Exausto

Exausto

cansado da fraude
do embuste que sou
mãos que apenas copiam
os pensamentos tidos
lidos nas imagens retidas
pelas retinas treinadas
a ver o que outros
distraídos não vêem
cansado do tempo perdido
em deixar escrito
memória da visão
adjectivos da paisagem
do sentir
do perder
da aragem
cansado das palavras
das pragas
de tudo escrever
cansado do papel
da caneta
da tinta
do fingir
cansado de ver
de querer
do agir
cansado da poesia
perdida
escrita
descrita
relatada
sem fim
sem nada!

Cansado apenas cansado!

Sírio Andrade
27-03-2015

Provocação

Provocação

A provocação tem um preço…
As vezes alto de mais para se pagar…
Continua a provocar,
Depois não tem como se queixar…
O desejo provocado, ou é consumado….
Ou leva à loucura de um corpo marcado…

Sírio Andrade
24/03/2015

Abandono

Abandono

abandonaste-me à loucura do sofrimento,
na mais abençoada solidão,
cama vazia de tormentos,
não espero, não anseio tua chegada,
cansei-me da vida, cansei-me do tudo, do nada,
cansei-me apenas da ânsia de ti!
acordo livre solta, apenas mim!

Sírio de Andrade
20/03/2015

Raiva

Raiva

devolves cativos os gélidos sentidos,
das cores escuras, depressão confusa,
querer fugir, reprimir o negro desejo,
escapar esfumando-se por entre os dedos,
escorrendo pela brilhante lamina, gotas da vida!

gotejando quentes no gélido mármore,
uma após outra, sorvendo de ti a vontade contínua,
partir em demanda, gritando impropérios,
contra os felizes donos dos impérios,
cor-de-rosa pintados, onde reina o amor,
há raiva! força contida que se espera soltar,
num abrir do peito, rasgado, pelo sofrimento!

há dor! quietude, aninhado num canto,
gotas escorrem, reprimindo o alto pranto!

Sírio de Andrade!

Asas do querer!

Asas do querer!

Devastação da noite,
Gélido tremor que te trespassa,
Asas das trevas cobrem-te e envolvem,
Gritas, prazer na solidão,
Agrilhoado, preso e ferido,
Por sorte, prazer ou morte!

Penas, sonhos que te fazem voar,
Palavras gemidas, gritadas,
Esquecidas no amordaçar,
Aí dona de mim que me condenas,
Asas partidas, soltas na cela,
Há fome, há sede,
Há vontade de te querer,
Revolta em mim, dor
Nesta lua me prende!

Sírio de Andrade
30/01/2015

Voltas

Voltas,

Volteios nas palavras,
Torces e retorces,
Valendo-te da tua verdade,
Nada mais importa,
Nos retorcidos volteios,
Da imposição velada,
Do querer ver o já gasto
E fechado portão onde
Constantemente procuras-me,
Assim por meias-verdades assumidas,
Abalas todo o muro que o suporta,
Fazendo pender de novo a corda,
Enlaçada na figueira,
Despertando os espíritos
Os fantasmas que este portão encerra,
Soltos na noite que se abateu em mim!

Sírio Andrade
26/01/2015

Fantasmas!

Fantasmas!

Reescrevo sem longas considerações,
Angústias veladas, perdidas no tempo,
Aninhado em mim, querendo partir,
Escuros lugares de onde quero fugir!

Há trevas que me envolvem, fantasmas,
Desoladores pensamentos, pesadelos,
Triste passado, sempre e sempre recordado,
Na fuga quero, sair de mim e esquecê-los!

Há vontade de mim que me consome,
Recolhe em mim no interior o sofrimento,
Que a ti nada te turbe, neste feliz momento!

Quero dar, sem sair, extrair o negro ser,
Triste e enfadonho, frio e calculista,
Que a capa exterior recolhe cá dentro!

Sou, sem ser, o que vês e não crês!

Sírio Andrade
26/01/2015

Ausência

Ausência

Não a escuridão não existe,
É apenas ausência de luz!
Não o frio não existe,
É apenas ausência de calor!
Não o mal não existe,
É apenas a ausência do bem!
Não o ódio não existe,
É apenas ausência de Amor!
Não a depressão não existe,
É apenas a ausência de ti,

Assim estou vazio,
Sem que o espaço em mim
Esteja por ti preenchido!

Sírio Andrade
17/01/2015

Não sou por não existir

Não sou por não existir

crendices poéticas, bebendo palavras,
rimas quebradas, plágios, ditas por ti,
vês, pelos meus olhos, os que os teus apenas imaginaram,
adjectivos, imagens transcritas, sentimentos 
finjo ver, escutar teu mundo
agarrar, aprisionar em mim
o som das marés, o abafado
caminhar dos teus pés…

não, não sou diferente
finjo poeticamente, ouvir-te
no bater de asas de um morcego
ver-te no brilho quase apagado
de uma estrela no firmamento…

não sou poeta, não sou ninguém,
escondo-me, por detrás das palavras,
nas entrelinhas, nas vogais, 
por detrás de um ódio, figadal
à luz, que me abrasa, que me queima
que me entorpece os dedos,
que me faz ser, 
quem não quero revelar,
por apenas querer,
continuar a ser,
palavra,
nada mais!

Sírio Andrade
 13 de Agosto de 2015

Pesadelo!

Pesadelo!

cego no errante vício caminhante,
hirtas árvores erguidas aos céus,
força da sorte nas tábuas cortadas,
repouso caído, fechado por pregos,
firmemente cravados no madeiro,
onde o corpo do filho do homem,
padeceu cravado por minha incúria!
revolvo nos pés rubras folhas,
gastas e desgastas no tempo,
como escritas num passado,
que se quer esquecido, apagado,
sombras disformes, humanas,
no pesadelo assombrado do sonho,
que um dia este mísero homem,
ousou sonhar a felicidade!

Sírio Andrade®
26/08/2015

Um adeus

Um adeus

Chego com um vazio plenamente preenchido
Pelo silêncio que hoje ecoa nas paredes despidas
Alimento das memórias que me ventem da alma
E a dor… – corroí-me as entranhas em abandono…

Sei-te distantemente ausente
Aquele adeus…
Dito fermente, com a voz segura
De um adeus eterno…

Um sentir que acaba?
Como ditas verdades impossíveis?

o amor não acaba, esquece-se
Uma meramente substituição
Por uma jovial e doentia paixão!

Um dia, meramente lembrarás
Que amaste alguém que efectivamente
Ainda te amava….

Sírio de Andrade
2:01
28/11/2016

Poema do Adeus!

Poema do Adeus!

poderá ficar a saudade, poderá ficar a ausência,
que tonteira a minha, que presunção egoísta,
nada fica, tudo passa, esta bola redonda,
continuará rodando, saltitando no vazio,
eu, mero ser pensante, sem corpo, sem alma,
que falta faria?

pela parcas palavras que inusitadamente escrevi,
pelo negro abismo que abri numa alma, pura, cuidada,
singela, decidida, fui mera purga na desilusão cabal,
dos pensamentos fora de tempo, do instinto animal,
quem fui eu? uma parte, um aneurisma, arrancado
rasgado, dilacerado, um mero paliativo
que chegada a hora é abandonado
no fundo de uma qualquer gaveta,
parto, na minha sombria tristeza,
parto, mas não me dou por vencido
fico expectante aguardando, no fundo,
de uma qualquer gaveta cerebral,
até que a necessidade me chame,
eu poeta Sírio de Andrade, não morri,
Matei-me…

Muito Obrigado!

Muito obrigado a todos os que ao longo destes anos me seguiram nesta aventura da escrita, depois de milhares de poemas escritos e partilhados aqui no blog e nas mais variadas redes sociais dou por terminada esta aventura… durante estes anos fui surpreendido por muitas mensagens que me foram deixando, por muitas partilhas e por muitas amizades que se foram criando. Agora fica aqui registada essa memória, esses poemas e escritos, para que não se percam.

Um enorme bem haja a cada um de vós… Não é um Adeus pois os poetas não morrem mas sim um até sempre.

António Alberto Teixeira de Sousa

Silêncio

Há nesse silêncio pleno, um amontoado de palavras caladas, que nunca foram ditas, gritadas, pensadas… Talvez faltasse tempo, talvez ninguém as escutasse… Preferias jogos a palavras nuas, inverdades a verdades frias…
Seduções a gestos quentes…
Queria-te apenas…
E tu não me entendias…
Sírio de Andrade

03/10/2012

Dádiva oculta!

Dádiva oculta!

resguardo-te dos espinhos,
que a minha plenitude contém,
dolorosa ocultação em mim,
ferozes desejos carnais,
ânsias, pecados mortais,
em parte, ofereço,
em parte, oculto,
sem ser tudo,
sou um nada,
no nada que posso
de mim entregar…
sombra, na sedução nocturna
em que me movo,
oculto,
margem das ocas palavras,
recebes-me como um todo,
entregas-te a um desígnio
desconheces a violência,
a complexidade do que quero,
não conheço o que não quero,
quero tudo, sem poder ter nada!…

Sírio de Andrade
In: Antologia depressiva (2013)

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