudo —
o ruidoso ronco em que dormes
faz de mim um corpo surdo
rebolando em camas disformes.

vida que me corre nas paredes sombrias
que desliza pelos gélidos lençóis do leito
memória do tempo que em mim sorrias
dor da solidão que carrego no meu peito!

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
uma esperança perdida, sombra no torso
essa voz que ecoa, na consciência adormecida
numa mão estendia, uma vontade que voa…

entre a esperança no acordar, uma vida vazia
num cérebro tolhido, escondem-se as rimas
palavras que mergulham numa total anarquia
nessas arvores azuis que crescem anonimas…

um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
as mãos sujas de terra, lágrima escorre finada
e se acordar amanhã, não viverei aqui sozinho
neste mundo ninho, orvalho da doce manhã…

um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…
a certeza consciente de que morri em vida
antes que parta deste da aspereza deste inferno
abrindo o peito, expondo escancarando o esterno…

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
entre a esperança no acordar, uma vida vazia
um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…

um coração que morreu… abraçado no silêncio…
que se faz vida nesses pinheiros altos
enquanto ainda ardem as serras…

Alberto Cuddel
10/05/2021
15:40
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LX

Jogam-se cartas viciadas sem selo…

Jogam-se cartas viciadas sem selo…

rio manchado pelo sangue negro do fogo
ardem-me as mãos calejadas pela insignificância
atravessam a rua pés descalços, filas sem destino

[fugitivos da reclusão domiciliaria, suicidam-se]

pensam que pensam livremente, enganados
presos a consciência do nada, que nada elegem…

tocam bateria no quarto andar, e eu moro em moradia
que me importa o ruído da noite, se eu durmo de dia
e tudo é tão sujo, este chão, mas não me curvo

apenas olho o céu, e o fumo que sobre mim se abateu
há portões que se fecham, e reclamam das eras do muro
dos assalariados governamentais, e doutros deputados tais
viciam os jogos, vencendo os mesmos
e aplaudem como roubos adestrados
sorrindo na sua artificial liberdade
[e lutam como Cervantes contra moinhos de vento]
não percebendo que o mal, não esta fora, esta dentro

falam, discutem ameaçam com greves
mas vergam-se a falta de pão individual
o colectivo nada é, irmãos, quais irmãos
viva a meritocracia do ter, não do merecer
que me importas que morras aqui ao lado
escrevo, rio, bebo e fodo…

[e fodo-vos em prol de um egoísmo tacanho]

o resto, o resto são danos colaterais sem sentido
que a mim, a mim, nada me incomoda
das palavras que não leio, para não saber…
apenas rio, e sofro, pelo sofrer humano
de tudo querer e nada ser feito, nada fazer…

jogam-se cartas viciadas sem selo,
em caixas de correio electrónico
dizendo que se disse, sem dizer
sem nunca se comprometer, para não perder…
que jogo viciado este em que vamos morrer…

Alberto Cuddel
06/05/2021
13:55
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIX

Vento da vida de mim me escorre…

Vento da vida de mim me escorre…

Soprou a vida no alto da colina
A morte corre afoita pelo vale
De que me vale toda adrenalina
Os dias e a pressa que resvale
Se nada se me aproveita, morte
Tempo que de paz nada tem
Tempo construído e pouca sorte
E eu não me encontro em ninguém!
Soprou a vida um pouco de paz
A morte espreita enviesada
Cousas belas que o amor me traz
Vida mal vivida, mal tragada
Gasta no nascimento concedido
O mundo deixa-me quedo
Emprenhando a alma pelo ouvido!
Mas por impulso de vida
Não por cansaço ou medo
Não fico, estou de partida,
E o sol, que me morre no rosto
E o vento que me corre em morte
Há um que de graça no sol-posto
Uma rua suja, a húmida e corte…
Os pés rasgam-se nas solas
As mãos vazias, com fome
Tudo o que nos dão, esmolas
Sociedade hipócrita, consome…
Soprou a vida, e morreu
Assim como nos fez Deus
Não sou dia ou noite, eu
Apenas um sussurro, um adeus…

Alberto Cuddel
04/05/2021
18:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVIII

A vida

A vida

Corria a farta sombra à minha frente
O sol no prumo do dia, bailava e sorria
Sob nuvens brancas e cheias a luz mente
E a sombra que eu perseguia desaparecia!

E segui o sol, como os dias sem gloria
Desta vida arrastada pelo tempo nu
Os pés arrancam o pó, num olhar cru
Vê portas e janelas, verdes da história!

A vida chama a lua nocturna e branca
Há na imensidão do tempo, carência
Esse tempo esperança onde nos lança…

A sombra, sequelas do pecado da luz
Que se faz humanidade por convergência
Na saudade esconde-se por detrás do capuz!

Alberto Cuddel
23/04/2021
10:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVII

Eles vieram de longe e chamaram-me

Eles vieram de longe e chamaram-me

eles vieram de longe e chamaram-me
eu, chamaram-me a mim?
que só agora havia chegado à meia-idade
um pouco antes do sol do meio-dia
podia ter sido tudo, mas chamaram-me
além dos desertos caminham árvores
marchando contra a humanidade que mata
carrego no peito uma pedra, açoitam-me
correm regados de dejectos na borda da estrada
e sigo em sentido contrário, busco a sua origem
defronte da igreja alguém pede esmola
ao pé da escola, apenas pedem palavras
e frases que nos levem ao saber do pensamento
cada um pede o que lhe faz falta
alimento, sempre alimento, ora corpo, ora alma
e sigo em direcção ao que me clamam
não tenho porquê ir, ou porque não ir
então vou, vou porque me chamam
dirão que perco tempo, os melhores dias
que estou resignado à sorte, minha sorte
mas dentro de mim há reservas colossais de tempo
de presente, de amanhã, de futuro e pós-futuro
de pretéritos perfeitos guardados do estômago
tenho ainda metade do tempo todo
eu que carrego a idade madura nos olhos
que rompi meias solas nos pés…
e sigo porque me chamaram
negociando baixinho com os conspiradores
a derradeira hora da chegada
podia ter sido tudo, um abraço
um beijo, um aconchego, companhia
mas fizeram-te acreditar que seria mentira
e sigo então sem esperança
apenas porque me chamaram
a rua atravessa o regato ali à frente
depois da curva à direita, um pouco antes do castelo
e todo pedem clemência, compaixão
vêm de todo lado, mascarados de quem não são
porque se o fossem não viriam e não pediriam
eu vim, sim vim, mas porque me chamaram…
aqui estou…. cheguei…
somente eu, já sem palavras…

Alberto Cuddel
22/04/2021
16:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVI

Esse ventre esquelético que me pensou…

Esse ventre esquelético que me pensou…

nascem as nuvens rasas a oeste
nessa poeira continental que me invade
sou a cor do tempo que me fez
eu que fugi do homem e povoei o inóspito
eu que me fingi crente que inventei deuses
– que rasguei cânons pela promessa de lucro
quantas vezes idolatrei esse ventre esquelético que me pensou?
arte ilusória de brincar com o pensamento enganando as palavras…

de que me valem os pactos com o inimigo, se negoceio com deus
a paz com o diabo…

pudesse eu aniquilar-me no desejo de deixar de existir,
dar corpo à antimatéria que me corroí as entranhas.
pudesse eu imobilizar-me no desejo apenas de estar quieto,
até que o coração abrandando o ritmo, parasse nas batidas sincronizadas.

pusesse eu tornar-me folha em branco
onde coubessem todas as ideias do mundo,
para que o pensamento se desligasse

depois de tudo isto nasceria, não pela arte aleatória da fecundação
mas pela matemática do pensamento fecundo…

depois de nascer, seria poeta, desses que escrevem poemas perfeitos
com métricas perfeitas e rimas sonoras, ricas claro,
que rimas pobres não fazem história…
escreveria sobre o sol, pois o sol existe…
mas escreveria apenas de dia
porque aqui, aqui de noite o sol não brilha…

nascem as nuvens rasas a oeste
nessa poeira continental que me invade
sou a cor do tempo que me fez
um poema no deserto que agita as canas…

Alberto Cuddel
20/04/2021 01:55
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LV

A minha terra

A minha terra
Minha de verdade!
Essa que me viu nascer gente
Onde nasceu o sol, já quente
E adormece bem longe da cidade!

Longe está esse porto de abrigo
Rasgo da montanha sóbria
Pelo olhar virgem que inebria
Pecado, cometido por castigo!

A ti retorno em plena vida
Cada instante que me acolhe
A água límpida assim molhe
Enquanto espero a despedida
Caminho que me fazem os pés
Pelo perfume do rosmaninho
Subindo a ladeira devagarinho
Encontras nas pedras quem és!

De cima que o olhar corrompe
Do passado da história, fulgor
Faz-se há mesa vitoria, amor
Que a voz altiva nos interrompe!

Hoje tudo quase sem dono
Pelas gentes que daqui partiram
apenas os velhos, os novos fugiram
e os montes por limpar ao abandono!

Despois vem as ideias
Os sonhos dos desempregados
Aram campos abandonados
E nos campos sonhos semeias!

Pudessem ainda os avós ver
A nova vida que agora se faz
Dessa nobre vontade mordaz
Que na terra se faz nascer!

Alberto Cuddel
18/04/2021 3:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIV

Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

magras, tuas mãos alargam-se sobre quem a vida sequestra
ainda que os braços pendam sem forças
sob o jugo do peso da discórdia
erga-se a vontade da vida, partilha do pouco
uma vontade de ser, apenas amanhã…

há na fecundação da palavra essa vontade decrescente
esse parir esdruxulo das ideias rasgadas pelo arame farpado da fuga
– já estive preso mas libertei-me
– já foi militante e solado de uma guerra ignorante onde não pensava…
tudo pelo conforto crasso de uma côdea de pão bafiento
que a morte deixava a cada dia dependurada
na maçaneta da porta que nunca era fechada…

eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…
essas ideias pré concebidas que que a fé não se contesta
como a fezada de uma partida de futebol sem adversário…

onde te morreram as certezas?
plantadas no pinheiral do tempo como forma memorável de uma eternidade…
e mandaram-te plantar tâmaras… e morreste… sem nunca entender o porquê…

a poesia tem exactamente essa serventia:
pensar que serve para pensar, em rigorosamente coisíssima nenhuma…
desde que rime, no ritmo certo, tudo está longe, do que já foi perto…
há ninhos de barro, e jarros de palha…
mandaram-te ir, e tu foste…
porque não conhecias o não e a sua forma de o pensar…

morreu ontem a Primavera, e os frutos cariam maduros,
não porque são livres ou pensam, mas porque assim chegou o seu tempo…
e veio o Verão, e o olhar o céu, de olhos fechados, enquanto tostam ao sol…

Alberto Cuddel
17/04/2021 3:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIII

Ondulação metódica do caos que é o ser

Ondulação metódica do caos que é o ser

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

e os degraus eram três
depois dos dois que antes estavam sujos
e eu descei-os, deixei-os para trás
lá onde a infância morre…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

ecoava o cravo na nave vazia
esse ferir das cordas como quem mata
estridentes e lancinantes notas sem rosto…

e eu, eu tu, ali diante do altar…
a minha mão na tua, e pusemo-nos andar
a cidade vazia, o cheiro de morte no ar
não há vida para la porta, para lá do chão…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas minhas palavras…

tantos de nós, de vós fechados em conchas
túlipas que secam em campos murados
sem palavras que nos alimente a alma
em raízes voláteis e secas de conhecimento…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

começa a haver noite e frescura,
em vozes que aparecem daqui e dali,
e vales e montes, e mãos e pés que caminham…
trovões e bombos…
músicas do tempo de agora,
de ontem que se lembram…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

As paredes oprimem e aquecem,
fecham ideias em janelas abertas,
o mundo entra dentro do quarto, da sala, mas prendem-me o corpo…
neste intervalo de tudo o que sonho e escrevo,
perco-me procurando-me entre as brumas que não chegam e nevoeiros,
meras recordações turvas dos copos
que tilintavam entre gargalhadas e brindes…
eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

“Amores entre aromas de café”*
a vontade de o dizer de pé,
de o gritar, poemas de amor, ridículos, como ridículas as cartas…
nesta vontade de escrever silêncios, calo-me e fico, apenas fico…
nessas pedras empilhadas, o sino que chama
nesses rumos longínquos do tempo que passa
a lua vem… não arrefece, não aquece, não chega ninguém…

e eu?

Eu vou amar-te…
para que me perca
ainda que me encontre,
nas tuas palavras,
que levemente atiras na despedida
“amo-te ainda que não o saibas…”

Alberto Cuddel
02/04/2021 4:44
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LII
*Livro de Tomé Nicolau

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