Sem outra palavra que não seja semente…

Sem outra palavra que não seja semente…

Sem outra palavra que não seja conhecimento
Sem outra semente que não seja mantimento
Há um mar registado na terra
Essa saudade que fica da rede e no anzol
Sob sete palmos de solo…

Portas fechadas à vida
E mulheres visitadas
E um poço ali diante da conversão
Deixada a semente, água e fonte eterna

Quando se é palavra e noite há uma lua feiticeira que nos vela
E pedra atirada que se faz angular
As letras fazem-se luz, germinam, crescem, irão florir
E as palavras amadurecer-se-ão semente…

E o amor?
Esse será alimento,
Chuva e sol
Na sementeira do poema…

Alberto Cuddel
28/11/2020
02:30
Poética da demência assíncrona…

Semente

Semente!

– “Nunca largues essa semente!”
A frase que a Janira me tinha dito ao ouvido.
Nunca tinha percebido a sua real importância até agora, ao recordar esta
foto. Foto do dia em que com as lágrimas nos olhos o meu pai, ao despedir-
se de mim em mais uma viagem para França, me deixou na mão a semente
do amor! Semente que me sustentou, que me aninou quando tragicamente a
notícia chegou, o meu Pai, não voltaria, não como eu o vira, pois um
trágico acidente tinha-lhe roubado a vida. A minha mãe inconsolável
chorava, e eu pequenina, de semente guardada, animava-a, toda a nossa
vida mudou, como eu a conhecia, não devido aos constrangimentos
financeiros causados pela morte repentina, mas pela ausência daquela
figura, tão querida, tao meiga, tao amada… A minha mãe não voltou amar,
dizia-me: “ O meu coração morreu com o teu pai”, e eu jurava para mim
mesma, que nunca iria sofrer daquela forma, e hoje na véspera do meu
casamento, ao olhar esta foto, entendo bem o que o meu pai me deixou, a
semente do Amor, que tantas vezes me pedia para a guardar no coração, e
que tantas vezes falei dela com a pobre da Janira, que voava para longe
cansada de me ouvir… Há alguns meses num olhar terno do João, essa
semente germinou!

Alberto Cuddel

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