Um vaso quebrado cheio de tudo

Um vaso quebrado cheio de tudo

a minha alma partiu-se como um vaso vazio
tão cheia de vida, uma palavra fora de tempo
um desastre anunciado, amaldiçoado humano!

barulho na queda estilhaços de versos
lanças arremessadas com selo de morte
maldito ego destrutivo, inveja do que não é…

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos,
não conscientes deles, da sua pequenez…

era um vaso cheio, de bondade, de alegria
hoje quebrado, apenas angústia, raiva e pouca vida…

Alberto Cuddel
23/08/2020
17:24
Poética da demência assíncrona…

Último tributo a ti

Último tributo a ti

 

“Nas rosas negras que me repousam na alma

Descobri o amor, o meu, por mim mesmo

Nas lâminas que se escondem no leito

Decidi retalhar o passado, recortar cada dia”

Sírio de Andrade

Retalham-te o corpo na banalidade dessa carência de afecto que te atormentam as noites, um abraço que nunca foi sentido, uma abstinência de beijos, palavras, meras palavras, entre um trago e um bafo, entre um cigarro e uma lágrima, entre um tecto baixo aninhado no negro cadeirão…

Nesse falso amor a ti que proclamavas, nunca o sentiste, retalhavas o corpo vagueando pelo pensamento, nesse abandono supremo do esqueleto, coleccionavas pedaços de nada e esperança, sentias, mas nada mais que isso, sentir, apenas um gargalo bafiento por companhia e um cinzeiro cheio…

Nunca as conversas dos homens banais te entusiasmaram, nunca as palavras de circunstância das mulheres te fizeram vibrar, um inadaptado social, alguém longe do tempo e do mundo…

Percorrias ruas e vielas olhando os beirais, as estrelas, clamando silenciosamente o seu nome, e ela, ela escutava-te, mas nunca deixou a vida dela, pela tua vida simples, sem nada, sem pretensões, sem ambições, apenas sentir, apenas desejo, apenas viver… e viveste a ilusão de uma vida, durante a vida toda…

Alberto Cuddel

20/06/2020

16:06

In: Nova poesia de um poeta velho

(tributo póstumo à vida e obra de Sírio de Andrade)

A carta

A carta

Era um adeus simples, um até depois, depois do nada, depois que a esperança morreu… foram palavras simples aquelas que o poeta escreveu, um mar calmo sem vento, uma floresta negra e morta pelo fogo que se extinguiu… foi um quase tudo que apenas foi nada, um fogo em cabeça de fosforo, que a brisa da mesmice dos dias logo apagou… De que te vale tentar incendiar lenha verde? De que te vale a procura de palavras sadias, se no final tudo se resume à loucura da embriagues de mais um copo de vinho… de que te vale esse prazer temporário de que “tudo esta bem” se continuas a morrer devagarinho, se deixas de acreditar no amanhã? Esse que tens certo como um dia igual a ontem, sem mudança, apenas depois de hoje… e colecciono esperanças e memória dos abraços, e Maio… foi em Maio… Perdi-me de todas as cartas que escrevi cheio de sonhos, hoje apenas lembranças desses tempos, onde ia ali a correr, gemer a felicidade… hoje já nem as palavras me fazem sorrir… Visto a tua mascara, essa que tantas vezes passeaste na rua, essa mascara do sorriso, por entre piadas e anedotas… mas na verdade, nem tão pouco te concedem a liberdade de estar triste, de ser triste, de ter a certeza de que a vida é um mero castigo, um mero sacrifício ser vivida… e o amor, a pouca esperança que te mantem vivo… ele é a derradeira chantagem enviada por Deus…E Deus espera-te, sem te conceder o acto de desespero que te leva directamente a ele…


Alberto Cuddel
22/06/2020
19:34
In: Nova poesia de um poeta velho

A vida da história da noite simples

A vida da história da noite simples

na véspera da partida desse sol que era
– à um gemido surdo que anuncia o crepúsculo
esse abraço de fim de dia ainda a dar…

há uma história a contar da história da vida
– um surto aconchegante do amor que se renova
uma noite simples, que simples é a vida
como os barcos que aportam no porto
– e todos os que partem para a faina…

houve uma vida, dentro da vida da gente
uma vida nova a cada alvorada
uma outra que desponta a cada madrugada…
correm sonâmbulos pelas vielas os corpos cansados
os sem tecto e os sem esperança, os sem vida
os que chegam e os que partem…

há a cada esquina uma história
uma noite simples…
uma vida cansada… uma vida lembrada…

Alberto Cuddel
19/06/2020
20:34
In: Nova poesia de um poeta velho

Sacro dia natividade solar

Sacro dia natividade solar

anunciou-se em mim, um rubor no rosto
inocentes raios oblíquos, luz primeira
nasce o dia, renasce a vida por entre o orvalho
esticam-se asas, deixa o amor os leitos…

fremem as folhas sob o sol incandescente
evaporam-se gotículas de suor
desenrolam-se os braços, soltos abraços
molham-se os lábios molhados, em lábios quentes…

tanto de mim se foi naquela hora
sinto a minha vida no vento que corta
essa brisa que nos agita por dentro
que nos faz sentir a pele, alma que é centro…

há em nós uma permanente certeza
mesmo oculto de nós, o sol
sempre nos irá incendiar o peito…

Alberto Cuddel
13/06/2020
07:07
In: Nova poesia de um poeta velho

Rasgados os céus e os caminhos descalços…

Rasgados os céus e os caminhos descalços…

“Ó vergonha escondida pelo sentir
Homem fugaz se eleva diante dos outros
Mas tristemente arrasta na alma
A perversidade de um desejo”
Sírio de Andrade

bandeiras desfraldadas em mastros hirtos
espinhos cravados nos pés, caminho de pó
há uma assassina da alma à solta
despe-se de negro, palavras mansas
ama, se ama, ama o conforto que possui
e ele? Morre a cada hora apenas um pouco
como se o amor o matasse por dentro…

Morreu a cada entardecer
Ave-marias rasgavam-lhe o silêncio
A morte advém-lhe da alma
Essa que o matou a cada ausência…

Onde estavas?
De onde o esqueceste?
O tempo, passa, passa…
( o tempo, apagou-o)
– ele, ele esqueceu-se de quem era, e de ti dependia…

Alberto Cuddel
12/06/2020
02:50
In: Nova poesia de um poeta velho
(tributo póstumo à vida e obra de Sírio de Andrade)

Dessa raiva de partir

Dessa raiva de partir
“Sentei-me como se sentam os que esperam
Esses que no leito negro esperam que os levem…”
Sírio de Andrade
sob a campa rasa, nem a memória dos sonhos tidos
nem uma lágrima vertida
esquecido leito, a morte, premeia-te o silêncio
das noites amantes em palavras frescas
nem a constelação mais brilhante te pronuncia o nome
o amor abandonou-lhe os seios, e o tesão da carne definha
sob as laminas que te pedem sob a alma
gravo a sangue nas entranhas a dor que a fogo se forma
nobre sofredor do amor que se dá
seco, sem vida, esvaziaste-te de alma
que secos sejam os espinhos sob os meus pés
de veludo negro as pétalas secas das rosas sem rosto
e esse perfume que me fica gravado nas mãos…
o teu perfume, e a vontade de chorar…
que a chuva e as marés te lavem do esquecimento
que do homem viva a alma das palavras cantadas
pela vontade mórbida de entregar à morte
a vida de sorte que o amor lhe talhou…
Alberto Cuddel
11/06/2020
00:05
In: Nova poesia de um poeta velho
(tributo póstumo à vida e obra de Sírio de Andrade)

Afoito da alma no vale dos esquecidos

Afoito da alma no vale dos esquecidos

desta alma baça de régio nascimento, não reza Hades
porta cerrada, sentinela morta, apelo do barqueiro
custo pago com vida, nome inscrito no esquecimento!

há tempo que passa na gente que vive
humana raça uniforme dos cegos
mudos que não contam segredos
surdos que não escarnecem das palavras malformadas
gritadas e gemidas no céu da boca aberto à vida

é tarde, muito tarde,
finalmente…
já não devo passar no regresso
caio e não me ergo de alma lavada
na margem da porta do tempo
de joelhos levados ao chão
caio…
a chorar o esquecimento lembrado
do tempo que de mim esqueci…

barqueiro… ó barqueiro…
de que cor é a raça da minha alma?
eu afoito lembro-me…
de todos os que de mim se esqueceram…

Alberto Cuddel
10/06/2020
00:07
In: Nova poesia de um poeta velho

Papel pardo

Papel pardo

desde há muito me acompanha essa nossa carta
o “papel pardo” não por forma, mas do tempo
nas horas mortas, como um bater de asa, leio-a
e no tempo que perco, ganho a esperança, fervor
e sem medo, por companhia encontro amor…

habituei-me a ela, a conhecê-la
não pelas palavras gastas, mas pela forma
pelo ondular da tinta em papel gasto
é-me de sangue, escrita um dia, para que não esqueça…

oh, no meu espírito errante, velho e combalido
muitos erros cometidos, onde me acodes?
e quando chegar a hora apenas peço
coisa pouca e pequena, que não esqueça
que não saiba, e que sempre recorde
a carta, um pequeno papel, onde em letras toscas
palavras corridas, escrevi teu nome
e o que um dia sentia…
quisera meu amor escrever-te ainda
num braçado de flores como perfume
à sombra da saudade, um odor doce
pela cisma da vida e o amor tudo fosse
palavras rudes de verdade em papel pardo
gasto pelo tempo…

Alberto Cuddel
09/06/2020
02:38
In: Nova poesia de um poeta velho

Mágoa

Mágoa

há uma mágoa no teu peito
que nos adormece a paisagem
uma arma que trespassa a fome
uma vida embriagada de beijos

no perscrutar do amanhã
a vingança do beijo sangue
pássaros em ninho verde
braços abertos às águas de Julho

onde nos morrem os abraços
essa distância dos vales
onde a morte espreita
aconchego dos casebres
onde nos esperam as rugas
cartas e domino, quem sabe, remendam peúgas…

há uma mágoa que me rebenta no peito
como fonte que brota em plena Primavera
onde te mora a saudade?
Amar-te-ás depois?

Alberto Cuddel
01/06/2020
06:04
In: Nova poesia de um poeta velho

Desse amor tão novo de amanhã

Desse amor tão novo de amanhã

da sede que me resseca os lábios
apenas a gaivota sabe, da fome do querer
esse amor tão novo de amanhã
que me faz acordar a cada alvorada

Alberto Cuddel
01/06/2020
03:13
In: Nova poesia de um poeta velho

Mariposa

Mariposa

sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo
a vida passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
trespassada a alma arma branca, baioneta…

há mansidão da luz que se apaga
rastos de uma vida que foi
cruzam os céus cadentes estrelas
e desejos que se pedem pelos dedos
há um mundo perdido entre segredos e medos
e uivos fora de horas…
morcegos e mariposas…

há uma luz perdida no monte
e um monte de luzes enfrente
uma mão que me embala
uma voz que me acalma
uma avó que chama…
essa avó partiu…
as luzes não tem o mesmo brilho
as mariposas, não sei se lá vão…
sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo

Alberto Cuddel
01/06/2020
02:16
In: Nova poesia de um poeta velho

Céu disforme…

Céu disforme…

há um céu cinzento
sob uma clareira azul e seca
um sussurrar que se esquece
um silêncio rasgado de água

como uma coisa certa que nos minta,
como um grande desejo que nos mente.
chove. nada em mim sente…
nada do mundo que em mim já sinta

se chovesse ao menos, sob o sol do mundo,
qualquer seca e árida realidade não
esse eterno abismo sem fundo,
seria vida singela no fraco coração

ah, se chovesse ao menos em minh’alma
nessa hora final em que estorvasse
num voo suave me esvaísse
na liberdade certa de um céu disforme
seria vento seria lágrima, seria alento…

Alberto Cuddel
25/05/2020
18:07

In: Nova poesia de um poeta velho

Antes do princípio apenas o fim

Antes do princípio apenas o fim

há antes de tudo um rio
depois um mar e o sol
as voltas da vida, transpiração
o querer, o bater e a doce ilusão.

depois há um prólogo de anúncio
e antes de tudo há um fim
a desilusão e a dor do nascimento

nessa explosão de magma quente
o passado cobre-se de cinza
– pleno esquecimento da saudade…

e antes do princípio apenas o fim
essa dor do esquecimento do ventre
abandono do conforto…
– a dor de viver
sobrevivendo à carência da alma…

Alberto Cuddel
27/05/2020
17:15
In: Nova poesia de um poeta velho

Seco o sonho de chuva

Seco o sonho de chuva

– humedeceste os lábios finos
pedras soltas atiradas pelo vento
e o destino quem o soubesse?

no espaço sepultado da fome
rasga-se o desejo da sede
procura mundos e fundos
mares e marés nesse querer fecundo
maternidade que te abandona o corpo

cânticos de Salomão
– ilusão dos seres mitológicos
sereias que me embalam
que me venham as virgens de candeia
a força de Sansão, o uivo materno
esse alimento de gémeos…
multipliquem-se os peixes e a fome
voz que sacia os espíritos,
acalmem-se as águas…
que seja pedra a força e a voz
edifique-se sobre ela a poética
neste sonho seco de uma chuva mórbida
de silêncios lidos em lábios gretados
clama o deserto por lucidez
e pendem-me espadas de calcário no olhar
pela inveja mesquinha do homem novo…

Alberto Cuddel
23/05/2020
19:15
In: Nova poesia de um poeta velho

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