Faz-se vida em mim

Faz-se vida em mim

o raio de sol entrou de repente em mim
como um gume metálico que me rasga a alma
um aliviar da força e da fé que se ilumina
fez-se fogo no madeiro e veio a luz…

rabiscam no meu íntimo uma ideologia
uma epifania descrita numa métrica fingida
como uma luz difusa que cruza o pinhal
cabelos de oiro e uma forma mística de má-fé
há um espectáculo de luz que me nasce dos dedos

numa estratégia de sobrevivência, fazem ninho
ali, no alto daquele verso, depois da vírgula
entre as hastes de uma consoante, e o berço de uma vogal

-não seria de esperar que nascessem…

depois do sol, a chuva irrigou-me os pés…
ganhei raízes e parti dali… agora sabia quem era
e o sol, o sol iluminava-me a face…

há uma obsessão indiciosa de auto-negação do que se é…
e isso revolta-me.… pois a poética é.… sente-se poesia
e ela não se define… apenas bebe-se como alma sequiosa
que tenta em vão matar uma sede que nos nasce…
E as palavras fazem-se vida em mim, como num altar…

Alberto Cuddel
16/07/2021
1:00
Alma nova, poema esquecido – XII

Joana Vala – a dor de ser…

Joana Vala – a dor de ser…

enraivecem-me esses olhos famintos de macho
essas palavras de fêmea que os desculpam
essa culpa atirada aos ventos, pelas vestes
dói-me a falta de senso e o não poder ser
tão somente eu, igual e diferente, ser mulher e gente…

dói-me o julgamento e inveja pelo que mostro
as palavras mesquinhas das meretrizes sem mérito
pelas acusações da sua falta de capacidade
“no empenho e trabalho não é mérito, trabalho horizontal”
onde reside o sexismo? neles? não… nelas nessas infelizes sem valor…
ser mulher é em mim mérito consciente, trabalho dobrado
merecido e bem trabalhado… os homens não se julgam
mas elas? elas condenam e invejam…

enraivecem-me esses olhos famintos de macho
essas palavras de fêmea que os desculpam
os ciúmes tontos a quem confiamos a alma
o ser usada, mostrada como trofeu, depois?
apenas empregada… alguém que faz e não é “amada”…
dói-me ser mulher entre as mulheres que não o são…
doí-me ser mulher entre homens bicho…

apenas quero ser quem sou, pelo que sou
pelo que mostro ser, pelo meu viver
sem favores, pelo mérito que merecer…

dói-me a dor de ser mulher…

23/07/2021
11:00

A vida que desconstruímos

A vida que desconstruímos

a vida é um caminho rustico sem destino traçado
e passamos pelo moinho, cruzamos pontes e rios
e segue-nos o céu, os dias e a s noites, e vamos
apenas pelo ter que ir, há quem nos empurre
em direção ao depois e ao precipício, ali, diante dos pés…

[…]
tenho sonhado muito, por entre esse arvoredo dos dias
de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer,
e esquecer não pesa e é um sono
sem sonhos em que estamos despertos.
em sonhos conseguimos tudo,
até fazer chover no deserto, ou rosas no teu regaço…
esse caminho que desconstruímos na travessia das dunas
nessas que se movem na noite ao sabor dos ventos
há um absurdo nesta vida real, onde sonhamos o desejo
nessa complexidade das relações humanas, na linguística
nesse querer negativo, nessa afirmação do não…
nesse jogo do prazer que é sem ser, sendo que não é…

e sonho, e sonhamos, e vivemos e acertamos
erramos, e caímos… e morremos, felizes por ter sonhado o impossível…
Sendo que ainda ontem nos amamos, ali junto ao vale
Depois do pinheiro hirto, mesmo antes da curva…
Lembras-te?… ou teríamos apenas sonhado de mão dada…

Alberto Cuddel
14/07/2021
09:15
Alma nova, poema esquecido – X

Caem poemas…

Caem poemas…

Caem as palavras
momento ondulatório
um verso, desenhado
queda, folha dourada
sol outonal que me aquece
círculos que se afastam
queda do charco da vida
ali fica, ondulando,
ali fica, rodopiando
fingindo ser prosa
representando
desejando ser verso
ensaiando uma quadra
sem nada, poema
fim de vida, fingindo
ser o que fingia
poesia!

Alberto Cuddel®
10/12/2015

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

eco do tempo que se faz voz em majericos
ecos da porta da igreja e a voz dos mexericos…

arrastas pelo chão o nome de mulher
na invenção de um leito de uma noite qualquer
dizes-te voz da consciência,
bates no peito em obediência
mas és meramente invejosa da vida alheia…
que as almas do purgatório te perdoem
e todas as outras que escorregaram na vida
solteiras à força de trabalho criaram uma filha…

há essa voz de eco que o tempo esquece
mas que o povo sábio enaltece, na letra de um fado
antes que a vida te leve, pelos bairros de alfama
és força vida entre o tejo e o sado…
amada por tantos os que te deitaram na cama…

ó mulher, doce mulher… onde te mora a liberdade?
na inveja de muitas, as que te escarnecem na rua
pura inveja de vida, por a sua sorte não ser a tua!…

Alberto Cuddel
07/06/2021
Alma nova, poema esquecido – I

Vento da vida de mim me escorre…

Vento da vida de mim me escorre…

Soprou a vida no alto da colina
A morte corre afoita pelo vale
De que me vale toda adrenalina
Os dias e a pressa que resvale
Se nada se me aproveita, morte
Tempo que de paz nada tem
Tempo construído e pouca sorte
E eu não me encontro em ninguém!
Soprou a vida um pouco de paz
A morte espreita enviesada
Cousas belas que o amor me traz
Vida mal vivida, mal tragada
Gasta no nascimento concedido
O mundo deixa-me quedo
Emprenhando a alma pelo ouvido!
Mas por impulso de vida
Não por cansaço ou medo
Não fico, estou de partida,
E o sol, que me morre no rosto
E o vento que me corre em morte
Há um que de graça no sol-posto
Uma rua suja, a húmida e corte…
Os pés rasgam-se nas solas
As mãos vazias, com fome
Tudo o que nos dão, esmolas
Sociedade hipócrita, consome…
Soprou a vida, e morreu
Assim como nos fez Deus
Não sou dia ou noite, eu
Apenas um sussurro, um adeus…

Alberto Cuddel
04/05/2021
18:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVIII

A vida

A vida

Corria a farta sombra à minha frente
O sol no prumo do dia, bailava e sorria
Sob nuvens brancas e cheias a luz mente
E a sombra que eu perseguia desaparecia!

E segui o sol, como os dias sem gloria
Desta vida arrastada pelo tempo nu
Os pés arrancam o pó, num olhar cru
Vê portas e janelas, verdes da história!

A vida chama a lua nocturna e branca
Há na imensidão do tempo, carência
Esse tempo esperança onde nos lança…

A sombra, sequelas do pecado da luz
Que se faz humanidade por convergência
Na saudade esconde-se por detrás do capuz!

Alberto Cuddel
23/04/2021
10:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVII

Morte do dia,

Morte do dia,

Assim vão desfilando os minutos,
Num velório anunciado, morreu,
Mais um dia nasceu, cresceu,
E se finou, assim sem anuncio,
Sem honra de abertura de jornal,
São assaltos, assassinatos, roubos,
Impostos, corrupção, mas e o dia afinal?
Nada, nem um rodapé, assim esquecido,
Mas que dia incompreendido este,
Que morte tão desolada,
Morreu, não é lembrada,
Apenas a noite, essa sim acarinhada,
Apenas a criançada um pouco contrariada,
Por chegar a hora da cama, não acha piada!

Mas também a noite nascida,
Com tudo onde está prometida,
Irá crescer, cobrir com seu manto,
O amante mais incauto,
Cumprir promessas feitas,
Trazer lágrimas às desfeitas,
E aos primeiros raios,
Também ela morrerá,
Não já, não hoje, mas amanhã!

Alberto Cuddel
16/05/2016

Somos

Somos

Eco da palavra pensada
Eco da palavra fingida
Eco da palavra sentida
Palavra, verso, poesia!

Rima, parelha, saudade
Letras, sentir, verdade,
Poema, som decorado
No coração gravado!

Somos poesia,
Do dia a dia,
O poema da nossa vida!

Alberto Cuddel

28/06/2016

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Palavras mote de uso obrigatório:
“Homens, trabalham, lâmpada, morte, fonte, escuro, nascente, sombra, pedra, loucura, procura, lugar, saída.”

Nascem do prazer do trabalho, tempos passados após a loucura
Desejo concedido pelo génio da lâmpada que se esfrega,
Esse bater das marés em pedra dura, bate que bate e fura…

Remam os homens barcaças de vime
Ventos que os acoitam de frente
E corre o sol alto com medo da sombra
Os montes erguem-se preguiçosos…

Trabalham as mães, os cueiros e a terra
A água na nascente, fonte da vida
Nos caminhos de pedra solta
Há uma procura da saia, uma mão que as prende…

Partem noite escuro, de encontro à morte
A faina não perdoa, nem a barriga de fome
Nessa procura divina, por uma saída…
Caminha a fé sob as águas neste lugar…

Num disléxico poema, uma vida cinzenta
Uma prece ao tempo, um filho no ventre
Uma espera apertada, uma alma dilacerada…
Nascem do prazer do trabalho,
Tempos passados após a loucura…

Alberto Cuddel
15/11/2020
12:50
Poética da demência assíncrona…

Hoje em tudo diferente…

Hoje em tudo diferente…

Momento inconstante e tudo muda,
O sol que dá lugar à chuva, os olhares,
Os gestos reprimidos, as lágrimas, o sorriso
Do nada, nada muda, tudo diferente, sem gente!
Existirá no mundo maior mentira
Do que o silêncio, as árvores a florirem,
Existirá maior traição
Que o sentir da palavras fora de tempo?
Haverá algo mais verdadeiro
Que escrever silêncios,
Com palavras nos versos?
Onde existir vontade, tudo muda
Tudo é verdade, acaba a mentira!
Ficam apenas o cantos dos pássaros,
Memória da água em ribeiro seco
O desejo do beijo, e um céu encoberto
Como lençóis cobrindo corpos estrelados,
E o silêncio,
O silêncio abafado da respiração ofegante
Nos dedos entrelaçados olhando o tecto!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 62

Vives

Vives

Nos caminhos da memória
Esqueço e lembro,
Pedras que guardo nos bolsos
Balões presos nos punhos,
E uma bola que saltita entre os pés,
Lembro e esqueço,
Quantas vezes querendo esquecer
O nada que ainda lembro
Ou apenas lembrar
O tudo que ainda que esqueço!
No caminho da memória
Faço-te viver
Para que a história da vida
Não me faça esquecer!

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi – 63

Nos passeios da vida

Nos passeios da vida

caminhando nas horas incógnitas,
encontros sucessivos e sem relação,
no passeio em que fui, o mesmo pelo que vim
na noite, no dia à beira ou distante do mar.
ali sob o céu, calcando a terra
e todos os pensamentos, os que fazem os homens
os que procuram, os que encontram
os que sonham mulher…
e todos os outros que têm feito viver os homens,
depois de todas as emoções, de todas as desilusões
de todos os sentimentos e todos os gestos
parar é sem dúvida o acto, o derradeiro acto
pelo qual os homens têm deixado de viver…

Alberto Cuddel
21/09/2020
11:17
Poética da demência assíncrona…

A vida que se enamora…

A vida que se enamora…

Sorte, vida, felicidade, orgulho, simples.

por mais dura que lhe seja a vida,
tem ao menos a felicidade de a não pensar
vive-a simplesmente de forma simples

que por sorte ou orgulho vão
lhe caiba em vida o prazer da paixão
que por terra ou mar, elevemos aos céus
os sonhos e o prazer da realização

olhemos com os olhos mansos
e rosto terno, no rubor envergonhado
o corpo que se deseja, pelo prazer de ser
alma carente sem companhia de gente…
que por amor seja, tudo o que se almeja…

Alberto Cuddel
27/08/2020
10:35

Poética da demência assíncrona…

Último tributo a ti

Último tributo a ti

 

“Nas rosas negras que me repousam na alma

Descobri o amor, o meu, por mim mesmo

Nas lâminas que se escondem no leito

Decidi retalhar o passado, recortar cada dia”

Sírio de Andrade

Retalham-te o corpo na banalidade dessa carência de afecto que te atormentam as noites, um abraço que nunca foi sentido, uma abstinência de beijos, palavras, meras palavras, entre um trago e um bafo, entre um cigarro e uma lágrima, entre um tecto baixo aninhado no negro cadeirão…

Nesse falso amor a ti que proclamavas, nunca o sentiste, retalhavas o corpo vagueando pelo pensamento, nesse abandono supremo do esqueleto, coleccionavas pedaços de nada e esperança, sentias, mas nada mais que isso, sentir, apenas um gargalo bafiento por companhia e um cinzeiro cheio…

Nunca as conversas dos homens banais te entusiasmaram, nunca as palavras de circunstância das mulheres te fizeram vibrar, um inadaptado social, alguém longe do tempo e do mundo…

Percorrias ruas e vielas olhando os beirais, as estrelas, clamando silenciosamente o seu nome, e ela, ela escutava-te, mas nunca deixou a vida dela, pela tua vida simples, sem nada, sem pretensões, sem ambições, apenas sentir, apenas desejo, apenas viver… e viveste a ilusão de uma vida, durante a vida toda…

Alberto Cuddel

20/06/2020

16:06

In: Nova poesia de um poeta velho

(tributo póstumo à vida e obra de Sírio de Andrade)

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