Veste-me de loucura…

Veste-me de loucura…

corta-me a lucidez e o discernimento e veste-me de loucura
trespassa-me a alma com açucenas, rasga-me de paixão…

cega-me com o movimento amplo das ancas em pleno voo
lambe-me longamente o ego com tulipas negras
calça-me os pés de troncos secos, e arrasta-me pelas areias…

há este fogo de céu, estas marés de sargaço que me abraçam
na loucura com que me vestes como nesse excesso de velocidade
de não cumprir as regras do código da estrada e voar…

veste-me da loucura de te odiar no amor que me inunda…

e depois de tudo, rasgas-me as vestes e afogas-me no ar da tua boca
expiras e inspiras gemendo longamente a dor que se crava pela saudade…

mas dói-me essa loucura com me vestes…
perdido que estou na indefinição do que sou…
há um orgasmo contido nessa metáfora chamada poesia…
e a loucura é apenas o reflexo de me pensar existir em ti…
enquanto tu és meramente sonho…

Alberto Cuddel
17/01/2021 23:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIII

Promessas e desejos…

Desafiado por Ruth Collaço a escrever sobre uma imagem

Promessas e desejos…

há nas chaves dos desejos uma promessa de sonho
esse querer acordar noutro tempo e noutro lugar…

há um caminho de realidade a percorrer
não sonhar, não criticar, não idealizar…
mas um caminho de ficar, de esperar,
um caminho a cumprir, a prevenir…

de que me valem os sonhos se o amanhã não existir
de que me valem os desejos de beijos se não houver a quem beijar…

não basta criticar… mas sim também fechar a porta…

Alberto Cuddel
19/01/2021 18:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIV

Com a gentil autorização de:
https://www.facebook.com/joaogomezphotography

Aborrecimento!

Aborrecimento!

Passo adiante, apressado e constante,
Que aborrecimento, ver-te assim caído,
E sonho distraído, vago e ausente,
Diferente, indiferente a tanta gente!

Corra o mundo,- grite o mundo insanidade,
Que aborrecimento, que suja esta a cidade,
E esse vestido preto, onde me fazes sonhar,
Dispo-te o pensamento, na alça descaída,
Que me importa, não deixo perder-te no olhar,
Saio, não saio, fico, sonho e passo a saída!
Que aborrecimento, que faço eu da vida?

E chove, algures no mundo,
Aqui e agora pouco importa,
Sei-me indiferente, ao sol,
À chuva, ou a uma qualquer porta!

Que aborrecimento,
Tudo por um preto vestido,
Que quis em teu corpo despido!

Alberto Cuddel

No tempo em que semeei vogais…

No tempo em que semeei vogais…

ontem não calei a boca do mundo
rasguei os céus
rasguei a terra
semeei-a com os meus sonhos
com meus pensamentos
espremi as nuvens e os ventos
eles gritaram impropérios,
lírios, e frutas maduras
entusiasmo e delírios
medos e gemidos de dor
respirações arfadas de prazer
ontem não calei a boca do mundo
somente a minha
esperei os silêncios gritantes da germinação…

e nasceram os versos…

Alberto Cuddel
29/10/2020
23:10
Poética da demência assíncrona…

Na profundidade da alma

Na profundidade da alma

desci à profundidade obscura da minha alma
procurava em mim o silêncio do mundo
aquele pedacinho de nada que me permite pensar

  • as ideias não se calavam discutindo ferozmente
    entre o coração e a mente, quem teria razão?
  • e eu? que importância tinha em mim?

para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo,

  • nada faço. nem a mim mesmo ouso dizer:
    quem seria se fizesse?
    tudo isto deixa-me exausto,
    nesta loucura de pensar a consequência da palavra escrita

não falemos mais.
as coisas que se amam, os sentimentos que se sentem guardam-se com a chave d’aquilo que amamos
o «pudor» é a arte de se fazer cofre no coração.
a eloquência profana-os quando os pensamos
porque sentir é não pensar,
e sentir é agir sem o medo das consequências

não há excitações ou meditações
na profundidade da alma tudo se revela

  • cristalino sem as sombras
    projecções da luz da consciência, da razão…

na obscuridade silenciosa da alma
somos essencialmente sentir
sem os julgamentos humanos das “LEIS divinas”
e lá construímos impérios e castelos
lá somos apenas nós, maleficamente egoístas…

Alberto Cuddel
25/10/2020
17:50
Poética da demência assíncrona…

Nunca pedirei permissão para voar…

Nunca pedirei permissão para voar…

nunca pedirei permissão para voar
para cruzar os céus dos sonhos em tons laranja
que jamais permita a minha alma perder as asas
que nos pesadelos da noite sejam de fogo
na virtude consciente do querer suicida que me abastece
nas folhas cor de cobre que me cobrem o chão que piso
ou nas folhas frágeis que despontam com o orvalho
nunca pedirei permissão para voar…

ergo-me diante do horizonte de medo
há nos céus esperança…,
essa que vos morre nos bolsos vazios
enquanto tristes caminhais de olhos no chão
na mudança que se espera, há esperança
mas essa mudança nasce em vós,
quando erguerdes o olhar para o amanhã…
sonhai, sem medos de voar, não espereis
não espereis permissão para voar…

largai as máscaras que vos ocultam o rosto
enfrentai os medos, vesti as asas do sonho e voai…

há no pairar sobre as águas uma vontade
ide e pescai vontades, esperança…

nunca pedirei permissão para voar…
simplesmente vou, até poder pousar
onde o sonho e o futuro me levar…

Alberto Cuddel
21/10/2020
18:56
Poética da demência assíncrona…

Sonho

Sonho

Podem as asas caírem
O voo circular terminar
O movimento quedar
Não resigno à mortalidade do corpo!

Trémulas mãos seguram-me a alma
A vida esvai-se nos círculos da morte
No mundo resido, doce perfume exala
Do ser que te sonhou a triste sorte.

Embala-me a alma em nuvens de algodão
Descendes de mim mar da realidade
Ascende em ti a doce e fulgosa paixão
Aplaca no teu corpo a dor da saudade!

Alberto Cuddel®
29/08/2016
In: Palavras que circulam – II

Quantos dias tem, sem anos?

Quantos dias tem, sem anos?

e as noites em que adormecemos sob o céu do norte
rasgam-se os véus da neblina
serras trespassadas pelos vales
e esse tempo tão nosso chamado saudade…

quantos dias, terão sem anos
esse tempo sem memória
guerras em tempos de paz
lutas corpo a corpo
florestas despidas de verde
corpos nus cinzentos e negros
segregados de uma sociedade una e indefinida…

toda opinião é uma tese,
e o mundo, à falta de verdades,
está cheio de opiniões,
e o tempo não importa
apenas as inverdades do ego…
e convenço-me que “comi”,
sendo que apenas adormeci
“ era tão bom, não foi?”
nem sempre se conciliam as duas.
nem sempre assim era na realização
umas certezas, outras desejo
outras ainda imaginação de macho
e fazem-se teorias de esquina
e sempre assim deveria ser….

quantos dias tem, sem anos?
filosofias, teorias de ti…
e dizem e falam,
cochicham baixinho
não era aquele que foi
sem nunca o ter sido
jura ser verdade?

e adormecem sob o luar prata dos céus do sul
antes que amanheça em nós a verdade…
as palavras assassinam a alma, sem tempo para verdade…

Alberto Cuddel
21/08/2020
19:30
Poética da demência assíncrona…

Sonhas?

Sonhas?

…será que sonhas, ter posse absoluta de meu corpo?
Nas loucas noites de abstinência de mim,
Será que me sonhas na loucura do teu leito
Nos movimentos frenéticos das palavras
Aquelas que se enrolam e desenrolam na língua
Que mapeia longamente o sabor da tua pele?
Será que me sonhas, os movimentos das mãos
Percorrendo demoradamente toda a tua alma
A tua doce essência, a tua ávida pele?
Será que me sonhas os lábios?
E a declamação perfeita do teu prazer,
Será que me sonhas
Preso entre as tuas longas pernas
Num abraço perfeito
Nos movimentos circular dos astros?
Será que me sonhas orgasmicamente
Num gemido
Que ecoa nas paredes despidas do quarto?
Será que me sonhas?
Ou simplesmente dormes como um anjo
Nas noites de solidão?

Alberto Cuddel

No abraço que nos ampara

No abraço que nos ampara

dorme sobre o meu abraço
sonhando um novo sonhar
no meu leito do cansaço,
novo dia iremos alcançar!

pudessem todas as noites ser a novidade da vida,
serem o descanso e cansaço que se nos prometia,
ser o leito o porto de chegada, o dia ponto de partida,
pudesse a alma revigorar-se, abstinência que já sentia…

ó alma doce que me ampara
nesse olhar de mel que me conforta
sejam as estrelas testemunhas
e a lua confidente,
seremos seres, seremos gente?
leito despido das noites
vazio dos dias que adormecem…
sem esse abraço que nos ampara…

Alberto Cuddel
28/02/2020
17:30
In: Nova poesia de um poeta velho

Sonho dos indecisos

Sonho dos indecisos

se eu conseguisse ver
o que de mim serei um dia
que tua voz fosse magia
que me guiasse às leis eternas
que matasse em mim o sofrimento da noite eterna
sonho mares na alvorada, e ventos elísios
no voo bailado das velas erguidas
e toda a ave chora
o ninho que, uma vez, abandonou…
porquê? se às leis eternas obedece…
porque é triste uma fonte que secou?
e o sol quando anoitece?
neste sonho dos indecisos
rasgam-se as vestes da ilusão
a morte já não assiste as palavras
e a dor é uma mera ilusão do sofrimento
a vida prosseguirá, porque assim é
porque assim será,
o filho que diante da mãe se despede
por um sonho nunca idealizado…

Alberto Cuddel
09/02/2020
08:45
In: Nova poesia de um poeta velho

Arte ou a ilusão de sonhar

Arte ou a ilusão de sonhar

o que não temos, ou não ousamos,
ou não conseguimos,
podemos possuí-lo em sonho,
é com esse sonho que fazemos arte.

nessa brancura da alma, ousamos o caminho
alheados dos espinhos que a realidade nos crava
prosseguimos descalços sem medo dos pregos
viver dói… e há-de doer e moer a alma
profanando o desejo e a vontade de ser
deixamos de agir pelo medo de perder?

continuamos a pintar arco-íris em dias de sol
regatos vivos em pleno verão
sem peixes secos pelo sol, colhemos maças…

o sonho é a arte de idealizar a impossibilidade
até que da arte se faz possível, e a realidade acontece…
assim, naturalmente, como se do nada
em pleno março, sem folhas, florissem as amendoeiras…

Alberto Cuddel
05/02/2020
06:00
In: Nova poesia de um poeta velho

Sonho Alado

Sonho Alado

Sonho acordado,
Na dormência do sono,
Anjo de onde me despertas,
Na pura negra sedução,
Que me levas no pecado,
Má sorte a minha,
Contigo ter sonhado,
No tempo que passo,
Sonhando acordado,
Leva-me,
Possui-me em ti,
Faz-me, poeta,
Na dedução do encanto,
Em teu corpo ser encontrado!

Sírio de Andrade

Sonho de amor

Sonho de amor

Pela mão conduzes-me ao sonho
Encontro em ti a direcção, descubro
Salta-me do peito o coração, encubro
O calor do rosto ao tocar-te, escondo!

Doce eterna aprendizagem, sob a lua
Enquanto o sol se esconde, mão na tua
Eleva-me no amor doce e terna juventude
Faz-me crer, Amor é em ti toda a virtude!

Beija-me escondido, sob o sal do mar
Caminha, junta os teus sonhos aos meus
Mudemos o mundo basta em nós acreditar!

Somos, assim o cremos namorados eternos
Não mais serão dias, serão os meus e os teus,
Sonho com o amor, carinhos doces e ternos!

Alberto Cuddel®

12/09/2018

Nesta poética do sonho…

Nesta poética do sonho…

Nas noites em que há meia-noite, procuro encontrar a solidão no universo inteiro, nos sonhos em que me habitas, memória dos dias e das tardes, encontro o silêncio nas palavras sobrepostas, quebrados pelo eco da tua imagem e pelo calor do teu corpo.
Desperto da sonolência das horas, preso nas grades do tempo, onde moram as estrelas, pólens literários esvoaçam na mesinha de cabeceira, de uma literatura avulsa remetida pelo correio… ainda assim o cotidiano inquieta-me, nesta visão de uma realidade cinzenta, envolta em nevoeiros rosa!

Tudo dorme,
Viajo pelo sonho das metáforas
De uma mão calejada na alma
Que me massaja o ego, eleva
Que se faz luz no sentir de alguém
Que distante canta fados tristes,
Numa solidão inconformada,
Onde ainda me deseja a cada dia,
Pelos aniversários de vida!

Na solidão que a meia-noite me dá, sou eu, sendo outro, escrevo, versos que a noite me dita, de um mundo exterior a mim, onde pertenço, onde sempre pertenci, e sonho como nunca havia sonhado, com esses dias de mão dada, onde as rosa não morrem e os jardins conseguem florir pintados de branco, mesmo que na noite o frio seja um mero motivo para o abraço!

Acima de tudo, adormeço, e sonho, como se nunca tivesse acordado, desta realidade que é hoje, a vida que me dou…

Alberto Cuddel
13/11/2018
Marvila, Portugal

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