Um minuto,

Um minuto,

No silêncio da sala vazia,
Uma pancada fria e seca,
Uma culatra puxada atrás,
Um minuto a mais queria,
Na solidão da biblioteca,
Um minuto a mais terás!

Movimento perfeito,
De um ponteiro recto,
Um minuto, que fazer,
Pensamento esvoaçante,
Vontade de pensar querer,
Correr veloz ao passado,
Ao feito inconfessado,
Desliza ao sonho futuro,
Sentimento gélido e duro,
Ao quente e doce amar,
À ideia a concretizar,
Folhas soltas da memória,
Apresentadas como vitoria,
As imagens rodam reais,
Locais e coisas banais,
O teu olhar, o teu beijar,
O toque do teu desejo,
Quietude do teu escutar,
Em minhas mãos te vejo,
Perdida na saudade,
Desta louca ansiedade,
De um minuto restar!

Uma pancada fria e seca,
Uma culatra puxada atrás,
E o ponteiro avança!
E tudo de novo recomeça,
Um minuto, outra conversa!

Alberto Cuddel

Poema à dor do adeus

Poema à dor do adeus

Carrego nas mãos o sangue do teu peito
Esse que fiz jorrar no adeus
Esse que te corria no corpo de véspera
Cada batimento, a cada beijo, a cada sonho
Carrego nas mãos a dor da tua morte
Eu que numa palavra matei a esperança
Matei a alma, o corpo, a beleza, a poesia
Eu homem cobardemente matei o Amor!

Carrego nas mãos o sangue do teu peito
Na alma a morte do teu ser
Carrego em mim o peso da cruz
E esse “não” que me repeti
De um “sim” caído no chão pelo peso
Desse outro sangue de tanta outra gente!

Carrego no peito cravado esse adeus
Que sangrando me faz viver
Na culpa de nas mãos ter o teu sangue
Que por mim jorra na culpa de não dar
Não entregar, não gravar no tempo
A felicidade a que disse Adeus!

Alberto Cuddel

Escutem-me no silêncio

Escutem-me no silêncio

Se grito calada, com o olhar cheio de nada,
se os hematomas falarem por mim
se eu culpada ainda assim desculpar
se eu não me conseguir amar….
escutem o meu silêncio…

Se eu mulher, criança, idoso, vitima
não falar, perdoem-me
mas eu no meu silêncio
ainda não me sei perdoar
mas ajudem-me, escutem o meu silêncio
ajudem-me a denunciar…

#poeticamortem
28/10/2018

Exausto,

Exausto,

Deito-me exausto, sento-me, levanto-me,
Gritando silêncios de dor em alto pranto,
Visão distorcida uma sórdida humanidade,
Esquecida fora uma inócua e forte vontade,
De cuidar dos meus dos vizinhos humanos,
Vida em mim ideias, uns seres mundanos,
Sociedade corrupta, sem espirito, sem união,
Moral, humanidade, solidariedade, religião,
A morte espreita a cada esquina, a cada porta,
Podre sociedade esta que assim se comporta,
Sem dar a mão a seu irmão que morre no mar,
Não há preocupações ou poder indignar-se,
Seguem a triste vidinha sempre assobiar,
Dos outros irmãos, sempre outro vai cuidar!

Até ao dia em que serás tu,
Sim um dia tu
Tu também vais precisar,
De uma mão, uma palavra, um pão,
Da força, da vontade de um teu irmão,
Ai recordarás, todas as vezes que disseste não,
Para meu irmão não tenho tempo para cuidar!

Será tarde, ainda há tempo, vê, escuta,
Faz, ama, ajuda, muda a tua conduta,
Podes não mudar o mundo, não ficara aquém,
Na tua acção mudarás também a vida de alguém!

Alberto Cuddel

Lágrimas de sangue

Lágrimas de sangue

Rubras pétalas derramadas no sangue,
Amor mal cuidado, quase perdido,
Delírios de homem coração infame,
Orgulho ferido em solidão sentido,
Erro vergonhosamente assumido,
Corre uma lágrima sob meu rosto,
Espinho cravado coração colocado,
Sangrando atroz no meu sofrimento,
Homem que chora agora renascido,
Perdoado que fora arrependido,
Do sul e do norte renascido da sorte,
Nascido do ventre das garras da morte,
Ser sublime mulher de humilde razão,
Deusa do mundo virtuoso ser,
Lágrimas vertidas no simples perdão,
Cravadas a ferro na fénix nascida,
Falha perdoada mas nunca esquecida!
Nascidos de novo na rosa da vida,
Perfumadas noites no novo amar,
Não há ter nem ser, apenas o dar!

Alberto Cuddel

Um tédio de pensamento

Um tédio de pensamento

No tédio das palavras que não galopam
Apertadas pelo chicote da imaginação
Picadas pelas esporas do pensamento
Espero puras substâncias que dopam
Momentos de puro êxtase e excitação
No já agora, ou dentro de um momento!

Mordaz querer nas longas noites escuras
Cinzento luar, lobos que se silenciam,
Sono ausente nos trabalhos forçados
Ruas vazios, calçadas negras e puras,
Candeeiros apagados que não reflectiam,
Cães vadios que ficam apenas deitados!

Raiva aparente na distante vontade,
Pensamento que voa em plena cidade,
Voltas perdidas sem conta aparente,
Longos passeios no quarto ausente,
Insónia forçada no meio de gente,
Distante, cansada, de cama decente,
Tempo perdido pensando em rimas,
Acordado pensando nas últimas,
Palavras que debito sem um sentido
Sentado no nada maltratado juízo,
Martelado ruido de longínquo gizo,
Telefones prementes anafado ruido,
Silencio da noite assim poluído,
Correndo ao leito assim repousar,
Fazer este pensamento assim acabar!

Noites longas, escuras sem fim
Ficar acordado obrigado assim
Trabalho distante, na ignorância da noite
Por ti que dormes ignorando o acoite
No descanso no dia onde não dormia
Pelo ruido que em casa o vizinho fazia
Deitado na cama em dias de sol
Dormir na solidão do gélido lençol,
Que por ti clama na saudade do calor,
No terno feitiço que separa o amor!

Alberto Cuddel (26/04/2015)

Goticismo do meu eu

Goticismo do meu eu

Erguei-me das trevas anjos excomungados,
Sentir que se apagou ferve-me no sangue,
Nas frases perfiladas, nos gestos abnegados,
Nos corpos arrastados num qualquer banguê!
 
Desmembrai a alma no miar de um gato sujo
Meras árvores despidas onde vos grito e sabujo
Uivos ecoam na garganta rasgada por espinhos
Escondidos textos por entre ocultos escaninhos!
 
Lembrai-vos que fui, que êxito plenamente
D’Alma que num corpo concomitantemente
Ainda hoje se arrasta por este chão imundo
 
Jograis do tempo balbuciai a minha morte
Não vos desejo ou almejo semelhante sorte
Sou poeta desterrado deste podre mundo!

Alberto Cuddel

Do meu último Livro – O Silêncio Que a Noite Traz

O tempo que tenho

O tempo que tenho

Perguntam:
Perguntam ao tempo que tenho,
Porque perco tempo com o amor,
Sem olhar ao mundo ao meu redor,
Na beleza das flores,
No canto dos pássaros,
No azul do céu,
No cristalino mar?
Tudo muito fácil de explicar,
No teu perfume o odor da Primavera,
Na tua voz o doce canto,
No teu olhar o mar onde me perco,
No teu sentir a importância do dar,
Na tua ausência a solidão,
Na tua presença a paixão,
No teu sonhar a ilusão,
Em ti as palavras me realizam,
Em ti o amor da entrega no madeiro
A promessa, a salvação,
Em ti o pecado não faz sentido,
O desejo é permitido!
Em ti sou, existo,
Sem ti sou extinto!
Nada mais faz sentido!

Alberto Cuddel 26/04/2015

Uma carta ou apenas me confesso

Uma carta ou apenas me confesso

– Sabes Maria, tenho pensado muito em nós, em mim contigo, quem serei eu livre do ontem, sem essa ancora que me arrasta, sem esse peso mórbido de um amor doentio, sem essas grades que ergui à minha volta, sem esta consciência velha amarrada a preceitos toscos.
– Sabes Maria, às vezes penso que morri, que estive morto demasiado tempo, que não vivi, agarrado a uma ilusão que não via, que representava a cada dia, como um animal adestrado num palco de circo, que servia o prepósito da aparência enquanto durava o espectáculo. Despois, morria de novo enjaulado até ao próximo, inventando Tiago em sonhos, poemas escritos e perdidos no tempo.
– Sabes Maria, ainda tenho medo da porta aberta, mas já tenho mais certezas que medo, já perdi o medo de sonhar, deixei de inventar nomes, de inventar personagens, eu sou, hoje olho-me e existo, sei-me onde não me sabia, preso ainda, mas já não tenho medo da posta aberta, começo a retirar a cada dia cada uma das barras erguidas!
– Sabes Maria, já não é o medo que me prende, já não é a consciência, mas essa liberdade que sonhei, não quero fugir do gradeamento pela calada da noite, não quero esgueirar-me por uma liberdade escondida, quero entrar no espectáculo, brilhar além do domador, e sair aplaudido pela porta de entrada.
– Sabes Maria, quero que me vejam, que me conheçam, como apenas tu me conheces, quero que me olhem além do cinza dos dias, quero pintar-me de arco-íris, e dizer estou vivo, encontrei-me onde antes estava morto, não sou sonho, sou o reflexo de tudo o que outros sonharam por mim. Eu sou Homem, Poeta, e sou FELIZ!
– E sabes Maria, não foste tu que me libertaste, mas escolhi-te para que me esperasses, nessa mão estendida que aguardava à porta!

Alberto Cuddel

C.R., Portugal

União

União

Na união do feixe de vimes a invencibilidade,
Na união do matrimónio única entidade,
Na união nasce a força e a vontade,
Da união do desejo a vida,
Da união dos rios o mar,
Da união das nuvens a tempestade,
Da união do olhar o verbo amar,
Da união da procura a verdade,
Da união das palavras a frase,
Da união das frases o poema,
Da união dos poemas a colectânea,
Da união de regras um sistema,
Da união dos homens a humanidade,
Da união das armas a guerra,
Da união das montanhas a serra,
Unidos somos mais,
Unidos somos um,
Unidos uma voz,
Unidos somos melhores!

Alberto Cuddel

Caminho Florido!

Caminho Florido!

Pisamos flores, floreado caminho,
Folhas secas do ontem varridas
Arrumadas, debeladas no carinho
Sentir, viagens assim decididas!

Verdejantes prados, assim ladeado
Barreiras erguidas a não transpor
Estrada conjunta decidido amado
Passado no fim, sobrevivente Amor!

À estrada pisada, assim percorrida
Caminhando segura no teu querer
Decisão partilhada assim decidida!

Perfume do ser, num amado viver,
Flores caídas, apagada a duvida,
Amor partilhado, na vida, o ser!

Alberto Cuddel

Em tuas mãos!

Em tuas mãos!

Em tuas mãos o mundo,
Meu ínfimo mundo
O querer, o porquê de viver,
Águas claras, onde lavo a alma,
Alimento que me sacia,
Alegria, a louca corrida,
A vontade de estar,
O porquê de ficar,
O decidir a cada dia,
O voltar amar,
O eterno reconquistar,
Mãos que me seguram
Que me abrem os olhos
No doce acordar,
Seguram areia,
Trazida do mar,
Apartam as ondas
Afastam as vagas
Que me fazem amar!

Em tuas mãos,
Quero viver,
Quero morar!

Alberto Cuddel

E eu, e tu

E eu, e tu

E eu e tu e esta vida castrada de onde não me basto, desmamo-me nessa dor de não ter vivido, nesse medo acutilante nem sei de que, mas dói sem moer sabendo o caminho, com medo de o fazer…

Voaste a cada beijo meu
Neste inferno que é céu
Entre a ilusão e sonho teu
No futuro que se perdeu!

E eu e tu e um passado que nunca aconteceu, e um futuro que no medo morreu!

António Alberto T. Sousa
21/10/2018
Sob Reserva Privada

Sedução!

 

Sedução!

Mãos cruzam-se
E descruzam-se
Como cálidas serpentes
Nas formas de teu corpo
Entrelaçam-se
Enroscam-se
Contorcem-se
Elevando o desejo
Expoente louco
Sedutor!

Sem palavras
Ditas, caladas,
Sussurradas,
Gemidas,
Erótica nudez!

Caudalosamente
Banhado, beijos sem fim
Sucumbo cada investida,
Ritmo frenético
Alucinante movimento
Perfume de teu ser
Que impregna minha alma…

Ofegantemente
Grito alucinante
Deleite do prazer!

Um beijo,
Sempre
Um beijo,
O querer
Abraçado
Apenas em ti!

Alberto Cuddel

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