Joana Vala – a dor de ser…

Joana Vala – a dor de ser…

enraivecem-me esses olhos famintos de macho
essas palavras de fêmea que os desculpam
essa culpa atirada aos ventos, pelas vestes
dói-me a falta de senso e o não poder ser
tão somente eu, igual e diferente, ser mulher e gente…

dói-me o julgamento e inveja pelo que mostro
as palavras mesquinhas das meretrizes sem mérito
pelas acusações da sua falta de capacidade
“no empenho e trabalho não é mérito, trabalho horizontal”
onde reside o sexismo? neles? não… nelas nessas infelizes sem valor…
ser mulher é em mim mérito consciente, trabalho dobrado
merecido e bem trabalhado… os homens não se julgam
mas elas? elas condenam e invejam…

enraivecem-me esses olhos famintos de macho
essas palavras de fêmea que os desculpam
os ciúmes tontos a quem confiamos a alma
o ser usada, mostrada como trofeu, depois?
apenas empregada… alguém que faz e não é “amada”…
dói-me ser mulher entre as mulheres que não o são…
doí-me ser mulher entre homens bicho…

apenas quero ser quem sou, pelo que sou
pelo que mostro ser, pelo meu viver
sem favores, pelo mérito que merecer…

dói-me a dor de ser mulher…

23/07/2021
11:00

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

eco do tempo que se faz voz em majericos
ecos da porta da igreja e a voz dos mexericos…

arrastas pelo chão o nome de mulher
na invenção de um leito de uma noite qualquer
dizes-te voz da consciência,
bates no peito em obediência
mas és meramente invejosa da vida alheia…
que as almas do purgatório te perdoem
e todas as outras que escorregaram na vida
solteiras à força de trabalho criaram uma filha…

há essa voz de eco que o tempo esquece
mas que o povo sábio enaltece, na letra de um fado
antes que a vida te leve, pelos bairros de alfama
és força vida entre o tejo e o sado…
amada por tantos os que te deitaram na cama…

ó mulher, doce mulher… onde te mora a liberdade?
na inveja de muitas, as que te escarnecem na rua
pura inveja de vida, por a sua sorte não ser a tua!…

Alberto Cuddel
07/06/2021
Alma nova, poema esquecido – I

Poética X

Poética X

o que mostras nesse olhar?

mostras-te mulher, fértil
nessa fertilidade poética
nessa plenitude da existência
nas metáforas incompreendidas…

leio-te nos silêncios
nas quimeras sonhadas
estampadas no rosto
nas verdades ocultas por detrás do olhar…
leio-te nesse arco armado sem flecha
sem coração onde apontar
nas desilusões da alma
na carência do corpo…

leio-te sem julgamentos ou medo da morte
compreendo o sentir e a sentença aplicada…

leio-te no verde que carregas no olhar,
na falta de luz que o ainda faz brilhar
e essa tristeza ondulante como chama
de uma luz que arde, cintilante, mas frágil
soprada pela brisa de um vento sem norte…

entre a fronteira… uma tinha ténue
entre a vida e a morte, entre o amor e a sorte
entre o ódio e o azar, entre a partida e o ficar…
fica quem não ama, ama quem parte, e odeia…
odeia a sorte de não saber em que dia conhecerá
a sua alma a morte…

Alberto Cuddel
15/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLV

Resposta ao desafio directo 1º de Ruth Collaço

Poética VIII

Poética VIII

Tu que lutas desde o dia primeiro
não por mais ou diferente, mas por um igual, ser gente
tu que nasces com essa herança pesada
que carregas no ventre o futuro do homem
apenas queres ser pessoa igual a tanta gente…

Tu mulher, fonte de desejo e de pecado
ou olhos de tanto homem malformado
intelectualmente vil e mal-educado
tu mulher que educas, munda o amanhã
muda hoje a vida de toda uma descendência
que a tolerância e amor passem a ser tendência…

Tu mulher… se soubesses o poder que carregas em ti
nunca mais haveriam outras de sofrer, de morrer
às mãos ensanguentadas de homens sem consciência
não por uma qualquer congénita deficiência,
mas por uma moral malformada
por quem não sabia o que fazia
por sempre assim ter visto fazer…

Tu mulher e mãe…
Se soubesses o poder que carregas ao educar
Não mandes as meninas com bonecas brincar
Mão mandes o menino para a rua à bola jogar
Educa-os por igual, a limpar, cozinhar, brincar
Sem tendência de recalcamento ou subserviência…
Não eduques as filhas para casar, mas para amar
Para serem felizes, a saberem partilhar, sem pudor
A saberem por consciência que tudo é, partilha
Tu mulher, não queiras que o teu companheiro te ajude
Ele deve sim fazer a parte que lhe compete…
Tu mulher jamais aceites a dependência…

Tu mulher
Quando descobrires o poder que tens na ponta da caneta
Sem invejas e sem vendeta…
Aí sim, o amanhã poderá ser diferente, amanhã podemos ser gente
Em quase tudo igual, em quase tudo diferente…

Alberto Cuddel
07/03/2021 08:18
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIII

Acusações

Acusações

E tu vilmente homem?
De que me acusas agora?
De te usar? De te amar?
Da massagem do ego que me dás?
De te manter neste limbo de paixão?
Vai… Nunca te prendi, nunca te assumi…

De que me acusas?
Tu que te movimentas na sombra
Que me acordas ao alvorecer
Que chegas, que partes sem nadas dizer?
De que me acusas tu?
De ser mulher?
De te ferir o ego inflamado?
De te usar quando estás abandonado?
De que me acusas tu?

Quando tu és simplesmente Homem…

Pyxis de Andrade
03/05/2018
21:40

Generosamente Luísa…

Generosamente Luísa…

Poderia ser Maria, e dos teus seios alimentares a vida
Como alguém que pariu a eternidade do ventre, palavra
Acto desonesto de amor, geração aleatória do universo
Generosamente Luísa, angelical palavra de amor, mãe!

Generosamente Luísa…
Mulher, consciência plena dos tempos e vontades
E dos teus seios abdicou… por outra vida…

A palavra, força das tuas mãos e persistência
A palavras faz-se em mim, fome do conhecimento
Generosamente Luísa… por ti, fiz-me letras juntas
Por ti fiz-me poema…

Generosamente Luísa…

Alberto Cuddel
16/12/2020
20:50
Poética da demência assíncrona…

Joana Vala

Joana Vala

esperei o cinzento do tempo
por entre a esperança do arco-íris
uma solidão desamparada
uma vontade desenfreada…

há um tempo de espera
pela força do sentir,
um madeiro que crepita, frio
uma chama apagada, uma brasa, ténue…
o corpo vergou-se já
há mesmice do tempo ordinário…
amanhã igual a ontem
e hoje sem pressa
igual ao que foi…
“de que me vale a nudez da alma”
esse erotismo banal do corpo
se a tua alma, já não me deseja…
tu que te tornaste inerte a mim mesma…
tenho saudades nossas sabias?
mas não sei ainda onde depositar as flores mortas…

01/02/2020
15:47

Joana Vala

Joana Vala

Mais uma noite me abraça
Na solidão do meu leito
Um chegar que não chega
Um abraço perdido
Uma promessa de beijo
Um sentir não sentido
Um corpo despido
Uma alma que chora…
Longas são as noites
Que passo sem dormir
Longas são as madrugadas
E passam as horas e os sonhos
Morrem-me as lágrimas
E o que sinto…
A cada uma das badaladas…

Porque espero?
Se de ti nada…
Tão pouco um corpo frio
Ou um boa noite embriagado…
De ti? Nada, nem corpo
Nem alma…

01-02-2020

Hoje não me apetece falar

Hoje não me apetece falar

Hoje não me apetece falar, depois de mais uma mulher ter sido vítima da uma masculinidade que não aceito, de um sentimento doentio de posse que nem na escravidão admitia. Não consigo falar de amor, da vida, de beleza, quando mais alguém perde a vida, às mãos de uma sentimento e tipo de relação ignóbil.

Ainda há pouco escrevia que amar é fácil, difícil é foder, afinal, o difícil é aceitar a decisão do outro, aceitar que quando alguém está connosco esse alguém esta porque quer, e não porque nos pertence. E sobre isso recebi alguns comentários que infelizmente demosntam bem que existem homens com grandes dúvidas sobre a sua forma de agir. Que não sabem nem respeitam os desejos das mulheres, que não sabem nem aceitam o que a mulher quer na vida e ao seu lado.

Será assim tão difícil ao homem, ao ser humano aceitar que nem sempre as coisas resultam? Que ninguém é de ninguém? Para quê tanta violência?

Mas o meu pensamento hoje vai para as crianças que sem culpa de nada, por um sentimento inqualificável de homens que nem homens sabem ser deixam milhares de crianças órfãos de mãe e pai.

A. De Alberto Sousa

Ela

Ela

Alma
Palavra
Som
Sopro
Calor
Toque
Boca
Beijo
Toque
Suave
Forte
Lento
Rápido
Sussurro
Gemido
Movimento
Posição
Som
Palavra
Ordem
Obediência
Cadência
Gemido
Respiração
Culminar
Orgasmo
Abraço
Conforto
Palavra
Apoio
Cumplicidade

Ela
Sempre
Ela

Tiago Paixão
11/10/2020

Testamento

Testamento

parede cheia de livros
estante vazia
as palavras gemiam
ninguém as lia…

rasgado o papel, paredes arranhadas
portas fechadas, janelas abertas
nuvens inquietas, e cartas cheias de sonhos.

(…)
no leito os lençóis de menina
com almofadas de menina
colcha de menina
bonecas de menina
o pijama? não existe
apenas a lingerie de mulher,
na consciência de que o diabo já lhe habita o corpo,
para gloria e descoberta do seu prazer…

depois de tudo testamental herança
(de Eva a consciência, de que o homem é mero servo a um propósito maior…)

assim é por herança recebido o poder divino de ser mulher!

Alberto Cuddel
20/08/2020
15:53

Poética da demência assíncrona…

Destemida

Destemida

Destemida segues firme no teu desejo,
Assim persegues a imagem na ânsia do beijo,
Provocando, atiçando o inebriante louco desejo,
Esperando, desesperadamente sonhado!

Destemida mostras-te, nas formas do teu corpo,
Insinuando, na longa espera fazendo-me louco,
No sussurro da voz, no quente e ardente sentir,
No manter acesa a vontade de pegar e partir!
De um mundo de sonhos de onde quero emergir!

Destemida mostras-te, onde te encontras?

Alberto Cuddel®
00/07/2013

Amo-te novamente hoje…

Amo-te novamente hoje…

Já te amei de tantas formas, e mesmo assim existem uma infinidade de formas de te amar todos os dias. Lembras-te deles? Sim desses que nos disseram que quem ama já mais se pode apaixonar todos os dias pela mesma mulher? Infelizmente eles tinham razão, não é possível apaixonar-se todos os dias pela mesma mulher, pelo simples facto de que a mulher que hoje acorda ao meu lado, não é a mesma que ontem comigo acordou!
Mesmo assim amo-te a cada dia novamente, na árdua tarefa diária de te amar e de me apaixonar por ti todos os dias!
De nada se me aproveita o brilho do sol se ele não reflectir o teu brilho, e mesmo assim dizem que o sol é infinito, talvez seja infinito então tudo isto que sinto…

Alberto Cuddel
24/01/2017

Mãe, e o teu tempo?

Mãe, e o teu tempo?

De um amor gerado
Barriga inchada, crença, criança
Bendito seio que alimenta
Bendito amor na noite, tensa
As alvoradas de olhares pesados
Dentes e choros…

Mãe, e o teu tempo?
E mulher, quando por mim
Deixaste de ser apenas mulher?

Nunca foi escolha, apenas amor
Ter filho apenas é, amor!

Mãe, que Deus ilumina,
Na sua dura sina, no dar, no doar
Nas provações do educar
Que nunca ninguém ensinou!

Obrigado mãe, pelo amor,
Pelo teu tempo, pela alegria,
Pelo sofrimento, e pela dor!

Alberto Cuddel
10-05-2017

Ah, a vida!

Ah, a vida!

Ah mulher,
Se eu te entregasse a minha vida
Que farias tu com ela?
– Se a perco a cada dia, a cada partida
Deixa o sonho propagar-se na estrela!

Ah mulher,
Se eu me perdesse por ti na vida,
Onde encontraria eu a saída,
Da dor que me corrói por fora
Que me queima por dentro, onde mora?

Ah mulher,
Dizem que é paixão, mas tenho a impressão
E plena convicção, tenho para mim que não,
O Luís, esse sim tinha toda razão,
É amor o que me arde no coração!

Ah mulher,
Dizem as cartas deitadas
Que ao ser levantadas
Eterno será nosso leito
Se for amor o que tens no peito…

Ah mulher,
Apenas de ti espero,
O sim que evitará
Em mim o desespero…

Alberto Cuddel
22/03/2017

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