Cúpula do tempo

Cúpula do tempo

É nessa cúpula do tempo
Na dualidade de ser palavra
Que me divido, entre a loira e a morena
Tempo enraivecido pela pasmaceira das horas
Há um verde de esperança que me brota do silencio
E flui a conversa e o trago, entre um cigarro e o outro
Discutimos, discutimos longamente
Como um casal velho…
Eu e tu, maldita caneta que teimosamente não escreves…

(…)
Nesse vento distante que te agita os braços
Um sussurro veraneio, um chamamento
Um pedaço de vida que se agita, um cigarro cortado
Uma palavra fresca, solta assim na mesa
Como uma conversa distante sem nexo, sem sexo, apenas poema
E a vida acontece à mesa, ali à distância dos dedos
Palavra a palavra…
Enquanto se saboreia o tempo
Pleno de companhia…

Alberto Cuddel
11/06/2021
00:30
Alma nova, poema esquecido – II

Desafio de Ruth Collaço, Foto de João Gomez photography

Vento da vida de mim me escorre…

Vento da vida de mim me escorre…

Soprou a vida no alto da colina
A morte corre afoita pelo vale
De que me vale toda adrenalina
Os dias e a pressa que resvale
Se nada se me aproveita, morte
Tempo que de paz nada tem
Tempo construído e pouca sorte
E eu não me encontro em ninguém!
Soprou a vida um pouco de paz
A morte espreita enviesada
Cousas belas que o amor me traz
Vida mal vivida, mal tragada
Gasta no nascimento concedido
O mundo deixa-me quedo
Emprenhando a alma pelo ouvido!
Mas por impulso de vida
Não por cansaço ou medo
Não fico, estou de partida,
E o sol, que me morre no rosto
E o vento que me corre em morte
Há um que de graça no sol-posto
Uma rua suja, a húmida e corte…
Os pés rasgam-se nas solas
As mãos vazias, com fome
Tudo o que nos dão, esmolas
Sociedade hipócrita, consome…
Soprou a vida, e morreu
Assim como nos fez Deus
Não sou dia ou noite, eu
Apenas um sussurro, um adeus…

Alberto Cuddel
04/05/2021
18:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVIII

Poema sem tempo…

Poema sem tempo…

Nos tempos em que me encontro
Perco-me nas rochas esbatidas pela maresia,
-ouço o mar, distante de mim, de ti
Dias infinitos nos grãos de areia sob o andar
Nuvens de algodão transportam sonhos
Sorrisos e juras de jovens risonhos
Silencio do olhar, jovial certeza –(a)mar!
Caminhos, paredes esbatidas, solidão
Horizonte onde correm lágrimas, -Saudade
-tive-te aqui, mas partiste
Há verdade que se escondem nos papéis
Nas folhas soltas que esvoaçam ao vento
Tempos passados e esquecidos na memória
-queimam-se as ideias e sonhos
Corro por ruas estreitas, procurando janelas
Portas, vidas por detrás delas – procuro-te
Jardins onde ontem fui feliz em nós, quis-me
-jura-me, ainda voltas no meu tempo
Certa certeza de que o tempo não se esgota
Que é eterno ainda num novo nascer do sol!

Alberto Cuddel
10 de abril de 2016

Poética IX

Poética IX

corpo-vento na liberdade do sonho
movimento que me acaricia os lábios
transmutação das dunas, recolhimento
sabor espuma das ondas da madrugada
sorte oculta do acasalamento dos sábios
corpo-vento caricia longa e sagrada…

reveste-me a alma de sonhos
papagaio de papel em cordel de prata
percorre-me a alma de vento-corpo
abraça-me na brisa que percorre o ribeiro
faz-te foz em mim e desagua…
fresca e doce, límpida e oxigenada
repleta de vida em ti, toda tu fervilhas…

trilha-me os caminhos, serpenteando as acácias
eleva-me a copa frondosa dos carvalhos
sejamos pinho e sobreiros,
morramos de pé como os abrunheiros
agitemo-nos neste corpo-vento que nos toca
olhemos de frente o prado que baila
sob a brisa de nossos corpos nus…

sou poema e corpo-vento que sonha
vontade e alma-corrente, sejamos naturais
tão naturais como a fome e a sede que nos abraça
um querer absoluto que nos consome na virtude
a liberdade de ser, corpo-vento…

Alberto Cuddel
10/03/2021 10:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIV

Poética III

Poética III

Palavras obrigatórias:
Memória, manhãs, chaminés, partida, vento, rouxinol, plenitude, cantar, velas, quebradas, noite.

Rasgam-se as vozes sem tempo que ecoam na noite
Memória das manhãs claras, vapor das chaminés
Desenhos formados nos olhos pela mente num acoite
Plenitude da imaginação empurrada pelo vento…

Nessa partida do cais rumo ao norte,
velas quebradas… apenas um casco…
E o silvo da vida morre longe, na saudade…

No parapeito da janela,
[ali no momento em que o sol se ergue]
Como que num chamamento de despertar lembrando a casa
Um rouxinol a cantar… canta… canta…

E a vida corre longe… longe de casa, longe das planícies da savana
Longe dos animais, das bestas e dos bestiais…
E acordo aqui, desterrado, entre o rio e a serra.
Perto do céu, mas longe da minha terra…

Alberto Cuddel
01/03/2021 03:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXXVII

Rimas do vento que sopra…

Rimas do vento que sopra…

há esse vento que sopra e o gemido da erguida
há os passos lentos e a dor da despedida
esse ter que ir sem vontade alguma, um dever
essa vontade de férrea de nada mexer e o doer!…

e as dores da alma que calo em silêncio porque não se sentem nos ossos
e as outras que penso e faço por não sentir
e as da ignorância dos homens e as conspirações
constipações de um ego com palas nos olhos…
há dores, mas o vento tudo varre
e olhamos o sol, e o que foi deixa de ser
e não vale a pena sofrer…

ando devagar, por que já tive pressa
mas hoje andar a cada passo uma surpresa
e esta dor ferrada que me corrói o corpo…

há lixo escrito no chão, mas não me vergo
que o leve o vento que eu não o posso varrer
e voam as folhas das árvores, e folhas de jornal
noticias de ontem, mas hoje, tudo continua mal…

e cobres-te do frio com papeis emprestados
mas na alma ainda carregas teu fado
e o vento descobre-te as lágrimas
que choras e escondes sempre calado!…

nas rimas que o vento sopra
há vida, há poesia escondida
por entre o silêncio e a monotonia…

Alberto Cuddel
29/11/2020
01:50
Poética da demência assíncrona…

A branda incerteza do vento

A branda incerteza do vento

a brisa incerta da tarde que me leva
por entre concretos pensamentos
envoltos em silêncio
roça levemente a incompreensão.

sei só que o tédio que sofro
essa imobilidade trazida pela inveja
como uma veste que roça numa chaga
que nos mói o por do sol,
na eternização do momento em que a luz se esvai…

dessa escuridão nasce a fé
que o vento é
matéria que nos coze os sonhos…

Alberto Cuddel
31/03/2020
17:58
In: Nova poesia de um poeta velho

Deixemos de ceifar searas de vento

Deixemos de ceifar searas de vento

é tão suave a brisa que me corre na alma
terrenas angustias que adulteramos
tenhamos pena de nós,
próprio seja o amor que professamos

insinua-se o medo no oiro maduro
há joio por trigo e sementes no caminho
há pródigos que não partem
pães que nunca se multiplicaram
há fomes de saber por saciar…

há searas de vento que se agitam
canas que se vergam de maduras
amedronta-me o teu seio cansado
enquanto a flauta sorrindo chora
palidamente, o atalhado movimento
da foice…

Alberto Cuddel

Poema do dia 24/07/2018

Poema do dia 24/07/2018

Esquartejei a dor de ser hora
Leitos despidos de corpos dormentes
Trespassa o céu a gaivota em liberdade
Lares desfeitos em areias da noite…

Escarneces do amor aberto no peito
Entre o calor de um acordar
Gélido adormecer na solidão do ser,
As pedras continuam frias
Os passos contados em sentido contrário…

Morrerei como todos morrem quando se vive
De sorriso nos lábios e a pedido
– Nunca pedi para nascer,
mas para morrer isso sim é liberdade!

Rasgam-se o alto das velas
Mastros amarelos e alvas telas…

O vento sopra de leste, a oeste deserto de vida
Onde te mora o desejo, esse que foi de partida…

No tempo que findou, não houve paixão
O Verão, quente, nunca a mim chegou…

Alberto Cuddel
24/07/2018
14:11

Poema do dia 29/04/2018

Poema do dia 29/04/2018

Todas as minhas horas são feitas de vento
De portas que batem e janelas que se abrem
Fecham-se rimas, para que liberte o pensamento
Voando solto por divãs brancos onde divago e divirjo…

Divirjo das árvores que morrem de pé
Das andorinhas que fogem à primeira chuva
Percorro o caminho maldito mesmo na tempestade
Ainda que me aninhe no teu decote na bonança…

Há um tédio nas perguntas que fito
Nas respostas que não digo de tão conhecidas
Cruzam-se as mãos geladas sobe o peito
Coração empedrado e morto de ser amado…

Há tão poucos dispostos amar o que não viram
Não há imaginação para sonhar a beleza
Usam violentamente as mãos causando dor
Onde só deveria haver prazer… forçam amor
Esse que nunca souberam ter… ou fazer…

Nos momentos de meditação sobre mim,
O que me inquietou, perturbando as noites
Não tive nunca a certeza, nem a tenho ainda,
De que essa disposição do temperamento
Não pudesse um dia descer-me ao corpo
Levado pela vontade de sonhar a realidade
Canto de outras paragens, belas e voluntariosas
Deusas Gregas. Romanas, Amazonas…

Abrem-se e fecham-se sonhos, realidade inventadas
Paixões do nada, marés que sobem e descem
Lua cheia, ciclo feminino perfeito, fértil
Como férteis são os campos arados
Palavras do poeta que apaixonam descuidos…

Não hesito em sonhar o impossível
Banhar-me de sol na meia-noite
Ler livros que nunca foram editados
Fazer amor em ilhas desertas…
Não abdico da loucura da existência
Da consciência lúdica e mirabolante
De ser poeta, de ser poesia, viva
Vivendo ela em mim, como posso
Eu conscientemente morrer?

Alberto Cuddel
29/04/2018
02:02

Poema do dia 04/03/2018

Poema do dia 04/03/2018



De barlavento

De tudo a favor

Sopra o casamento

Vive por amor…



Encimados sejam os espinhos

Por rubras pétalas do desejo

Entre perfumes de doce beijo

Onde falharam os adivinhos…



Vales da confiança conquistada

Na alma livre nunca amarrada

Sopram brisa nos cabelos soltos

Nunca a inveja de outros revoltos…



Mãos que se procuram no enlace

Que se encontram sem tempo

Todo um passado que nunca passe

Sonhos, futuro em contratempo…



Abracemos os corpos e as almas

Não na volúpia do apenas querer

Apenas no desejo de se pertencer

Segredos de uns outros dogmas!..



Alberto Cuddel

04/03/2018

10:00

A poesia é vento

A poesia é vento

A poesia e vento da emoção que sopra
Por entre arvoredos de sentimentos
Vento que me veste de folhas, que me despe
Vento que sopra que leva e traz na brisa
Que se encontra, que se perde nas areias…

A poesia vive do movimento, o vento da alma
Do sentir, do amor, da vida, da alegria
Da tristeza, da saudade, da dor, da verdade
Sopram ventos na colina, na clareira da noite…

Nos sons da folhagem encontro-me no vento
Esse que me limpa a alma, nesse que viajo…
Onde se agitam as arvores e as ervas,
Onde me deixo levar nas letras que deixa…

No vento escuto… a poesia que me traz de longe…

Alberto Cuddel
21/01/2018
20:02
#Solutampoetica
http://www.facebook.com/AlbertoCuddel

Poema XII

Poema XII

Seguem as noites desamparadas

Brancas vestidas de nadas

Distantes entre o céu e a terra

Neste inferno de mar, barca, barca

Leva-me, vem-me passar…

Abrem-se as portas ao vento

Poltronas esquecidas vazias

Salas despidas de gente sã

Frases vazias, soltas, diferentes

Onde moras saudade?

Pesa-me o céu como porto de abrigo

Cavalo alado, triste meu fado

Olhar que pragueja sem sentido

No vale, no rio, sem abrigo

Fé perdida fora, crença no pó

Eternos portões de Pedro, triste só…

Onde habitas corpo meu

Carente necessitado do teu?

Palácio em ruínas, onde morrem os sonhos

 – Nas vozes distantes, perco-me…

Algum dia me votarei a encontrar?

Alberto Cuddel

23/09/2017

23:36

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: