(sem) Abrigo

Desafios palavras soltas

De : Ruth Collaço  / Ventos Sábios em parceria com João Gomez photography

Tema: Abrigo

(sem) Abrigo

(Des) abrigo-me dessas pedras construídas por uma sociedade hipócrita e egoísta, quem vos convenceu que eu quero viver numa gaiola preso a despesas fixas, com horários fixos a fazer todos os dias coisas que não gosto? E eu é que sou o errado, o que dá mau ambiente à cidade? E as vossas caras fechadas que se cruzam comigo pela manhã, de olhar fixo no chão, sem olhar o céu, sem dizer bom dia, sem apreciar os pássaros e as flores porque em um horário a cumprir, para pagar despesas e impostos que não queriam e não pediram… E o errado sou eu?

Sim eu (sem) abrigo, vivo livre, quantos presidentes me quiseram enjaular, inserir-me no mercado de trabalho, prendam-me em Évora, talvez lá seja mais livre que numa jaula de um prédio qualquer de uma avenida escondida da cidade, pagando o que não quero por uma coisa que não pedi, fazendo o que nunca quis… Eu, eu não quero abrigo, as minhas paredes são as pernas, e o meu texto o céu… Vou onde a vontade me levar…

Januário Maria

Foto de : João Gomez photography

Sinais

Sinais

na parede da esquina
a roupa estendida
assim saberás tu
se te espero ou não…

são sinais senhora…
a roupa estendida
cuecas fora de casa
e calças ao contrário…

vem…
contra a parede a costa esta livre…
ninguém percebe
ninguém viu
entra e serve-me
deixa-a satisfeita
sorridente espreita
não é vadia
não é da vida
aproveita apenas
a roupa estendida…

Januário Maria
21/01/2021
15:25

Foto cedida por :
João Gomez photography

O cerco que não cercou, ai Portugal….

O cerco que não cercou, ai Portugal….

cercou Portugal, que se fechou por dentro
fé fechada, santos na praia, e cagar?
nada…

açambarcam por medo, e beijam-se…
abraçam-se e vão trabalhar, as mãos?
as mãos sujas continuam a roubar…
ai covid, nem dezanove nem vinte
o medo, o medo tolhe, e o perigo?
qual perigo apenas os outros
apenas os outros eu sou “imune”

não ouvem e não escutam
não fazem e desdenham
medo que os putos fiquem em casa
e as putas em quarentena
apontam o dedo, e agora não recebo
mas proteger? Isso é que não
a protecção é para fracos
e se infectar, aborta…

oh Portugal, serias um paraíso
sem portugueses…
cerca-te de um cerco que não cerca
que venha o calor, e a praia tudo cura…
não há papel? mas há notícias…
e latas de atum em toda a vila…

Januário Maria
12/03/2020

THE END

Despedida…

1590 poemas depois abandono o blog, a todos os que me seguiram o meu muito obrigado! foi bom sentir o vosso apoio e calor humano, foi bom crescer com as vossas criticas! quem sabe um dia, algures no futuro eu regresse.

Um enorme abraço,

Alberto Cuddel

25 de Abril de 1974 – Revolução dos Cravos

Abril de ontem e hoje esquecido

Nasci na véspera deste nosso Abril
Frágil, franzino, nas mãos da mãe
Contaram-me dos ensaios, motivações
Das convicções, da fome, prisões
Da falta de liberdade, de escolha,
Contaram-me que um punhado de heróis
Por estes ou outros motivos, com cravos na G3
Libertaram este povo de uma vez…
O Abril morreu ontem ai sentado
Não há velho pelo jovem lembrado
Não à memória da fome e sofrimento
Não sabem o que é gritar cá dentro
Palavras presas entre os lábios
E olhar as estrelas, e astrolábios
Com os olhos inundados de palavras choradas
E a barriga cheia de fome…
Em angola morre, mais um homem…
Conquistaram, para quê?
Que valor lhe dão
Os que nunca lutaram por pão,
E todos quantos nasceram com tudo
Até com palavras a mais…
E muitas acções a menos…
Gritam, reclamam, mas fazer, nada…

Alberto Cuddel
25/04/2017
0:11

25 perdido!

Nostálgica liberdade,
Pelo povo desejada,
Militares ensaiada,
Na rua conquistada,
Na voluntariedade de agir,
Esquecida nos pais,
Moribunda nos filhos,
Dos netos desconhecida!
Liberdade esquecida,
Que de consciência não se faz,
“Alguém” que por mim fará,
Aquilo que deixei de fazer….
Sangue novo saído,
Ao estrangeiro impingido,
Perdida a jovialidade,
Desta pobre liberdade!

Alberto Cuddel

A cada Abril

A cada Abril tudo volta a ser recordado
A cada um sem memória, não há forma
Sem que a falta e abstinência seja sentida
De tudo o que tenha por garantida
Encontrares em ti o sentido da liberdade reprimida?
Abril está ai, nas telas, nas ruas, nos cravos, em todo o lado
Mas tu? Não encontras em ti, nada que lhe dê significado
Tudo é garantido, nada é por ti conquistado,
E tu filho da liberdade? Lembra-te antes dela
Nada… tudo era apenas um sonho, de um homem acordado…

Januário Maria

Depois de Abril

Depois de Abril a euforia primaveril
E a vontade de fazer coisas,
De dizer coisas, de manifestar-se pelas coisas,
Na euforia de termos coisas, descansamos
Gozamos alguns meses de Verão,
Ganhamos o gosto por estar estendidos
Olhando o céu, sem pensar nas coisas,
Depois de termos gastado algumas coisas
Chegou-nos o Inverno, imobilizados
Pelo frio e preguiça, de conquistar coisas
Deixamos que as coisas se gastassem
Colocamos as coisas nas mãos dos outros
Dos “eleitos” esses usam as coisas
Sem que nós vigiemos, enrolados
Nas coisas da vida e na preguiça,
A cada dia de sol deste Inverno
Alguns poucos gritam coisas na rua
Mas logo se recolhem à primeira chuva…
E assim queixamo-nos das coisas que perdemos
Das coisas que se gastaram, mas ninguém
Cuida das coisas, das suas próprias coisas
Que são afinal de todos!

Alberto Cuddel

Não me venham…

Não me venham…

Não me venham
Com palmadas nas costas
Com mesinhas e choradinhos
Com palavras e lágrimas de crocodilo
Não me venham…

Não me venham
Com queixas e ciúmes
Com egos feridos e queixumes
Não me falem de moral e bons costumes
Não me venham…

Não me venham
Pedir trabalho
Dinheiro emprestado
Aumento de salário
Com mais impostos
Com mais descontos
Não me venham…

Não me venham
Criticar porque sim
Dizer mal porque “nim”
Façam acontecer
Façam, não fiquem pelo dizer
Façam as ideias nascer
Ter corpo e asas…
Não te queixes da falta de sorte
Quando nunca tens jogado…

Não me venham
Dizer a mim ninguém me lê
Quando tu não lês ninguém
Não me venham dizer
Que só publicam os conhecidos
Mas um dia ninguém os conhecia
Procura a tua sorte
Faz-te acontecer
Aprende que só a cair
Vais saber como é correr…

Januário Maria

Censura…

Censura…

Censura e bloqueia
A quem tem outra ideia
Nudez não é pecado
Pecado é não ter amado…

Enraivecem-me esses padrões enviesados,
Em privado tudo é permitido
Até o rapto violado, bem combinado
A fuga, as “nudes” que escapam por ai
Em privado, tanto, tanto sexo…
Nas paginas tudo e santo…
Um mamilo, ai meu deus que vergonha
Um homem por detrás da mulher,
Ai que calor nos aparelhos, bloqueio
Dois homens nem há problema
Não arreliemos minorias, diferentes
Nós é que somos intolerantes?

É censura descarada,
Pode a coisa estar pintada
Toda la bem enfiada
Que não é bloqueado
Já se for sentido na carne
Ó deus que fazem um filho…

É verde, é tinto,
Esta tudo grosso
Esta tudo Fino…

Nudez sim,
Mas nas estatuas…
Censuram o meco…
Aldeia do Sol…
Quem sabe Meca
Bela brancura…

Talvez o nome da serpente fosse pudica,
Para que Eva se cobrisse e abrisse conta no facebook…

Januário Maria!
01/08/2018
18:30

Arroto a que chamas poesia…

Arroto a que chamas poesia…

Quantas vezes te revestes de mentira e palavras compridas?

Tu que te intitulas poeta, mentes com todos os dentes
Poeta triste de sorriso nos lábios, suicida apaixonado
É irascível a dor que tentas camuflar, e nunca a sentes…

É intragável a escrita solta sem rima, chamas-lhe branca
Branca é o que injectas nas palavras que rasgas e poluis
Cantas amores, sentires e desejos, quem te dá confiança?

Ó poeta de horrores, assassino da língua, maltrapilho do ser
Quem te alimenta o ego? Quem de sã mente te dá de beber?
Iludi-vos pois com a farsa deste farsante, que não sabe escrever…

Ó triste ilusão a tua que vives, não escreves o que dizes
Não vives o quê escreves, iludes, mentes, sem juízes…
Renega-te, confessa-te, transforma-te, escreve-te
Não confundas quem te lê, sentindo o que nunca vê…

Quantas vezes te revestes de mentira e palavras compridas?
Vocábulos copiados, rebuscados enjeitados, plagiados…
Poeta abstém-te se ser o que nunca foste…

Januário Maria
05/05/2018
21:20

A dor não saiu à rua…

A dor não saiu à rua…

esconde-se por detrás de janelas ocas…

olhares vazios que espreitam e morrem

na solidão dorida dos últimos dias

e sofres, espreitando o mundo

por detrás de uma tela oca

por onde os teu netos te visitam

longe, tão longe, mesmo na rua ao lado…

Januário Maria

Amo-te, não o digas…

Amo-te, não o digas…

Quando as mulheres passam
No engano velado que ditas
Amigos amam-se por nada
Quando não precisas deles!

Amo-te, não o digas…
Não o dites ao vento perdendo-se nas folhas
Não proclames palavras vãs, na voz
Sente, retira de ti a perspicuidade
Sente, sente, ama de verdade
Ama-te a ti…

Amo-te, não o digas…
Amor acto nobre de dádiva
Sem reciprocidade desejada
Sentir pleno por quase nada!

Amo-te, não o digas…
Enquanto no teu coração
Reside ódio e vingança
Como podes amar alguém
Quando perdeste a esperança!

Amo-te, não o digas…
Como mera publicidade
Amo-te é uma palavra diferente
Que só se diz quando se sente!

Januário Maria
05/06/2017
22:05

A vida é um permanente acto sexual…

A vida é um permanente acto sexual…

Em tudo na vida sou fodido
Estou a dormir e toca o despertador
Sou fodido sem prazer apenas dor…
Lavo a cara e a água esta gelada
Mais uma foda, não há gaz nem nada…
Visto-me como qualquer coisa
Entro no carro, não há nada que se ouça…
Tão fodido fiquei, nem no STOP parei
A polícia não perdoa, e salta à estrada
Estou fodido, mais uma multa passada…

Chego ao trabalho já bem atrasado
Fico fodido tudo está atrapalhado
Mais um dia fodido de trabalho
Eu que fodido fiquei não vejo o tempo passar
Para do trabalho sair e poder ir descansar…
Estou fodido, o telefone a tocar
– Antes de chegar há coisas as comprar…
E quando penso ter prazer
Recebo, – não, a cabeça esta a doer…
Fodido fiquei, com a dor e sem prazer…

Januário Maria
20/01/2018
10:10

Falso poeta…

Falso poeta…

Mentes… Sempre mentes
Mesmo na verdade com todos os dentes…
Inventas nomes, finges ser que nunca foste
Mentes, nos versos e rimas, mesmo que goste…

Oh poeta, qual poeta, falso,
Nunca te sentiu a alma a perda de um filho
Nunca te sentiu o corpo as mão de uma amante
Nunca sofreste por um amor distante
As dor de um parto e finges mulher?
Falso… Tudo em ti é falsidade
De ti nada, nada em ti é verdade…

Que poética essa que vendes barato
Livre de rimas, sem nada exacto?

Abstém-te da poesia
Abstém-te de ti mesmo…
Condena-te ao exilio
Esquece as letras
Nada mais escrevas…
Que morram em ti as ideias
Deixa a falsidade e vive…

Januário Maria
16/12/2017
19:30

Poema XXXVII

Poema XXXVII

Eutanásia do Poeta
Assistiram-me no suicido
Cortaram-me a vida
As rimas, os versos
Fecharam os olhos de quem lê
O poema não vive de tinta
Mas de olhares inquisitivos
De olhares perplexos
De olhares contemplativos
De olhos que sentem…

Fecharam a porta, a janela
As capas, as vitrinas
Enclausuraram os versos…

Castraram-me a vontade
A crença, a saudade
Deambulo solto por palavras tristes
Punhos revoltados em riste
Corpos denunciados sem pudor
Arrastando na lama um pobre ego
Que ontem, apenas ontem
Ousou sonhar a poesia…

Hoje, arrasto o corpo carbónico
Por ruas estreitas e páginas vazias
Mãos tremulas que não escrevem
Sob um olhar alagado…

Alberto e os outros…
14/10/2017
20:01

em cada esquina um inimigo

em cada esquina um inimigo

em cada esquina um inimigo
em cada esquina falsidade
em cada esquina escondido um umbigo
em cada esquina a desigualdade…

em cada verso o desdenhar
a leitura do sentido inverso
se precisas não posso ajudar
se não queres eu me ofereço…

ó falsas vaidades estas do povo
em que o povo somos nós
olhando acima o céu Tão bonito
no chão pisamos a bosta de cão…

Januário Maria
09/10/2017
21:02

Sala vazia

Sala vazia

O teu universo cheio,
 De salas vazias
Ninguém contigo por estar
 Apenas no lucrar
Amizade comprada, vendida
 Trocada, nunca por nada…

Este mundo, tudo é reciprocidade
 Troca, conveniência,
Subtil aceitação e corrupção dos sentires
 A dádiva gratuita
É uma sala cheia de gente a receber…

Januário Maria
04/06/2017
18:45

 

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: