Que ninguém me diga mereces melhor…

Que ninguém me diga mereces melhor…

Que ninguém me diga nada, nem antes nem depois
Nesta água imunda que não me lava a alma
Arranco do corpo a pele, essa conspurcada por homem
Violada, dilacerada, por obrigação consumada, esposa escrava

Que amor doente é esse na posse de gente
Eu que de pernas abertas ao mundo
Amarradas as bordas da cama, te recebi
A ti esposo porco e doente, para satisfação
As carnes? Que carnes? Apenas dor e podridão…

Antes, antes não sabia, apenas castigo e merecia
Mas agora, agora sim doentes estava eu, sou…
Dependente de um “amor” de um gesto e de um tesão
Quem me queria? Quem me havia de querer, morta e ferida
Por que eu, eu morria, estava morta e vivia…

Hoje, hoje basta, basta, basta…
Fugi, e levantei, ergui a cabeça e matei
Matei-te a ti em mim, hoje vivo, com dor,
Com mágoa, mas amo-me por fim…

#poeticamortem
@Suicídio poético
03-12-2019
04:49

Culpada

Culpada

Há na culpa que carrego uma doença
– Levei e eu mereço

Não foi a escrava que desejavas
– Respondia e maltratavas

Não foi a empregada que almejavas
– Não fazia e tu berravas

Culpada, por não ser a amante perfeita
Por não ser a esposa perfeita
Pelas derrotas do teu club
Pela falta de dinheiro
Pelo comportamento da sogra
Pelos choro do filho…
Culpara e saco de pancada
Culpara sem ter para onde fugir
Por ter medo de partir culpada
Por achares que o chegar era trair…

Culpada…

#poeticamortem
@Suicídio poético
13/09/2019

Raiva contida de um amor invertido

Raiva contida de um amor invertido

tantos nobres ideais caídos entre o estrume,
desse fertilizante mórbido que chamas de “amor”
ego embriagado de macho, derrotas da virilidade
febre que te nasce nas mãos por não se erguer…

há no amor invertido sentido do sonho
nesse que um dia desejei e hoje amaldiçoo
quebrassem-me as pernas a caminho do inferno
apenas bendigo o amor que me nasceu do ventre…
esse que hoje comigo carrego
trazendo no rosto a herança e a dor da memória!

dói-me a alma, por me ter deixado aprisionar na teia
dói-me a alma além do corpo, destas mazelas que carrego
hoje? hoje livre dói-me ter medo de amar,
por ter conhecido o amor invertido, doente
de quem um dia julguei poder ter sido amada…

#poeticamortem
@Suicídio poético
23/10/2019

A morte dormia ao meu lado e eu amava-o…

A morte dormia ao meu lado e eu amava-o…

Dormia ao meu lado na cama a dor e a arma…
Esse ciúme violento de quem doente me espera
Eu, sonhava e era violada….
Doía-me a alma, presa ao destino, doente, eu amava
Todos me diziam, deixa, parte, vai, vive, foge…
Mas a morte dormia ao meu lado e eu, eu amava-o…

Depois, depois olhei-me no espelho e não me conheci
Depois olhei-me no espelho e vi…
Eu, eu não me amava, não amava os filhos espancados
Os pratos vazios e barrigas de fome…
E decidi dentro de mim matar a morte e fugir…
A morte já não dorme ao mau lado, e eu, AMO-ME…
Nessa mão estendida que agora me apoia
Quando eu o soube pedir…

#poeticamortem
@Suicídio poético
18/10/2019

Acreditei ser nada quando ainda estava viva…

Acreditei ser nada quando ainda estava viva…

Doía-me a alma bem mais que o corpo…

Culpada, culpada, culpada
Em tudo tinha culpa
Em nada acertava…
Eu? Eu não me amava…

Nulo eras, e a mim me culpavas
E eu ingénua acreditava
Culpados eram os filhos
A sogra, os amigos-amantes inventados
E tu? Nulo, nem homem eras…

Descobri-me doente,
Amar não era sentir
Amar era uma dependência doentia
E amei-me, assim do nada
Olhando a morte de frente
Amei-me a mim, e os filhos gerados
Ganhei coragem onde existia cobardia
Pior que nada, alguma coisa é melhor
Que o nada que me dás, nas marca deixadas na alma
Nos vergões da vergonha cravados no corpo…
Amei-me onde já nada havia a amar…
Parti e acordei viva…
Ainda me persegues
Mas eu, eu já não tenho medo…
Porque entre o nada e isto,
Apenas existo…

#poeticamortem
@Suicídio poético
24/07/2019

Sentir violentado…

Sentir violentado…

Nunca foi amor isto que sentia
Dava e nunca recebia…
(talvez doença, talvez ilusão)
Violentaste-me o corpo… o sentir
Numa violência sem medida
E eu? Eu, temerosamente anuía…

… – Não me amava, nunca me tinha amado…
Olhava o espelho castigado
Num reflexo que não suportava,
Todas as pancadas eram merecidas
Apenas desejava a morte,
Entregue minha sina e sorte…

Descobri que me amava,
Quando a vida se fez em mim,
Quando me olhei sem reflexo

Descobri-me, pisada, maltratada
Partida, dilacerada, violentada…

Basta… Basta… Basta…
Eu sou, existo, e desisti de sofrer…
Amo-me, não mais te suporto,
Quero aprender a viver…

#poeticamortem

Nunca fique em silêncio… denuncie…

Não és “Homem”

Não és “Homem”

Não é o peso das mãos
Tao pouco o números de copos
Que fazem de ti “Homem”…
Não são as tuas certezas
Tão pouco a tua insensibilidade
Que fazem de ti “Homem”…
Nunca foste superior
Nunca o serás
Não te vestes
Não te alimentas
Não te limpas…
Necessitas…
Nunca necessitei…
Eu amei
E tu meramente
Necessitavas…
Eu dei
Tu apenas podias receber…
O que deste de ti?
Apenas o meu sofrer
E marcas que não consigo esquecer…

#poeticamortem

Bem me querer, mal me querer

Bem me querer, mal me querer

Bem me querer, mal me querer
Rasgo folhas de papel sujo
De uma história mal escrita!

Os gritos da mãe no quarto ao lado
Os estalos do cabedal no ar
Os grunhidos de prazer do porco!

Bem me querer, mal me querer
Rasgo folhas de papel sujo
De uma história mal escrita!

Mas mãe porquê? Fugimos?
Não é teu pai, e amo-o

Bem me querer, mal me querer
Rasgo folhas de papel sujo
De uma história ainda repetida…

Mas mãe não aguento mais…
Filha, a minha aguentou, eu não…
Fugimos…

Bem me querer, mal me querer
Rasgo folhas de papel novo
De uma história a ser escrita…

#poeticamortem

Arranquei a ferros o querer

Arranquei a ferros o querer

Arranquei a ferros o querer
Esse que mataste nas palavras
Nos gestos, na queda da mão
Mataste-me aos poucos
Tantas vezes desejei morrer
Afogada numa culpa infligida
Gravada no meu íntimo…

“mereces, a culpa é tua”
Mas nunca foi, era apenas tua
E tu? Mataste-te aos poucos em mim
Quando me morreste no peito?
Gritei, descobri que a culpa
Era meramente tua,
Tu, que nunca me soubeste amar…

Tu, apenas te ajudaste a morrer em mim…

#poeticamortem

Marés

Marés

Rasgam as ondas a carne das pedras
Cristais finos deambulando no leito
Sobem e descem, levitam e depositam-se
Segregam-se, aglutinam-se, fundem-se…

Vão e vem…

Movimento perpétuo de transformação
São sem ser novos, são velhos…
Pedras, nadas, letras, palavras, versos…

Na mão

Cortam, moem, destroem, constroem
Formam, disformam, lixam, alisam
Pulem, dão vida, significado…

Depois

Depois, tudo, nada
A eternidade
A duração de um olhar…
#poeticamortem

Chamas negras

Chamas negras

Ardem os céus e o tecto
Deuses dormem na natividade
Germina vida do ventre
Pérfida crença no homem
Onde moram os pecados
Justiça saloia do povo
Vestes negras o abençoam
Punhais vocalizados o saúdam…
A morte chegou ao mundo
Pela voz doce dos poetas!

#poeticamortem

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