Poema

Poema

Jamais escreverei
todos os poemas que sonhei,
Jamais sonharei
todos os poemas que escrevo,
Apenas escrevo e sonho…
Apenas sonho e escrevo…
Apenas sinto o que escrevo…
Apenas escrevo o que sinto…
Mas hoje?
As nuvens vão altas
A pena está seca…
E o mar longínquo não me escuta…

Alberto Cuddel®

Poética II

Poética II

Somos as minúsculas letras de um livro, que juntos nos fazemos poema!
quando chegamos, a sensação do privilégio
somos mais altos, de toda a nossa estatura
apenas porque fomos, tínhamos esse destino
tudo estava destinado a ser certo, concreto
há galáxias dentro do peito, mas as estrelas?
sempre brilharam não com hidrogénio ou hélio
mas pelo oxigénio dos teus beijos, pelo amor…

eis-me aqui confiante diante deste lago esverdeado
barco sem velas, mas de leme fixo
[não chove,]
sem lágrimas a saudade suicida-se a cada olhar
nesse abraço elevado a cada chegada, e beijas-me
[enquanto o comboio avança]
há essa incógnita que nos arranca do peito sorriso
enquanto as árvores se agitam na montanha
e as nuvens brindam o nosso encontro
os rostos beijam-se, e mãos dadas olhamos a distância…

sabes Maria, possuis em ti todas as consoantes, os sinais ortográficos…
em mim apenas as vogais, pontos de exclamações e finais…
ainda sim sei que te faço sorrir, enquanto tento contar enxames de abelhas
ou aqueles bandos de pardais inquietos…

deita-te comigo…
pelo menos hoje enquanto olhamos o céu…
olhemos juntos os amores prefeitos a abriram antes de ontem
e as tulipas… matemos a saudade… que ela morra eternamente…

nós que somos as minúsculas letras de um livro,
que juntos nos fazemos poema, também somos vida em galáxias de amor…

[que a liberdade nunca nos seja roubada,
para podermos juntos olhar o nada!]

Alberto Cuddel
27/02/2021 13:56
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXXVI

Vida aprisionada na liberdade de ontem

Vida aprisionada na liberdade de ontem

teria sido apenas ontem que nos amamos livremente
sem o julgamento dos olhares e o sol sob as cabeças
na partilha do fruto da videira espezinhado pelo homem
sem máscaras ali, diante do mundo, sem a cor que nos condena…

saudades dessa vida libertina de nos encontramos na rua
– seriamos nós, apenas nós, sem os medos à porta do hospital…

Liberdade, saudade dessa liberdade de escolha
De estar, de ficar, de olhar a luz do dia ao teu lado

Hoje nesta vida aprisionada na liberdade de ontem
Somos nós, escondidos e confinados do mundo

Mas hoje livremente escolhemo-nos, sem medos
Sem medo do julgamento estampado no rosto
De todos aqueles a quem a vida roubou a inocência…

Alberto Cuddel
26/01/2021 22:56
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIX

Foto cedida por :
João Gomez photography

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

“o poder é corrupto, eu? eu não… mas os outros sim…”

eles roubam, eu? eu não, aceito apenas o que é meu por direito…
eles são corruptos e fazem negociatas, eu não sou muito sério
apenas peço a um amigo para me tirar pneus mais em conta
à cunhada do meu primo para dar um jeito na consulta do hospital

eles não têm ética recebem subsídio de residência com casa em lisboa
eu não, recebo deslocação pelo meu posto de trabalho
mesmo morando a quinhentos metros…

eles andam montados em grandes carros pagos pelos nossos impostos
eu não, mesmo tendo carro prefiro deixá-lo no meu posto de trabalho
e andar três dias com o carro da empresa…

eles são uns ladrões… mas nós não, somos gente séria…

um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras —
‘oceânico’, por assim dizer, esse sentimento, acrescenta,
configura um facto puramente subjectivo, e não um artigo de fé;
não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal,
mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam
os culpados são os políticos e não a sociedade que os formou…
porque eles coitados nasceram assim, ladrões…

acusa, aponta o dedo, antes que eles te acusem a ti…

vai um favorzinho, ou por alguma excepção obtusa eu tenho direito?
que me importa se é ético ou moral, direito é direito…

quase me esquecia, mas os culpados são eles, os políticos…

Alberto Cuddel
24/01/2021 17:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVIII

Lilases como as rosas

Lilases como as rosas

houve um tempo em que os homens eram feitos de espinhos
em que as sementes nasciam-lhes das mãos, e a terra era fértil!

nos caules que se erguiam até ao tronco
corria a seiva da vida e o suor escorria
a vida mastigava-se à brilhante luz do sol
e o tempo marcava o compasso da existência…

depois esperou, olhou, caçou a herança do sangue
rasgou-lhe as carnes e o ventre, perpetuação…

matou pela posse, pelo prazer de ter
o desejo mata, destrói… moveu montanhas
revolveu entranhas, terras e mares
por esse adjectivado sentir: -amor
prazer a procriação…

lilases como as rosas, na finitude do querer
detalhe inalcançável, querer o que não pode domar…

revelou-se o poder, o jugo que pende sob o animal
esse desejo carnal que o faz bicho…
a mulher, escrava, aprende, a domar a fera
a subjugar o mal, que lhe nasce do ventre…

lilases como as rosas, há homens
que hoje, não matam,
já há homens que hoje, amam…

Alberto Cuddel
08/12/2020
10:40
Poética da demência assíncrona…

Se a distância se dobrasse…

Se a distância se dobrasse…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente…

beijar-te-ia a boca, loucamente,
até que implorasses por mim em ti…

irias beber-me a essência até a última gota
como se não existisse o amanhã…
beijar-te-ia depois, iria percorrer-te o corpo
cada recanto mapeado na língua
segurar os teus cabelos, e entrar em ti… todo…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente
toda a noite, a noite inteira…

que o amor se faça tesão
que o tesão se faça paixão
que a paixão se faça amor
que o amor se faça prazer
sejamos prazer e orgasmo…
mutuo e uníssono
como se os corpos se fundissem
num único prazer…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente

Tiago Paixão
05:10 10/12/2020
a fúria da saudade

Essa cascata de fogo que me arde na alma…

Essa cascata de fogo que me arde na alma…

inflamam-se as palavras aprisionadas na alma
nessa legião urbana que se eleva no olhar afiado da aguia
rebentam cascatas divinas em vozes de platina cantando Salomão
ó virgens de candeia acesa velai pelo vosso senhor…

há nos desertos áridos uma voz que clama
um turbilhão de desejos em dunas veraneias, uma toalha no chão
arde-me o pecado na garganta e o segredo contido
palavras que me rasgam o estomago,
nesse acido bater de asas de uma borboleta…

será amor esta dor que me corrói?
essa asia que me queima por dentro
sedentos pecados lívidos e carnais,
deste mesquinho impuro e pecador
ávido sedento de toques marginais
rasgam-se as túnicas ali, bem ali junto ao poço,
onde se evangelizou a impia, onde o pecado foi lavado…

sempre meditei como era absurdo que as palavras fossem aprisionadas na boca
onde a realidade substancial é uma série de sensações, houvesse coisas tão belas como o beijo e fosse tão complicadamente simples sentir, e tão difícil de o verbalizar…
a vida prática sempre me pareceu a menos cómoda
nesse desejo absoluto da mãe de todos os suicídios o silencio, morte anunciada da alma. não agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho, não escrever
não falar, não gritar ao mundo no grasnar de uma gaivota sempre me pareceu
um sonho arruinado e injustamente condenado pelo acto suicida do silencio…

escrever é objectivar sonhos, é criar um mundo exterior para prémio, é dar voz
aos pecadores que calam os sonhos…
podia nascer lua, surfar a crista de uma onda de prata, ser desejo ardente de um abeto
curvado ao vento… mas nessa cascata de fogo que me queima por dentro, há apenas o sonho, e essa voz que é pátria, que nos faz fado, que nos serve poesia em golos pequenos
que nos condena a nossa humilde condição de homens de sonhos, que nos condena a ser poeta… essa voz que me rasga por dentro, que se faz vida…
e depois somos apenas nós, tu que me cortas a alma em pedaços na leitura e eu, que vomitei palavras… pela dor que elas me causavam…

Alberto Cuddel
25/11/2020
02:30
Poética da demência assíncrona…

Essa insanidade que é morrer vivo…

Essa insanidade que é morrer vivo…

procuras o apogeu do nirvana no silêncio que cultivas
calas em ti esse turbilhão das palavras e ficas
ali na solidão acompanhada de um albatroz que plana
ao teu lado, como se na vida tudo fosse…
e ficas parado no movimento que te leva.

sopro de vento que se anuncia, silvo e a brisa no rosto
copa das árvores, abrigo, bando de asas fechadas
ardes por dentro ferrando os lábios, essa vontade de grito
e calas… tantas vezes calas o que dentro te revolta
até esse insuportável gemido de dor que te trespassa a espinha
mas aguentas, tu aguantas… enquanto isso ficas
na esperança da paz, enquanto no teu íntimo
geres uma guerra silenciosa que te levará…

há em nós essa insanidade de ir morrendo vivo
na esperança de ressurreição, de reencarnação longe
de um acordar em outro tempo, outro mundo
não tenho hoje memória, deste sonho?
quem sou de mim, de quanto quis ser eu.
nada de nada surge como memória do tempo que não foi vivido
podia nevar hoje, não deixaria de ser Primavera
por ser esse o tempo dela, podia ser Verão
mas nem os vivos lhe escaparão…

vivo o esforço inútil de adormecer, como se isso me aliviasse a dor
essa consciência de me saber, tempo em que me dou em penhor
roubando a vida, o que a morte reclama, dia após dia…
noite após noite…
essa insanidade de me saber a morrer ainda vivo…

Alberto Cuddel
22/11/2020
10:30
Poética da demência assíncrona…

Viagem pelo pensamento bígamo da consciência…

Viagem pelo pensamento bígamo da consciência…

eu procurei primeiro o pensamento,
li, reli, apreciei a textura das letras
eu quis, depois, a imortalidade…
esse tempo sem tempo onde nada se esquece…

um como o outro só deram ao meu ser
a sombra fria dos seus vultos negros
como se o caixão que envolve as folhas
forre amarado pela tinta das letras
encimado por laços de vírgulas…

na noite eterna longe dos meus braços…
eu procurei depois o amor e a vida
para ver se ali, diante dos abraços prometidos
esqueceria a dor deste social afastamento animal…

do pensamento e da ciência firme
da certeza da morte, essa eternidade do esquecimento
nova salvação na promessa da alma, o amor.
mas o amor, esse sentir de quem guardou a alma inteira,
e não podia haver amor para mim, eu já o consumia ávido…

depois na acção cega e violenta, onde eu
afogasse de vez toda a consciência
da vida, quis lançar meu frio ser em mares visigodos
nessa herança régia de quem luta pela independência da sobrevivência
sem amarras declaradas a ideias formatadas,
nesse tudo que sou e do seu oposto…
mora em mim um bígamo pensamento
entre o prazer e a dor de me dar
entre a saudade e a vontade de debitar
palavras e letras
versos e estrofes,
poemas e textos onde pairam as nuvens
espreitando o sol por de trás do luar…
ergam-se as lendas celtas das ruínas dos mouros castelos…
que meus versos sejam quadros dependurados numa floresta cinzenta
árvores de betão que ontem arderam
lidas por mascarados sem rosto com medo da morte…

Alberto Cuddel
13/08/2020
17:17

Poética da demência assíncrona…

Sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…

Sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…

sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…
como se a vida acabasse ali, debaixo do chão
depois de tudo e antes do amanhã,
e como se tudo o que tenho feito, pensado,
sonhado, imaginado, querido, não valesse nada…

talvez seja uma doença amar assim tão desconcertadamente
amar como homem, com os genitais…
talvez seja quente ou frio, mas não si o sabor da morte ou do seu beijo
não sei se ela me abraçará, sei que virá o silêncio…

é difícil descrever o que se sente, quando realmente se sente
é tão mais fácil e cómodo descrever o que se finge
não sei quais serão as palavras humanas as que usarei
sê é que usarei algumas para dar voz ao que sinto…
não sei se estou ou sou doente, mas habita-me um sarcasmo na vida
um desalento que ultrapassa os limites da minha individualidade
impondo limites colectivos a coisas que apenas são minhas
que morrerão em mim sem que as grite…

porém sou um homem normal, com normais doenças
– será à morte apenas um sono do qual não se acorde?
[será que sonhamos mortos?]
Há momentos em que cada pormenor vulgar tem toda a importância
Apenas pela sua vulgaridade, e pela singularidade da sua ocorrência
(como um beijo antes de ser dado, na desistência de o dar)
Fica a penas o desejo de o receber…

sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…
como se a vida acabasse ali, debaixo do chão
depois de tudo e antes do amanhã,
e como se tudo o que tenho feito, pensado,
sonhado, imaginado, querido, não valesse nada…
em que as paredes do meu reles quarto se fechassem sobre mim
e me absorvessem como matéria, e eu fosse apenas pó…
sem memória da existência do abraço que ficou por dar…

Alberto Cuddel
30/07/2020
00:50

Poética da demência assíncrona…

Todo o prazer é um vício

Todo o prazer é um vício
há na minha orquestra uma alma desafinada,
palavras silenciosamente fora de tom
uma maresia de um azul suave, sob o laranja das horas
o tédio que me houvesse imposto o destino grita
uma fadiga crónica incrustada no não-pensamento…

todo o prazer é um vício, uma corrida ampla pela satisfação
depois ao último ponto final a ressaca, as tremuras…

perco-me se me encontro, e pasmo-me
diante de uma palavra simples, tentando compreendê-la
absorver-lhe o som, os movimentos toscos da boca
a forma dos lábios, a contorções da língua…
e pasmo-me nessa beleza de me perder ali
diante do nada e do tudo, como se o vício morresse…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do tempo
desse que nos preenchia os abraços, desse que se fazia voz
desse tempo/palavra que se fazia poema, na mãe de todas as letras
de todas as palavras, esta a felicidade do vício, da repetição…

esperar? que tenho eu que espere, que me espere
se não escrever todas as palavras e todos os sons
e percorrer ruas e vielas e olhar as paredes e os céus
em todas as horas de todos os dias
para absorver o poema da rua direita
dessa que se entra pela esquerda e sobe…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do silêncio
esse onde se gritam surdamente todas as palavras
escritas pelos poetas,
e no pensamento dos que silenciosamente as mastigam…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do meu…

Alberto Cuddel
28/07/2020
19:15

Poética da demência assíncrona…

Espera

Espera
Um dia, uma noite,
Espera, dia após dia,
Um sinal, um querer, uma vontade,
Espera,
O despertar, o voltar a querer,
O querer amar, o querer sorrir,
O partilhar,

Espera,
O momento,
Aquele momento,
Espera,
Que no acordar,
Na troca de um olhar,
Um toque que te faz despertar,
Espera…
Quase desespera….
Mas espera…
Alberto Cuddel®
01/07/13, 10:30

Encontro

Encontro

Eram tantas as palavras
Soltas e perdidas nos lençóis
Esvoaçando por entre janelas abertas
Silenciadas nas paredes brancas

Estão por ai perdidas
Presas num olhar descuidado
Num raiar da aurora, num ribeiro corrente
Longe, distante, ausente

Os versos perdem-se na visão do mundo
As palavras extinguem-se na beleza do olhar
E os beijos, apenas nos mostram o doce paladar
Do sentir poético do amor
Mas até esse se perde a cada adormecer…

Alberto Cuddel
15/05/2017
17:32

Mãe, e o teu tempo?

Mãe, e o teu tempo?

De um amor gerado
Barriga inchada, crença, criança
Bendito seio que alimenta
Bendito amor na noite, tensa
As alvoradas de olhares pesados
Dentes e choros…

Mãe, e o teu tempo?
E mulher, quando por mim
Deixaste de ser apenas mulher?

Nunca foi escolha, apenas amor
Ter filho apenas é, amor!

Mãe, que Deus ilumina,
Na sua dura sina, no dar, no doar
Nas provações do educar
Que nunca ninguém ensinou!

Obrigado mãe, pelo amor,
Pelo teu tempo, pela alegria,
Pelo sofrimento, e pela dor!

Alberto Cuddel
10-05-2017

Mariposa

Mariposa

sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo
a vida passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
trespassada a alma arma branca, baioneta…

há mansidão da luz que se apaga
rastos de uma vida que foi
cruzam os céus cadentes estrelas
e desejos que se pedem pelos dedos
há um mundo perdido entre segredos e medos
e uivos fora de horas…
morcegos e mariposas…

há uma luz perdida no monte
e um monte de luzes enfrente
uma mão que me embala
uma voz que me acalma
uma avó que chama…
essa avó partiu…
as luzes não tem o mesmo brilho
as mariposas, não sei se lá vão…
sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo

Alberto Cuddel
01/06/2020
02:16
In: Nova poesia de um poeta velho

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: