Quando eu não te tinha

Quando eu não te tinha

quando eu não te tinha contava as nuvens
esse tempo que passa entre as trovoadas
na ganancia de ver nascer o sol por entre os montes
arrancando pétalas ao relógio contando os minutos

quando eu não te tinha, a lua morria em si mesma
afogada na saudade, nova sempre nova
esperança de ser cheia
e corria com os pés molhados na areia

quando eu não te tinha, tinha medo
agora? as portas do tempo sem pressa
apenas tenho vontade, que o tempo salte
para parar ali, mesmo ali, adiante…

Alberto Cuddel

Sem palavras

Sem palavras

Tenho rasgado sonhos e versos de amor
Plantado lágrimas no teu sorriso
Cantado ledas certezas que não se cumprem…

Tenho caído no logro de não fazer
Nesse medo que me amarra
Nesse amor abrangente que abdico
Na imobilidade dos pés, caminho que não faço…

Sem palavras…
Sem gestos…
Sem o sorriso
Sem as lágrimas
Tenho ficado
Apenas isso
Ficado parado…

Alberto Cuddel

Tremores

Tremores

tremem-me as mãos e o corpo
nessa doideira de me fazer novo
e eu,
e tu e esta escolha que deus impôs
entre a alma e a vida,
entre a fome e a sede
entre estar e o partir
entre o chegar e o ficar
o sorte madrasta das marés
ciclos lunares em contra pé
e a morte essa cura eterna para os males do mundo…

Alberto Cuddel

Ah não sei se já

Ah não sei se já

um estranho de ser, onde morre o sonho
na verdade que acordo, acordo-te
entre um abdicar de um pensamento
certeza da vida aos olhares sonolentos
risca-se toda abdicação da oração
entrelaçam-se as palavras secas no rouco gemido
lençóis de linho frios…

dói-me que respondas quando pergunto
alivia-me perguntar o que sei
[ama-se para que se sinta]
sente-se apenas por amar
ninguém em parte alguma do mundo
ama como amas
sente como sentes
ah não sei se já
mas agora o amor sente-se
na electricidade que te escorre pelos dedos…

Alberto Cuddel

Poesia colorida

Chegou-me na 6a feira às mãos esta belíssima obra, mais que pelo aspecto gráfico é a essência que me arrebata, uma obra que tive o prazer de ler e estudar, uma obra que tive o prazer de prefaciar… Obrigado Maria Fialho!

Prefácio
Antes de mais é uma honra e um privilegio ter sido convidado a ler esta obra em primeira mão, esta obra, em que mais do que pintar a poesia (Poesia Colorida) a autora Fortunata Fialho, professora de sua profissão, nos mostra como pintar a vida, a que vemos e que sentimos. Ler esta obra poética, mais que olhar o mundo pelo olhar do autor, é despir-se de emoções e ideias preconcebidas, é estar aberto a novos olhares, a novas cores, é estar disposto a contemplar a alvura da noite, pelo olhar de um cego. Ler poesia é saber pintar na alma com novos pinceis, outras paisagens.

Pensei varias vezes em seguir um padrão habitual, cronológico, mas como um livro de poesia não deve ser lido, mas ir-se lendo, permiti-me deambular pelas paisagens habilmente pintadas pela autora, e deixar-me surpreender pela beleza, pela analogia, pelas metáforas, e eis que me deparo com um poema que me transporta dali, numa clara associação de pensamentos dou por mim a lembrar São Francisco de Assis, tudo é tao perfeitamente simples quando amamos o que é natural, com a naturalidade de estar grato pelo dom da vida:

“Obrigado ao sol por nascer todos os dias,
Obrigado à noite que me aconchega.
Obrigado ao vento que me acaricia,
Obrigado à água que me refresca.
Ao amor que me completa um obrigado apaixonado,”

Nesta obra a autora além de pintar paisagens como o seu Alentejo, Fortunata Fialho pinta essencialmente sentimentos, estados de alma, pinta as gentes, a dor e a terra:

“Onde cada porta se abre a quem vier por bem.
Terra de brandos costumes e corações imensos,
Onde com abraços, pão e vinho se acolhem as gentes.
Alentejo, terra linda, de gentes tranquilas e amáveis.”

Na sua poética muito centrada na observação do mundo, no sentir que se abre na translucidez da alma onde as cores se misturam com as palavras, onde a outrora faz da alva folha tela de sentires em cores do arco-íris, levando o leitor ao êxtase do sonho, ali diante dele, numa realidade nua, onde os astros me imiscuem no peito:

“Um mundo colorido com laivos de carinho,
Vermelho de luz, amarelo de sol,
Azul como a doçura líquida da água.
Verde como os campos renascidos,
Preto… coberto de estrelas,
Prateado como os reflexos da lua,
Ternurento como as mãos rosadas de uma criança.”

Passamos pelo tempo, com um amigo, este amigo que nos fala, ler um livro de poesia é travar uma íntima discussão connosco mesmos, é um monologo interior segundo a nossa vivencia e conhecimento, e nisso a autora também nos acorda para realidade, chama a nós a vida, os problemas reais que existem ali, bem ali diante de nós, como a discriminação, como a exploração, a violência domestica e suas consequências:

“O povo criticou, hostilizou e disse, “ Desenvergonhadas”
Elas fingiram não ouvir e continuaram.
Os homens assustaram-se e tentaram pará-las.
Então um disse, “ Ganharam o meu respeito”
E a ele outros se juntaram e novamente coabitaram.”

Nesta paleta de cores não conseguimos dissociar a poesia da realidade, dos sentimentos profundos, da arte de sentir, da essência da vida, e nisso a autora quebra tabus linguísticos, escrevendo com todas as cores a arte de amar e do prazer:

“Amávamos fisicamente sem tabus.
Lembro todos os suores lavados das nossas peles,
De todos os orgasmos partilhados,
Das palavras abafadas pelo som da água corrente.”

É por tudo isto e por todas as cores que estou grato, que mormente agradeço o enorme privilégio de ter lido e continuar a ler esta obra poética, parabéns Fortunata Fialho, este não é mais um livro de poesia, mas sim uma tela onde com palavras simples pintaste a vida.

Alberto Cuddel

Para adquirir o livro entrar em contacto com a autora! Deixo o link do blog dela

https://escreversonhar.wordpress.com

Palavras soltas no improviso

Palavras soltas no improviso

Perdidas e desencontradas de olhares latos e vulgares… as reticências indicam-nos que os pontos finais são meras causas ocasionais da nossa ilusão… o recomeço de algo inacabado afinal existe … ou talvez a espiral continue …

Rodas dentadas e vivas
Encaixe perfeito do movimento
Uma imagem, um momento
A sinusóide desenhada na alma
Complementam-se as palavras
Pelo prazer da fusão das almas que declamam…

Somos assim o pedaço de terra lamacenta, que pisa o chão sem o sentir debaixo dos pés… e eu debruçada no muro do Esquecimento, levada pela espera, guiada pela vontade ….
que a noite Não se acabe … O destino quebra-me com o seu silêncio enquanto a noite vira dia… as palavras são testemunhas, assim como todas as estrelas duma madrugada que não me lembro…

Assim como o sol corrompe a noite
Desvirginando madrugadas
Assim lascivo me encontro no limbo dos sonhos
Testemunhas silenciosas
As metáforas contam desejos de antíteses
Enquanto as hipérboles se limpam do orvalho
Que te escorre dos seios…

São meros pleonasmos invertidos
Revestidos de anáforas, desabafos ao relento das nossas ideias, acerca das engrenagens mundanas que nos rodeiam…
a poesia é a teoria que transforma a metafísica na realidade abstracta em que nos achamos encontrados … Para lá dos segredos da mente humana…

Rasgamos vitrais da realidade
De igrejas caídas pelo pecado
Abstracção das formas físicas do amor
Almas caídas e anjos confessores
Neste espaço ordinário
Onde o tempo ordeiro morre
Pelo sémen do gozo caído em terra
Profanemos os túmulos da cultura
E glorifiquemos o poeta de Setúbal
Que a alma do Maria nos guarde…

Mer Rose e Alberto Cuddel

25/08/2019

Tremores

Tremores

tremem-me as mãos e o corpo
nessa doideira de me fazer novo
e eu,
e tu e esta escolha que deus impôs
entre a alma e a vida,
entre a fome e a sede
entre estar e o partir
entre o chegar e o ficar
o sorte madrasta das marés
ciclos lunares em contra pé
e a morte essa cura eterna para os males do mundo…

Alberto Cuddel

Quero apenas ficar

Quero apenas ficar

Não partas, não vás
Permite-te apenas que fique
Deixa-me permanecer em ti
Antes de partir…

Que sejam as noites orgasmos teus
Que sejam as noites gemidos meus…

Deixa-me apenas ficar em ti
Saborear o sabor que ela sente
Ao ser amada, ao ser gente…

Quantas vezes me perco na vastidão
Da incompreensão da tua sedução?

Deixa-me amarrar-me a ti na tua servidão
Permite-me pertencer-te, tu que te entregas
Quero-me Homem, para que de ti Mulher
Sejamos humanidade, no prazer
Que a vida nos concede…
Entrego-me à tua entrega
No poder que tens
Em me fazer servo
Da serva que és…
Pelo amor que me devotas…

Sabes?
Em mim não é possível processar
Toda a abrangência da tua linguagem corporal
O sim será sempre sim, já o não será ou não!

Tiago Paixão

Arrancado do son(h)o

Arrancado do son(h)o

Quanto burburinho pelo afogamento do homem no sonho
– Apenas dormia, atribulado o poeta…

Quanta distância entre o sol e a seta
Nesse acordar do demónio da noite
No último poema, do último poeta
Em montanhas verdes e sombrias!

E mastigam-se sementes da transpiração da palavra
Longo é o sonho das musas, acordo e não o lembro
Nessas palavras subterrâneas irão transparecer segredos
Paixões ocultas nos dedos e todos os medos!

Diz-lhe que vieste, acordado esbofeteado
Pela realidade da noite que te adormece
Desperta e ama antes do sol raiar
Faz-te, gesticula a imaginação
Faz-te verso, sê melodia e canção…

E descem do monte amarelo
Farinha, fome e pão
Adormeces no son(h)o
Vives sem qualquer tesão!

Humedece os teus dedos na língua
Quente, apaixonada, ávida
Acorda e muda a página
Acorda e muda a página
Vive agora!

Alberto Cuddel
04/11/2018
Marvila, Portugal

Ah não sei se já

Ah não sei se já

um estranho de ser onde morre o sonho
na verdade que acordo acordo-te
entre um abdicar de um pensamento
certeza da vida aos olhares sonolentos
risca-se toda abdicação da oração
entrelaçam-se as palavras secas no rouco gemido
lençóis de linho frios…

dói-me que respondas quando pergunto
alivia-me perguntar o que sei
[ama-se para que se sinta]
sente-se apenas por amar
ninguém em parte alguma do mundo
ama como amas
sente como sentes
ah não sei se já
mas agora o amor sente-se
na electricidade que te escorre pelos dedos…

Alberto Cuddel

Dissolvido

Dissolvido

O coração cheio de vazio contínuo.
Nada que mude o cego destino.
Rosto pálido, semblante caído,
Águas negras infestadas,
Demónios do passado,
Descrenças, desconfianças,
Atolado neste negro propósito,
Sem salvação, sem vontade de sair!

Queda,
Forças, uma a um abandonam o ser,
Vontade, desejo de mergulhar,
Deixar afundar, aguas profundas,
Ausência de luz, palavras, querer,
Lua, noite eterna,
Luar ambulante que me perde,
Que me encontra, despedaçado,
Arremessado continuamente pela corrente,
Há rochas firmes da certeza do orgulho,
Assim me diluo, neste mar que me absorve!

Sendo noite, na desilusão, deste (A)mar!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva
09/10/2015

Desabafo

Desabafo

Acho que nunca me viram (leram) neste registo no blog, mas hoje apetece-me… o que se pode fazer? Ou suicido-me ou digo tudo sem papas nos dedos…
Estou cansado dos bloqueios no facebook/Tumblr/Instagram, sou poeta, escrevo literatura erótica, não tenho pudor ou vergonha alguma, não é uma questão de sonho ou de até de desejo pessoal, que querem? Tenho jeito para fazer os outros sonharem… “mas à parte isso” e agora ate citei Álvaro de Campos um dos heterónimos de Pessoa, no seu famoso poema “Tabacaria”, (Ora fodasse, além de polémico ainda é culto), à parte, estou cansado de não ser lido como devo ou seja: tudo o que de mim lêem deve ser interpretado segundo vocês mesmos, não na busca de mim nas palavras, defino-me como romancista preguiçoso, posso ter bebido toda a noite whisky, e escrever a ode da minha vida à “vodka com laranja”, às vezes canso-me de escrever o amor, não que o amor me canse nas suas maravilhosas vertentes, mas por que todos cobram do amor, quando amar é apenas doação, ninguém pode cobrar do amor orgasmos, porque isso é prostituição. Falam-me da amizade na poética, como se por ser amigo eu tivesse o dever a OBRIGAÇÃO, de dar like ou comentar “maravilhoso” a um texto que não usava para limpar o fundo das costas que evacua se tivesse ido ao wc por mais fofinho que fosse…
Estou cansado de uma poética de conto, onde todos contam as suas mágoas e desejos, eu não quero saber se traíste o teu marido, se está apaixonado por outro fulano, se a fodeste na praia, eu quero encontrar-me nos teus desejos, na tua volúpia no por do sol na praia, nada mais simples do que amar pela alma de outro alguém, mesmo que esse alguém tenha vivido no início do século XVII…
Mais que uma arte fonética, que uma arte gráfica (ortografia) a poética é uma arte de alma, uma arte de dois sentidos, o olhar e ou o escutar, ( reparem que não referi ver e ouvir), para a percepção da poética é necessária uma predisposição espiritual única, um pouco como a diferença entre o amor doado e o foder narcisista, canso-me por encontrar no leitor a arte do cagalhão, olham a forma, mas não a arte do cozinheiro que confeccionou a refeição… indo ou pouco mais além, e tudo se resume ao amor que o agricultor dedicou ao cultivo dos pepinos…

Eu e todas as outras personagens que sou

21/08/2019

15:30

Joana Vala

Joana Vala

Mudos foram os discursos e discussões
Os teus gestos cobardes nem cá nem lá
Nem no prazer me abandonas pelo prazer
Incompetentemente és, fraco, miseravelmente fraco…

Despe-me, rasga-me as vestes e possuí-me…
Abandona esse cronico cansaço e a labuta
Limpa a mente da rua, sejamos pobres
Leva-me ao olimpo, e traz-me e volta a levar…

Arranca-me desta tristeza monótona
Desta ordinária vivência sem emoção
Não sei quem sou, o que sinto, quem és…
Apenas queria que me visses, que me amasses
Que me fodesses até…
Eu ainda vivo, ainda existo
Até amanhã, até a um desleixado adeus…

21/08/2019
12:40

Na gaveta

Na gaveta

Em vagas horas
Em que o silêncio se estende
Vagueia redondo o pensamento
Perdido por entre os espaços da mente.

Nuamente na orfandade latente
Perdem-se ideias, sentir que mente,
Seguem correntes e brisas modistas
Sem conteúdo, apenas comodistas
Cópias, ideias curtamente repetidas
Ideias sombrias e sujas, escorregadias
Politicamente e socialmente aceitáveis
Mornas, travestidas de conceitos morais
Ideias em versos tristes, sem apoios sociais!

Em vagas horas
Em que silêncio se estende
Escrevo e escondo
Pensamento redondo
Que me liberta a alma,
Ao pó, na escuridão da gaveta,
Poesia escrita a tinta preta,
Tantas vezes tingida de sangue!

Alberto Cuddel®
18/08/2016

Sonhando a paixão

Sonhando a paixão

Repleto de memórias reais, vividas…
Nossos espíritos se acompanham num ritual sem tempo,
Nos confins da íntima essência,
Lasciva a atmosfera que nos prende,
Com tremendas aragens libidinosas…
Neste amor onde pairam rosas que se dissolvem,
Como espuma marítima, junto a praia…
Sonhamos enrolados de pétalas espremidas…
Gritando a colorida essência do prazer,
Sonhamos a noite com um único propósito…
A saudade,
Sinto tua falta como o ar que respiro,
Juntos formamos um só corpo, Sol e Lua…
Amor cego e luminoso,
Amor translúcido ao breve olhar…
Amor que nos faz viver,
Amor que dói, por não te ter,
Uma chama que consome o nosso espírito,
E nos leva a loucuras…
Então uma lágrima de meus olhos aos teus rolou…
Lágrima que no tempo não perde o brilho,
Que pelo vento que nos separa faz sentido…
Nós condenados,
Que aos primeiros raios de sol,
Fundimo-nos, tocamo-nos…
Vivendo a eterna ilusão,
De sonhar a realidade,
Em ti que na noite sonho a verdade,
De te oferecer as palavras,
Ternas e meigas, que te libertam da saudade,
Amo-te!

Alberto Cuddel
11/07/2013

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