Cegos sejam os poetas…

Cegos sejam os poetas…

cegos sejam os poetas aos sons da alma
na avareza insaciável do ego, palavras
perdem-se vidas nesse caminho de pedra
busca comprometida pelo julgamento alheio
nessa arte que pintas, nas estrofes que lavras
por um intrépido sorriso oculto e um tremer de lábio…

cegos sejam os poetas ao olhar do leitor
lançando nuvens de algodão em pântanos
ninguém te ouve, ninguém te escuta
e cavas fossos de interpretação na história
por deuses ortodoxos na natividade do olimpo…
e esse paraíso que te morre no submundo…

cegos sejam os poetas que constroem casas
e tento lar sem gente, vivendo na multidão
correm atras de um ponteiro que os ultrapassou
choram o tempo que lhes morreu por entre os dedos…
pancadas secas em lombos alvos sem culpa…
macho diziam…

cegos sejam os poetas aos dedos lerdos do prazer
e toda a miséria humana que os fazem perder…

vejam o mundo com novo olhar,
e cantem a beleza linguística
expondo as feridas da alma
que o mundo tenta calar…

Alberto Sousa
26-06-2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

O tempo que passou

O tempo que passou

cicatrizes que me marcam a alma
a pele envelhecida, o peso do tempo
não te via assim, despido de tudo
hoje olho-te, como antes não via
antes, era eterno, agora despeço-me
sempre e a cada dia.

carregas no corpo o peso do mundo
e eu? herança da conquista
que de ti fica…
não te sabia assim, velho
sorrindo cansado
cada dia
uma vitoria
tempo arrancado ao passado…

não te via assim,
como agora te vejo…
cansado, mesmo assim
amo-te…

Alberto Cuddel

Delação

Delação

na cobardia aponto o dedo
não escreves, escreves falsamente
na tacanhez da cobardia, acuso antes de ser
[condenado]
eu tantas vezes vil, tantas vezes culposamente

[criminoso]

corrompem-me copiosamente numa lágrima
dessa puras que nos nascem no íntimo
os silêncios mordem-me as canelas
a indiferença, (ai a indiferença, essa apodrece-me)

ardem velas e oram aos santos, malditos ateus
tudo pela imagem
( e batem no peito e clamam por santa barbara)
pobres, pobres actores das palavras doentes
e crêem, e choram, e tem pena do poeta
e ele, ele ri por dentro
e ama, como se alguém nunca assim tivessem amado
até ao fim,
até ao ponto de exclamação!

depois, depois apaixonam-se de novo
(outra mulher, outro poema)
condenem-me, enjaulem-me, sentenciem-me
mas eu, eu cobardemente irei delatar,
na cobardia aponto o dedo!

Alberto Cuddel

Prostituí-me

Prostituí-me

a cada poema a que empresto o prazer
a cada rogo pelo gozo de ler, de sentir
a cada palavra em que brilha o olhar
a cada fome de sentir, sem saber dizer
empresto de mim à alma e o partir
dou às letras uma nova forma de amar

Prostituí-me no sentir, amas-te, sem pagar
pelo prazer que te vendi ao emocionar
a rogo, um filho perdido, partiu antes de tempo
uma mãe a homenagear, um amor por declarar
uma vida perdida, a ofensa de chorar
a rogo um jardim sem flores, uma casa sem amores
e eu? eu Prostituí-me, pelo gozo de te ver chorar…

Prostituí-me, por de mim te dar prazer…
se era poesia ou não, sei que te fiz gemer
por entre os dentes, de voz embargada
isto sim é poesia, nascida da vida, por nada…

Prostituí-me, e muito mais de mim a rogo hei-de dar
vendo-me pelo o prazer de mais almas emocionar…

se é poesia? não sei, mas a vida é um poema…
vivido por quem ainda se emociona…

Alberto Cuddel

Degelo do silêncio

Degelo do silêncio

noctívago no dom de fecundar ecos
fornicam-se as palavras estéreis
orgasmos fingidos por sentires alheios…

[há uma lua nova que não guia]

raspam os pés exaustos na calçada
já não há fado como ontem
o vinho, o vinho não é o mesmo
ninguém me leva pela mão…
mas tu, tu esperas-me,

[há tanto tempo me esperas]

há na saudade não sei de que que ainda não vivi
uma esperança futura de um amanhã
degelo do silêncio gravado no céu da boca
esse grito:
é agora, finalmente é agora…

[há tanto tempo me amas, e eu?]

depois da queda, ergui-me pela tua mão
percorrendo novos caminhos
as palavras novas, apenas novas pelo silêncio
gritam agora, nasci…

[há tanto tempo podia ter ressuscitado]

Alberto Cuddel

PINTEI LAÇOS

Já fizeram o vosso rastreio ???

PINTEI LAÇOS

Pintei nos meus seios, laços cor de rosa
Que na minha carne ficaram gravados
Cerrei meus olhos tristes e cansados…
E senti-me adormecida e derrotada
Como se estivesse anestesiada…
Mas então encontrei
No exacto momento em que despertei
Os vossos braços que me amparavam…
Ai a Deus eu roguei
E vi as vossas mãos estendidas
Que com força me seguravam…
Com os olhos já bem abertos percebi
Que muitas tinham o mesmo laço pintado
E que mantinham o sorriso franco
No corpo mutilado…
Então busquei forças
Em vocês mulheres destemidas
Todas sabiam o que era sentir-se perdidas
Como quisera eu que o tempo me embalasse
E que no passado lá me deixasse
Antevendo o que iria acontecer
Mostrando que tinha de ser forte
E não deixar-me morrer !!!
Somos mulheres com uma relação especial
Não entende
Quem não tem um laço igual,
O Laço cor de rosa…

Por Carla Oliveira

Perfil da autora:

https://www.facebook.com/carlarecuperface

Pagina da autora: ( a mesma perdeu o acesso a ela)

https://www.facebook.com/CarlaOliveiraAVidaDePernasParaOAr

Dói-me saber…

Dói-me saber

doeu-me a notícia
servida fria, escrita, impessoal:
mórbido, nocivo, maligno…

e a vida desfaz-se ali, diante das mãos
entre um passo e o outro… sem forças…

doeu-me a falta do abraço, do apoio
doeu-me a falta de ti, a tua “indiferença”
doeu-me o medo de te deixar, o medo de partir
doeu-me ficar sem chão, sem reacção…

dói-me saber que esse bicho ainda macera
angustiante vida, ainda que viva, doí-me a alma
dói-me ficar aqui, ser cortada, esventrada,
mexida, alterada, dói que me arranquem…

doeu-me a recuperação lenta,
o tempo sem passar, a dúvida
a incerteza, a angústia de saber…
dói-me o isolamento, a dor cá dentro
bem fundo na alma…
dói-me a incerteza de um abraço
de um apoio baço…
dói-me deixar de lembrar
tentar esquecer, esta espada que pende
brilhante sob a minha cabeça…

aos doentes dessa terrível doença o cancro/câncer…

Alberto Cuddel

George Ionel

Objectivo

Qual é o objectivo de estarmos neste mundo se por vezes somos surpreendidos pelas partidas menos boas que a vida prega
Sentimos um aperto no peito, um aperto chamado saudade
Crescemos e aprendemos a valorizar aquilo que é mais importante na idade adulta o peso de sermos responsáveis por nós mesmos é sentido na pele apenas quando perdemos as pessoas que nos são queridas
A vida dá chapadas, mas ensina muita coisa boa
Imaginamos que nos sentimos sozinhos no mundo
Viver é o melhor que nos pode acontecer

George Ionel
06-06-2022

Não me peçam razões

Não me peçam razões para perceberem quem sou.
Sou um comboio que anda por aí.
A viajar por estradas desconhecidas, e caminhos apertados
Com pressa de chegar ao seu destino.
Porque tem alguém à espera do seu abraço e do seu carinho.
Sou um comboio que anda perdido no meio da escuridão.
Sou um comboio que procura novos desafios.
Mas pelo caminho não encontra gente para partilhar o que sente.

George Ionel
20-02-2022

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Conheci este autor hoje, e a sua força a sua vontade mostrou-me a capacidade humana de superação!

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Ontem choveu

Ontem choveu

tantas vezes choveu ontem,
mesmo assim com chuva saio de casa,
percorro ruas e vielas, passeios estreitos,
mas não procuro ninguém,
o meu olhar hoje não te procura,
porque ontem choveu,
e eu sei onde estás, onde estavas,
onde te encontrei
e te deixei à espera,
há minha espera.
ontem choveu,
e eu não te procurei…

Alberto Cuddel

Sustenho no peito o teu sonho!

Sustenho no peito o teu sonho!

cai em mim o silêncio das estrelas
a noite escorre pelas paredes do quarto
ouço-me, no profundo e vazio silêncio
correm longe as palavras nos teus lábios
dormes, sustentadamente no meu peito
sentir que te emana da alma, ilumina-me
corres pelos sonhos,
como te vagueiam as mãos,
pelo meu corpo despido…
na tua companhia, estou só, sozinho,
acordado sustentando teu sonho!

Alberto Cuddel

Memória… e tu…

Memória… e tu…

há nas paredes negras a memória desse gemido
esse querer abafado na alma, essa saudade estranha
e essa luz, que te emana da alma despida…

sob o olhar límpido do teu corpo desnudo
brilha-me a alma nesse desejo de palavra
essa vontade férrea de calor humano
esse desejo reprimido pela lente, e tudo igual, e tudo diferente…

escorre pelas paredes verticais esse passado de ontem
essa fome da alva pele que se resigna…
e vejo-te ali… de candeia na mão… esperando…
iluminando a ténue esperança, essa que te irá vestir de mim…

seja a porta fuga e a janela vontade…
seja o chão que pisas segurança
seja a tua mão chamamento…
seja o teu beijo jura
e o teu corpo confirmação…
que a luz que de ti brota, jamais se apague no teu olhar…

Tiago Paixão
15/06/2022

Modelo : Cecília Amaro

Instagram: https://instagram.com/_cecilia_amaro_1977?igshid=YmMyMTA2M2Y=

Foto de: Carlos Caneira Fotografia

Instagram : https://instagram.com/carlos_caneira_fotografia?igshid=YmMyMTA2M2Y=

Circulam

Circulam

na solidão apressada da noite,
ouço gritos ensurdecedores da multidão,
caminho solitariamente, rumo ao desespero,
muro erguido entre cada homem,
ego diabólico de umbigo erguido,
desespero para que escutem,
para que parem, olhem a seu lado,
irmãos, nem de sangue,
percorrem apreçados
estranhos caminhos circulares
que jamais levarão a lugar algum
espezinhando quem tristemente
cai à sua frente pelo caminho!

Alberto Cuddel

Poesia oculta…

Poesia oculta

pudesse eu fechar-me em mim próprio
construindo paredes perfeitas,
pedras finamente cortadas, empilhadas
que afastasse de mim a luz e o mundo!

pudesse eu ser apenas verso
apenas rima e poesia, enclausurado
nas frias e secas palavras despidas
engavetado no mofo de fechadas gavetas!

pudesse eu ser segredo oculto da branca beleza
em folhas negras escritas a branco,
em folhas brancas escritas a negro,
tinta seca, palavras arrastadas e nunca lidas!

pudesse eu…
mas arrasto-me pela devassidão dos olhares
pela interpretação de humanos ávidos e sedentos
eles que vasculham as letras, os espaços, os silêncios
procuram-me a essência, o âmago, procuram-me
esperam encontrar-me a alma, a calma,
a devassidão prazerosa da vida, a fórmula do amor,
o mapa da felicidade, ou apenas ler-me,
compreender-me no acto altruísta que de mim
dou-me ao escrever-me nos seus pensamentos!
sem nunca me entregar…

pudesse eu ficar fechado numa gaveta,
poder até podia, mas seria eu apenas e só
e a falta da doce luz de ser poesia!

Alberto Cuddel

Liberta-me…

Liberta-me…

deixa que em ti me liberte
que em ti me faça e seja eu…

que a vida nos escorra entre as pernas
que a fome se faça viagem consumada
quero-me palpável nessa distância de sopro
fazer-me febre no teu corpo
ser fonte de água na dança das almas…

liberta-me da volatilização do desejo
nessa força concêntrica do beijo

sejamos eternos, nessa efemeridade do sentir
e sente-me, prendendo-me a liberdade em ti
quero-me em ti nessa prisão de ser livre

que o sexo nos alimente, para que o amor transborde
misturemo-nos… nesse risco dos ritmos certos
enquanto as orquídeas me massajam a língua…
sejamos sangue que nos flui, abrindo poros
que as hormonas saltitem
faíscas que nos brotam dos dedos…

liberta-me, pois não há maior liberdade que amar…

Tiago Paixão
13/06/2022

afúriadapaixão

Neste líquido desejo

Neste líquido desejo
Não é a visão do meu corpo que te excita, não, não é…
Tão pouco as suaves palavras que te sopro, ou o emaranhado de beijos nas línguas que se degladiam… Ou o toque no teu corpo, o calor das mãos, a forma doce ou apressada que dispo, que te tacteio a pele… Não é isso que nos enlouquece… Nem a forma louca em que colo a minha boca ao teu querer entropecendo-te os sentidos quase até ao desespero… Não, não é por isso que nos queremos mais e mais, uma e outra vez…
É alma, é sentir, e vontade de um só existir, um só prazer, uma só doação…
Um prazer líquido que se dilui nas noites, nos corpos, na vontade, na libido…
E depois, depois é tudo, quantas vezes um só beijo, mãos dadas olhando o depois nos olhos um do outro, em conversas longas… Desejando que o tempo pare, novamente…
Tiago Paixão
06/03/2019

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