Desse purgatório fazemos o nosso paraíso

Desse purgatório fazemos o nosso paraíso

mil vezes morri, prostrado…
mil vezes ressuscitei
por uma dor mais vibrante
uma ausência confirmada
imposta contraria vontade
e um prazer mais torturado.

enquanto os olhos se esbugalham
numa imagem distorcida na memória
as doces curvas do teu corpo se contorcem
todo eu aqueço na longínqua distância
o nosso olhar pousado no horizonte
no desespero desse abraço mudo,
confessam-se diante de tudo
e por nada é o perdão concedido…

espelha-se no azul mar preso no teu olhar,
nas ondulações errantes do amor iluminado,
nudez do teu pensamento, sentir sagrado,
rubescidas em vagas de mar atrevido, amar!

tinjo de amor palavras,
que hoje desenho nos gestos
impregnando de doce perfume,
rosas que te nascem das mãos,
arrufos gravados nas areias do tempo,
lavados pelas marés, tolerante amor!

e depois, quando as noites nos chegam
brincamos com as sombras dos nossos corpos
iluminados pelos pirilampos do desejo…
tudo por nada, tudo se inicia no beijo…
diante do purgatório dos dias
reinventamos o paraíso, ali diante de nós…

Alberto Cuddel
19/06/2021
20:00
Alma nova, poema esquecido – VI

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos, como se tivéssemos acabado de gritar todas as palavras para o papel, como que um despejar da alma… Depois vazios, calamo-nos…  

Olho aquela imagem reflectida no espelho, vazia… Desconheço-me… Não estou ali, estou nas palavras, na alma das vírgulas, nas pausas, nos silêncios…  

Perguntei-me de seguida, pelo resto das vogais que me sobram, onde nasceram as consoantes, que segredo o nosso de vivência sem contacto, onde nos sobra a tempo sábio e o outro sábio tempo onde obramos o pão dos dias? Que saudade tempo renova e matiza o querer diante do sofrimento que te imponho nas palavras segredo que lês? 

E gasto o restante silêncio cheio, em pensamentos vãos, sem um perdão, neste vazio que me enche…  

Mais que tudo deserdei-me do teu peito… Mas não chores, não acordes os passarinhos, não entristeças as flores, deixa que o sol te aqueça e abraça o dia… Quem sabe um dia, depois da madrugada, eu me volte a encher de palavras, eu me volte abrir, para te abraçar na plenitude do perdão que se faz com as mãos…  

Alberto Cuddel 
13/05/2021 
18:27 
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXII

Silêncio

Silêncio

Cai em mim o silêncio das estrelas
a noite escorre pelas paredes do quarto
ouço-me, no profundo e vazio silêncio
correm longe as palavras

nos teus lábio cerrados –
ouço o gemido das pedras
ouço-me, contorcendo-me
grito alvoraçado da alma
um desarticulado sentido
articulando vogais desordenadas

ouço-me calado,
gemendo o silêncio
espremido a cada silaba
desfragmentação do ser
abandono da posse
nada tenho
a não ser
a certeza
que no silêncio
de mim próprio
me possuo!


Alberto Cuddel

26/05/2016

Silêncio

Silêncio
Meu silêncio…
Inexplicável…
Uma tristeza profunda assola meu peito…
Solidão…
Pensamentos tristes, que desvanecem…
Como nuvens no ar…
De alguém que chora e jura…
Já mais tornar Amar!

Que tortura é esta que arde no meu peito com tal fulgor?
Como fui eu capaz de partilhar contigo meus credos…
Contar-te minhas alegrias…
Minhas tristezas…
Meus medos?!…
Tristeza nas grades da ilusão,
Onde meus pensamentos ponho…
E nesta prisão, vai morando meu sonho…*
São fortes e densas as amarras das quais não me consigo salvar…
Vida….
Amor?…
Porque me agarras?

Por favor vem salvar-me…
Mostra-me um horizonte lindo…
Onde eu possa viver…
Deixa-me mostrar tudo o que sinto…
Deixa-me de novo nascer…
Crescer, acreditar e Viver…
Deixa-me Amar-te.

Alberto Cuddel
Setembro de 1998

Introspecção

Introspecção

Já gritei poemas surdos no silêncio,
Sem rimas, sem métricas,
Sem metáforas, figuras de estilo,
Sem beleza, sem tristeza,
Apenas e só, um mudo grito
De uma revolta e uma incontinência
Das lágrimas salgadas
Que gritavam no meu olhar

Alberto Cuddel
21/05/2017
11:37

Em cada pétala, um desejo…

Em cada pétala, um desejo…

morre no beijo o desfolhar de um malmequer
pela sombra primaveril de um outro
rio vazio de ondas em caminhos descalços
e dessa lonjura que de perto se fez, rimos
rimos da arte gravada a ferros em madeira oca…

rasgam-se ecos em musgo verde
murmuram as cigarras canto triste
vida que nunca chegou
um silêncio cinzento em céu limpo
há convidados de outono que ninguém escuta

voam pétalas escritas na saudade
sob a vulgaridade do sonho
ausência de corpo
eco de voz distante, rasgos de luz
esperança esvoaçante, de uma coabitação eterna…

sejam polidos os beijos
novena orada na exaustão do desejo
pétala a pétala, até ao fim dos teus dias…

Alberto Cuddel

Poema V

Poema V

De mãos descalças e pés nus
Sopra o vento varrendo certezas!

Crescem troncos nus espinhosos
Há calças largas sem cinto
– Percorre-me uma fome na alma
Estou cheio, repleto de dúvidas
Tenho procurado respostas onde encontro mais perguntas…

Ardem estepes ausentes e vidas que choram ausências
Neste humano amor (quem me ama, se nem mesmo eu?)

Nesta colina, que sobe, nada é certo
Cravas na parede os medos aparafusados e presos
Enjaulados gemidos presos em gargantas que se libertam…

As palmeiras morrem de pé, eu vivo entre um pé e o outro
Sem a certeza de que morri, no intervalo deste monólogo

Deixai-me, deixai-me
Deixai-me
Concedei-me um pouco do vosso silêncio
Para que eu grite…

Alberto Cuddel
25/02/2019
19:14

Que jamais cale o que em mim calei

Que jamais cale o que em mim calei

Neste silêncio dormente que gritei
Nesta dor arrancada do peito pelas costelas
Neste coração arrancado que me bate na mão
Toda a dor, de não dizer “não”…

Já não sei sem sou, o que de mim brota
Nesta cinza atmosfera que me envolve
Nasço e renasço a cada dia, para morrer depois
Morri e ninguém me contou.

Os poemas são meros punhais cravados no tempo
Nesse tempo em que morro a cada silaba
A voz trémula afónica nada diz, árvores de sombra
Luares encobertos, braços que não abraçam
Lábios secos e gretados de fel que não beijam
Línguas afiadas como punhais…

Corri pelos teus braços
Fugi pelo medo da felicidade
Neles morri nessa saudade
Tudo que era para ser
Que nunca foi…

Alberto Cuddel
25/10/2017
Sob Reserva Privada

Silêncio

Silêncio

Silenciarei as minhas palavras
Por mais nada ter a escrever
Por mais nada ter a dizer
Por se ter esgotado em mim
A vontade de partilhar
Palavras ocas arremessadas
Expostas assim aos olhares
Ao escrutínio de milhares
Por um tudo ou nada de mim
Cansado calo-me…

Alberto Cuddel

Silêncio

Silêncio

Meu silêncio…
Inexplicável…
Uma tristeza profunda assola meu peito…
Solidão…
Pensamentos tristes, que desvanecem…
Como nuvens no ar…
De alguém que chora e jura…
Já mais tornar Amar!

Que tortura esta, que arde no meu peito com tal fulgor?
Como fui eu capaz de partilhar contigo meus credos…
Contar-te minhas alegrias…
Minhas tristezas…
Meus medos?!…
Tristeza nas grades da ilusão,
Onde meus pensamentos ponho…
E nesta prisão, vai morando meu sonho…
São fortes e densas as amarras das quais não me consigo salvar…
Vida….
Amor?…
Porque me agarras?

Por favor vem salvar-me…
Mostra-me um horizonte lindo…
Onde eu possa viver…
Deixa-me mostrar tudo o que sinto…
Deixa-me de novo nascer…
Crescer, acreditar e Viver…
Deixa-me Amar-te.

Alberto Cuddel

1993

Poema do dia 18/08/2018

Poema do dia 18/08/2018

Procurava silêncios numa sala vazia,
Apenas uma cadeira, uma porta, uma janela fechada,
E esse grito pensante do meu cérebro…
Apenas queria silêncio… e não havia…

Procurei silêncios entre a maresia,
Procurei silêncios nos teus abraços,
Procurei silêncios até onde não podia,
Procurei-me adormecido nos teus braços!

Cavalguei a noite, num Pégaso de luar
No silêncio dos cascos, o som da rua
Vinho, putas e má vida… O apito
Esse repetitivo do camião do lixo…
Do silencio nem sinal, não havia…

Procurei silencio no cima da serra
Grilos, cigarras, mochos e cadela
Que barulho fazia ela…
Adormeci…
Nos sonhos gritei pelo som…
Silenciosamente ninguém me escutava…
Eu dormia, ela apenas me estudava…

Procurava silêncios numa sala vazia,
Apenas uma cadeira, uma porta, uma janela fechada,
E esse grito pensante do meu cérebro…
Apenas queria silêncio… e não havia…
E o meu pensamento tão vazio de nada
Nem a dormir ele se calava…

Alberto Cuddel
18/08/2018

Poema do dia 19/04/2018

Poema do dia 19/04/2018

E calo gritando na oposição concreta de que não quero
E grito calando-me nas opiniões contrárias à guerra…

Um porque sim que não me basta
Um porque não que não me satisfaz

E continuam a nascer andorinhas
Em vasos de palha pendurados nos beirais
Mesmo ali onde não chove por cima dos malmequeres…

Lá longe, onde explodem bombas
Onde o gaz mata, onde a fome corrói,
Onde a vida apenas dói… lá longe…
Não há oposição falante, apoiantes calados…
Lá longe, morre-se gaseados…
Lá não nasce a Primavera…

Lá longe paira no ar
Apenas o peso da morte…

E calo gritando na oposição concreta de que não quero
E grito calando-me nas opiniões contrárias à guerra…

Alberto Cuddel
19/04/2018
13:00

A voz e as palavras caladas

A voz e as palavras caladas

Lábios que se roçam
Línguas que se digladiam
Silêncio dos sons

Crença das horas
Solidão de quatro mãos
Vácuo preenchido sem razão

Palavras esgrimidas nas pernas
Aperto, soltura, movimento
A mansa certeza de que não adormeces

Solta-se a voz, diálogo de olhares
E as palavras caladas
Presas em gargantas secas…

Alberto Cuddel
29/04/2017
08:55

O silêncio

O silêncio

Na sala morava o silêncio
Martelado a cada segundo
O silêncio nunca é vazio
É cheio, preenchido…

O silêncio enche-nos a mente
Num estranho barulho de pensar
Sem rodas dentadas, marteladas
Um silêncio sem quase nadas…

Um silêncio com sabor amargo
Sem o salgado do mar, apenas oco
Bacoco, com retoques de negro e barroco…

Alberto Cuddel
05/02/2018
05:29

Poema do dia 11/03/2018

Poema do dia 11/03/2018

Perguntei ao caminho para onde ia
Que novas me trazia, que rumo levava…

Perguntei ao mar, ao rio, ao céu
Que futuro seria o meu, o teu?

Perguntei-me a mim mesmo o porquê
De um tudo, de um nada, das mudanças
De um já, de um logo, de andanças…

Perguntei-me, no todo o silêncio que grito
Não respondi, fiquei parado, firme, hirto…

Esperei que me respondesse o vento
Nas vozes dos aflitos…

Perguntei-me porque me calava
E nem assim respondi, calei…

Alberto Cuddel
11/03/2018
01:53

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