Conflito profundo da água rosa

Conflito profundo da água rosa

largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
— e eram sonhos sem fim, de cada lado.

pastavam longos cabazes verdes
prados malhados de vento e cavalos
nuvens cor de leite e sonhos encarnados
escancarados peitos e pernas longas…

mártir sem direito de agonia
suspiros de amor e ovos podres
corre ausente minha alma esguia
secos vão castanhos os alfobres…

escorrem vestígios de liquido fino
sob as campas rasas esquecidas
nos muros musgo seco e fumo

pasta o gado livremente…
alheio à amargura e desilusão dos homens…

Alberto Cuddel
28/05/2020
17:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Poema I

Bem… O Alberto Cuddel andava a escrever umas coisas que até dá medo…

Poema I

Rebentam estridentes as palavras escritas
Como uma granada sem pino em percursor livre
Sem medo da condenação
Vivendo uma liberdade condicional imposta
Por regras carregadas de pudor e temor a deus

Há filosofias engalanadas de um amor supérfluo
Sem essa fisicalidade dos corpos
Que tantos chamam foder
E foder é tão sublimemente humano
Assim como fazer amor…
Mas foder é sem dúvida estar vivo…

Amo, amo como nunca amei
Pacientemente…

Nessa translúcida metáfora
que é engalanar o orgasmo poetico
sentido pelo abraço literário…
Foder é a arte suprema do gemido
Onde a masturbação poética do fonema
arranca-nos aplausos da alma…

Literalmente poeta, filósofo da conjugação sexual
Lambendo rimas e métricas,
Até que no êxtase da alma nos falte o ar…

Quanta filosofia vã essa a de que o amor é…
Quando o amor se faz, também nas mãos…

Alberto Cuddel
20/02/2019
13:55

#osuaveaconchegodopoema

https://albertocuddel.wordpress.com/category/alberto-cuddel/

Adivinho-me

Adivinho-me

Adivinho-te no meu peito
(nessa arte vil de ser, Amor)!

Faço-me de novo a cada despedida
Em cada esperança esbatida da chegada,
Na cadência das ondas de uma maré
Que trás, que leva, que se faz
– O sentir que brota dos lábios
Perfume que nos corrói a alma…

Que trágica sina essa de partir
Onde nos espera o tempo que esta por vir
Pelo amor a dor da saudade,
Dói, mesmo antes de a sentir…

Leveza da chegada, o sentir
Calor momentâneo pelo sangue que corre
Adivinho-me assim, pleno, no entre tempo…

Se é amor não sei, o amor é…
Não se explica ou adivinha, apenas chega, apenas parte…

Alberto Cuddel
14/06/2019

Quebra

Quebra

quebrei, distraído, quebrei
quebrei, quebrando o que firme estava
inconsciência do habito de nada usar…

queria arrancar-te essa dor no peito
voltar a fazer de outra forma o que foi feito…

quanta cobardia, quanta incúria do cuidado
quanta dor infligida, quanta traição cometida…

podiam ser rosas brancas
essa nascidas em terra selvagem
podia ser mar ao alcance dos olhos
mas foi meramente chuva que te corria pelos seios…

enredo-me na teia da madrugada
usurpação do tempo que lembrava
tragédias pardacentas, frios corpos
uma embriagues lânguida
no almiscarado perfume dos dedos!

quebrei as juras que aqui vinham morrer
pela tarde calada no leito toldado
rouba-me o ar que arfa no peito
descobre-me o medo rarefeito
uma febre hemorrágica dos segredos
palavras sangrenta e sem medos…

quebrei, distraído, quebrei
quebrei, quebrando o que firme estava
inconsciência do habito de nada usar…

Alberto Cuddel
11/06/2019
01:00

Poema XLIX

Poema XLIX

sou sempre a divisão do que não está
nessa loucura do júbilo desconcertante
escondendo-me das amantes,
em nomes que nunca tive, quem finge crer?
que me multipliquei em versos
em registos de um livro branco
onde nos cantam as sereias, novos e tristes fados
das gargalhadas do paço, corrompido está o poder…

arranca-me do ventre da minha mãe, nesta fome de viver
que fado doce te escorre na face, nas ruas infestadas de sardinha
manjericos saltitam embriagados correndo pelas moças
serei as nuvens que se arrastam, pelos silêncio da tua voz…

à loucura de existir pela mão louca de um cobarde!…

Alberto Cuddel
13/06/2019

 

Último poema do projecto de livro “o suave aconchego do poema”

O Suave Aconchego Do Poema

Poema XLVIII

Poema XLVIII

morrem na praça os passos
quebra-se o silêncio no chão por pressa
não há quem meça como cá chegamos…
caricias dos pé no interior dos sapatos é meramente dor…

não amo a poesia (essa que ondula como navios do cais)
mas a livre cativa da alma onde morais…
há uma febril constatação, a poesia não morre nos dedos
mas no ventre de quem a come…

há quem me meça e avalie
há que me contabilize,
há até quem me conte as letras gastas
há quem me acuse de desperdício…
mas quem é o homem que se poupa
na execução da sua amaldiçoada arte?

Alberto Cuddel
13/06/2019

Poema XLVII

Poema XLVII

não principio nem acabo nas palavras que escrevo
tudo é um vício que me consome
como uma tragédia, como um drama de uma disputa que não começou…
não por uma insanidade ou um ósculo histórico por dar
talvez como uma missiva que nunca chegou,
por um tiro no peito que o matou!…

deixa a palavra reclusa da gaveta do esquecimento
deixa que a leve no bico a andorinha à chegada do outono
sofra eu a perda como um cão sem dono
vagueando pelas estradas esquecidas e sem bermas.

assaltam-me o espanto e a dúvida
nesta guerra que me roubou a paz
nos diligentes caminhos da loucura
onde a vida é um mero jogo de palavras…

as letras devoram-me a carne
os ossos da mão que escreve
a luz fustiga-me as ideias
numa fome letal e voraz
consome-me as sílabas o papel…
letra após letra, após letra…
não principio nem acabo nas palavras que escrevo
tudo é um vício que me consome…

até que o aconchego do poema me abrace!…
na transparência do vidro constróis labirintos
caminhos tendenciosos rumo ao olimpo e infinitos
porque deuses somos nós…

Alberto Cuddel
13/06/2019

Poema XLVI

Poema XLVI

Magras, tuas mãos alargam-se sobre quem a vida sequestra.

Ainda que os braços pendam sem forças
sob o jugo do peso da discórdia
erga-se a vontade da vida, partilha do pouco
uma vontade de ser, apenas amanhã…

saudade de amar como uma viagem por fazer
o frio no chão como as campas,
húmidos estão os pés que não se movem por ninguém
morrem as bem-aventuranças, nesse umbigo onde gira o mundo…

saudade do futuro como de um sorriso estampado no rosto
(criança cheia de fome, e corre, e brinca tristemente)
há lares vazios de gente, e casas cheias de saudade de viver
há quem já não tenha medo de morrer, há quem o deseje…

tudo é dos outros salvo a mágoa de o não ser
até a culpa, até o medo…
eu? Eu sempre sempre serei inocente
mesmo que nada faça, do que deve ser feito…

Alberto Cuddel
05/06/2019

Poema XLV

Poema XLV

A razão também olha a aurora
neste coração que chora
na esperança que o destino se cumpra!…

que tenho eu a oferecer
nessa esperança de fé
que tenho eu que espere
neste dia que não promete
na dor que não lhe vejo o fim

que venha o ser depois
promessa cumprida
no querer consumado
a cada raio de sol
adormeçam lado a lado
a cada outro luar…

vejo como não via o lugar a que pertenço
lembro-me de ser pequeno, sabendo que havia de ir
e vou, não hoje, mas vou, sei que vou,
porque aqui, aqui já não sou, aqui já não existo
aqui já não vivo, por pertencer a um outro lugar…

na fé que ainda nos resta, espera…
para que ainda exista um lugar onde chegar…

Alberto Cuddel
24/04/2019

Parafraseando a vida que ainda é…

Parafraseando a vida que ainda é…

[…nasci bem depois de amanhã, enquanto me lembrava de ser feliz!]

…correm as areias soltas no leito do ribeiro
olhas-me de olhos quentes e sedentos do alto da ponte
morro, tantas-vezes morro, na inocência do que te ardia no peito
abraço-despedida, na tristeza que me consumia,
era feliz com o pouco que conhecia, da vida nada…
maduros frutos, doces, ali diante dos olhos, e o rio, segue, segue…
– não via, nunca tinha erguido o olhar, torre de marfim…

(sinto nos lábios frios a brisa de Outono)
fui, e vim, voltei a fugir e a chegar, e vieram as chuvas e o frio,
e outros tempos mais, e casas, e camas, e moveis mexidos,
e outras plantas, outros frutos, e outra natureza real…
olhas-me de olhos quentes e sedentos do alto da ponte
como da primeira vez… e esperas…
como sempre esperaste essa Primavera, esse florir desejado,
com a esperança nos olhos, e o desejo no regaço…
ali, mesmo ali diante do rio que passa
venceste…

Alberto Cuddel
15/05/2019
19:47

Poema XLIV

Poema XLIV

Arde onde sucumbo
na arte de morrer sozinho
crio verdades nas montanhas da ilusão
trinco poemas que nunca me satisfazem
e rimas sem sabor, que se arrastam!

(…)
Fogem-me as palavras novas e as antigas
um medo fecundo que se aborta
ao primeiro momento de prazer!

Gaivotas, essa liberdade imposta pela insaciabilidade
infinito azul que se confunde no horizonte
mãos estendidas, outras nos bolsos como ontem!

Deste lado da ponte, não há quem a atravesse
uma cobardia, uma falta de coragem,
uma infame falta de acção, uma veleidade
neste limbo onde nem o molhado já chove…

A irrealidade das coisas, tangencialmente amor,
loucura assoberbada inconsciência das almas
um cantar de melancolia, entre tronos dourados
assim prostrado, moendo os joelhos, – reclamo!

Nas ruas, representação estereotipada do ego
refutam asas e agoiros e silêncios gemidos
alvas coisas sem nexo, e bocados jurados de fé,
ainda assim invejam tudo o que poderiam ser!
( ainda que nunca tenha sido!)

Alberto Cuddel
#osuaveaconchegodopoema

Um tédio

Um tédio

O tédio é talvez esse casco que navega à deriva no Tejo, um pensamento contra a corrente, arte suprema da frustração da alma, uma desolação que inquieta como se as preces de ontem, fossem lançadas à cinza…

há em vós uma inconstância no olhar
um brilho intrigante, granítico
uma expressão singular de … normalidade!

há uma vergonha que paira aqui, onde fico quieto…
como se as burlescas metáforas em tons escarlates
jamais vos pudessem conduzir aos orgasmos
excitação almiscarada que se emana dos corpos nus
ainda que vestidos estejam os olhos de pudor
há um não sei que não… não combina com o lugar…

há um tédio, uma vontade de alguma coisa que não sei bem
um sair por aí, ou apenas ficar, aqui, assim, neste lugar
olhando os barcos e os pássaros, enquanto não chega
enquanto não chegas, enquanto não chegamos a algum lugar…

Alberto Cuddel
27/04/2019

A vida é o que já foi e o que será…

A vida é o que já foi e o que será…

“quis fazer das lágrimas mártires
roubei-te a vida e o chão, acobardei-me…”

rasguei as vestes e o tempo e apresentei-me nu
devolveste-me as flores e o perfume do ser
sangue novo que nos escorre no peito – dor
morrem trémulos os passos no teu abraço
– há um cataclismo no regresso do adeus…
renascimentos das esperanças em noites de chuva
nova floração de beijos, sopros de promessas sem definição…

que não se morra de nós a vida pela cobardia do existir
que nasçam sorrisos a cada outro florir,
sejam as lágrimas de sal que nos queimam o peito
adubo fértil em terra árida, sejam vida nova que vagueia
sejam, braços e pernas, sejam beijos e temas… -sejam memórias…

sejamos as tardes de domingo, a erva do caminho,
uma pedra solta que rola, um canteiro florido
as ameias do castelo, a torre de uma qualquer igreja,
sejamos a sorte que faremos, as promessas que quebramos,
sejamos laços, cordas e abraços, sejamos beijos…
sejamos amor silencioso, uma palavra no silêncio…

seja eu verga que baloiça sem quebrar,
sejas tu era que me amarras á terra…
sejamos a fome e sede das almas, alimento do corpo…
a vida é o que já foi e o que será?
Dela o faremos mesmo que não estejamos aqui amanhã…

Alberto Cuddel
07/05/2019

Poema XLIII

Poema XLIII

A razão também olha a aurora
neste coração que chora
na esperança que o destino se cumpra!…

que tenho eu a oferecer
nessa esperança de fé
que tenho eu que espere
neste dia que não promete
na dor que não lhe vejo o fim

que venha o ser depois
promessa cumprida
no querer consumado
a cada raio de sol
adormeçam lado a lado
a cada outro luar…

vejo como não via o lugar a que pertenço
lembro-me de ser pequeno, sabendo que havia de ir
e vou, não hoje, mas vou, sei que vou,
porque aqui, aqui já não sou, aqui já não existo
aqui já não vivo, por pertencer a um outro lugar…

na fé que ainda nos resta, espera…
para que ainda exista um lugar onde chegar…

Alberto Cuddel
24/04/2019

Poema XLII

Poema XLII

“olho os sonhos que passam em branco algodão
solas cansadas em quilómetros de chão”

conto os dias que faltam para amanhã
nesse amanhã que será depois, depois da véspera
deito-me onde outros se revoltam, desses que dizem coisas
mas nunca as fazem, os papeis continuam no chão
as ervas por cortar, vejo e nada faço, nada digo…
não sou melhor ou pior, não sou da vida mendigo…

suportam-me as tábuas os costados
mas por cansaço, não por desleixo
mas não tenho porque ir nesta hora
apenas fico olhando céu que passa…

há qualquer coisa de filosófico neste estar
eu quedo, e tudo á minha volta
mexe, cresce, move, morre
permito-me estar, ver a vida
olhando para o ar…
no fundo não há outro prazer para alem de sentir,
nem esse olhar doente e distante onde se decompõem os pensamentos
há um que de heróico nesta coragem de deitar
um espera enquanto a fome da vida não me voltar a dominar…
espero, espero, espero
fico a ver o mundo lá cima girar…

Alberto Cuddel
15/04/2019

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