Sem Mim

Sem Mim

A noite caí, 
Fria, solitária,
Aqui neste posto,
Penso, medito, oro,
Sim porque sei pensar, 
Ser falante, racional…
E penso, abandonar-me ao delírio,
Errante na queda das trevas,
Que nos guia e conduz,
Arrebatando o sentir!
Entre um ou dois pensamentos,
Fazes-te presente no ambíguo luar,
A saudade, da luz, do calor, 
Do apenas longo abraçar,
Que deixou a tua partida,
Assim me entrego a tortura da dor,
De sentir perdida a vida…
Assim arrancada no triste penar…
Na solidão a noite passar!…

Alberto Cuddel
22/11/2014
Palavras Desconexas – 14

Solidão

Solidão

Porquê?
Outra vez sozinho,
Não, não vás,
Não me deixes
Neste desencanto,
Então foi só mais uma noite?
-Não, logo volto!
Que vida esta de encontros
E desencontros,
A coberto da noite,
Escondidos no dia,
Não, não vás,
Fica comigo ate o sol nascer,
-sabes que não, ele me espera!

Por ele, tudo por ele,
Maldito trabalho!

Albert Cuddel
04/12/2014
Palavras Desconexas – 34

Solidão!

Solidão!

Fora a lua,

Sua companhia,

Perdida na solidão,

Do seu reflexo,

Espera,

Na noite escura,

A doce e arrebatadora,

Força da paixão,

Que a liberte desta negra prisão,

Que bate em seu coração!

Imóvel,

Lua que preenche o vazio,

Deixado pelo calor do teu rosto,

Que no reflexo da agua,

Sinto teu sopro de vida,

Que inflama meu corpo,

Do desejo ardente do teu beijo…

Memoria da saudade,

Que teu cheiro desenhou no meu corpo!

Alberto Cuddel

21/11/2014

Desde ontem

Desde ontem

Aqui, precisamente aqui
Desde ontem, ou já
Cansaço ladeado de flores
Separados pela distância do ponteiro
Um acordar
Manta que deslaça de quente
Sentir que se governa
Decide e impera
Dormindo na traseira do dia
Na esperança da noite fechada
Calado, olho, reparo, concentro
Cuidado,
Voltas e reviravolta de uma vida
Estupidamente fingida
Viagem vertiginosa dos minutos…
Espero,
Esperas,
Dormes,
Acordas,
Sob uma manta quente
Que te separa de mim
Assim,
A vida nos encobre
Sob o olhar desconfiado dos dias!

Alberto Cuddel
19/05/2017
05:46

À janela…

À janela…

Havia uma rua estreita cheia de janelas fechadas, era uma vila pequena, de gente simples, destacava-se uma janela, branca, alta, com um pequeno gradeamento e um sorriso, sempre meia aberta, paredes gastas quase sem tinta a notar-se ainda um tom ocre, gasto do tempo e das intempéries, uma janela onde acorriam os pombos, os pássaros, a única companhia de Dona Felismina, uma resistente da solidão, um “bom dia”, rasgava o silêncio da rua a quem passava, sempre com uma palavra amiga, um gesto de apreço, dois dedos de conversa…
Hoje a janela não se abre, na rua estreita que subia, já não mora ninguém, não há pombos nem pássaros, apenas andorinhas sobem e descem a rua, e nos beirais chilreiam as ninhadas, na rua estreita apenas mora a Primavera, no resto do ano, ninguém.
A Dona Felismina, morreu o ano passado e na rua estreita apenas mora o silêncio, quebrado pelos passos de quem a cruza, há como nesta vila muitas ruas cheias de janelas fechadas, e outras cheias de gente sozinha…

Alberto Cuddel
10/04/2019
In: Dor da salinidade do olhar

Imensidão da noite

Imensidão da noite

“É tamanha a noite que me sobra nos braços”
Florbela Lourenço

sobra-me a esperança da solidão que engulo
essa que se crava nos dedos como memória
esse orgulho falacioso e desprezivelmente vil
ser… sem estar… mas ser, tristemente é…

as noites desenrolam-se
como sombras desordenadas no tecto frio,
os lençóis dormem amarrotados e gélidos,
vazios de corpo, de gente, de nós…
os minutos desfilam como cordeiros
compassados, ordenados, mecânicos
o tempo é o que sempre foi…
uma tortura medível pela ausência
a solidão vem-me trazida pelo som
esse som do mundo em ranger de madeira
sobram-me os braços vazios
sobram-me as noites,
sobra-me a vida
sobra-me o dia e o sol…
sobro-me a mim por não me bastar…

Alberto Cuddel
05-03-2020
16:30
In: Nova poesia de um poeta velho

Joana Vala

Joana Vala

Rasga-me as horas da solidão que me cortam os dias
Abarca-me na tua alma, entrega-me as chaves do existir
Concede-me o desejo de que se faça em mim a fome de beijo
Chega, está, permanece em mim…
Faz-te gesto em palavras de silêncio
Amame*, para que te ame no corpo
Faz-te amado, apaixonado carente da minha existência
Que me ajoelhe perante ti, despido das vestes que te cobrem a alma,
Despido dos bens materiais que te apoquentam…
Chega, está e ama-me como ontem…

Permite-me amarte*, na plenitude de sermos unos…
Chega amor, amame* sem pudor…
E descansa…

13-10-2019
*referencia a “Amar sem hífen” de C Maria Magueijo

Em troca de quase nada

Em troca de quase nada

Solta-se o nocturno ser,
Que nas sombras se move,

Que nos vultos se envolve,
Peregrina na solidão,
Reprime sentimentos,
Gestos de paixão,
Movimentos ritmados,
Repetidos e amargos,
Pois não são recebidos,
Pela distancia dos sentimentos,
Que nos desentendimentos,
Sempre são balbuciados!
Se dá, se troca,
Mas que importa,
Se o que recebe,
Distorce o que de belo,
Era transportado,
Por tudo o que era dado,
Em troca de quase nada,
De um gesto,
De uma palavra!…

Alberto Cuddel
12/10/2013

Não te isoles…

Não te isoles…

E se um dia o cansaço nos abraçasse?
Se o mundo se virasse contra nós?
Se há noite o sono nos abandonasse?
Se o meros sons das palavras nos incomodasse?

Como ouvir, falar, pensar…
Como viver, compreender, amar…
Como sentir, dormir, acordar…

E nossos amigos?
Que esperar?
Oração,
Compreensão,
Sem nunca nos abandonar,
Movimentando-se na sombra,
Sem nunca incomodar…

Volta…

Alberto Cuddel
03/10/2013

Só na multidão

Só na multidão

Só na multidão…
Só, pensa e medita,
Só, analisa a vida maldita,
Só, olha o coração…

Só na multidão…
Sentimo-nos perdidos,
Confiamos nos sentidos,
Entramos em contradição…

Só na multidão…
Sentimos que o tempo,
Nos tolhe e enrola,
Nos falta compreensão…

Só na multidão…
Procuramos uma bóia,
Uma tábua de salvação…

Alberto Cuddel
17/09/2013

As noites em que não queria ver nascer o dia

As noites em que não queria ver nascer o dia

Há noites em que não queria ver nascer o dia, em que não queria acordar, em que não desejo nada além dos pesadelos que me habitam, há noites que não quero ver nascer o sol, entre a escolha do ficar por obrigação e o partir por devoção, há momentos que a escolha dói-me…
Há noites em que não sonho, não desejo e não morro, há noites em que não existo, nem desejo existir, não quero acordar…
Não quero escolher entre o sangue e a alma, não quero escolher entre a vida e a morte, não quero, já disse que não…
Há noites em que não queria ver nascer o dia, entre ter que partir querendo ficar, entre ficar lá querendo estar aqui, entre estar aqui querendo estar lá, não quero escolher entre o silêncio das palavras e o grito mudo dos silêncios, não quero ver nascer sementes onde não há terra, não quero árvores nascidas em pleno mar, não quero nuvens no deserto, e calor nas calotas polares, simplesmente não quero fumo sem fogo, e fogo gelado que queima…
Há noites em que não queria ver nascer o dia, porque os dias são a repetição interminável da pressão das escolhas que conduzem ao mesmo inferno…

Alberto Cuddel

Partiste

Partiste

Mais uma vez acordas-me,
Para um beijo,
Em jeito de oração,
Despedes-te, e vais,

Fica o aperto no peito,
Só, perdido no nosso leito,

Sinto-o vazio de ti!
Na falta de teu calor,
No sentir da tua pele,
Fica saudade, fica amor!
Volta,
Não vás…
Aconchega-te no meu abraço,
Preenche todo este vazio espaço,
Que agora aqui sem ti, ficou!
Alberto Cuddel®
07:15 17/06/2013

Noite, e copo de vinho!

Noite, e copo de vinho!

Rodopiava encorpado no frutado sabor,
Licor da solta libido, medicina da solidão,
Solução aquosa fermentada em amor,
No cristalino vaso, lua por companhia!
Solidão preenchida no adamascado gole,
Sons do oriente, luar crescente, ausente,
Solidão em mim, lembrança, quente corpo,
O leito vazio, um quarto sombrio,
O silêncio gritante cidade vazia,
Partida, o copo por companhia,
Busco no nada, na longínqua lua,
Meu olhar com o teu cruzar,
Completando, o vazio que em mim deixaste,
Apenas o vinho, o gato, o perfume de teu ser,
Nos lençóis, húmidos, quentes, amarotados,
E minha alma, cansada, dormente, exausta,
Feliz por um momento,
Uma noite,
Mais uma noite!

Alberto Cuddel

Equilíbrio!

Equilíbrio!

Na profunda solidão do estar só,
No querer sair fora de mim,
Solidão absoluta do pensamento,
Na firme vontade do eterno esquecimento,
Cuidar, escutar as palavras perdidas na alma,
Olhar lá fora o mundo em movimento,
E na quietude reencontrar o equilíbrio!

Alberto Cuddel

Poema do dia 16/08/2018

 

Poema do dia 16/08/2018

Há quem não compreenda a prisão dentro de nós mesmos!
 – A dor de estar sozinho no meio da multidão…

Dói-me a imensidão das coisas e o vazio de mim mesmo,
Esta fúria do cansaço, esta dor que é arrastar-me nos dias…
Quero gritar no silêncio, arrancar dentro de mim a cobardia…

Condeno-me à infelicidade das horas,
Querendo o que nunca terei, sonho
Resta-me aceitar a monotonia da vida
Arrastar-me até à morte, nesta ilusão,
Quadro perfeito desenhado a carvão…

Doí-me a saudade do que um dia imaginei…

Alberto Cuddel
16/08/2018

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