Espantoso

Espantoso

Tudo se funde num luar
Carros que cruzam avenidas
Embuste de um segundo
Logo após um primeiro!

O sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis,
Na noite cai no pátio, depressa
Dias que nascem no horizonte…

Conquistamos todos os impérios,
Nos livros guardados na fúria
Memória da incúria de um romance
Artes das palavras surdas!

Penitência dos anjos pecadores
Amantes de criados e servos
Prazeres que se aspiram sonhos
Da racionalidade das horas
Minutos em que dormes!

Alberto Cuddel
21/05/2017
19:14

Poema…

Poema…

há em mim um céu
tecido em coração de mãe
uma força, gravada a ferro
por um pai…

há em mim um rio
chorado em mãos de professora
uma árvore, agitada pelo vento
soprado pela catequista…

há em mim um mar
plantado pelos livros
um ser que imagina pensando
que o mundo é, sem o nunca ter sido…

há em mim uma sede
de uma água pintada
por alimentos salgados
que ingeri no coração…

Alberto Cuddel
19/03/2020
14:40
In: Nova poesia de um poeta velho

Amor Imortal

Amor Imortal

Não me custaria arrastar-me pela vida
Na palidez do rosto, no gélido sangue
Pelo amargo dos teus lábios, e os beijos
Com a lua iluminando-te as formas rosas
Ao chamamento, -vou, sou, pertenço
Amantes eternos, mesmo que o coração
Se imobilize nas tuas mãos, com a morte
Escondendo a nudez da tua alma, e o sangue
Deslizando na lâmina fria do ciúme,
-pertenço-te apenas, na lucidez entorpecida
Do desejo animalescamente humano,
Órfã dos pudores mortais, de uma alma
Trajando o luto, da perda constante
De um amor Imortal!

Alberto Cuddel
25/05/2017

E as flores estéreis sem sorte!

E as flores estéreis sem sorte!

nadam nenúfares na lama,
dessa morte que os chama
um sol alto, quente e indiferente
os lírios não se movem
os juncos definham

um tempo eterno que se faz deserto
indiferentes matam a sede na esplanada
há cerveja gelada, conversa fiada…
um fogo quente que lavra
na garganta de gente que não faz nada…

Alberto Cuddel
11-03-2020
11:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Imagine…

Imagine…

Que a alma não tinha fronteiras
Que a vontade era livre de amar
Que a inveja não reinava nas eiras
E que o mundo sabia caminhar!

Imagine…

Que cada um de nós, do tu e do eu
Não vivesse na busca da felicidade
Que partilhava a vida a terra e o céu
Quão lindo seria viver de verdade!

Imagine…

Que ao acordar
Soubesses que está nas tuas mãos
Deixar de sonhar
E viver como irmãos!

Alberto Cuddel
28/05/2017

Certezas

Certezas

Profundidade da pedra
E pedra em mim urna certa
Convicta, a luz nasce do alto
Alto que se abstém, e se mantêm
Impávido, sereno, ausente
Nada depende de ti, som da lira!

A luz ladeia-te os flancos
Empolga um momento para além
Certa e concreta eternidade
No silêncio do depois, nada
As aves morrem a cada Inverno
Regressando na Primavera,
Guiadas pelo trenó do norte
Anúncio de bom tempo
E flores, e ribeiros que se enchem
E gelos que se derretem
E corpos que se mostram
E certezas, – paixões assoberbadas
Corpos quentes, chamamentos…

Se olhasses as minhas mãos guiadas pelo vento
Adormecerias na incerta consciência do meu regaço
Dormindo e acordando no fervilhante sangue
Entre o sonho e as certas certezas que professas…

Certo é, que tudo se repete…
E nunca teremos certezas de nada…
Mesmo que as noites morram todos os dias!

Alberto Cuddel
31/05/2017
17:20

Desse amor tão testamental

Desse amor tão testamental

“Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante…
Eras o Universo…”
Fernando Pessoa

submerges no meu peito como tudo
bate o músculo da vida por ti mesma
quantas vezes te sinto na alma
como um gesto de força, presença…

sinto nas mãos as palavras
esses dizeres por ti proferidos
aradas sejam as safras que lavras
dona dos gestos cometidos…

sejamos testamento das horas
do corpo que louco beijei
nas ausências que ainda choras
vive também o tempo que sonhei…

não nos sonhamos
existimos realmente hoje
as tuas mãos – gestos – honestidade
no meu beijo – palavra – verdade
deste amor que dói
dói por ser
por existir
sem dor não existiria amor
e eu, eu não poderia – senti-lo
porque amo, apenas por isso,
por amar…
e sem amor,
não seria o universo vazio?

Alberto Cuddel
24/02/2020
22:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Vidro fosco da janela

Vidro fosco da janela

a vida corria lá fora da janela
porta fechada saindo por ela
a rua deserta
destino morto
vida suspensa, cabos bambos
e toca sem destino a chamada urgente
não é bicho, não é mato, é gente…

a morte à porta
o vento de leste
uma névoa solta
as notícias que leste
um vidro baço…
fechado, emoldurado na janela…
um olhar perdido
braços caídos
dia sem sentido…

Alberto Cuddel
20/02/2020
02:45
In: Nova poesia de um poeta velho

Ciclicamente

Ciclicamente

Descobri que os dias me abandonavam
Corriam as noites rio acima
Germinam folhas douradas que caem
Frutos em fores secas,
Ninhos em árvores despidas,
Perscruto o silêncio do horizonte
Húmido olhar que te banha a face
Sem um motivo, uma vontade!

Alberto Cuddel
04/06/2017
18:00

Vida por viver…

Vida por viver…

Tão longe e distante o fim dos dias
E a minha pressa de vida…

Expressão intelectual da emoção,
Indistinta da vida, dessa que corre lá fora
Na juventude correria das horas
E a vontade de ser e fazer, tudo e coisa nenhuma
Na ideias abertas que me aprisionam,
As ciências distorcidas e filosofias vãs
E eu? Quem sou, sem te perseguir
Formo-me na consciência cabal
De irei ser, o tudo que de mim farei
Na consciência de que tudo me condiciona…

Vida,
É com esse sonho que fazemos arte.
Outras vezes com a emoção
A Paixão é a tal forma forte que,
Embora reduzida a acção, a acção,
A que seduz, já não a satisfaz!

E a vida, essa coisa esquisita
Que passa diante de mim
Dia a pós dia…
Terei pressa,
Calma, tempo…
Mas ainda a irei sonhar,
Viver, sentir
Apaixonar,
Amar…
Sem pressa…
Bem devagar…

Alberto Cuddel

17/06/2017

 

Joana Vala

Arde-me o peito neste amar pelos dois…

Cobre-me de esperança gélida
Este tempo sem orvalho
Este mendigar, esta espera…
Morre em mim, o que já mataste
Aí o amor? Gralha inventada pelos homens
E eu amei, amei pelos dois
Hoje amo-me e digo-te adeus…

De que me vale esperar
Se apenas o corpo vejo entrar
nada mais que fome, cansaço
uma roupa suja, e um corpo velho…
amor, amor é um trabalho que não desejas…
adeus…

03-12-2019
04:39

Joana Vala

Palavras obrigatórias : urtiga, vida, perigo, molécula, flor, mulher

Joana Vala

“Há no desabrochar dessa flor
Germinada de uma molécula de perigo
Uma vida de mulher que se urde
Na fragilidade de uma urtiga em terra seca”

Nascem-me noites prenhes de solidão
As palavras ordenham-me os sonhos
E o corpo, o corpo vacila como canas ao vento
Entre o sabor salgado do pecado
E a clausura amarga de um quarto…

Nunca esperei muito deste amor
A não ser que fosse isso mesmo
Um amor simples, um amor de gestos
Um amor que chega, um amor de espera…

E eu? Tão noite e tão dia
Tão carente e tão naturalmente humana
Na expectativa de desabrochar flor…
De uma mera molécula de perigo
Descobrindo-me vida, descobrindo-me mulher…

22-10-2019
21:17

Bom dia amor

Bom dia amor

E se eu não te amasse, se tudo o que sinto não passasse de uma mera ilusão, de um engano? Se aquilo a que chamo amor fosse apenas uma dependência gerada por hormonas em sobressalto e por sinapses erróneas na ligação entre neurónios, se a saudade fosse apenas a ressaca da ausência do teu corpo, na mera dependência de um orgasmo obtido em ti? E se aquilo a que chamo amor, fosse a mera dependência de ti, como parte nascida de mim pela mão direita de Deus?
Talvez possa ser, talvez seja ou não amor, talvez seja uma mera dependência orgânica, mas continuo a quer escolher Amar-te todos os dias, ou meramente a ser dependente de mim em ti.
Mas sei e disso tenho a certeza plena, daqui a pouco amas-me, logo que o meu corpo se desloque na direcção da dependência do teu, logo que a minha alma, num esforço sobre-humano, eleve a carne na direcção da casa a que chamarei lar. Sim sei que me amas, da mesma forma que eu mesmo não sabendo amo-te!
Pode não ser hoje, mas encontrarei uma fórmula científica para medir a decisão do nosso amor, mesmo que para isso tenha novamente que convocar todos os homens como testemunhas do acto da nossa dependência.

Gostava de te contar um segredo, um daqueles segredos românticos, de que as flores do nosso jardim apenas continuam a florir pelo amor que sinto por ti, mas não era um segredo, seria apenas uma mentira romântica, as flores continuam a florir porque eu as rego, da mesma forma que me alimento, alimentando em mim a fome do amor e do desejo que sinto em ti, a cada dia de novo, e a cada manhã em que decido loucamente Amar-te!

A de Alberto Sousa

Sinto, e ao senti-lo inundou-me uma enorme esperança…

Sinto, e ao senti-lo inundou-me uma enorme esperança…

Esperar, que tenho eu à espera?
Porque faço esperar quem me espera?
Fumei um cigarro, olhei o fumo subir, à luz ampla e larga do tempo
Desse tempo literário que se imobiliza, como suspenso
– Porque suspendemos o amor, deixando em suspenso quem nos ama?
Lembro-me depreende de ontem, desse tempo em que não fiz nada
Limitei-me a estar sentando, olhando os olhares frios e vagos de quem espera
Depois vi o raiar do tempo na rua, escorrendo pela cidade
Como que afastando os carros em hora de ponta, caminhando em direcção oposta
Sinto, e ao senti-lo inundou-me uma enorme esperança…
Uma lágrima escorreu-me no rosto, senti o aconchego do poema
Abracei-o, como quem abraça uma despedida…

Vejo, vejo por detrás dos teus olhos uma lágrima
Vejo a solidão que te entrego, como quem deixa uma criança
Sentada pela primeira vez num banco da escola…

Vejo uma luz ampla, quente, uma alegria no rosto
Não amanhã, não já, mas depois…
Sinto a chegada…
Sinto, e ao senti-la inundou-me uma enorme esperança…
Essa que me faz viver, com a certeza que o depois
Ai o depois… o depois será sem dúvida melhor que o antes…

Alberto Cuddel
12/02/2019
23:18
#osuaveaconchegodopoema

Neste revolto ser, registo com apreço a vida…

Neste revolto ser, registo com apreço a vida…

Rasgo ao meio os ecos dos silêncios
(manchados de raiva em alcofas de linho)
Hoje brindam à derrota do querer, o amor definha
Vil metal este que eleva o ego aos píncaros do olimpo?
Falso, é falso, sempre foi falsa a máscara que vestes
Carregas nas vestes arrematadas o vil sabor acre do pecado…

Que poeticamente morram de pé as árvores que não se movem
– Ofereço o peito as balas, hipérboles gastas
Contas, e recontas em segredo, mentiras repetidas da verdade,
Ensaios bucólicos da vida que querias, queres não sabias…

Eu, mil vezes eu e tu, sim tu
Tu que me fitas, tu que me críticas e reprovas
Mas lês-me… lês-me…

Fartas sejam as clareiras dos dias
As frondosas florestas, os montes verdes
As arestas vivas das rochas, as gravuras do tempo
A honra do homem arrastada pelo pecado do convento
Batem borboletas no peito
Como gaivotas que pairam no vento
Jorram cores da mão do poeta
E palavras do pincel do pintor
Esculpindo vestes belas e brancas
Em pedras cosidas pelo alfaiate.

Abraças-me pecaminosamente no desejo sem tempo
Escorrem dos lábios mel, nessa solidão da leitura
Um aperto de pernas, um arrepio na espinha
Uma mão no cabelo, um sopro na nuca…
Das palavras soltas, resulta uma brisa que te trespassa a janela aberta
A alma…
Neste revolto ser, registo com apreço a vida…
Esta que vive a cada vez que fecho o caderno
Erguendo-me e caminhando em direcção ao amanhã que me espera
Ali diante de mim numa mão estendia…

Alberto Cuddel
23/01/2019
13:30

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