Poética VII

Poética VII


pontes …
pontes essa ligação entre dois opostos
lusco-fusco, os 7 minutos de ninguém
em que a escuridão abraça a luz…

palavras-pontes que une ideias,
que separam os homens, que se fazem guerra
psicopatias inconformes de quem apenas olha em frente,
sem saber que do meu lado também está gente
pontes, travessias espirituais, banais
deste lado para o teu, do teu para o meu
e a meio? a meio nós…

pontes que abraçam as margens
se se fazem coragem
esse primeiro passo-paz
que mata a matança da guerra
pontes de água, ar, fogo e terra…
pontes essa virtude de se construir a paz…

Alberto Cuddel
06/03/2021 22:37
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLII

Correm as pedras em ribeiros secos

Correm as pedras em ribeiros secos…

-sabes amor onde nos mora o desgosto?
há nos ribeiros secos um anúncio de vida
nuvens trovejadas de saudade e peixes
desses que saltam por entre a corrente
enquanto sobem em direcção à morte…

há verdade na vida
há sonhos da impossibilidade
há sono sem cansaço?

corroem-se os cascos na margem
em mares nunca dantes navegados
em corpo de mulher amaldiçoados
sopram ventos abortivos da saudade…

onde vos moram os beijos?

rasgadas sejam as redes que procura o amor no cântico
ilusões disformes das pedras afiadas…
há nas curvas prazer, desse imediato que se vem…

correm as pedras em ribeiros secos
nas mãos apenas punhados de nada
bolsos vazios e garrafas de água…
do amor nem vestígios, nesta carteira vazia…
há quem procure e encontre amor às prestações
com cartões, promoções…
a prazo…

Alberto Cuddel
05/10/2020
13:55
Poética da demência assíncrona…

Antes do princípio apenas o fim

Antes do princípio apenas o fim

há antes de tudo um rio
depois um mar e o sol
as voltas da vida, transpiração
o querer, o bater e a doce ilusão.

depois há um prólogo de anúncio
e antes de tudo há um fim
a desilusão e a dor do nascimento

nessa explosão de magma quente
o passado cobre-se de cinza
– pleno esquecimento da saudade…

e antes do princípio apenas o fim
essa dor do esquecimento do ventre
abandono do conforto…
– a dor de viver
sobrevivendo à carência da alma…

Alberto Cuddel
27/05/2020
17:15
In: Nova poesia de um poeta velho

Tenho Para Mim

Tenho Para Mim

Tenho para mim que os pássaros são anjos a quem roubaram a capacidade de voar, e que as cidades dormem longe, num outro qualquer lugar…

Tenho para mim que os rios não correm, mas tem pressa de chegar, não pela beleza do mar, mas para as suas águas salgar…

Tenho para mim que amar, não é um verbo, mas uma forma de ensinar, que o bom da vida não é receber, mas sim o poder dar…

Tenho para mim ideias, e não tenho com quem as partilhar, escrevo-as soltas na corrente, aos trambolhões por quem as quiser assimilar…

Tenho para mim, tudo o que de mim puder escrevinhar, o resto são fantasias, que sonho ao me deitar…

Tenho para mim que é noite, depois do dia findar, e sei que por ti, por aí vais andar…

Alberto Cuddel
Numa queda sem rede…
22/08/2018
23:26
#numaquedasemrede

Unamos as mãos

Unamos as mãos

Unamos as mãos
Como os braços de rio
Unamos as mãos como arcos de pedra
Sejamos um que nos suporta…

Dias que nos caem no olhar
Abobada celeste testemunha
Selado na natureza divina
Estrelas como lençóis
Luar que nos ilumina…

Unamos as mãos
Sejamos um
No duo que somos
Somos tudo
No nada que nos suporta…

Alberto Cuddel
19/07/2017
11:50

Poema do dia 13/07/2018

Poema do dia 13/07/2018

Naquele tempo, em que o tempo não importava e toda a saudade morria hoje…
Naquele tempo, não sabia o significado do agora, do já e do imediato, o depois? O depois não importa…

Amei amores por entre rios que desaguam
E mares que nunca cheguei a alcançar
Numa respiração ofegante que me prende
Não há oxigénio maior que o olhar…

Nesses cais perdidos onde nunca atraquei
Perdi-me de amores pela ilusão de chegar
Sem nunca partir, a viajem segue, calma
Numa serenidade sem tempo, sem vento…

Escorrem de mim os dias e as noites
Nessa imensidão sem pressa, sem querer
Abre-se-me o peito as flechas crispadas
De um arco dourado, que repousa em teu regaço…

Naquele tempo, em que o tempo não importava e toda a saudade morria hoje…
Naquele tempo, não sabia o significado do agora, do já e do imediato, o depois? O depois não importa…

Alberto Cuddel
13/07/2018
09:15

Poema do dia 13/06/2018

Poema do dia 13/06/2018

Há um brilho na alma de quem me lê, não me escuta e não me vê!

A vida segue entre paredes de vidro, num amor presente e vivo, escondido no olhar, meias de lá despido de tudo, de um ontem, um hoje, um amanhã, abraços contidos e fingidos no mundo, almas que brilham ocultas no fumo…

Voava um guarda rios, e outro sem nome
Sentados em pedras polidas, outras vidas
Combalidos sem poesia, vida ou fome
Olhando as aves que voam e as partidas…

Morre o ciúme pela goela do ódio, esse que me condena a morte á clausura terrena, laivos de rimas, palavras soltas e primas, entre margaridas pisadas e amores-perfeitos combalidos em canteiros rectos… não cresciam ervas no jardim, abandonado ao sol dos dias, as noites, tristes, limpas, frias…

No abraço sem guarda
Apenas amor,
Sem vestes, mascaras,
Apenas amor, mais nada!

Há um brilho na alma de quem me lê, não me escuta e não me vê!
Porque sou, não carne de meus ossos, não som da minha voz, sou eu…
Apenas Palavra…

Alberto Cuddel
13/06/2018
19:56

Poema do dia 31/05/2018

Poema do dia 31/05/2018

Dos ventos que sopram desordenando as folhas caídas no chão, há uma ordem nova que se forma no sentir alheio ao querer… longas são as noites e a vontade de te dormir… há um banco sentado junto ao rio, homens passeando a pé pelas margens, barcos que cruzam, palavras que rimam, e gaivotas que pairam, ali diante do olhar…

Nos pés a vontade de partir
Nas mãos o desenho do sorriso
Nos lábios a dadiva das palavras
Na alma a vontade de sentir…

Escorrem verbos adjectivados
Pelos longos cabelos de prata
Nada perdoa, nem o tempo, nem a chibata …
Crescem os dias, minga o tempo, o amor
As mãos calejadas, cansadas e caídas
Não escrevem, não falam…

Existem bancos sentados, pintando poesia no rio, declamando poemas em silêncio, o tempo desses que reclamam, passou… apenas recordo Maria, a tua mão sobre a minha, olhando a outra margem, um lugar a que nunca cheguei… mesmo que nunca tivesses partido, nunca eu definitivamente me entreguei, foi tu… sempre o mundo me conteve bem mais do que me dei…

Alberto Cuddel
31/05/2018
01:00

Poema do dia 18/10/2017

Poema do dia 18/10/2017

Uma pedra pequenina,
Uma mera pequena pedra,
Rolava, rolava, rolava…

Rola e rebola no caminho
Caindo no ribeiro baixinho
Não há pedra que lhe bata
Nem a água já a pára…
Rebola redonda a pedra…

Já no meu coração amola
O sentir que muito esfola
E o corpo? Rebola, rebola…

Força que força e esforça
Persegue, perseguindo
Ora depressa, devagarinho
Seja quente e com carinho…

Uma pedra pequenina
Não cresce, apenas se aninha
No canto do coração…

Alberto Cuddel
18/10/2017
17:00
#Poemasdodia

 

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