Somos

Somos

Eco da palavra pensada
Eco da palavra fingida
Eco da palavra sentida
Palavra, verso, poesia!

Rima, parelha, saudade
Letras, sentir, verdade,
Poema, som decorado
No coração gravado!

Somos poesia,
Do dia a dia,
O poema da nossa vida!

Alberto Cuddel

28/06/2016

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Palavras mote de uso obrigatório:
“Homens, trabalham, lâmpada, morte, fonte, escuro, nascente, sombra, pedra, loucura, procura, lugar, saída.”

Nascem do prazer do trabalho, tempos passados após a loucura
Desejo concedido pelo génio da lâmpada que se esfrega,
Esse bater das marés em pedra dura, bate que bate e fura…

Remam os homens barcaças de vime
Ventos que os acoitam de frente
E corre o sol alto com medo da sombra
Os montes erguem-se preguiçosos…

Trabalham as mães, os cueiros e a terra
A água na nascente, fonte da vida
Nos caminhos de pedra solta
Há uma procura da saia, uma mão que as prende…

Partem noite escuro, de encontro à morte
A faina não perdoa, nem a barriga de fome
Nessa procura divina, por uma saída…
Caminha a fé sob as águas neste lugar…

Num disléxico poema, uma vida cinzenta
Uma prece ao tempo, um filho no ventre
Uma espera apertada, uma alma dilacerada…
Nascem do prazer do trabalho,
Tempos passados após a loucura…

Alberto Cuddel
15/11/2020
12:50
Poética da demência assíncrona…

Hoje em tudo diferente…

Hoje em tudo diferente…

Momento inconstante e tudo muda,
O sol que dá lugar à chuva, os olhares,
Os gestos reprimidos, as lágrimas, o sorriso
Do nada, nada muda, tudo diferente, sem gente!
Existirá no mundo maior mentira
Do que o silêncio, as árvores a florirem,
Existirá maior traição
Que o sentir da palavras fora de tempo?
Haverá algo mais verdadeiro
Que escrever silêncios,
Com palavras nos versos?
Onde existir vontade, tudo muda
Tudo é verdade, acaba a mentira!
Ficam apenas o cantos dos pássaros,
Memória da água em ribeiro seco
O desejo do beijo, e um céu encoberto
Como lençóis cobrindo corpos estrelados,
E o silêncio,
O silêncio abafado da respiração ofegante
Nos dedos entrelaçados olhando o tecto!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 62

Vives

Vives

Nos caminhos da memória
Esqueço e lembro,
Pedras que guardo nos bolsos
Balões presos nos punhos,
E uma bola que saltita entre os pés,
Lembro e esqueço,
Quantas vezes querendo esquecer
O nada que ainda lembro
Ou apenas lembrar
O tudo que ainda que esqueço!
No caminho da memória
Faço-te viver
Para que a história da vida
Não me faça esquecer!

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi – 63

Nos passeios da vida

Nos passeios da vida

caminhando nas horas incógnitas,
encontros sucessivos e sem relação,
no passeio em que fui, o mesmo pelo que vim
na noite, no dia à beira ou distante do mar.
ali sob o céu, calcando a terra
e todos os pensamentos, os que fazem os homens
os que procuram, os que encontram
os que sonham mulher…
e todos os outros que têm feito viver os homens,
depois de todas as emoções, de todas as desilusões
de todos os sentimentos e todos os gestos
parar é sem dúvida o acto, o derradeiro acto
pelo qual os homens têm deixado de viver…

Alberto Cuddel
21/09/2020
11:17
Poética da demência assíncrona…

A vida que se enamora…

A vida que se enamora…

Sorte, vida, felicidade, orgulho, simples.

por mais dura que lhe seja a vida,
tem ao menos a felicidade de a não pensar
vive-a simplesmente de forma simples

que por sorte ou orgulho vão
lhe caiba em vida o prazer da paixão
que por terra ou mar, elevemos aos céus
os sonhos e o prazer da realização

olhemos com os olhos mansos
e rosto terno, no rubor envergonhado
o corpo que se deseja, pelo prazer de ser
alma carente sem companhia de gente…
que por amor seja, tudo o que se almeja…

Alberto Cuddel
27/08/2020
10:35

Poética da demência assíncrona…

Último tributo a ti

Último tributo a ti

 

“Nas rosas negras que me repousam na alma

Descobri o amor, o meu, por mim mesmo

Nas lâminas que se escondem no leito

Decidi retalhar o passado, recortar cada dia”

Sírio de Andrade

Retalham-te o corpo na banalidade dessa carência de afecto que te atormentam as noites, um abraço que nunca foi sentido, uma abstinência de beijos, palavras, meras palavras, entre um trago e um bafo, entre um cigarro e uma lágrima, entre um tecto baixo aninhado no negro cadeirão…

Nesse falso amor a ti que proclamavas, nunca o sentiste, retalhavas o corpo vagueando pelo pensamento, nesse abandono supremo do esqueleto, coleccionavas pedaços de nada e esperança, sentias, mas nada mais que isso, sentir, apenas um gargalo bafiento por companhia e um cinzeiro cheio…

Nunca as conversas dos homens banais te entusiasmaram, nunca as palavras de circunstância das mulheres te fizeram vibrar, um inadaptado social, alguém longe do tempo e do mundo…

Percorrias ruas e vielas olhando os beirais, as estrelas, clamando silenciosamente o seu nome, e ela, ela escutava-te, mas nunca deixou a vida dela, pela tua vida simples, sem nada, sem pretensões, sem ambições, apenas sentir, apenas desejo, apenas viver… e viveste a ilusão de uma vida, durante a vida toda…

Alberto Cuddel

20/06/2020

16:06

In: Nova poesia de um poeta velho

(tributo póstumo à vida e obra de Sírio de Andrade)

A vida da história da noite simples

A vida da história da noite simples

na véspera da partida desse sol que era
– à um gemido surdo que anuncia o crepúsculo
esse abraço de fim de dia ainda a dar…

há uma história a contar da história da vida
– um surto aconchegante do amor que se renova
uma noite simples, que simples é a vida
como os barcos que aportam no porto
– e todos os que partem para a faina…

houve uma vida, dentro da vida da gente
uma vida nova a cada alvorada
uma outra que desponta a cada madrugada…
correm sonâmbulos pelas vielas os corpos cansados
os sem tecto e os sem esperança, os sem vida
os que chegam e os que partem…

há a cada esquina uma história
uma noite simples…
uma vida cansada… uma vida lembrada…

Alberto Cuddel
19/06/2020
20:34
In: Nova poesia de um poeta velho

Sacro dia natividade solar

Sacro dia natividade solar

anunciou-se em mim, um rubor no rosto
inocentes raios oblíquos, luz primeira
nasce o dia, renasce a vida por entre o orvalho
esticam-se asas, deixa o amor os leitos…

fremem as folhas sob o sol incandescente
evaporam-se gotículas de suor
desenrolam-se os braços, soltos abraços
molham-se os lábios molhados, em lábios quentes…

tanto de mim se foi naquela hora
sinto a minha vida no vento que corta
essa brisa que nos agita por dentro
que nos faz sentir a pele, alma que é centro…

há em nós uma permanente certeza
mesmo oculto de nós, o sol
sempre nos irá incendiar o peito…

Alberto Cuddel
13/06/2020
07:07
In: Nova poesia de um poeta velho

De Amor

De Amor

Das carnes de onde me formei
Desejada e amada aos olhos
De uma presente paternidade
Mãe também é, também foi
Tão singelamente mulher!

Do amor derramado que advém de Deus
Dálias, tulipas, orquídeas aos céus
Jarras de lágrimas na saudade branca
Uma declaração vinda do céu, franca!

De amor, são os dias e as horas declaradas
Nas esperas nocturnas e madrugadas veladas!

De amor são as vidas entregues por nada
Pela fé, pela consciência, pela certeza decidida
Pelo sangue, pela superior vontade firmada
Por uma vida maior que o mundo, concedida!

De amor são as cartas,
As formas delicadas,
Do sensual corpo da mulher,
De amor, são os desejos e os beijos!

De amor são todos os gestos que constroem
Que edificam e glorificam o dom da vida!

Alberto Cuddel
10/05/2017
02:50

Ondas

Ondas

As mesmas que se quebram
Que se enrolam e escorrem
Numa areia mexida, remexida
Misturada entre espuma e algas
Nuvens que encobrem os dias
Chamamento da saudade
Cadência que me acalma
No doce e odioso canto do mar
Vai, vai, um dia irás voltar?

Alberto Cuddel
18/05/2017
00:27

Tempo morto em que vivo, debruçando-me à janela

Tempo morto em que vivo, debruçando-me à janela

de manhã se acordo, não morri
e eu que pedi, não voltar a nascer…

assim é a essência da realidade o existir,
não o ser pensada, apenas sentida,
assim tudo o que existe, simplesmente existe
o resto é uma espécie de sonho que temos…
a vida é um sofrimento sentido ou olhado
vista do lado de dentro da janela…
janelas verdes e altas, de outro tempo ou da aldeia
e da janela do meu quarto vejo…
um rei ser esventrado, um presidente baleado
ou assaltante enforcado e um inocente condenado à morte

sorte do tira dentes que desmaia ao ver sangue…
sorte a da vizinha que lhe corre entre as pernas
sorte a da alcoviteira que tem o que contar…
todos sabem tudo, o que viram e o que contaram
nunca a verdade, nunca a realidade, mas o que inventaram.
e a china matou os velhos… não os novos que os infectaram…
mas os chineses… não a ganância dos empresários, mas os chineses…
tempo morto em que vivo, debruçando-me `a janela
de lembro-me de cair, vertiginosamente, na direcção de uma folha de papel pardo e ser palavra, vomito…

Alberto Cuddel
06/05/2020
23:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Espantoso

Espantoso

Tudo se funde num luar
Carros que cruzam avenidas
Embuste de um segundo
Logo após um primeiro!

O sonho do que se consegue a seguir
E o caminho vai por degraus visíveis,
Na noite cai no pátio, depressa
Dias que nascem no horizonte…

Conquistamos todos os impérios,
Nos livros guardados na fúria
Memória da incúria de um romance
Artes das palavras surdas!

Penitência dos anjos pecadores
Amantes de criados e servos
Prazeres que se aspiram sonhos
Da racionalidade das horas
Minutos em que dormes!

Alberto Cuddel
21/05/2017
19:14

Poema…

Poema…

há em mim um céu
tecido em coração de mãe
uma força, gravada a ferro
por um pai…

há em mim um rio
chorado em mãos de professora
uma árvore, agitada pelo vento
soprado pela catequista…

há em mim um mar
plantado pelos livros
um ser que imagina pensando
que o mundo é, sem o nunca ter sido…

há em mim uma sede
de uma água pintada
por alimentos salgados
que ingeri no coração…

Alberto Cuddel
19/03/2020
14:40
In: Nova poesia de um poeta velho

Amor Imortal

Amor Imortal

Não me custaria arrastar-me pela vida
Na palidez do rosto, no gélido sangue
Pelo amargo dos teus lábios, e os beijos
Com a lua iluminando-te as formas rosas
Ao chamamento, -vou, sou, pertenço
Amantes eternos, mesmo que o coração
Se imobilize nas tuas mãos, com a morte
Escondendo a nudez da tua alma, e o sangue
Deslizando na lâmina fria do ciúme,
-pertenço-te apenas, na lucidez entorpecida
Do desejo animalescamente humano,
Órfã dos pudores mortais, de uma alma
Trajando o luto, da perda constante
De um amor Imortal!

Alberto Cuddel
25/05/2017

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