Condenação

Condenação

Selamos o tempo
Congeminamos teorias
Inquirimos o nosso intimo
Apenas uma pergunta
Uma única questão
Sem qualquer resposta
Sem qualquer razão
Porquê?

Rebobinamos passados
Procuramos, revemos
Nada, sem hipótese
Nem uma ínfima teoria
Porquê?
Que prepósitos ocultos?
Que esperanças?
Que ideias, que desejos?
Que quebra de algo
Que não descortinamos?
Porquê?
Que factos
Provas
Acusações
Peculato
Desrespeito
Falta de amizade
Civismo
Humanidade
Porquê?
Nada
Condenado
Sem acusação
Sem julgamento sumario
Assim está
Um poeta
Que até ontem
Era amado!

Alberto Cuddel®
23-05-2016

Foram breves e sussurrados os gemidos de amor!

Foram breves e sussurrados os gemidos de amor!

Foram breves e sussurrados os gemidos de amor
fugir ao prazer dos corpos esfarrapava-lhe a alma
habitada que fora a saudade e a dor

estava dormente
sem força e querer, escondido na penumbra da lua
encontra em ti alma nua

as noites fogem
por ruas estreitas que se penetram nos sonhos
movimentos reles prazeres medonhos

e logo acordou
roubando desejo ao corpo a seu lado
despertou da cidade, rostos esquecidos na multidão
esquecidos, roubados a sofreguidão
dos sussurrados gemidos!

Alberto Cuddel
23-05-2016

Amor

“Deixa que o teu corpo vazio
Se preencha com o perfume do meu corpo!”

Noites
vadias
insanas
saudosamente
amputadas
do orgásmico
espasmo
do amor
inconsequente
feito
em nós
habita-me
distanciadamente
no imaginário
da tua
doce presença
concilia-me
no desejo
profundo
do reencontro
almejado
no corpo
na alma
com que
nós
apenas
nós nos
amamos!

Alberto Cuddel

Silêncio

Silêncio

Cai em mim o silêncio das estrelas
a noite escorre pelas paredes do quarto
ouço-me, no profundo e vazio silêncio
correm longe as palavras

nos teus lábio cerrados –
ouço o gemido das pedras
ouço-me, contorcendo-me
grito alvoraçado da alma
um desarticulado sentido
articulando vogais desordenadas

ouço-me calado,
gemendo o silêncio
espremido a cada silaba
desfragmentação do ser
abandono da posse
nada tenho
a não ser
a certeza
que no silêncio
de mim próprio
me possuo!


Alberto Cuddel

26/05/2016

Amo porque sim

Amo porque sim

… amo talvez por não me lembrar de um bom motivo para deixar de amar, por me ter esquecido de como é viver a vida sem amor, na mais completa felicidade de estar sozinho, sem amar ninguém. Acho que não me lembro de como se faz, de como se é capaz de percorrer sozinho a estrada da vida, correndo ou andando mas chegando sempre em segundo lugar! Esqueci-me e ainda bem que o fiz, pois hoje lembrei-me o quão bom é caminhar de mão dada!

Alberto Cuddel®

28/05/2016

A perda da inocência!

A perda da inocência!

Corre, corre
A bola gira e pincha
Rodopia e avança
Brincadeira inocente
No sonho da criança!

Corre, corre
Ocultos no mato
Respiram ofegantes
Gemem baixinho
Agora os amantes!

Alberto Cuddel

29/05/2016

Silêncio entre 4 paredes

Silêncio entre 4 paredes

Na mesa um prato vazio
e um copo cheio de nada,
as lágrimas lavam-me o sorriso
que vergonhosamente ostento
– sim, está tudo bem!
É uma mesa portuguesa,
Sim com muita certeza!

Alberto Cuddel

Getsêmani

Getsêmani

por trinta pratas osculas o teu mestre
pela avareza entregas aos carrascos quem te fez…

há nessa arte sempiterna de fazer luz do fruto
iluminando a escuridão da mente humana
nobre óleo de oliva, puro na pedra moído
que angular se fez sustentando a fé invisível
insolúvel na fonte da vida, fé de samaritana…

pela espada feres por ela serás mordido
tu que vives na glorificação da calúnia
em palavras floridas e rançosas, escolhidas
na agrura do arrependimento enlaças-te
batendo com a mão no peito, culpado…

descalça-te e faz o caminho, penitencia-te
percorre o pó das pedras que o chicote colocou
esse que te leva à glorificação do sacrifício
em pleno circo romano, declara-te trágico
e que me morra o espírito, nascendo alma nova
pela água podes ser resgatado à luz…

que se faça “Getsêmani” em ti e de fruto
te faças luz, e que da tua boca as palavras
que proclamas aos homens, se façam luz…

Alberto Cuddel
01/04/2021 05:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LI

Corpo-Abrigo

Corpo-Abrigo

Há nesse Corpo-abrigo uma esperança de vida, uma sorte, um desejo-amor, uma fórmula mágica que nos recolha do mar, que nos faça acordar do desespero da solidão. Há nesse corpo-abrigo uma calma que me espanta, um querer que me arrebata, uma força que me chama, e nele quero existir, nele faço-me, a ele me entrego na plenitude humana de ser tudo, e completo.

Depois desabrigo-me neste calor que se avizinha, nesta fúria do caminho em corrida, em que a noite minga, e o tempo faz-se luz e cansaço, e depois, depois aninhamo-nos no espaço curto de um abraço enquanto esperamos pela frescura ampla da madrugada, e amamo-nos quando todos estão calados…

E antes que a vida nos separe, juramos sentires eternos, ali diante dos céus, das estrelas e do paraíso, porque de inferno literal estão os dias cheios e fartos de uma separação rasgada imposta por uma sociedade corrupta inimiga da felicidade humana…

E no teu-nosso corpo-abrigo existimos plenamente além da realidade física, somos alma ungida e abençoada pelos espíritos livres que nos vagueiam pela mente…

Somos a perfeição do que de nós fizemos, mesmo antes da vida ser vida estávamos destinados a existir… ser eternamente confiança, corpo-abrigo meu…

200 – palavras

Alberto Cuddel
30/03/2021 09:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha L

Imagem de João Gomez photography

Poética XV

Poética XV

…se escrevessem de mim, seria meramente um ponto
ali, escarrapachado no fundo da folha, no canto inferior direito…
talvez tivesse um traço hirto por cima
que admiração, um ponto… e tudo era ele, apenas final…

vieram os dias e as noites e a moléstia do conformismo
e as palavras que vagueiam ausentes, sem um calor que as ergam
já não me advém os sonhos, ou o desassossego da criação
as coisas são o que são, e tu morreste… nem um adeus…
nem uma carta, uma despedida… simplesmente desististe de acordar…

atiro-me para uma rua vazia, que nunca me leva a lugar algum,
nem mesmo esse parapeito alto da janela fechada,
em aros verdes e vidros transplantastes,
que ocultam o azul que se faz reflexo olhar.

nitidamente os passos dados nunca significam nada,
no sonho, nem a queda do precipício deste pesadelo sem fim que é a vida…
ainda que as nuvens me amparem,
por entre beijos salgados, por lágrimas de amor,
juras eternas e tempos perdidos no transito por uns meros vinte minutos,
sim vale a pena, ainda vale a pena…
já as lagrimas da saudade essas jamais apagaram
e as velas ardem iluminando as noites em perfumes de canela e maça…

neste tempo quase tão irreal quanto o sonho, nada é, que não o façamos…
e eu? Que tão pouco sou e quase nada faço… apenas sobrevivo ao tempo…
esse que passa sem macula, esse em que estamos presos dentro de nós mesmos
revelando que afinal nada somos, nem número… apenas um ponto…
no final da folha… no canto inferior direito…

Alberto Cuddel
27/03/2021 17:25
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIX

Poética XIV

Poética XIV

hirtos mastros erguem orgulhosamente bandeiras…
onde vos mora a pátria?
no chão? na voz?
no coração, na alma humana?

sou filho das gentes com quem me cruzei
filho do mundo e da língua que falo
enteado adoptado pela terra onde vivo
herdeiro das palavras já escritas
filho bastardo da literatura marginal

filhos dos mestres que me ensinaram
e de ti, madrasta filosofia que me ensinaste a pensar
e de ti alucinado poeta que me obrigaste a descobrir-te…

filho da rima e do ritmo do fado,
do vira do Minho e do volta a virar…
sou filho das gentes, não do lugar…
é nesta pátria língua que nos conhecemos
não na poeira dos pés, não nas pedras do monte…

quem somos e quem nos fez…
como viemos, onde estamos
pouco importa… apenas sei
que me entendem…
e ser humano é partilhar o que se sabe…
com outros que nos compreendem…
isso é ser… existir…
o resto…
bem o resto é apenas naturalmente natureza…

Alberto Cuddel
26/03/2021 15:15
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVIII

Poética XIII

Poética XIII

Há na noite vadia,
Pronuncio de sede
A leveza das palavras
E esse querer livre que nos consome…
Há copos partilhados
Segredos bebidos nos lábios
Voltas nocturnas nas dunas
E bronzeados de lua…
Esse tesão consumido
Querer gravado nos silêncios
E vírgulas em contramão.
Contra-ordenações da interpretação
Orgasmos nas exclamações
E comboio que passam
Sem a noção real das rimas
Caldeira cheia de carvão…
Pouca terra, pouca terra
Água que nos enche a caldeira
Mel bebido nos lábios
Em prece oração fálica
Bebes segredos da poética
E entre autores, ética…
Ninguém mama da inspiração
Apenas beija os seios
Do amago da significância…
Entre as eloquências da aparência
És… de Prada despida mulher
Rubro batom nos lábios
Verniz encarnado, nas faces de quem lê…
Assim é o orgasmo poético
Bebido lentamente
Em copos de poemas…
Engarrafados no tempo
Em que o poeta sadino
Com escarnio e bem-dizente
Cantava os orgasmos da corte…
Em resposta e contra-resposta
Que o ignorante nos pague a conta
Deste poema grosso
Que nos enche a boca…

Alberto Cuddel
22/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVII
Poema resposta a Cristina Pinheiro / @asas da Cris

“Cabaré”

Gosto da noite vadia
Ostenta luxo e fantasia…
Sinto em mim odor sexo. ainda quente…
Excitante rotina de prazer!
Sou menina vestindo oiro
Talvez Prada ou Gucci talvez!
Me reinvento dia a dia
Neste alegórico trilho
Que preenche a minha vida…
Desfilando pelo baile
Oiço risos de engate
Derivam estes por vezes
Do Grant’s já embebido
De um coração desesperado…
Sim, gosto que olhes para mim
E me chames para ti…
Mas presta atenção… tem coragem
Olha-me nos olhos da verdade
Ouve o bater do coração…
Somos dois seres tão iguais!
Lembra-te que um dia eu também fui criança
Talvez criada no Nada…
Quedas mais quedas eu dei
Fiquei desenformada do que um dia talvez fui…
Tantas vezes o odor do vício desprezível me agoniza
E então vomito estas sequelas vividas…
De mim fujo!
Transformando-me então naquela boneca vestida de Prada preenchida d’um nada…

Cristina Pinheiro

Foto de João Gomez photography

Poética XII

Poética XII

o corpo essa alma móvel na perseguição do Olimpo terreno
arte de sonhar diferente do estar, sentir o sol em dias de chuva
uma linhagem de interpelação permanente, sou, és, onde estamos?

olhamos lado a lado a vida que nos passa pelos pés
essa vitória do espírito sob o corpo nosso
olhar os montes para lá do por do sol,
e o vento nos cabelos, o amor ali, na ponta dos dedos

juremos juntos segredos nossos, não da vida
mas da alma que sonha além do homem e da terra
além da vida e da existência, segredos pensados em sonhos
e neste desassossego da escrita, em que as palavras existem
somos apenas apêndices de uma alma velha que se desmembrou
vidas cruzadas e repovoadas pela história…

lemo-nos, nesses silêncios ocultos por de trás das vírgulas do tempo
no contorno acidentado das vogais…
há nas palavras esse rasgo de vitória
essa força sobre-humana de gritar ao papel palavras da alma…
essas que o corpo guarda em prisões neurónicas
quando à alma já não é permitido chorar…

sabes poeta… tenho inveja dos que não lêem…
esses não conhecem a tua angústia…
assim, sofro, não por mim… mas pelas palavras que te nascem…

Alberto Cuddel
19/03/2021 17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

Poética XI

Poética XI

neste olhar distante, olho…
por essa nesga verde
por entre troncos hirtos
esse caminho de fuga
fechado, estreito, sem destino.

nessa frincha de céu visível
deposito os sonhos, como ovos que capto na lente
nessas nuvens que passam livre para lá do portão
aponto a nesga do olhar que ninguém vê…
confundidos entre o verde da vida
e todos os outros que se erguem estáticos do chão…

essa esperança que vive para lá da vedação…
para lá do hoje e do amanhã…
para lá deste carreiro cotiado até ao portão de tábuas…
e as tábuas… essa prisão eterna do corpo…
“ repousarás na terra numa caixa de tabuas,
sete pés abaixo do chão…”

e escondo-me aqui, bem aqui entre um tronco e o outro
e olho, o carreiro, pelo cristalino
enquanto sonho, com essa esperança de fuga
virtudes da liberdade, de pois de transpor as tabuas…
espirito e alma… livres dos vícios terrenos…

Alberto Cuddel
15/03/2021 16:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

Poética X

Poética X

o que mostras nesse olhar?

mostras-te mulher, fértil
nessa fertilidade poética
nessa plenitude da existência
nas metáforas incompreendidas…

leio-te nos silêncios
nas quimeras sonhadas
estampadas no rosto
nas verdades ocultas por detrás do olhar…
leio-te nesse arco armado sem flecha
sem coração onde apontar
nas desilusões da alma
na carência do corpo…

leio-te sem julgamentos ou medo da morte
compreendo o sentir e a sentença aplicada…

leio-te no verde que carregas no olhar,
na falta de luz que o ainda faz brilhar
e essa tristeza ondulante como chama
de uma luz que arde, cintilante, mas frágil
soprada pela brisa de um vento sem norte…

entre a fronteira… uma tinha ténue
entre a vida e a morte, entre o amor e a sorte
entre o ódio e o azar, entre a partida e o ficar…
fica quem não ama, ama quem parte, e odeia…
odeia a sorte de não saber em que dia conhecerá
a sua alma a morte…

Alberto Cuddel
15/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLV

Resposta ao desafio directo 1º de Ruth Collaço

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