Mediocridade do beijo…

Mediocridade do beijo…

…teria fodido muitas mulheres,
Dado prazer até, amado…
Mas nada é tão medíocre que o sonho de beijo
Nada é tão ignobilmente medíocre
Quanto o desejo de apenas as beijar…

Se é para ser que seja, mas que seja tudo…
Não apenas o cultivo do poucochinho…
Do quase nada, era para ser, mas não foi
Do não foi bem, mas quase….

Teria fodido muitas mulheres nos sonhos
Mas o fodido seria sempre eu
Pelo facto de tê-las amado a todas
Por inteiro, sem reservas, apenas perdas
E tudo apenas por beijo….
Um beijo pelo universo
O universo por um rebuçado….
Teria sonhado foder muitas mulheres
Mas no final o fodido era eu….

Alberto Cuddel
13/10/2020 4:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha I

Diário Branco

Diário branco

Definem-me pelo tudo que tenho, sendo o eu o nada que possuo
Nem os meus pensamentos gritados ao vento são posse minha,
Perdem-se na chuva de gritos perdidos nos ouvidos do mundo,
Espero apenas que a lua se deite, para que amanheça em mim,
E por fim, descanso, do cansaço que o pensamento me causa,
Noite branca, dormente na inquietude pensante total e vazia,
Fustigam-me ideias suicidas de novos versos e reversos poéticos,
Poema inacabado, borboletas que esvoaçam perdidas no mar,
Doce imagem do teu corpo nu, vestido com a alma apavorada
Triste solidão que te conforta, no vazio silêncio que a noite dita!

Ai de ti poeta das rimas feitas e frases vazias,
Onde te deitas? Tabuas negras e frias!

Tenho mais certezas que duvidas, pois duvido de todas a certezas,
As dúvidas que me assaltam, espreme-me, esvaziam-me
Deixam-me nu, nunca me acostumo a despir-me das palavras,
Nem à ideia de que as gaivotas fogem do mar,
Ou que sejam as andorinhas a comandar a Primavera,
A casa essa está fechada, nada aberto, nem porta nem janela,
-mesmo assim duvido, que mesmo fechada vivas nela.

Nunca esperei um fim, um principio,
Tudo segue um rumo, um destino,
Um sussurro, um abafado grito,
Desdigo-me, minto, finjo
Nem de ti, nem de mim, nada dela,
Que me contas, do tempo do nada?
Porque te finges ser um tudo,
Se no tudo que do alfabeto se pesca
És meramente actor, um mero poeta!

Alberto Cuddel®

Aborrecimento!

Aborrecimento!

Passo adiante, apressado e constante,
Que aborrecimento, ver-te assim caído,
E sonho distraído, vago e ausente,
Diferente, indiferente a tanta gente!

Corra o mundo,- grite o mundo insanidade,
Que aborrecimento, que suja esta a cidade,
E esse vestido preto, onde me fazes sonhar,
Dispo-te o pensamento, na alça descaída,
Que me importa, não deixo perder-te no olhar,
Saio, não saio, fico, sonho e passo a saída!
Que aborrecimento, que faço eu da vida?

E chove, algures no mundo,
Aqui e agora pouco importa,
Sei-me indiferente, ao sol,
À chuva, ou a uma qualquer porta!

Que aborrecimento,
Tudo por um preto vestido,
Que quis em teu corpo despido!

Alberto Cuddel

Deixei cair o olhar

Deixei cair o olhar

Deixei cair o olhar, na volúpia da tua blusa,
Adormeci no longo azul que me cantava,
Deixei que minha mão caminhasse fogo adentro,
Que te encontrasse,

Que desenhasse mundos sem fim,
Que descobrisse em ti o universo gemido…

Deixei cair o olhar, lascivamente na tua saia,
Acordei dormente do sonho da mente,
Deixei que meu corpo se dobrasse,
Caísse por terra e te bebesse em tragos,

Que escutasse o rubor do teu rosto,
Que descobrisse em ti outra gramatica,
Outra forma de dialogo, e um universo de estrelas!

Deixei cair o olhar, sequiosamente nos teus lábios,
Suspenso na miséria e na grandeza de quem ama,
Neles alimentei a alma, na calma de me saber desejado!

Deixei em ti cair o olhar, e para mais ninguém o levantei!

Alberto Cuddel®

Às vezes em dias perfeitos

Às vezes em dias perfeitos

Às vezes em dias perfeitos, apenas a tua ausência
Tolhe-me o fogo que me arde nas veias,
Pergunto-me se sente o mesmo?
Ou sequer pensas na mera existência do sentir
Que em mim dói na dormência atroz de me faltares?
Sinto-me, disformemente amputado de ti,
Faltas-me, para que eu em mim exista na plenitude!
Faltas-me,
como as flores num jardim
como a lua na noite
como um veleiro sem vento
faltas-me inclusive nos sonhos
que teimosamente mantenho
mesmo que acordado
consciente da falta
do teu perfume no meu corpo!
Chegas-me, completas-me, compões-me
Fazes-me… assim és, dor da ausência
Por eu próprio não me ter,
Pergunto-me se tu também não te tens?
Ou que quer sou em ti ausência,
Ou apenas apêndice, como um qualquer adorno
Que apenas te faz mais, mais tu?
Às vezes em dias perfeitos, perco-me
Como se perdesse, como se te perdesse
Por apenas amar com o emaranhado de pensamentos…

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi

Espelho da Alma

Espelho da Alma

“que as nossas Almas sejam Alfa na menina dos nossos olhos”
Eliomar Marinho


Nunca saberei definir o tangível do teu ser,
Espelho da alma onde de mim iras beber,
Reténs na retina a tristeza e o lamentos,
Faíscam sorrisos, gozos, alegrias e os momentos,
Abre-me no espelho da alma, o que de ti retenho,
Nos alfas pensamentos, sonhos primeiros!

Nas pálpebras fechadas e pesadas solta-se a voz,
Calada nos beijos impalpáveis, bebidos nos lábios
Movimentos oxidados dos desejos futuros, -leio-te
No olhar fechado, no movimentos dos dedos,
Expõem em mim a alma, os teus medos e segredos!

Ainda assim que nossas almas sejam Alfa,
Que nossas almas sejam beta, sejam alfabeto,
Que se espelhem na menina dos nossos olhos!

Alberto Cuddel®

Joana Vala

Joana Vala

Quem és tu?

Quem és tu que meu leito partilhas?
Quem és tu que despertas pela manhã?
Não te conheço, não te reconheço
Que vã esperança esta que me tolhia o olhar
Recuperar o ser que amei, que amava?
Quem és tu habitas sob o mesmo tecto
Que nada faz de concreto
Passam as horas e olho-te
Acabrunhado, acabado, velho
Com medo de tudo e de ninguém
Como se o tempo te fugisse dos pés
Com se a vida se tivesse esvaido
No último dia que entraste pela porta…

Quem és tu que não conheço
Que não sorris, que não sentes?
Quem és tu remetido ao silêncio
Que me repulsas, que te encerras
Que te fechas ao mundo?
Onde estás amor que eu sentia?
Onde está o ser que eu amava?

Quem és tu que apenas existes
Sobrevives dia após dia
No confinamento da tua alma…
Quem és tu que não me falas
Além do subterfugio das respostas obvias…
Deixa-me entrar na tua capsula
E resgatar-te para a vida…

24-03-2020
02:05

Poética da demência assíncrona…

Poética da demência assíncrona…

há na realidade do pensamento humano,
uma essência flutuante e incerta,
tanto na opinião primária,
como em todas as outras pensadas
longamente na visão platónica do mar
como naquela outra que lhe é oposta,

as hipóteses do pensamento são em si mesmas instáveis
nesse rasgo visionário de um por do sol
ou no rasgo matutino gemido de um parto malformado
em dias de neblina pelo sol que se ergue no horizonte
no olhar não há síntese, pois, nas coisas da certeza,
apenas existe a tese da antítese apenas.

seja a areia do mar, registo flutuante do tempo
do que vai e do que vem, sem ter chegado a ser vidro
na síntese penso que sinto, e no que sinto sei o que finjo
na certeza do que é em mim, é verdadeiramente concreto
no que da minha alma brota, que em meu íntimo sangra…

nem os demónios me aceitam no convívio sádico da expressão
nem as rimas gritadas na dorida alma que orgasmicamente sente
nem no pensar concreto da consciência poética existe síntese
nem nas vogais, nas consoantes, nas orações desenhadas
só os deuses, talvez, poderão sintetizar este sentir atrófico
que finjo ser mentira de tão verdadeiramente sentido
num formigueiro que dolorosamente me percorre os dedos…

este pensar a poética pelo que alegremente se sente
numa consciência pagã do que se pode fingir
sentido que o que se escreve é ingenuamente a verdade da mentira…

Poética da demência assíncrona… ou a consciência da verdade…

Alberto Cuddel
24/12/2020
08:55
Poética da demência assíncrona…

Doce olhar distante…

Doce olhar distante…

é a tua voz distante eco de uma saudade que nunca aconteceu
e foi semente do tempo que será
entre o sonho e o desejo, chove, crescem as ervas
amadurecem os cachos nas videiras e abrem os braços as árvores
namoram os pássaros os ninhos…

e fez-se poema nas serras o desejo de as abraçar aos céus
fez-se paixão a palavra e a confirmação do sim
corremos montes e vales,
atravessemos o mundo e os rios…

e os braços paralisados pelo desejo
que um mundo proibido, deixaram de remar
ou suspenderam no amor que livre jogou
maior que posse em fugaz tempo sonho que húmido definhou…

ergue-se a esperança em águas de Abril
no tejo correntes e douro em repouso
há novos prazeres que a carne semeia
apagam-se os fumeiros… varre-se a eira…

nesse olhar distante deposito a esperança como eco
de uma saudade que ainda não nasceu…

Alberto Cuddel
19/12/2020
16:40
Poética da demência assíncrona…

Lanço poemas

Lanço poemas

Em tudo o que faço e refaço.
Meus pedaços em troca de laços
Dar o que em mim ainda há
Tanto sofro como choro
Tanto rio como sorrio!
De que me afasto se me basto
Chega! Agora basta!

Odes delirantes de alfobres
Berçários de versos, reversos
Saudades…
Amores, paixões, desejos profanos,
Sonhos e dores…
E arde em silêncio a candeia
Que me ilumina e incendeia
Chama que dança –lua cheia,
Triste e amargurado poeta
Por onde arrastas teus versos
Peregrinos, lançados pela janela
Ao colo de uma donzela,
Sofre em si abstinência do corpo
Lágrimas que lhe correm no leito
Pelos tremores do desejo,
Tudo por nada, apenas por um beijo!

Ai poema, poema,
Onde me levas, debruado na noites
Em cama de estrelas, sonho vê-las,
Palavras soltas, directas, concretas,
Rimando apenas na beleza do seu busto,
Nos versos procuro e rebusco, o sim,
O não, o amor, a paixão, ou apenas a visão
De te ver passar mais uma vez,
Lançando-te poemas para o colo!

Alberto Cuddel®
15/07/2016

Conflito…

Conflito…

Além do tempo, vive em ti o sonho
Lágrimas que caem, no eterno conflito
Entre a realidade e o querer do desejo
Leve como as pétalas no seu perfume
Na brisa esvoaçam, no vento perdem-se
Bailam como borboletas manhã primaveril
Nos verdejantes prados de flores
Tudo muda no vento, na tempestade
Até nova calmaria, nova bonança!

Alberto Cuddel®
17/07/2016

Ciclo!

Ciclo!

Uma branca parede
O vermelho escorre
O povo já com sede
A oposição já morre!

Ensaio armado, pelo teu poder
Tudo se faz, tudo se arquitecta
Tudo se justifica, e eles? A ver,
Esperando, estanque morte certa!

Velha, egotista olhando o umbigo
Europa, fogem as ilhas ocidente,
A oriente discordas correm contigo
E nós? Seguimos a vida indiferente!

Negras nuvens cobrem brancas paredes
A história é um ciclo, um dia repete-se!

Alberto Cuddel®

Actualidade preocupa-me…
20/07/2016

Generosamente Luísa…

Generosamente Luísa…

Poderia ser Maria, e dos teus seios alimentares a vida
Como alguém que pariu a eternidade do ventre, palavra
Acto desonesto de amor, geração aleatória do universo
Generosamente Luísa, angelical palavra de amor, mãe!

Generosamente Luísa…
Mulher, consciência plena dos tempos e vontades
E dos teus seios abdicou… por outra vida…

A palavra, força das tuas mãos e persistência
A palavras faz-se em mim, fome do conhecimento
Generosamente Luísa… por ti, fiz-me letras juntas
Por ti fiz-me poema…

Generosamente Luísa…

Alberto Cuddel
16/12/2020
20:50
Poética da demência assíncrona…

Lá fora depois do sol um dia do tempo…

Lá fora depois do sol um dia do tempo…

Lá fora vai um redemoinho de sol cavalgam as ondas sob a maresia …
Árvores, pedras, montes, bailam sob as nuvens que correm
Noite absoluta chuva de estrelas, luar sob a areia molhada…
Caídos no abraço sem pressa, amando a humidade salgada do mar…

Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado do mundo, onde a saudade se põe
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a lagoa
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol…
Sob o luar a roda gigante, subimos os dias, caíram as noites

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades caiem as estrelas
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar…
Abraço o amor como agarro a vida, escorre o tempo como areia

Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos…
As minhas mãos são os passos daquela mulher que abandona a feira,

Sozinha e contente como o dia de hoje…
Na esperança que a noite caia…
E no abraço se morra o dia…

Alberto Cuddel
13/12/2020
04:50
Poética da demência assíncrona…

Do primeiro antes do depois…

Do primeiro antes do depois…

falo de ti às flores e à madrugada
falo como se calado estivesse
de lábios cerrados pelas brasas
nesse luar que desabrocha no lago…

falo de ti ao mar e as rochas fustigadas
as areias que correm e ao sol que se esconde
de alma aberta grito silêncios do alto da escarpa
nesse barco solitário que longe atraca…

falo de ti para não morder a língua
jangada de pedra, vento de leste
nesse barlavento em sentido oposto
falo de ti, mãos no rosto, e o beijo…

falo de ti, de mim não…
eu que pertenço à raça de construtores de impérios
de castelos de areia e de sonhos, eu que sou poeta
que enclausuro dentro de mim o homem que me habita
falo de ti aos céus, aos deuses, de mim não…

se falar como sou, não serei entendido,
porque não tenho poetas que me escutem
nem aves ou peixes, nem mesmo tu…
porque eu sou como sou,
uma confusa imensidão de mim,
e de todos de mim
é de ti que falo
desde o primeiro dia
bem antes do depois
porque o depois de que de ti falo é agora…

Alberto Cuddel
12/12/2020
03:10
Poética da demência assíncrona…

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

<span>%d</span> bloggers like this: