Canção de país longínquo

Canção de país longínquo

“cantava, em uma voz muito suave,
uma canção de país longínquo.
a música tornava familiares as palavras incógnitas.
parecia o fado para a alma,
mas não tinha com ele semelhança alguma.”
Bernardo Soares

uma canção, um eco lamurioso
um país distante, ali, mesmo ali, à distância de uma porta
à distância de um abraço, nessa incógnita final
nada é, para protecção de todos…
parecia o fado para a alma, esse sofrer de vitória
entre derrotas individuais, sem esperança no amanhã
a nação erguida pela vitoria colectiva…
o ruído da cidade não se ouvia
não se escutava, apenas se sentia
um murmúrio, “vai ficar tudo bem”
e o bem não é de ninguém…
gemem a reclusão do tempo
para protecção da vida
que corre na esperança
de quem trabalha
e caminha pelas ruas vazias…
amanhã erguer-se-á a voz
em novos fados, canção de país longínquo
à distancia de uma porta, de um abraço…

Alberto Cuddel
25/03/2020
03:03
In: Nova poesia de um poeta velho

Grito mudo

Grito mudo
(…)
E foi assim em silvos mudos que atirei a angústia
Declamei a fúria destilada pelas mãos atadas
Contra o esquecimento de deuses enfurecidos
Revolta contra o carvão e cinza manchada de sangue!
Não esqueci rimas ou métricas
Como podes medir a distância ou a dor do sofrimento?
Famílias que viajavam presas no inferno
Não foi uma mão criminosa ou falta de atenção
Não foi um mau funcionalismo ou uma desatenção
Tudo fruto de infelizes coincidências
O calor o vento e trovoadas intensas…
Nobre povo, de machado em punho
Mesmo com todos os meios é inglória
Lavram labaredas sela serra fora
Bombeiros coitados já sem memória
Arrepiam o fogo pra frente é caminho!
Os filhos que choram a mãe
O pai que não a vê chegar
Uma vida de trabalho
E agora já não ter lar!
Gritos mudos contra os deuses
Que permitem tais desgraças
Tantos feriados, tanta gente nas praças
Tanto desperdício, festa, artificio,
Mas não cuidamos do património
Que afinal é natural, mas todos o descuidam!
Naturalmente com a seca trovoada
Arde, arde, a serra e a estrada!
São palavra vãs,
Gritas tu que agora lês
Mas criticas porque escrevo
Não criticas quem não fez,
Neste grito mudo, depósito com elevo
O sonho que acalenta o espírito
Que se lembrem do que inscrevo
Quando amanhã de novo se perder a memória
Existirá alguém que irá lembrar desta história
Recordando sempre a dor e o sofrimento
Mas quando esquecida for será só divertimento!
Nem nos homens nem na sorte
Não creio que seja chegada a morte
Que se unam os homens e os inimigos
É nestas horas que se abraçam os amigos
E na dor de tudo ter perdido
Em bom abono da verdade
Nasce entre um nobre povo
A doce e desejada solidariedade!
Que o luto seja não um tempo só de dor
Mas vontade de fazer e muito conseguir repor!
Alberto Cuddel
18/06/2017
6:10
In: Poesia despida
http://www.facebook.com/AlbertoCuddel

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