Às vezes esqueço-me de amar

Às vezes esqueço-me de amar

Por quem se abrem os meus lábios?
Seja noite ou um qualquer dia
Penso em ninguém, apenas em mim
Acto egoísta de querer,
Como se todas as flores do jardim
Nascessem apenas de mim
Como se o sol se erguesse da noite
Apenas por mim…

[às vezes esqueço-me de amar]
Nem régia visão do triste fado
Lembra-me e me recorda
Da sofreguidão dos dias
E as horas em que desespero
Na egoísta forma com que te desejo
Por quem se abrem os meus lábios?

(…)
Caio por terra genuflectindo
No sofrer atroz da condenação
Que emana do teu doce olhar
Às vezes esqueço-me de te amar!

Alberto Cuddel

Amor apenas ontem

Amor apenas ontem

Já nem a memória me seca os olhos
Tão pouco o sabor a morangos
Dos teus húmidos lábios…
Já nada é suportável na tua voz
Tão pouco o silêncio que me fere

Tanta coroas compostas justamente
De violetas, de rosas e açafrão
Com que, a meu lado, dormias
Se te deixasse partir, irias…

Dói-me alma, sim; e a tristeza
E o silêncio torpe da tua voz
E um corpo inerte, frio ao meu lado
Nada sente nem no corpo
Tão pouco na alma que jaz
Vaga, inerte e sem motivo,
Mesmo que o amor
Que no coração habitou,
Dilacerado e ainda trôpego
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida,
Essa mesma, agora me abandonou…

Alberto Cuddel

Amputação

Amputação

Perderei os dedos
A caneta das mãos
As palavras da boca
O sentir do coração

Amputado
Sem vontade
Sem querer
Sem viver
Abdico de mim
Do mundo
Sobrevivendo
Aos dias
Às semanas
Aos meses
Aos anos…

Arrumo as botas
No canto escuro
De uma prateleira
Onde mora
O ontem e a memória…

Porque amanhã
Amanhã serei
Apenas uma sombra
Do que já fui
Sem qualquer esperança…

Sem um adeus
Amputo-me
De mim mesmo
Para que sobreviva
Aos dias
Sem medo…

Alberto Cuddel
30/08/2017
23:00

Noite ordinária…

Noite ordinária…

Ainda assim haverias de querer-me na tua cama
Que te amasse com toda a minha alma?
Enquanto procuravas palavras doces
Líquidas, ásperas, deleitosas, libidinosas
Obscenamente prazerosas, era assim
Tudo do querer que procuravas
Mas não menti, gozo prazer lascívia
De cabelos bem agarrados e corpo arqueado
Não ocultas a alma que procura prazer
Do querer, minha alma na tua cama?
Orbitam cerrados teus olhos azuis
No gemido profundo que lanças
Rejubilas nas formas do teu corpo
Hirtas, orgasmos profundos que proclamas
Na tua amada memória de coitos e de acertos.

Procura de novo, encontra-me, obriga-me
Ama-me na plenitude do teu Sexo…

Alberto Cuddel

Vesti-me de ilusões e olhei o mundo

Vesti-me de ilusões e olhei o mundo…

Pulei como criança as escadas
Viajando nas nuvens das artes
Voo rasante das andorinhas
Um Verão que partia distante…

Nos sonhos abotoados sob o peito
Ligeiramente decotados ao vento
Olho horizontes comprometidos
Aos meus olhos, não há homens diferentes
Apenas gentes e gentes…

Na calçada polida, descalço corria
Num olhar distraído, ainda sorria
O mundo girava, com outro encanto
No chão sujo e mundano…
A fome… Apenas coberta por um pano…

Olhei o mundo coberto de sonhos
E vi que o mundo… o mundo é um engano
A verdade… está nas mãos de cada um…
Não no mundo, mas nos sonhos que realizamos…
E a fome, essa? Hoje foi comer ao restaurante…
E pele mão, levei gente, rasguei o pano
Que ainda há pouco, nos separava…

Alberto Cuddel
30/08/2017
5:00

Sopro

Sopro

Quantas vezes soprei em ti, felicidade
[e esperei pacientemente]
Arrogância feminina, como fiel amestrado
Entre lágrimas sofri calado
[ainda há homens que sentem]
Solidão castradora do faroleiro
Levando a luz ao mundo
Indicando o rumo, caminho
E ele? Apenas, quedo, esperando…

Enjeitei-me nos sonhos que gritam
E nos outros que se inquietam
Na sedução matreira de quem
De longe pressente a carência
De uma dura castração física do ser…

[malvados bichos esses de serem mães]
Rubros lábios sedutores
Apelos ao pecado da carne
Deita-te, sacia-te – só te ama quem te sacia a “fome”
Andarilho do tempo, tentações ardilosas
Ao longe chamam-me ninfas…

Sopro que retorna
Que me desperta
Que me desvenda
A total verdade
Do ser em mim
Felicidade…

Como fazer amor?
Sempre apenas espero
Um sopro que me acorde…

Alberto Cuddel

Ilusão Alfa…

Ilusão Alfa…

Venda-me o desejo no olhar
Ilusão controlada de ti mesmo
Incita-me à excitação absoluta
Liberta-me as mãos, ladeia-me
Retira-me o pudor das vestes
Ilude-me no sabor da tua pele
Nunca me curvaras perante ti
Voluntariamente ajoelho-me
Para que me eleves a loucura
Sentir-te entre os meus lábios…

Explora-me na língua,
Nos licorosos sabores
Escorrendo nos lábios
Para que te beije…

Solta-me plenamente
Na arte de seres
Nada és, que em mim
Eu, faminta não controle…

Consciente, sou…
Louca por ente lençóis…
Para que não te percas
Em outras loucas ilusões…

Ama-me, também
Quando me possuis
Ferozmente na loucura
Do sexo que em nós geramos…

Tiago Paixão
29/08/2017
09:15

Arde-me 

Arde-me 

Fogo que me queima a alma,
Do desejo ardente do teu olhar,
Estremeço, enlouqueço, mulher
Sedento do toque, do calor da tua pele
Alma nua que a mim te entregas,
Silencias-me com teu beijar,
Noites longas, imperfeitas
Profundas na construção,
Sedução na loucura do olhar,
Ver-te na ponta dos dedos
Na pura arte que elevam corpos
Desejo absoluta de entrega cega
Despiciente e louca, movimento da arte,
Desenho absoluto, contorno das formas
No delirante movimento de amar!

Tiago Paixão

Segredo

Segredo

Encontrei-me onde sempre me perdi,
Toda minha alma coabita no teu beijo
No toque salvífico dos teus lábios
Ébrio no ser, pecado ávido no desejo

Caberia todo o meu corpo
Alma que formamos no segredo
Ignorância condenada, pelos deuses
Abrem-se, olhos, lábios por Eva ao Adão
Condena Vénus o homem à paixão
Desejo que perpétuo da fusão!

– Amor, meu doce amor…
[como desejo possuir todos os teus orgasmos]
Bebo sofregamente nos teus lábios
A poesia que me incitas
No movimento das ancas!

Alberto Cuddel 

Na dura solidão que me impões

Na dura solidão que me impões

No meu quarto quieto,
Sozinho como sempre tenho sido,
Sozinho como sempre serei.
Mesmo que a minha voz,
Aparentemente ressoe nas paredes despidas,
Não incarna no teu corpo ausente
Substancia deformável da solidão
Nas sombras que me povoam a memória
Milhares de vozes gritando em mim,
A fome de milhares de vidas, e um só corpo!

Sobrevivo, sonhando a vida e a consciência da mesma
Numa espécie de oração, uma prece erguida
Vida, pela vida que desejo e toda a outra que perco
Na vontade de inconscientemente me manter preso
A uma fé antropológica na necessidade de me doar
E eu, aqui, assim, preso a um quarto
Sem forças ou vontade para sair…

Sírio de Andrade
31/05/2017
21:15

Tempos mornos

Tempos mornos

Nos dias e noites mornas
Sejas tu em mim provocação
Nos tempos do cansaço
Sejas tu a dar o primeiro passo!

Provoca-me
Na virtude consumista do sentir
Mesmo que eu cansado quase a dormir
Deixa-me levar… Provoca-me

Que seja a libido
Que seja tesão
Homem também
Necessita de se sentir
Desejado, provocado
Porque não,
Também amado…

Provoca-me
Na subtileza dos teus gestos
Na voracidade dos protestos
Para que seja quente o que é meu
Para que seja nosso o desejo que é teu!

Tiago Paixão
19/06/2017
0:15

Complexo

Complexo

Complexamente perfeito,
Nasce do nada, de um olhar
De um querer imperfeito
Mesmo que o bom senso
Na sua imperfeita humanidade
O negue a pés juntos
Nasce…

Mesmo que nascido das cinzas da dor
Manipulado no sorriso no momento
Nasce, decididamente certo e cego…

Perdesse nos minutos do tempo
Perdendo o tempo e as horas
No pensamento direccionado,
Morrendo a paixão a cada dia…

Ele nasce…
Do nada, bebendo
Matando a fome nos lábios
Nos corpos, alimentando-se
Abrindo os olhos, aceitando
Complexamente egoísta
Na dádiva de si mesmo…

Num olhar,
Numa palavra,
Num toque, num sorriso
No dialogo, na voz,
Na saudade, na dor,
Na felicidade, ele…
Complexamente nasce… O Amor!

Alberto Cuddel

Desejos matutinos

Desejos matutinos

Quantas vezes desejo cair a teus pés
(M)amar-te por inteiro em mim…
Ter-te entre os meus lábios…
Desenhando o teu corpo com a língua
Hipérboles e metáforas gemidos…
Até ao jorro absolutamente quente
De versos intermitentes batendo no céu…
Quantas vezes ao acordar desejo…
Que loucamente me possuas
Que me faças tua louca amante
Sem tempo ou consequências…
Quantas vezes de manhã espero
Que apenas me fodas, como o mundo
Acabasse já…
Desejo-te amante meu…
Que todos os dias
Me despertas
Na firmeza e imaginação
Do teu louco querer…

Tiago Paixão
28/08/2017
08:00

O (a)mar!

O (a)mar!

Enrolam-se
No embalo das ondas
Que se desenrolam
No areal da vida
O salgado sabor
Dos teus rubros
E finos lábios
Braços que te envolvem
Como espuma que abraça
As rochas hirtas aos céus
Por onde vais (a)mar?
Que te estendem na areia
No tempo em que as almas
Estendem a brancura
Do nosso amor marinho
Brisa que de teu perfume
Impregna no meu corpo
Águas que meu fogo
Aplacam na tua doçura
Oriental do ser
Em mim (a)mar!

Alberto Cuddel
#Como Fazer Amor

Não sei porque o fazem, sei apenas que o fazem…

Não sei porque o fazem, sei apenas que o fazem…

Casam-se tendo como horizonte o divorcio, outros há que não se casam, unem-se, tendo como horizonte a mais fácil separação, não sei porque o fazem, sei apenas que o fazem…Chove muito, mas irá chover ainda mais, não hoje, mas não pensam no amanhã, existe uma evidente evidência que pensam no que não devem, e não sentem o que deveriam sentir, ainda assim não sei porque o fazem…
Entristece-me ver os que nunca fizeram, mas também os que esquecem, (talvez eu próprio escreva para poder esquecer)! Lembro-me perfeitamente do tempo em que me lembrava, em que não esquecia de nada, ainda assim lembro-me de pensar que seria para sempre, sei que alguns pensam também assim, não sei porque o fazem, sei apenas que o fazem…

Sírio de Andrade
#VucabulosPoeticos

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