Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

Eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…

magras, tuas mãos alargam-se sobre quem a vida sequestra
ainda que os braços pendam sem forças
sob o jugo do peso da discórdia
erga-se a vontade da vida, partilha do pouco
uma vontade de ser, apenas amanhã…

há na fecundação da palavra essa vontade decrescente
esse parir esdruxulo das ideias rasgadas pelo arame farpado da fuga
– já estive preso mas libertei-me
– já foi militante e solado de uma guerra ignorante onde não pensava…
tudo pelo conforto crasso de uma côdea de pão bafiento
que a morte deixava a cada dia dependurada
na maçaneta da porta que nunca era fechada…

eram magras, comparadas com o fermento que salga a vida…
essas ideias pré concebidas que que a fé não se contesta
como a fezada de uma partida de futebol sem adversário…

onde te morreram as certezas?
plantadas no pinheiral do tempo como forma memorável de uma eternidade…
e mandaram-te plantar tâmaras… e morreste… sem nunca entender o porquê…

a poesia tem exactamente essa serventia:
pensar que serve para pensar, em rigorosamente coisíssima nenhuma…
desde que rime, no ritmo certo, tudo está longe, do que já foi perto…
há ninhos de barro, e jarros de palha…
mandaram-te ir, e tu foste…
porque não conhecias o não e a sua forma de o pensar…

morreu ontem a Primavera, e os frutos cariam maduros,
não porque são livres ou pensam, mas porque assim chegou o seu tempo…
e veio o Verão, e o olhar o céu, de olhos fechados, enquanto tostam ao sol…

Alberto Cuddel
17/04/2021 3:02
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LIII

(sem) Abrigo

Desafios palavras soltas

De : Ruth Collaço  / Ventos Sábios em parceria com João Gomez photography

Tema: Abrigo

(sem) Abrigo

(Des) abrigo-me dessas pedras construídas por uma sociedade hipócrita e egoísta, quem vos convenceu que eu quero viver numa gaiola preso a despesas fixas, com horários fixos a fazer todos os dias coisas que não gosto? E eu é que sou o errado, o que dá mau ambiente à cidade? E as vossas caras fechadas que se cruzam comigo pela manhã, de olhar fixo no chão, sem olhar o céu, sem dizer bom dia, sem apreciar os pássaros e as flores porque em um horário a cumprir, para pagar despesas e impostos que não queriam e não pediram… E o errado sou eu?

Sim eu (sem) abrigo, vivo livre, quantos presidentes me quiseram enjaular, inserir-me no mercado de trabalho, prendam-me em Évora, talvez lá seja mais livre que numa jaula de um prédio qualquer de uma avenida escondida da cidade, pagando o que não quero por uma coisa que não pedi, fazendo o que nunca quis… Eu, eu não quero abrigo, as minhas paredes são as pernas, e o meu texto o céu… Vou onde a vontade me levar…

Januário Maria

Foto de : João Gomez photography

Espelho

Espelho

Tocasse eu o reflexo do teu corpo
Na gélida margem da realidade
Fizesse eu tarde do teu leito
Contorcionismo arqueado do teu ser,
Lençóis fumegantemente perfumados,
Perfume do amor em nossos corpos!
Fosses imagem refletida,
Desejo espelhado no sonho
Realidade ansiada, simétrica de ti
Toque na alma sedenta, ávida
Do querer possuir em ti
A fonte do prazer supremo
Realização do amor
Platonicamente sentido
Refletido
Habitante do meu ser
Embriagues das noites solitárias
Saudade arrepiante da minha pele
Sinto-te em mim,
A cada momento
Meu olhar toca o infinito
Mundo que habita o meu corpo
Elevando o meu querer!

Alberto Cuddel®

31/05/2016

Poética II

Poética II

Somos as minúsculas letras de um livro, que juntos nos fazemos poema!
quando chegamos, a sensação do privilégio
somos mais altos, de toda a nossa estatura
apenas porque fomos, tínhamos esse destino
tudo estava destinado a ser certo, concreto
há galáxias dentro do peito, mas as estrelas?
sempre brilharam não com hidrogénio ou hélio
mas pelo oxigénio dos teus beijos, pelo amor…

eis-me aqui confiante diante deste lago esverdeado
barco sem velas, mas de leme fixo
[não chove,]
sem lágrimas a saudade suicida-se a cada olhar
nesse abraço elevado a cada chegada, e beijas-me
[enquanto o comboio avança]
há essa incógnita que nos arranca do peito sorriso
enquanto as árvores se agitam na montanha
e as nuvens brindam o nosso encontro
os rostos beijam-se, e mãos dadas olhamos a distância…

sabes Maria, possuis em ti todas as consoantes, os sinais ortográficos…
em mim apenas as vogais, pontos de exclamações e finais…
ainda sim sei que te faço sorrir, enquanto tento contar enxames de abelhas
ou aqueles bandos de pardais inquietos…

deita-te comigo…
pelo menos hoje enquanto olhamos o céu…
olhemos juntos os amores prefeitos a abriram antes de ontem
e as tulipas… matemos a saudade… que ela morra eternamente…

nós que somos as minúsculas letras de um livro,
que juntos nos fazemos poema, também somos vida em galáxias de amor…

[que a liberdade nunca nos seja roubada,
para podermos juntos olhar o nada!]

Alberto Cuddel
27/02/2021 13:56
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXXVI

Porque a verdade não o é…

Porque a verdade não o é…

não, a verdade não é exacta
a terra já foi plana, quadrada
circular e redonda,
a própria água nem sempre molha
nem sempre dois e dois são quatro
dois seios e dois testículos quando muito será um casal
nascemos na inverdade inventada, bebés trazidos por cegonhas
um velho vestido de vermelho que nos premeia o bom comportamento
que Adão não conhecia Eva até comer a maçã…
que depois do hoje só há o amanhã…
tentas as verdades que não o são…
e os pais? que só por amor concebem, e que o prazer do corpo é pecado…
porquê a verdade não o é?

porque a verdade não vem dos sentidos?
deixem viajar o instinto do querer conhecer e saber
que o nosso íntimo experiencie o orgasmo de descobrir
de se descobrir na mentira que te incutiram… porque as coisas são…

“a liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…” *

nessa amálgama da crença
apenas o livre pensamento condicionado pela infância
me rasga o céu e as vestes procurando o teu orgasmo nos dedos…
onde se insere a mentira das marés, que força lunar me trepa pelo corpo
que medo é esse que cobre de verde as dunas fustigadas pelo vento?
em que bíblia humana querem que eu creia fielmente?
Freud? e na viagem pela psicanálise do cérebro humano?
despe-te no corpo e na alma,
hoje precisamos falar,
e registar a nossa verdade no silêncio dos lábios…

Alberto Cuddel
23/01/2021 22:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVII

*Álvaro de Campos – A liberdade, sim, a liberdade!

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

Temo que o erro não seja uma inaptidão para a assertividade
Mas uma constante desconcentração visual pela a exactidão do pensamento…

Criticamente escrevo mais lentamente do que a velocidade do pensamento
E voam os dedos no teclado minúsculo, ou no desenho artístico das letras
Nessa inadaptação ao querer que seja já sendo o que foi
Penso que pensar não seja arte, mas uma ferramenta técnica de vida
Pensar é num acto simples estar vivo…
Sendo a poética a arte da inutilidade linguística
O deslumbramento frásico sobre a beleza da curvatura das vogais
Em pleno acto isolado de voar no céu da boca
Assim são as opiniões estabelecidas
E o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões.
Como estão cheias de árvores as florestas ou deixaram de o ser.

Ser poeta é:
Ter a arte e o engenho de perder tempo, nesse tempo que não tem
Enquanto rodeado de ninguém observa um pássaro que nada num céu sem estrelas
Enquanto Santo António prega sem martelo sermões às sardinhas
Que num acto de misericórdia divina
Foram condenadas por bruxaria à expiação dos pecados pelo fogo…
Ser poeta é amar todo o universo contido numa gota de água que cai
E encontrar num lago a gota de chuva perdida…
“É amar assim perdidamente” todo o mundo e toda a gente
É olhar a alma por dentro e descobrir que não tem cor
Nem raça ou credo… e que os deuses se revoltam
Por não terem uma cerveja gelada…

E neste acto glorificado pelos canos das espingardas
Que deram liberdade aos cravos…
Os poetas morrem… enjaulados pelas prateleiras poeirentas da biblioteca…
Sem que as palavras mudas gritem em pleno Rossio…
Há vida para lá da rima… o poeta, fugiu…

Alberto Cuddel
29/12/2020 03:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VI

Poética da demência assíncrona…

Poética da demência assíncrona…

há na realidade do pensamento humano,
uma essência flutuante e incerta,
tanto na opinião primária,
como em todas as outras pensadas
longamente na visão platónica do mar
como naquela outra que lhe é oposta,

as hipóteses do pensamento são em si mesmas instáveis
nesse rasgo visionário de um por do sol
ou no rasgo matutino gemido de um parto malformado
em dias de neblina pelo sol que se ergue no horizonte
no olhar não há síntese, pois, nas coisas da certeza,
apenas existe a tese da antítese apenas.

seja a areia do mar, registo flutuante do tempo
do que vai e do que vem, sem ter chegado a ser vidro
na síntese penso que sinto, e no que sinto sei o que finjo
na certeza do que é em mim, é verdadeiramente concreto
no que da minha alma brota, que em meu íntimo sangra…

nem os demónios me aceitam no convívio sádico da expressão
nem as rimas gritadas na dorida alma que orgasmicamente sente
nem no pensar concreto da consciência poética existe síntese
nem nas vogais, nas consoantes, nas orações desenhadas
só os deuses, talvez, poderão sintetizar este sentir atrófico
que finjo ser mentira de tão verdadeiramente sentido
num formigueiro que dolorosamente me percorre os dedos…

este pensar a poética pelo que alegremente se sente
numa consciência pagã do que se pode fingir
sentido que o que se escreve é ingenuamente a verdade da mentira…

Poética da demência assíncrona… ou a consciência da verdade…

Alberto Cuddel
24/12/2020
08:55
Poética da demência assíncrona…

Perdeu-se o mundo na madrugada…

Perdeu-se o mundo na madrugada…

e despiu-se… de alma vestida despiu o corpo
e correm alvoraçadas rua abaixo ainda confinadas
as folhas soltas do Outono douradas pelo tempo
cravam-se desenhos aleatórios na parede, cores garridas…
há uma camisola de malha esquecida e um jornal…

de joelhos ergue os punhos aos céus,
libertando as mãos dos cabelos seus,
lábios abertos e boca cheia, nem um grito
um gemido… engole…

perdeu-se o mundo na madrugada
não há já esperança no acordar
é tudo agora, depois, depois nada…

ouço calado notícias do fado
não há saudade, não há medo
nem desespero, nem amparo
nem conhecido, ou segredo
perdeu-se o mundo na ombreira da porta
mesmo ali, diante da escada…
nesta vida não vales nada… nada…

e os homens? esses esqueceram de acordar…
dormem, como vagabundos abandonados
usados, bem usados… mas sozinhos…
porque elas já não precisam deles…

e caminham sozinhos assobiando satisfeitos
sem conhecerem a solidão que os habita
que os vai corroendo por dentro
como um cancro incurável que os mata…

Alberto Cuddel
09/12/2020
03:10
Poética da demência assíncrona…

Correm as pedras em ribeiros secos

Correm as pedras em ribeiros secos…

-sabes amor onde nos mora o desgosto?
há nos ribeiros secos um anúncio de vida
nuvens trovejadas de saudade e peixes
desses que saltam por entre a corrente
enquanto sobem em direcção à morte…

há verdade na vida
há sonhos da impossibilidade
há sono sem cansaço?

corroem-se os cascos na margem
em mares nunca dantes navegados
em corpo de mulher amaldiçoados
sopram ventos abortivos da saudade…

onde vos moram os beijos?

rasgadas sejam as redes que procura o amor no cântico
ilusões disformes das pedras afiadas…
há nas curvas prazer, desse imediato que se vem…

correm as pedras em ribeiros secos
nas mãos apenas punhados de nada
bolsos vazios e garrafas de água…
do amor nem vestígios, nesta carteira vazia…
há quem procure e encontre amor às prestações
com cartões, promoções…
a prazo…

Alberto Cuddel
05/10/2020
13:55
Poética da demência assíncrona…

O tempo da conversa…

O tempo da conversa…
há nessa lareira acesa o peso da nostalgia
conversas de ecos do tempo que foi
– morde-me a memória os tornozelos
o cheiro dos restos da poda ainda húmidos
o fumo branco… e palavras desfiadas
a voz doce, e doce a sopa de castanhas…

(…)
desce a neblina na serra, há cartas ainda não escritas
e foi o tempo em que era, hoje apenas lembrança…

desfilam novas palavras no horizonte,
escadas e escaleiras, presas por um cambito
um equilíbrio ténue, ali diante do que lembro…

(…)
cachos que se secos pendem do tecto
e o fumeiro que pinga…
e a conversa vai, a conversa vem
anuncia-se mais uma neta,
um sorriso, uma esperança de nova vida…

(…)
e pôs-se o sol antes de recordar
acordou menina…
apalpando a vida reconheceu pelos dedos a pele mimosa
do acreditar nesta fé que é esperança
inunda a paz o seu corpo…

o futuro é o que foi,
edificado na memória do ontem
e tudo é certo
e nada se repete
apenas eterno enquanto lembrado…
Alberto Cuddel
14/08/2020
16:48

Poética da demência assíncrona…

Canícula na aridez do tempo manso

Canícula na aridez do tempo manso

“Estou vazio como um poço seco
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma
Tampa no esforço imaginativo!”

Álvaro de Campos

nessa vastidão dos sonhos ocos
tropeço em realidades vazias
dia a dia, de sol a sol, a lua mórbida
nesta realidade de acordar e nada ser
a vida escorre sem memória de janelas fechadas…
o que quis do passado por brisas se desfolha,
o que pude de oculto tive em tempo medo;
e olho a sorrir o título no alto da folha:
do calor, nem a água que nos afaga, imagino
coisas vazias que carrego nos braços como nuvens
esperanças vãs que algo mude sendo igual…
não ouvi o que dizias…
ouvi só a música, e nem a essa ouvi…
das tuas palavras retenho apenas a verdade
esse aviso tão certo, nunca vivi estando morto
procurava um sonho, uma irrealidade que julgava
que sonhei existir…
nesta aridez do tempo manso, tudo é tédio
faço apenas o que tem de ser feito
sem prazer ou vontade, tudo é,
porque assim está escrito que seja
uma vida sem sentido, não sentido a vontade
de simplesmente a viver…
falta-me soltar força de existir, por um prazer de ser
que de mim perdi num poço seco sem vida
tenho vontade de renascer sendo eu
mar que me espera entre mundo as descobrir…
olho a janela, fechada como se quer
o calor do mundo não me aquece
e o frio não me estremece
não sinto, e fito o tempo que passa
na copa das árvores imóveis…
nesse arco solar não meço ou espero a realidade
apenas um tempo seco sem vida
de uma vida sem sabor…
e passa na rua uma velha, dessas que esperam a morte
no olhar um sorriso, no rosto o cansaço…
a solidão estampada no movimento dos braços…

Alberto Cuddel
10/05/2020
03:50
In: Nova poesia de um poeta velho

A branda incerteza do vento

A branda incerteza do vento

a brisa incerta da tarde que me leva
por entre concretos pensamentos
envoltos em silêncio
roça levemente a incompreensão.

sei só que o tédio que sofro
essa imobilidade trazida pela inveja
como uma veste que roça numa chaga
que nos mói o por do sol,
na eternização do momento em que a luz se esvai…

dessa escuridão nasce a fé
que o vento é
matéria que nos coze os sonhos…

Alberto Cuddel
31/03/2020
17:58
In: Nova poesia de um poeta velho

Perdão

Perdão

Sei que esperas um pedido de desculpas,
Sei que ficaste magoado pela sinceridade,
Por não aguardar e reflectir nos motivos,
Para mim desconhecidos e incompreensíveis,
Sei que devo apoiar os amigos nestes momentos,
De isolamento, de desespero, de incompreensão,
Mas bato há porta e esta fechada,
Questiono e “não foi nada”,
Volto a questionar e “esta tudo bem”,
Que hei de eu fazer também?
Pois se sofres, sofremos também,
Apenas podemos aguardar e aceitar o teu pedido,
Espero que o uses bem para não ser um tempo perdido…
Aguardamos com Fé o Vosso pleno Regresso….

Alberto Cuddel
16/10/2013

Actualidade

Actualidade

Tempos incertos se vivem,
Tempos de agir,
Tempos de reflectir,
Tempos de mudança,
Tempos em que perdida está a confiança,
Tempo de parar e mudar,
Pela forte tempestade que se aproxima,
Pela escuridão moral que se abate,
Sinais distantes,
Sinos a rebate,
Se abandona a imobilidade,
Do constante conforto consumista,
De quem intriguista nos desvia,
Do rumo da esperança,
Do sonho de criança!

Começar de novo?
Coragem que falta,
Abandonar preconceitos
Tabus e preconceitos,
Pensar novo,
Criar novo ideal,
Podemos mesmo mudar?

Onde erramos?
Existiram culpados?
Sim, todos nós que não mudamos,
Todos nos que seguimos nossos amos,
Sem questionar,
Sem pestanejar,
Sem reclamar,
E agora?

Sim, não parar!
Temos mesmo que mudar!

Alberto Cuddel
01/09/2013

Cheias declamações

Cheias declamações

De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Nesse murmúrio cadavérico do poeta morto
 – Herança d’outrora, bancos de escola
Nessa espera diligente que nos batam, leve, levemente
Por mim ninguém clama, há gaivotas no jardim…

Suspende a boca e o desejo,
Suspende a rima e o beijo
Enche o peito de amor perpétuo
E Leonor? Qual brancura, qual clamor
Pela verdura, de faces rosadas,
Blusa decotada e desalinhada
Corre cambaleante,
Seu marchante…

Há abismos na praia
 – Eu que nunca soube velejar
Há velas apagadas sem qualquer aniversário
Onde nos mora o léxico do pastor
 – Rebanhos contados, lençóis desalinhados
Não há sono, nunca houve,
Como adormecer na abundância dos teus seios?
 Janelas abertas em dia de chuva
 Corpos molhados enquanto dura
Por França morre-se
 Como se por amor se vivesse
Entre Marte e o sertão, que se dobrem bojadores,
Adamastores, e todos os cabos hirtos e viris
Desbravemos os corpos do não,
Em “sim’s” gritados, que desassossego este?
 – Vem Maria, fujamos juntos para o Egipto,
David derrubou o gigante, e Caim cheio de ciúme
Matou, como quem mata o amor!
De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Alberto Cuddel
05/11/2018 06:06

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