(sem) Abrigo

Desafios palavras soltas

De : Ruth Collaço  / Ventos Sábios em parceria com João Gomez photography

Tema: Abrigo

(sem) Abrigo

(Des) abrigo-me dessas pedras construídas por uma sociedade hipócrita e egoísta, quem vos convenceu que eu quero viver numa gaiola preso a despesas fixas, com horários fixos a fazer todos os dias coisas que não gosto? E eu é que sou o errado, o que dá mau ambiente à cidade? E as vossas caras fechadas que se cruzam comigo pela manhã, de olhar fixo no chão, sem olhar o céu, sem dizer bom dia, sem apreciar os pássaros e as flores porque em um horário a cumprir, para pagar despesas e impostos que não queriam e não pediram… E o errado sou eu?

Sim eu (sem) abrigo, vivo livre, quantos presidentes me quiseram enjaular, inserir-me no mercado de trabalho, prendam-me em Évora, talvez lá seja mais livre que numa jaula de um prédio qualquer de uma avenida escondida da cidade, pagando o que não quero por uma coisa que não pedi, fazendo o que nunca quis… Eu, eu não quero abrigo, as minhas paredes são as pernas, e o meu texto o céu… Vou onde a vontade me levar…

Januário Maria

Foto de : João Gomez photography

Corpo-Abrigo

Corpo-Abrigo

Há nesse Corpo-abrigo uma esperança de vida, uma sorte, um desejo-amor, uma fórmula mágica que nos recolha do mar, que nos faça acordar do desespero da solidão. Há nesse corpo-abrigo uma calma que me espanta, um querer que me arrebata, uma força que me chama, e nele quero existir, nele faço-me, a ele me entrego na plenitude humana de ser tudo, e completo.

Depois desabrigo-me neste calor que se avizinha, nesta fúria do caminho em corrida, em que a noite minga, e o tempo faz-se luz e cansaço, e depois, depois aninhamo-nos no espaço curto de um abraço enquanto esperamos pela frescura ampla da madrugada, e amamo-nos quando todos estão calados…

E antes que a vida nos separe, juramos sentires eternos, ali diante dos céus, das estrelas e do paraíso, porque de inferno literal estão os dias cheios e fartos de uma separação rasgada imposta por uma sociedade corrupta inimiga da felicidade humana…

E no teu-nosso corpo-abrigo existimos plenamente além da realidade física, somos alma ungida e abençoada pelos espíritos livres que nos vagueiam pela mente…

Somos a perfeição do que de nós fizemos, mesmo antes da vida ser vida estávamos destinados a existir… ser eternamente confiança, corpo-abrigo meu…

200 – palavras

Alberto Cuddel
30/03/2021 09:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha L

Imagem de João Gomez photography

Poética X

Poética X

o que mostras nesse olhar?

mostras-te mulher, fértil
nessa fertilidade poética
nessa plenitude da existência
nas metáforas incompreendidas…

leio-te nos silêncios
nas quimeras sonhadas
estampadas no rosto
nas verdades ocultas por detrás do olhar…
leio-te nesse arco armado sem flecha
sem coração onde apontar
nas desilusões da alma
na carência do corpo…

leio-te sem julgamentos ou medo da morte
compreendo o sentir e a sentença aplicada…

leio-te no verde que carregas no olhar,
na falta de luz que o ainda faz brilhar
e essa tristeza ondulante como chama
de uma luz que arde, cintilante, mas frágil
soprada pela brisa de um vento sem norte…

entre a fronteira… uma tinha ténue
entre a vida e a morte, entre o amor e a sorte
entre o ódio e o azar, entre a partida e o ficar…
fica quem não ama, ama quem parte, e odeia…
odeia a sorte de não saber em que dia conhecerá
a sua alma a morte…

Alberto Cuddel
15/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLV

Resposta ao desafio directo 1º de Ruth Collaço

Poética VI – Escrita a duas mãos

Poética VI

rasgam-se os céus santificados pelos orgasmos poéticos
contorcem-se os anjos nas catacumbas a cada metáfora
as ninfas dançam na sedução hirta e máscula do pecado
finge tão completamente o poeta que chega a ser real
o sexo fingido que realmente pratica sentindo que não

e vive o que sente e se assume supremo divino
as deusas pagãs com rimas vermelhas seduzem os santos
que loucos, ardentes, sedentos lhes bebem o mel
num mar que intenso ulula se entregam nas ondas
fazendo até das sereias e ninfas, tocarem-se soltas
livres e audazes aos olhos vidrados de homens cobardes
que apontam os dedos, condenam impunes
e escondem o sexo, castigam com dor a paixão da carne…

rasgam e apartam o mar dos sonhos, azuis e verdes
nos espinhos rosados aplacam a dor de uma alma velha
nos lençóis de linho o odor do pecado, esse prazeroso declamar
imiscuem-se os lábios pelos ósculos irresistíveis do silêncio
fundem-se gozando os poetas e os versos, os dedos
que digitalmente criam prazer, escrevem fontes de vida…

palavras suadas, frenéticos corpos, canetas que gemem
escrevem nos mantos de ouro e púrpura dor
o prazer que alucina e dá fogo à alma, sem fôlego
desenterram-se amores, evocam temores
inventam sabores, exsudam odores, tremores
poetas e musas, elfos e ninfas, deusas e astros
num orgasmo profundo, orgia sonora de rimas…

e eu, e tu, e a escrita que nos cresce nos dedos
e todos os deuses e deusas, e a musas que nos elevam
nobre sadino sem pejo nas palavras, patrono dos orgasmos
inventemos segredos escondidos à vista de todos
e todo o conhecimento que desconsolados desconhecem
boatos, beatos, beatas e línguas de trapos
somos poesia, ditongos e consoantes, livros e folhas em branco
silêncio selado em segredo nos lábios….

Alberto Cuddel
Ruth Collaço

04/03/2021 21:58
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLI

Movimento

Movimento

Era apenas uma ausência
Ausência de som, ruido
Uma ausência de movimento
Não carburava, não consumia
Apenas nada… Oxidação metálica…
Nada é perpétuo, nada se basta…
Quando acaba, nada… Apenas nada…
Dói-me que assim seja.
Que seja apenas memória
Uma visão inglória
Mas agora, agora nada…

Pyxis de Andrade
12/02/2021

Foto cedida por:
João Gomez photography

Rostos de pedra (o amor eternizado no suor)

Rostos de pedra (o amor eternizado no suor)

fosse em nós memória o abraço e o beijo
do que prometido fora, sem nuca ter sido
rege-se o amor pela solidez da pedra
inabalável na alma, irrealizável no corpo
levado contigo às tabuas do tempo…

no abraço que o querer nos revelou
nesse que o teu suicido nos roubou
essa esperança de ser corpo o sentir
essa volúpia do querer, onde fugir?

quantos foram os desejos e promessas?
arte nossa do tesão, orgasmos partilhados
mãos minhas, pensamentos teus
palavras nossas, desejos e beijos meus…

nos rostos de pedra a saudade do tempo
um abraço prometido, um beijo por dar
o musgo húmido que nos cresce nos pés
o verde da esperança que nos ladeia
morre sob o azul do tempo, sob as rosas
que ontem te depositei no tumulo…

hoje apenas choro, tudo o que podia ter sido
e no meu medo egoísta eu sempre recusei…
saudade do que podia ter sido e nunca foi
amo-te, amar-te-ei eternamente…

Pyxis de Andrade
29/01/2021
02:51

Desafio 11 de Ruth Collaço
Foto gentilmente cedida por:

@joão Gomez Photography

Os tempos e as transparências verdes

Os tempos e as transparências verdes

corriam os sonhos livres e brancos
e o beijo doce da montanha-selvagem
amedrontando o calor das estepes veraneias
memórias e saudades, pulmões cheios de ar…

o quotidiano é materno.
depois de uma incursão larga na serra,
aos montes da aspiração sublime,
aos penhascos do transcendente e do oculto,
sabe melhor, sabe a tudo quanto é quente na vida
sabe a poesia, esse sabor do orgasmo preso na garganta…
sabe a essa pureza virginal da neve,
da erva pura que se fuma, saboreia-se o ar da palavra…

nada me comove que se diga de homem que tenho pouco
que passe por louco ou néscio, que me confundam no feminino
que tantas supera um homem vulgar e mediano tido por valente
em muitos casos e conseguimentos da vida (ela) é bem superior
mas tantas vezes olho os penhascos de cima, e se saltasse ou caísse
quem seria?
ou se me despisse e tomasse banho nas águas límpidas
seria eu perdoada desta minha libido,
sem que notes, que repares que existo…

aquela malícia incerta e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano um sexo puro
esse que acontece do nada entre dois seres
perscrutados pelos olhares do monte e o desconforto alheio,
exponho-a eu no exame das minhas próprias dores,
levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto
existo… mesmo que curvado ao prazer
as vezes sinto-me ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o fizesse
por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos,
acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima
perante a dor e o ridículo alheio, mas sim sinto-a minha…

no serrilhado da vida, tudo é natural
e nós, inventamos complicações
seriamos nós, e uma mantinha…
e uma tarde de amor…

Alberto Cuddel
11/02/2021 17:05
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXVIII

Foto gentilmente cedida por:
@jõao Gomez Photography

Por onde me levam os meus olhos?

Por onde me levam os meus olhos?

Por onde me levam os meus olhos
quando umedecidos, espalham o brilho
iluminando caminhos, veredas, passadiços
e nas águas cristalinas de um ribeiro
se perdem na corrente, e se deixam levar…

Por onde me levam os meus olhos
Nesse infinito feminino que me queima
Nessa alma natural despida de verde
Nos sonhos levados pelo vento leste
Nuvens que algodão da infância jurada
Olhando o amanhã na perfeita solidão…

Levam-me os meus olhos, que poisam nos teus
E nos seios que te ofereço desaguam em ternura
Levam-me os meus olhos, para o tronco do teu peito
Onde lábios se deleitam, contemplados pelos teus
Por onde me levam os meus olhos, queres saber?
Por riachos de ternura cada vez que me sorris
E num rapto indelével me transportam afluente
Num fluir refrescante que me acalma este fogo….

Lavam-me os olhos nesse choro de vida
Ergam aos céus os troncos hirtos de braços abertos
Abram o peito nesse fluir de vida que te corre nos seios
Abram as pernas e abracem as margens
Corre suave a seiva que esse fogo controla…
Para onde me levam os meus olhos,
A ti que olhas o mundo…

Poema a duas mãos:
Alberto Cuddel e Ruth Collaço
um desafio directo a João Gomez photography

Escolha da imagem pelo João Alves após leitura do poema
(agora por onde te lavamos os teus olhos?)
08/02/2021 23:16
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXIV

Quando se fala com poetas

Quando se fala com poetas

Calam-se os olhos vendados
Deixamos que nos gritem as palavras
Que a alma se exponha
Que as veste se rasguem

Quando falamos com poetas
Tapamos os ouvidos e vemos
Abrimos a boca ao improviso
Sentimos a dor do amanhã
Como se nos tivesse morrido um Filho
Apenas ontem, ali diante dos nossos braços…

Quando se fala com um poeta
Olhamos incrédulos o nosso reflexo
No espelho do seu sentir…
Como se nos lesse, em cada silêncio…

Alberto Cuddel
Poema resposta a um poema de Ruth Collaço
29/12/2020
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha V

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