O tédio das coisas simples

O tédio das coisas simples

às vezes quando olho a vida, escondo-me por detrás da sombra
por uma aversão às coisas inertes, que estão ali, porque sim

às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros que leio
coisas inventadas e a ausência de vida própria,
sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar,
ao erguer os olhos a uma luz falsamente adquirida
mas que transcende os números e realidade…
e vejo-me em viagens ao submundo da existência
ali, onde tudo é real e possível… onde podemos matar
onde podemos fazer nascer, onde nos podemos apaixonar…

a vida desgosta-me como um remédio inútil,
e é então que eu sinto com visões claras
como seria fácil o afastamento deste tédio
se eu tivesse a simples força de o querer
de possuir em mim a garra de deveras me afastar

já pensei emigrar para um livro em branco
e construí-lo com palavras novas por inventar
desenhar montanhas submersas de desejo
e rios secos de angústia… quem sabe escrever um massacre global
ou então não escrever nada, e simplesmente permitir-me
sonhar e sentir tudo, como uma primeira vez…
mas depois invade-me essa inercia da acção
esse tédio de olhar o mundo e ficar quieto…
cheio de ideias, mas imóvel…
apenas invadido pelo tédio,
olho, apenas olho, sem falar nada…
uma cadeira tem quatro longas pernas
e as minhas apenas duas doem-me…

Alberto Cuddel
06/10/2021
19:00
Alma nova, poema esquecido – XXXVIII

Tenho ganas de te foder todos os dias e também de noite…

Tenho ganas de te foder todos os dias e também de noite…

quero-te, é impossível não querer, amo-te, mas tenho vontade de te foder…
quero sentir-te, beber-te, quero-te sentir na língua…

não nessa consciência assoberbada do meu prazer
mas na virtude de te fazer contorcer a cada orgasmo
quero imiscuir o meu cérebro entre as tuas coxas
sentir na língua as tuas doces palavras gemidas na alma

que a cada metáfora fechemos os olhos
nesse movimento louco das águas
sejamos perpetuação das marés
cadencia, liberdade, eternidade feminina
libertemo-nos da opressão contida pelos trapos
soltemos os corpos ao prazer, sejamos alma…
liberta comigo a libido em laivos de poesia
empresta-me os teus lábios, abraça-me os versos
sejamos poetas do prazer, gemidos loucos
que se firmem as hipérboles e as antíteses
movimentos opostos em prefeito sincronismo…

sejamos de dia, de noite, ali, depois, agora ou já
fodamos… façamos amor com a alma…
amarremos os corpos em nós perfeitos
a alma em laços rubros, e descansemos depois…
abraça-me… comuniquemos com as mãos…
e fodamos de novo, outra vez, como sempre uma primeira vez…

a vida escorre-nos dos dedos sem tempo…
aproveitemos a loucura do tesão que nos é oferecido por Deus…
deixemos que os anjos cantem… a loucura de amar…
e depois… fodamos novamente…
sem pudor de ser prazer, orgasmo… gente…

Tiago Paixão
08:30 19/09/2021

Afúriadasaudade

Um quase poema

Um quase poema

Um quase poema desinspirado,
Nasce da aspiração inglória e vã,
Da mão tremula e teimosa do poeta,
Pela incauta vontade de escrever,
Na lembrança escritos passados,
Na busca constante,
Num horizonte distante,
Procura incerta,
Espera desconcertante,
Uma saudosa saudade,
Uma culposa vaidade,
Uma confissão prometida,
Um outro nome,
Uma outra vida,
Um querer absoluto,
Um desejo absurdo,
Um poema de amor,
O choro, prantos de dor,
Um peito aberto,
Um coração concreto,
Uma alma exposta,
Esperando em ti,
Ler uma mera resposta,
Questiono-te em mim,
Onde encontrarei em ti,
A minha morada, o meu fim….

Alberto Cuddel
02/10/2015

A vida que desconstruímos

A vida que desconstruímos

a vida é um caminho rustico sem destino traçado
e passamos pelo moinho, cruzamos pontes e rios
e segue-nos o céu, os dias e a s noites, e vamos
apenas pelo ter que ir, há quem nos empurre
em direção ao depois e ao precipício, ali, diante dos pés…

[…]
tenho sonhado muito, por entre esse arvoredo dos dias
de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer,
e esquecer não pesa e é um sono
sem sonhos em que estamos despertos.
em sonhos conseguimos tudo,
até fazer chover no deserto, ou rosas no teu regaço…
esse caminho que desconstruímos na travessia das dunas
nessas que se movem na noite ao sabor dos ventos
há um absurdo nesta vida real, onde sonhamos o desejo
nessa complexidade das relações humanas, na linguística
nesse querer negativo, nessa afirmação do não…
nesse jogo do prazer que é sem ser, sendo que não é…

e sonho, e sonhamos, e vivemos e acertamos
erramos, e caímos… e morremos, felizes por ter sonhado o impossível…
Sendo que ainda ontem nos amamos, ali junto ao vale
Depois do pinheiro hirto, mesmo antes da curva…
Lembras-te?… ou teríamos apenas sonhado de mão dada…

Alberto Cuddel
14/07/2021
09:15
Alma nova, poema esquecido – X

«Tudo é um momento – nada é verdadeiramente real!”

«Tudo é um momento – nada é verdadeiramente real!”

Tudo na vida são momentos,
Estórias e apenas alguns reais,
Momentos que ficam na memória!

Gota de orvalho, no lapso temporal,
Reflexo de teu alvo rosto espelhado,
Brisa que te agita, movimento liberal,
Terra molhada, brota envergonhado,
Horizonte longínquo, no sol nascido,
Acordam, revivem, da noite erguida,
Brotam flores em botão, amanhecido,
Força natural que renova toda a vida!

Tudo é instante, momento, inconstante,
Tudo é igual, diferente, ilusão, realidade,
Tudo é sentido, pressentido, excitante,
Tudo é uma mentira, engano, verdade!

Tudo é etéreo permanente, como a rosa,
Tudo é belo, completo, apenas instante,
Brisa do bater de asas de uma borboleta,
Peixe em poça de água na baixa maré,
Nada parece que é, e o tudo que parece,
Na nossa realidade nada foi, nada é!…

Tudo é sentido no momento,
Tudo nos parece ser natural,
No parco nosso entendimento,
Nada é verdadeiramente real!

Alberto Cuddel®
30/11/2015

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

O caminho segue amaldiçoado,
Por uma dourada ceara ceifada,
Toque da brisa Outubro na cara,
A manhã de Outono orvalhada!

Segue o destino da vida, o ciclo,
Do nascimento e morte, o vício,
De que no final tudo recomeça,
Temperada tarde de Primavera!
Cansado da solidão do pensamento,
Vive desgastando-se por dentro,
Na corrida perdida contra o tempo,
Desfilando palavras soltas no engodo,
Do engano sofredor do eterno perdão,
Lançado da busca da perfeição,
Buscando e redescobrindo o eterno modo,
Macabra e entediante dificuldade,
Na solidão encontrar uma saudade,
Conjunto dos tempos de felicidade!

Eterna contradição perdida da memória,
Num conflito interior de um pensamento,
Numa desfasada e nefasta ideia premonitória,
Que nos leva a este inevitável momento!

Noite esta que não desejei, ausente de mim,
Distante, na obscura luta da sobrevivência,
Noite de lúcidos pensamentos, divergentes,
Revoltantemente confusos, difusos no ser,
Entre o partir e o ficar, o sair a encontrar,
Entre a espada e a parede, desejos sem rede,
Noites estas de incúria, desmedido sentir,
Vivendo o feitiço da lua, nula sorte a tua,
Eu na noite, tu no dia, apenas um olhar,
Um sentir a amarga saudade, que noite,
Noite da saudosa aurora, do dia, encontro,
O doce toque do beijo, o calor de tua pele,
O parar o tempo e ficar, entre a despedida,
O doce e terno movimento do verbo amar!

Revolvo passados agindo pelo futuro,
Conforto de pensamento limpo e puro,
Por um presente em tudo diferente,
Vivido rodeado por muita outra gente!

Detém-nos a longínqua e ténue visão,
De alguém que recusa e diz não,
Que vencendo a morte se faz nascer,
Uma pequena flor em liberdade,
Na longa solidão da planície a crescer,
No aconchego deixando Saudade!..

Alberto Cuddel ®
01/12/2015

Alma rasgada pelos espinhos da vida

Alma rasgada pelos espinhos da vida

cravei a fogo em lapide inclusa
rip aqui jaz um poeta sem versos…

esperei como quem espera o tempo que basta
como se o amanhã fosse agora e já não houvesse segredos
as árvores agitavam-se adivinhando o futuro
e partiam as andorinhas… as cegonhas, ai as cegonhas
e as garças e os patos… todos partiam…
e eu? e tu… ficamos ali, indiferentes ao passado que mudou
a um presente que não existe, a um futuro perdido…

e calaram-se os versos…
teceram uma coroa com os silêncios
e coroaram-no de espinhos…
as palavras trespassavam-lhe a carne
as metáforas, queimavam-lhe a pele
e as ironias e hipérboles secavam-lhe a garganta…
pelas três da tarde, chegaram-lhe à boca um poema,
a custo declamou um verso e expirou…

a biblioteca adormeceu, rasgada ao meio
entre a dor da perda, e a certeza de viver nela tudo o que sobra…
a palavra ressuscitou o poeta…

Alberto Cuddel
11/06/2021
03:00
Alma nova, poema esquecido – III

Do nada…

Do nada…
Apenas quieto
Sem marcações
Partilhas, considerações
Nada, apenas palavras inquietas
Solitárias, vazias, paradas, quietas!

Sem qualquer chamada de atenção
Ilusão, despidas, amor, ou paixão
Apenas palavras, rimando sozinhas
Palavras grandes, medias, pequeninas
Sem conteúdo, sem nada, sem poesia
Desprovida de alma, cheia ou vazia
Será isto poesia, ou a partilha
Não vale pelo conteúdo mas pela vasilha?

Será o rótulo o importante?
O que chama atenção
Ninguém lê deveras o que escrito fora
Mas os olhos encontram tesão
Fisicalismo sem paixão
Apenas um chamamento corporal
Se assim fora, tudo vai mal…
Terrivelmente mal.
Quero ser poeta.
Não alguém que escreve o que não é lido
Mas alguém que dá tudo acabando vazio…

Alberto Cuddel®

13/01/2016

Poema pequeno

Poema pequeno

Um poema pequeno
Como as coisas pequenas
Pode conter coisas grandes
Ou metade
E acrescentar
Ou dividir
E somar!

Num poema pequeno
De palavras pequenas
Pode caber o mundo
Um ano ou um segundo
O já ou a eternidade
Ou a perda e a saudade!

Num poema pequeno
Cabem os pequenos poemas
Todas as palavras e temas
Puritano, um tudo obsceno,
Nele pequeno explanar
Cabe o mundano
O corriqueiro
O prazer
O insano
O ligeiro
Ou o saber!

Num poema pequeno
Sem muito dizer,
Dizemos tudo
Sem nada nele escrever!

No meu poema pequeno
Não quero dizer muito,
Apenas que o amor é pleno!

Alberto Cuddel®

05/04/2016

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos 

E depois de escrever calamo-nos, como se tivéssemos acabado de gritar todas as palavras para o papel, como que um despejar da alma… Depois vazios, calamo-nos…  

Olho aquela imagem reflectida no espelho, vazia… Desconheço-me… Não estou ali, estou nas palavras, na alma das vírgulas, nas pausas, nos silêncios…  

Perguntei-me de seguida, pelo resto das vogais que me sobram, onde nasceram as consoantes, que segredo o nosso de vivência sem contacto, onde nos sobra a tempo sábio e o outro sábio tempo onde obramos o pão dos dias? Que saudade tempo renova e matiza o querer diante do sofrimento que te imponho nas palavras segredo que lês? 

E gasto o restante silêncio cheio, em pensamentos vãos, sem um perdão, neste vazio que me enche…  

Mais que tudo deserdei-me do teu peito… Mas não chores, não acordes os passarinhos, não entristeças as flores, deixa que o sol te aqueça e abraça o dia… Quem sabe um dia, depois da madrugada, eu me volte a encher de palavras, eu me volte abrir, para te abraçar na plenitude do perdão que se faz com as mãos…  

Alberto Cuddel 
13/05/2021 
18:27 
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXII

Vento da vida de mim me escorre…

Vento da vida de mim me escorre…

Soprou a vida no alto da colina
A morte corre afoita pelo vale
De que me vale toda adrenalina
Os dias e a pressa que resvale
Se nada se me aproveita, morte
Tempo que de paz nada tem
Tempo construído e pouca sorte
E eu não me encontro em ninguém!
Soprou a vida um pouco de paz
A morte espreita enviesada
Cousas belas que o amor me traz
Vida mal vivida, mal tragada
Gasta no nascimento concedido
O mundo deixa-me quedo
Emprenhando a alma pelo ouvido!
Mas por impulso de vida
Não por cansaço ou medo
Não fico, estou de partida,
E o sol, que me morre no rosto
E o vento que me corre em morte
Há um que de graça no sol-posto
Uma rua suja, a húmida e corte…
Os pés rasgam-se nas solas
As mãos vazias, com fome
Tudo o que nos dão, esmolas
Sociedade hipócrita, consome…
Soprou a vida, e morreu
Assim como nos fez Deus
Não sou dia ou noite, eu
Apenas um sussurro, um adeus…

Alberto Cuddel
04/05/2021
18:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LVIII

Sinais

Sinais

na parede da esquina
a roupa estendida
assim saberás tu
se te espero ou não…

são sinais senhora…
a roupa estendida
cuecas fora de casa
e calças ao contrário…

vem…
contra a parede a costa esta livre…
ninguém percebe
ninguém viu
entra e serve-me
deixa-a satisfeita
sorridente espreita
não é vadia
não é da vida
aproveita apenas
a roupa estendida…

Januário Maria
21/01/2021
15:25

Foto cedida por :
João Gomez photography

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

“o poder é corrupto, eu? eu não… mas os outros sim…”

eles roubam, eu? eu não, aceito apenas o que é meu por direito…
eles são corruptos e fazem negociatas, eu não sou muito sério
apenas peço a um amigo para me tirar pneus mais em conta
à cunhada do meu primo para dar um jeito na consulta do hospital

eles não têm ética recebem subsídio de residência com casa em lisboa
eu não, recebo deslocação pelo meu posto de trabalho
mesmo morando a quinhentos metros…

eles andam montados em grandes carros pagos pelos nossos impostos
eu não, mesmo tendo carro prefiro deixá-lo no meu posto de trabalho
e andar três dias com o carro da empresa…

eles são uns ladrões… mas nós não, somos gente séria…

um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras —
‘oceânico’, por assim dizer, esse sentimento, acrescenta,
configura um facto puramente subjectivo, e não um artigo de fé;
não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal,
mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam
os culpados são os políticos e não a sociedade que os formou…
porque eles coitados nasceram assim, ladrões…

acusa, aponta o dedo, antes que eles te acusem a ti…

vai um favorzinho, ou por alguma excepção obtusa eu tenho direito?
que me importa se é ético ou moral, direito é direito…

quase me esquecia, mas os culpados são eles, os políticos…

Alberto Cuddel
24/01/2021 17:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVIII

Vestes que despes contra a parede do tempo…

Vestes que despes contra a parede do tempo…

nas paredes amarelecidas pelo tempo
as vestes que despes de uma alma nua
estendes marcos aos olhares do mundo
condenam-te as vistas que passam
pelas molas podres e o gasto da roupa…

corres pela rua acima, em portas e janelas fechadas
rotos que espreitam por detrás das cortinas
gente com medo da rua, com medo da vida
e estendes ao mundo as línguas de trapos
a bocas imundas de palavras porcas…

estendes ao sol
as vestes que despes contra a parede do tempo
em alma lavada corada ao tempo…
e esperas… que o tempo te seque…
calcorreando o empedrado da rua…
aprisionado entre paredes gastas…

Alberto Cuddel
21/01/2021 15:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVI

Veste-me de loucura…

Veste-me de loucura…

corta-me a lucidez e o discernimento e veste-me de loucura
trespassa-me a alma com açucenas, rasga-me de paixão…

cega-me com o movimento amplo das ancas em pleno voo
lambe-me longamente o ego com tulipas negras
calça-me os pés de troncos secos, e arrasta-me pelas areias…

há este fogo de céu, estas marés de sargaço que me abraçam
na loucura com que me vestes como nesse excesso de velocidade
de não cumprir as regras do código da estrada e voar…

veste-me da loucura de te odiar no amor que me inunda…

e depois de tudo, rasgas-me as vestes e afogas-me no ar da tua boca
expiras e inspiras gemendo longamente a dor que se crava pela saudade…

mas dói-me essa loucura com me vestes…
perdido que estou na indefinição do que sou…
há um orgasmo contido nessa metáfora chamada poesia…
e a loucura é apenas o reflexo de me pensar existir em ti…
enquanto tu és meramente sonho…

Alberto Cuddel
17/01/2021 23:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIII

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