A Unidade do Ser!

A Unidade do Ser!

Quão difícil tarefa
Manter acesa a chama?
Acordar todos os dias
Com o sentimento de conquista?
Fazer e refazer tudo de novo,
Sim, foi fácil dizer o “sim”,
Mas fazemos com que esse “sim”
possa ser diariamente repetido?
Diariamente sem vacilarmos?
Amamos verdadeiramente ?
A nós mesmos a nossa outra metade?
Que nos completa na Unidade?
Partilhando angustias,
Vitórias, conquistas?

A ti conquisto, por ti insisto,
Por vivo, por ti existo!

Há noite despedimo-nos
Como se o amanhã não existisse?

Sim, o amanha pode não existir?
Devemos como um, exprimir o nosso sentir,
Orando e agradecendo o existir,
Acordar, dando graças,
Por poder de novo conquistar,
A graça que é Amar,
O prazer que é te Amar,
A ti “Mulher”, mãe, esposa e amante,
Que nosso leito partilhas,
Sem que verdadeiramente te diga,
Que te AMO todos os dias!

Alberto Cuddel
03/07/2013

Sinal de partida

Sinal de partida.

Tinham passado pouco mais de cinco horas, desde o “sim”, um sim definitivo, mas com todas as fotos e festa ainda não tinha tido tempo para pensar, “até que a morte os separe”, essa definição agora assusta-me.
Aqui agora à espera, nesta sala, não consigo estar sentado, as paredes parecem-me anos, enclausurado por estes azulejos antigos de arremate verde, iremos terminar assim? Aparentemente gastos e desgastados? Tenho dificuldade em olhar-te, mesmo assim, o olhar não foge desse teu ar inocente e incrédulo, sentada nesse banco desta velha estação enquanto esperamos o resto da nossa vida.
Finalmente és minha, e agora? Como fomos capazes deste passo sem pensar o amanhã? Talvez o tivéssemos pensado até demais, não como sonho, mas com a maturidade que ainda não temos…
– Ainda demora muito?
– Não, julgo que não, mais uns dez minutos.
– Porque não te sentas? Estás nervoso? Eu é que devia estar, o normal seria eu estar, não tu.
– Tens razão. Mas não é “esse” o nervosismo, sabes bem que não é por isso. Apesar de tudo nesse aspecto temos um mundo a descobrir e todo o tempo do mundo para o fazer.
– Então? Que se passa?
– Estás ciente do que temos aí nessa mala?
– Ah, isso, realmente tens razão, mas acho que estas a desculpar-te, tens algo mais a preocupar-te, já te conheço.
Realmente, não era apenas isso, o dinheiro que os convidados tinham dado como prenda, ou nem sequer era isso, era tudo, não se casa todos os dias, e agora? Eu que nunca fui responsável por ninguém, a partir de hoje tenho alguém que efectivamente e afectivamente depende de mim. Tinha sido fácil o ter dado o passo seguinte, o ter avançado para o pedido de casamento, todos os planos durante o noivado, mas agora, a vida começava efectivamente e sem rede.
– Júlia.
– Sim.
– Tens razão, estou nervoso, toda a nossa vida começa hoje, e não posso deixar de ter medo.
– Eu sei, mas nunca te esqueças, eu também disse sim livremente, e estarei sempre ao teu lado, em tudo.
– Sim, claro que sim, mas tenho um friozinho no estômago, tenho medo de te desiludir.
– Ainda bem que o tens, mas como sempre fizemos, tudo podemos um com o outro, em todas as nossas decisões. Não tenhas medo, basta que nos amemos, eduquemos mutuamente…
Um silvo, o comboio aproxima-se e começa a viagem do resto da nossa vida, com paragens e avanços, até que um de nós se apeie, por um qualquer imprevisto da vida!

Alberto Cuddel
14/06/2017

Foto de Antonio Mbfeijó

Juramento…

Juramento…

No tempo do nada, vi sem que te olhasse,
No tempo do tudo, vi sem que me apaixonasse,
Ganhei o teu tempo, sem que me amasse!
Depositei-me no âmago da tua alma,
Entreguei-me, completo assim vivalma,
Osculei sorvendo o mel dos teus lábios,
Perscrutei o universo, li os alfarrábios,
Descobri amar em mim um outro eu,
Em mim encontrei um tu apenas meu!
Recolhi-me em mim, castrei-me, esperei,
Fiz-me em ti, sentido do celibato dado,
Nas juras gravadas, dadas, todo entreguei,
Selado, no ser, no coração, consumado!
Fielmente imune, ninfas e musas,
Rondam, revolvem as águas, naufrago?
Jamais, me deleitarei, sedutoras Nereidas,
Sedutoras irmãs de Tétis, não, antes surdo,
Fechados que foram os olhos, antes mudo!
Elevo-me no sopro do sono, -olho-te
Recordando apenas em mim,
A parte de ti que em mim carrego!

Alberto Cuddel
Amantes da Poesia Volume II – Modocromia – 2017 – ISBN – 978-989-99754-4-6

“Lembranças de nós mesmos”

Reflexão, porque os homens também pensam!

“Lembranças de nós mesmos”

Nenhum homem se lembra do dia do seu nascimento, da primeira palavra, do primeiro passo, das primeiras letras, da primeira vez que escreveu o seu nome… Poucos são os homens que se lembram do primeiro amor, o primeiro beijo, do primeiro filme, da primeira saída com amigos… Mas e as coisas importantes da vida? Quantos se lembram?
Quantos se lembram da primeira vez que viram a mulher amada, da primeira carta, do primeiro beijo, do primeiro sim? Quantos se lembram do dia em que decidiram fazer o pedido, do dia em que compraram o anel de noivado, do dia em que comunicaram o noivado à família? Do dia do casamento, do dia em que conceberam o primeiro filho? Quantos se lembram da primeira vez que fizeram amor? Do dia e hora exto? Quantos se apercebem que existiu um dia em que a sua vida duplicou, que o tempo que antes é exactamente igual ao tempo que passou depois? Quantos se lembram de olhar para o lado e ter o privilégio de poder dizer: “Obrigado por continuares a meu lado desde essa primeira vez!”. Quantos tem o privilégio de acordar de manhã ao lado da pessoa que escolheram para que o acompanhasse na vida? Quantos perdem a memória em discussões mesquinhas sobre insignificâncias esquecendo tudo o que viveram e todas as decisões que tomaram? Às vezes custa-me ser tão repetitivo, mas é tão fácil ser feliz mesmo com todas as diferenças que nos separam, serão sempre menores que todos os gestos que nos unem!
Lembrem-se de vós mesmos…

Ps. Não confundi amor sei que não é hoje…

20/02/2017
A. Alberto Sousa

Porque me Amava XX

Porque me Amava XX

Nunca és, foste ou serás perfeito, como qualquer outro tens defeitos, por mais que me esforce, que reclame, nunca deixarás a bancada limpa quando fazes o jantar, deixas a toalha do banho espalhada em qualquer lugar, tenho que te chamar vezes sem conta para o almoço quando escreves, mas mesmo assim amo-te.
Nem mesmo eu sou perfeita, mas na nossa esquisita imperfeição mundana, somos e existimos um no outro, sei que te vêem em mim, como me vejo em ti. Somos, docemente, diferentes um no outro, como alguém dizia, vocês são esquisitos, e somos, ou a nossa esquisitice deveria ser tão somente a normalidade do mundo?
Adoro a forma como me permites esconder entre os lençóis, como me aconchegas, apesar de não dormires – tu dormes tão pouco! devias descansar mais, mas esse teu vicio da escrita não te larga!
Mas nesse teu vício és perfeito, permites-me descansar sem as másculas cobranças, – engraçado nunca tive que inventar uma dor de cabeça. Adiante, mesmo no cansaço após um dia, ou uma noite de labor diário, amas-me, confortas-me e acima de tudo aprendeste a escutar-me, – nem imaginas como é importante num homem saber escutar, e tu aprendeste a fazê-lo na perfeição, amo-te por isso, e quem sabe quando acordar, tenhas sorte? Apesar de tudo mesmo cansada também eu te desejo em mim, mas custa-me tanto mexer um dedo sequer, quanto mais o corpo todo nesses movimentos frenéticos que nos levam à loucura, peço-te, ama-me, mas não te mexas, deixa-me apenas dormir!

M. Irene Cuddel

Porque me Amava IV

Porque me Amava IV

Deus criou para nós o matrimónio para que nos amassemos livremente.
Amar é doar-me a ti para fazer-te feliz; é renunciar aos meus próprios desejos e interesses para te edificar. Mais até que um sentimento do coração, o amor é uma decisão, tomada livre e espontaneamente a cada dia.
Quando subi contigo ao altar, fizemos mutuamente uma declaração de amor: “Eu, Irene, te recebo Alberto, como meu esposo, e prometo ser-te fiel na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida”. Isto não é apenas uma romântica declaração de amor; é sobretudo, um juramento consciente prestado a ti, na presença de Deus, da nossa família, dos amigos e da sociedade.
O verdadeiro amor exige sacrifício. Para dizer sim a ti, muitas vezes tenho que estar preparada para dizer não a mim mesma.
Escolhi Amar-te livremente sem os constrangimentos morais, na plenitude da minha alma e do meu corpo, na entrega reciproca com que te entregaste a mim. É pelo matrimónio que abdicamos um no outro de todos os bloqueios e tabus, é pelo matrimónio que edificamos para nós e um pelo outro o prazer de nos amarmos também nos corpos e pelos corpos.
Escolhi Amar-te por me amar, por me saber amada em ti, por me saber edificada e elevada em ti, na decisão consciente do sim, edificamos em nós o prazer supremo de eliminarmos entre nós todas as barreiras, construindo a busca constante da felicidade do outro em nós mesmos.
Por me amar, casei-me em ti, para que pudéssemos “acasalar” nos desejos espirituais e carnais todos os dias!

M. Irene Cuddel

 

Escolhi Amar-te LIII

Escolhi Amar-te LIII

Nada de extraordinário fazemos, nos actos ordinários com que nos entregamos à vida, a mulher que escolhi amar não é extraordinária, eu não sou extraordinário, extraordinário é ela continuar amar-me, nos gestos ordinários com que a brindo todos os dias.
Um abraço, um beijo, uma palavra, um gesto, uma flor, não são por definição gestos extraordinários, o que é extraordinário é o momento em que esses gestos são entregues ao outro.
Abraçamos em nós a ordinarice de nos amarmos ordinariamente, sem a busca constante pelo acto extraordinário de nos amarmos extraordinariamente. Acontecem a cada momento actos de extraordinária sedução, talvez por nos apaixonarmos quase todos os dias um pelo outro.
Sonho-te constantemente em sonhos ordinariamente reles, extraordinário seria não te sonhar assim, despida em mim, sedutoramente, despertando desejos carnais inconfessáveis fora de ti. Damos aos momentos ordinários a sedução de em cada um deles formamos memórias extraordinárias da nossa vida passada, no constante acto de nos apaixonarmos todos os dias.
Deixemos os momentos normais para as pessoas normais, para todos os casais sisudos que hoje se cruzaram connosco, para eles e para os outros sisudos que na sua louca individualidade, perdem momentos extraordinariamente felizes e sedutores, onde eles apenas vêm a normalidade do momento.
Escolhi Amar-te até mesmo quando me arrastas para as compras, onde brincamos com a roupa que podes vestir, estando despida para mim!

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te LI

Escolhi Amar-te LI

Dias há em que apenas espero em suspenso, a vida segue pardacenta, numa qualquer imobilidade temporal, nada acontece, nada de novo, em que o Amor perde todo o seu significado, praticamente esquecemos todos os “comos”,  todos os porquês…
Dias há em que se nada fizer, nada acontecerá, e mesmo que o faça, talvez mesmo assim, nada mudará. Talvez seja do tempo, do tempo afastado em que nem saudades sinto, ou de as sentir apenas fiquei assim, imune, imune ao tempo que passa sem que efectivamente pense em nada.
Dias há em que a afectividade máscula ou não, desaparece, nem sequer desejo, nada… ou um tudo reprimido, à espera de uma fonte de ignição, um toque, um olhar, uma palavra, mas agora, no imediato? Nada… não sinto vontade de ir, muito menos de ficar.
Dias há em que se não decidisse amar-te, efectivamente nada sentiria, talvez segundo os especialistas seja isto uma depressão momentânea, mas não, é apenas um lapso temporal em que eu, simplesmente deixei de existir! Pois como diz o ditado “quem não se sente não é filho de boa gente”. Talvez seja isso, deixei de existir na tua ausência, quando deixo de te pensar em mim.
Dias há em que para saber-me existir, devo apenas procurar-me, para me poder encontrar em ti!

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te L

Escolhi Amar-te L

Escolher amar-te foi provavelmente a decisão mais inteligente que tomei enquanto ainda era um idiota!
Antes mesmo de me saber eu, escolhi descobrir-me em ti, no teu abraço perdi o limite do perigo, abriste-me o horizonte do teu olhar ao meu, inflamaste-me em nova coragem no teu beijo, reencontrei as cores do mundo, não do meu, mas do nosso, que hoje dia-a-dia edificamos na alma.
Encontro em ti a cura e a minha doença, a cura dos medos e a doença do ser destemido em ti, perdi o medo de te amar em mim com todo o meu ser, encontro no teu sorriso a desculpa perfeita para saltar para abismo que és tu. Nem precisas de sorrir muito, ou pedir ternamente, basta que teus olhos mo peçam.
Perdi de mim a ignorância da paixão, a euforia juvenil das hormonas, hoje não eu, não tu, amamo-nos febrilmente no corpo e loucamente na alma, mais no corpo com a alma, ou com a alma no corpo…
Escolhi Amar-te para que o eu desse lugar ao tu, para que o tu passasse a ser eu, e o nós se tornasse a primeira pessoa do singular!

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLIX

Escolhi Amar-te XLIX

Há dias assim, sinto-me capaz de tudo, com vontade de nada. Em que me sinto mais vivo que nunca, mas morto no querer, mais forte no desejo, mas mais fraco no sentir. Dou por mim procurando o meu ego num sítio muito distante, distante de ti, distante de mim.
Assim encontro-me em ti quando me perco de mim…- dizem que não somos metade um do outro, mas apenas formamos um. Quando estou gelo, tu és fogo, quando se apaga o desejo, ofereces-me o fogo reavivado e opressor no calor do teu beijo, como que me beijasses a alma.
Escreves em mim a sedução do desejo, do profano e erótico querer, proclamas em quatro paredes o gemido que me sopras ao ouvido, sedutora forma com que me envolves em teus braços ao despir-me a alma. Contorcionista em meu corpo, escalas em mim, no rubor de meu rosto, extasiado, anestesiado na volúpia do teu desejo.
Arrebatas-me definitivamente para ti, para em ti me redescobrir e encontrar-me quando me perco de ti. Hoje escolhe-me a mim, para que eu te volte a escolher a cada dia!

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLVI

Escolhi Amar-te XLVI

Do tudo que esperas de mim, o nada que te posso oferecer… apenas eu completamente imperfeito, nos defeitos com que me aceitas…
Encontro na solidão gélida do nosso leito, o tempo para a reflexão necessária à saudade que sinto. Não, não sou um marido perfeito, nunca te prometi sê-lo, o tempo encarrega-se de me mostrar todos os defeitos que encontro em mim ao pensar-te, já mais serei perfeito, recuso-me a ser perfeito. É na verdadeira imperfeição que nos encontramos e nos completamos, para sermos melhores, para nos amarmos mais a cada dia, no faustoso encontro em que nos regemos sem tempo, o tempo que nos resta para nos encontrarmos.
Este tempo maldito, em que os minutos parecem horas, no afastamento imposto, tempo solitário que é em nós gloriosa chave de meditação sobre o “nós”. Solidão imposta pela tua ausência, encontro em mim, a necessidade absoluta de ti, em ti sou melhor, sou eu.
Sinto a tua falta, nunca nos devíamos afastar por uma imposição de escolhas laborais que nos impuseram. Não, não por um incontrolado e impensado lapso temporal, que nos fazem viver como conto de fadas, um no dia com o sol, o outro na noite com a lua… porra onde para o Eclipse?
Sim tenho defeitos, mas que importam, se não estás aqui para me corrigir? Sinto a tua falta, do teu beijo, do teu abraço, do calor do teu corpo, do sexo, do dormir de conchinha… sinto a tua falta!
Do tudo que esperas de mim, o nada que te posso oferecer… apenas eu completamente imperfeito, nos defeitos com que me aceitas, e mesmo assim distante temporalmente, escolho amar-te todos os dias e moldar-me a mim em ti, como te moldas a mim nas minhas imperfeições…

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLV

Escolhi Amar-te XLV

Ao segundo olhar, nossos corpos estremeceram no louco desejo erótico de nos unirmos, no mais animalesco acto de fidelidade sincronizada, dando forma, eliminando as barreiras da linguagem, falando no silêncio dos gemidos do amor. Não somos maníacos, mas a verdade exposta do nosso sentir é que nos desejávamos amar um no outro antes mesmo de nos conhecermos.
O desejo envergonhado desenhado no rubor nos nossos rostos adolescentes, as mãos húmidas do nervosismo, um primeiro beijo em ti, senti, não vi, não viste, apenas o sentimos, na alma, no estremecer dos nossos inocentes corpos…
Encontramo-nos todos os dias no movimento ardente da palavra escrita, no desejo consumado na ponta da caneta em brasa que se arrastava no papel, depósito de sonhos, devaneios eróticos do nosso amor sonhado e confirmado a dois, nas respostas e contra-respostas, da sedução do perfume do papel…
Para finalmente nos encontrarmos, frente a frente, despidos de tudo, despidos do mundo, vazios, apenas confirmados perante a testemunha divina que testemunhou e confirmou o desejo de nos pertencermos. Encontramo-nos na noite onde nascem todas as Primaveras, onde todos pássaros cantam em coro a alvorada, como trompetas anunciando a confirmação, a consumação de unir o desejo de nossas almas também no corpo, revelando o mistério divino, confirmado na profecia bíblica e os dois formarão uma só carne, um só espírito.
Em nós que nos escolhemos amar, pelo menos até amanhã, confirmemos hoje, que ainda hoje nos desejamos fazer uno o querer, no silêncio gemido que ecoa nas nossas almas desde o dia em que nossos olhos pela segunda vez se beijaram.

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLIV

Escolhi Amar-te XLIV

Procurava-te para que me completasses… muitos discordam, muitos concordam, para muitos é indiferente, mas para mim, para ti, para nós não. Escolhi amar-te não porque me bastava, não porque estava cheio, não porque tinha amor para dar, mas porque me encontrava apenas a meio, com espaço para te receber, para me poder moldar em ti.
Mesmo na constante dormência do sono, inquieto-me na busca de ti, como se te pudesses ausentar de mim, queria dormir em ti, viver apenas na dádiva de amor coberto pelos lençóis. Acordo constantemente em mim, como um agarrado a um vício, na fome de te escrever, de te inscrever em mim, de deixar escrito e gravado, a louca forma de te amar.
Procurava-te para que me completasses… mas acordei, contigo entrelaçada em mim, como se me prendesse, para que não me afastasse, para que nem um pedacinho de amor pudesse cair fora de nós, queria adormecer em ti, neste leito onde cabe o nosso mundo, não quero acordar sem que te tenha, sem que estejas ao meu lado, sem que dês e me recebas!
Procuro-te nos sonhos, naqueles em que teimosamente acordas, foges de mim, simplesmente para estender um varal de roupa, para que as nossas vestes, lado a lado possam apreciar o nascer dos primeiros raios de sol, enquanto nos entrelaçámos no amor que nos confirma, no mundo horizontal, cobertos por nuvens de algodão.
Ainda assim nosso amor não é perfeito, nunca poderá ser perfeito, pois somos humanamente imperfeitos, e tantas vezes discutimos, eu discuto, tu discutes, sobre nada, das insignificâncias da vida, quem sabe num divino propósito, de nos reconciliarmos mais fortes, mais capazes, mais vazios um do outro, para que nos possamos preencher no propósito da escolha de amar e ser amado…

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLIII

Escolhi Amar-te XLIII

Esperei que Deus te criasse para aprender amar, não que ainda não o soubesse, mas não o tinha escolhido, amava, pelo cheiro, pelo tom de voz, pelo alimento e carinho, não por escolha, não para que me encontrasse ou completasse em ti, mas por gratidão divina à vida que me foi por ela concedida, Amo-te Mãe, Amo-te Pai, mas não escolhi amar-vos, apenas amo-vos.
Esperei que Deus te criasse, que te conduzisse a mim, para poder escolher amar-me em ti, não me amo o suficiente para que abdique de escolher amar-te, amo-te para que possa amar-me a mim no amor que recebo, já mais poderia receber se me amasse completamente por mim próprio.
Esperei que Deus te criasse, que cavalgasses uma tarde de Outono, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, para que o meu céu se abrisse, para que tu entrasses em mim no primeiro vislumbre da tua aura. Mistério irresolúvel de Deus, em ti me tornava eu, não completo, não melhor, mas eu. Em ti parte de mim adquiria a identidade perfeita, na busca constante pela felicidade. 
Esperei que Deus te criasse, para que se cumprisse a profecia do nosso destino escrita em outras reencarnações, para que se cumprisse o milagre de poder sonhar em ti a minha, a tua, a nossa vida. 
Esperei que Deus te criasse, para que pudesse escolher amar-te cada dia, não por meras e belas palavras, mas pela acção de o demonstrar reinventando o acto de te amar em mim, por ti!

Alberto Cuddel

Escolhi Amar-te XLII

Escolhi Amar-te XLII

Existiam em mim, vários de nós antes de escolher Amar-te para sempre, apesar de sempre ser apenas um até já, momento em que fecho os olhos sem saber se irei acordar, apenas numa certeza, irei contigo, em ti sonhar. Dos muitos “Nós”, ou “Eu’s” que em mim se debatiam rumo à vitória, existia um que apenas te queria, apenas te queria possuir o corpo, como um prémio de conquista após a feroz batalha da sedução, na perfeita certeza de que o amor é prazer.
Existia um “eu” tímido, inseguro, jovial e inocente, fruto da educação machista de uma sociedade que impõem a afirmação do homem pela conquista do objecto sexual, idealizado na jovem virgem seduzida.
O “eu” romântico, carinhoso, afectuoso, revelado apenas por breves momentos, no recato da nossa solidão, imposta por um namoro tradicionalista e fora de tempo, relembrando tempos idos, no recato do lar.
A composição dos meus “eu’s” nos teus, revelou uma educação madura do nosso sentir, do aprisionamento da paixão, alimentando-a até ao dia em que se soltaria em pleno. Muitos dos meus “Eu’s”, dos teus “Eu’s”, foram por um “nós” barbaramente assassinados, para que nos pudéssemos confirmar um no outro.
Pedimos perdão, fomos divinamente perdoados, ajoelhados lado a lado junto ao altar, pedimos perdão, e fomos recompensados com o dom da nossa união. Crime horrível e tão bárbaro aos olhos dos apaixonados pela individualidade pensante que tão horríveis desgostos causa, na incapacidade se satisfação dos sonhos individuais no amor.
Depois da morte e enterro dos Eu’s nasceu em nós outro crime, o crime de sequestro agravado, sequestramo-nos mutuamente, em cada saída, em cada refeição, em cada sonho, cada projecto. Sequestramo-nos mutuamente, vivendo um no outro em todo e qualquer momento! Escolhi Amar-te no dia em que velamos os nossos muitos eu’s…

Alberto Cuddel

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