Sinais

Sinais

na parede da esquina
a roupa estendida
assim saberás tu
se te espero ou não…

são sinais senhora…
a roupa estendida
cuecas fora de casa
e calças ao contrário…

vem…
contra a parede a costa esta livre…
ninguém percebe
ninguém viu
entra e serve-me
deixa-a satisfeita
sorridente espreita
não é vadia
não é da vida
aproveita apenas
a roupa estendida…

Januário Maria
21/01/2021
15:25

Foto cedida por :
João Gomez photography

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

A expiação da culpa e o escarnio da culpa alheia…

“o poder é corrupto, eu? eu não… mas os outros sim…”

eles roubam, eu? eu não, aceito apenas o que é meu por direito…
eles são corruptos e fazem negociatas, eu não sou muito sério
apenas peço a um amigo para me tirar pneus mais em conta
à cunhada do meu primo para dar um jeito na consulta do hospital

eles não têm ética recebem subsídio de residência com casa em lisboa
eu não, recebo deslocação pelo meu posto de trabalho
mesmo morando a quinhentos metros…

eles andam montados em grandes carros pagos pelos nossos impostos
eu não, mesmo tendo carro prefiro deixá-lo no meu posto de trabalho
e andar três dias com o carro da empresa…

eles são uns ladrões… mas nós não, somos gente séria…

um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras —
‘oceânico’, por assim dizer, esse sentimento, acrescenta,
configura um facto puramente subjectivo, e não um artigo de fé;
não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal,
mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam
os culpados são os políticos e não a sociedade que os formou…
porque eles coitados nasceram assim, ladrões…

acusa, aponta o dedo, antes que eles te acusem a ti…

vai um favorzinho, ou por alguma excepção obtusa eu tenho direito?
que me importa se é ético ou moral, direito é direito…

quase me esquecia, mas os culpados são eles, os políticos…

Alberto Cuddel
24/01/2021 17:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVIII

Vestes que despes contra a parede do tempo…

Vestes que despes contra a parede do tempo…

nas paredes amarelecidas pelo tempo
as vestes que despes de uma alma nua
estendes marcos aos olhares do mundo
condenam-te as vistas que passam
pelas molas podres e o gasto da roupa…

corres pela rua acima, em portas e janelas fechadas
rotos que espreitam por detrás das cortinas
gente com medo da rua, com medo da vida
e estendes ao mundo as línguas de trapos
a bocas imundas de palavras porcas…

estendes ao sol
as vestes que despes contra a parede do tempo
em alma lavada corada ao tempo…
e esperas… que o tempo te seque…
calcorreando o empedrado da rua…
aprisionado entre paredes gastas…

Alberto Cuddel
21/01/2021 15:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XVI

Veste-me de loucura…

Veste-me de loucura…

corta-me a lucidez e o discernimento e veste-me de loucura
trespassa-me a alma com açucenas, rasga-me de paixão…

cega-me com o movimento amplo das ancas em pleno voo
lambe-me longamente o ego com tulipas negras
calça-me os pés de troncos secos, e arrasta-me pelas areias…

há este fogo de céu, estas marés de sargaço que me abraçam
na loucura com que me vestes como nesse excesso de velocidade
de não cumprir as regras do código da estrada e voar…

veste-me da loucura de te odiar no amor que me inunda…

e depois de tudo, rasgas-me as vestes e afogas-me no ar da tua boca
expiras e inspiras gemendo longamente a dor que se crava pela saudade…

mas dói-me essa loucura com me vestes…
perdido que estou na indefinição do que sou…
há um orgasmo contido nessa metáfora chamada poesia…
e a loucura é apenas o reflexo de me pensar existir em ti…
enquanto tu és meramente sonho…

Alberto Cuddel
17/01/2021 23:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIII

Na pressa de ser já

Na pressa de ser já…

Não espero amor… não sei esperar
Amamos, queremos que seja agora
Que seja já…
Deixa vestidas as vestes, uma abre-se
Outra arreda-se…
O amor não tem hora, no desejo
Que seja já, que seja agora…
Deixa que te ame na pressa
Na vontade de estarmos
De nos unirmos e fundirmos
Único sentir, único viver
Único movimento, único prazer…
Na pressa de ser já, não há hora,
Que seja vontade, desejo, amor
Que seja, razão, paixão, tesão
Que seja já, que seja agora…
Fodamos, satisfaçamos esta fome
Este tesão louco que nos consome
Que nos trespasse a alma o orgasmo
Gritemos juntos o prazer
De nos foder mutuamente…
Ama-me… Loucamente
Sem qualquer pudor…


Tiago Paixão
18/01/2018
19:21

Na loucura furiosa do sonho…

Na loucura furiosa do sonho…

fossem nas memórias sentidas como reais
esse louco tesão do pensamento entre odores e desejos
todas as imagens loucamente imaginadas
sentida nas palavras partilhadas, no toque dos dedos
quero-te aqui, apenas aqui, sem esperança vã
sem pensar o amanhã ou o depois
quero-te amar, na loucura do sexo
quero foder-te, oferecer-te todo o prazer
esse que sentiste e todo o outro que desejaste…

quero arrancar-te do pensamento
quero o teu cheiro no corpo,
o teu sabor nos meus lábios
o teu gozo na minha boca
quero-te minha, apenas minha
e arrancar do meu corpo
da minha alma, dos meus dedos
esta saudade que doi, que magoa e chama…

quero que o mundo se cure
que a nossa paixão perdure
que o corpo se rejuvenesça
que eu ame e peça
quero-te toda, de alma e vida
quero-te minha
dono e senhor de todos os teus orgasmos…

Tiago Paixão
16:58 06/01/2021
a fúria da saudade

Somos

Somos

Eco da palavra pensada
Eco da palavra fingida
Eco da palavra sentida
Palavra, verso, poesia!

Rima, parelha, saudade
Letras, sentir, verdade,
Poema, som decorado
No coração gravado!

Somos poesia,
Do dia a dia,
O poema da nossa vida!

Alberto Cuddel

28/06/2016

Um poder misterioso

Um poder misterioso

entre aquilo de que é feito
e o seu feitio, o porte…
essas escadas que não dão para porta nenhuma
a não ser para a janela da dispensa da casa da tua vizinha
e que subo devagarinho numa esperança vã
como que num golpe de sorte lá fosses pedir açúcar…

e depois as andorinhas não voltaram
e não partiram as cegonhas
e os flamingos nunca mais foram vistos
e o tempo ficou seco
como secos estavam os meus olhos
que fitavam o fim da estrada
sem que chegasses…

há um poder misterioso
nesse pedaço de peito
que levaste contigo
fazes me falta sabias?
fazes-me falta…
mesmo que nunca tenhas sido minha…
mesmo que eu nunca to tenha dito
fazes-me falta
andorinha…

Alberto Cuddel
01/01/2021 16:07
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VII

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

Temo que o erro não seja uma inaptidão para a assertividade
Mas uma constante desconcentração visual pela a exactidão do pensamento…

Criticamente escrevo mais lentamente do que a velocidade do pensamento
E voam os dedos no teclado minúsculo, ou no desenho artístico das letras
Nessa inadaptação ao querer que seja já sendo o que foi
Penso que pensar não seja arte, mas uma ferramenta técnica de vida
Pensar é num acto simples estar vivo…
Sendo a poética a arte da inutilidade linguística
O deslumbramento frásico sobre a beleza da curvatura das vogais
Em pleno acto isolado de voar no céu da boca
Assim são as opiniões estabelecidas
E o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões.
Como estão cheias de árvores as florestas ou deixaram de o ser.

Ser poeta é:
Ter a arte e o engenho de perder tempo, nesse tempo que não tem
Enquanto rodeado de ninguém observa um pássaro que nada num céu sem estrelas
Enquanto Santo António prega sem martelo sermões às sardinhas
Que num acto de misericórdia divina
Foram condenadas por bruxaria à expiação dos pecados pelo fogo…
Ser poeta é amar todo o universo contido numa gota de água que cai
E encontrar num lago a gota de chuva perdida…
“É amar assim perdidamente” todo o mundo e toda a gente
É olhar a alma por dentro e descobrir que não tem cor
Nem raça ou credo… e que os deuses se revoltam
Por não terem uma cerveja gelada…

E neste acto glorificado pelos canos das espingardas
Que deram liberdade aos cravos…
Os poetas morrem… enjaulados pelas prateleiras poeirentas da biblioteca…
Sem que as palavras mudas gritem em pleno Rossio…
Há vida para lá da rima… o poeta, fugiu…

Alberto Cuddel
29/12/2020 03:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VI

Poética da demência assíncrona…

Poética da demência assíncrona…

há na realidade do pensamento humano,
uma essência flutuante e incerta,
tanto na opinião primária,
como em todas as outras pensadas
longamente na visão platónica do mar
como naquela outra que lhe é oposta,

as hipóteses do pensamento são em si mesmas instáveis
nesse rasgo visionário de um por do sol
ou no rasgo matutino gemido de um parto malformado
em dias de neblina pelo sol que se ergue no horizonte
no olhar não há síntese, pois, nas coisas da certeza,
apenas existe a tese da antítese apenas.

seja a areia do mar, registo flutuante do tempo
do que vai e do que vem, sem ter chegado a ser vidro
na síntese penso que sinto, e no que sinto sei o que finjo
na certeza do que é em mim, é verdadeiramente concreto
no que da minha alma brota, que em meu íntimo sangra…

nem os demónios me aceitam no convívio sádico da expressão
nem as rimas gritadas na dorida alma que orgasmicamente sente
nem no pensar concreto da consciência poética existe síntese
nem nas vogais, nas consoantes, nas orações desenhadas
só os deuses, talvez, poderão sintetizar este sentir atrófico
que finjo ser mentira de tão verdadeiramente sentido
num formigueiro que dolorosamente me percorre os dedos…

este pensar a poética pelo que alegremente se sente
numa consciência pagã do que se pode fingir
sentido que o que se escreve é ingenuamente a verdade da mentira…

Poética da demência assíncrona… ou a consciência da verdade…

Alberto Cuddel
24/12/2020
08:55
Poética da demência assíncrona…

Lanço poemas

Lanço poemas

Em tudo o que faço e refaço.
Meus pedaços em troca de laços
Dar o que em mim ainda há
Tanto sofro como choro
Tanto rio como sorrio!
De que me afasto se me basto
Chega! Agora basta!

Odes delirantes de alfobres
Berçários de versos, reversos
Saudades…
Amores, paixões, desejos profanos,
Sonhos e dores…
E arde em silêncio a candeia
Que me ilumina e incendeia
Chama que dança –lua cheia,
Triste e amargurado poeta
Por onde arrastas teus versos
Peregrinos, lançados pela janela
Ao colo de uma donzela,
Sofre em si abstinência do corpo
Lágrimas que lhe correm no leito
Pelos tremores do desejo,
Tudo por nada, apenas por um beijo!

Ai poema, poema,
Onde me levas, debruado na noites
Em cama de estrelas, sonho vê-las,
Palavras soltas, directas, concretas,
Rimando apenas na beleza do seu busto,
Nos versos procuro e rebusco, o sim,
O não, o amor, a paixão, ou apenas a visão
De te ver passar mais uma vez,
Lançando-te poemas para o colo!

Alberto Cuddel®
15/07/2016

Lilases como as rosas

Lilases como as rosas

houve um tempo em que os homens eram feitos de espinhos
em que as sementes nasciam-lhes das mãos, e a terra era fértil!

nos caules que se erguiam até ao tronco
corria a seiva da vida e o suor escorria
a vida mastigava-se à brilhante luz do sol
e o tempo marcava o compasso da existência…

depois esperou, olhou, caçou a herança do sangue
rasgou-lhe as carnes e o ventre, perpetuação…

matou pela posse, pelo prazer de ter
o desejo mata, destrói… moveu montanhas
revolveu entranhas, terras e mares
por esse adjectivado sentir: -amor
prazer a procriação…

lilases como as rosas, na finitude do querer
detalhe inalcançável, querer o que não pode domar…

revelou-se o poder, o jugo que pende sob o animal
esse desejo carnal que o faz bicho…
a mulher, escrava, aprende, a domar a fera
a subjugar o mal, que lhe nasce do ventre…

lilases como as rosas, há homens
que hoje, não matam,
já há homens que hoje, amam…

Alberto Cuddel
08/12/2020
10:40
Poética da demência assíncrona…

Se a distância se dobrasse…

Se a distância se dobrasse…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente…

beijar-te-ia a boca, loucamente,
até que implorasses por mim em ti…

irias beber-me a essência até a última gota
como se não existisse o amanhã…
beijar-te-ia depois, iria percorrer-te o corpo
cada recanto mapeado na língua
segurar os teus cabelos, e entrar em ti… todo…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente
toda a noite, a noite inteira…

que o amor se faça tesão
que o tesão se faça paixão
que a paixão se faça amor
que o amor se faça prazer
sejamos prazer e orgasmo…
mutuo e uníssono
como se os corpos se fundissem
num único prazer…

se a distância se dobrasse
amar-te-ia longamente

Tiago Paixão
05:10 10/12/2020
a fúria da saudade

Sem outra palavra que não seja semente…

Sem outra palavra que não seja semente…

Sem outra palavra que não seja conhecimento
Sem outra semente que não seja mantimento
Há um mar registado na terra
Essa saudade que fica da rede e no anzol
Sob sete palmos de solo…

Portas fechadas à vida
E mulheres visitadas
E um poço ali diante da conversão
Deixada a semente, água e fonte eterna

Quando se é palavra e noite há uma lua feiticeira que nos vela
E pedra atirada que se faz angular
As letras fazem-se luz, germinam, crescem, irão florir
E as palavras amadurecer-se-ão semente…

E o amor?
Esse será alimento,
Chuva e sol
Na sementeira do poema…

Alberto Cuddel
28/11/2020
02:30
Poética da demência assíncrona…

Essa cascata de fogo que me arde na alma…

Essa cascata de fogo que me arde na alma…

inflamam-se as palavras aprisionadas na alma
nessa legião urbana que se eleva no olhar afiado da aguia
rebentam cascatas divinas em vozes de platina cantando Salomão
ó virgens de candeia acesa velai pelo vosso senhor…

há nos desertos áridos uma voz que clama
um turbilhão de desejos em dunas veraneias, uma toalha no chão
arde-me o pecado na garganta e o segredo contido
palavras que me rasgam o estomago,
nesse acido bater de asas de uma borboleta…

será amor esta dor que me corrói?
essa asia que me queima por dentro
sedentos pecados lívidos e carnais,
deste mesquinho impuro e pecador
ávido sedento de toques marginais
rasgam-se as túnicas ali, bem ali junto ao poço,
onde se evangelizou a impia, onde o pecado foi lavado…

sempre meditei como era absurdo que as palavras fossem aprisionadas na boca
onde a realidade substancial é uma série de sensações, houvesse coisas tão belas como o beijo e fosse tão complicadamente simples sentir, e tão difícil de o verbalizar…
a vida prática sempre me pareceu a menos cómoda
nesse desejo absoluto da mãe de todos os suicídios o silencio, morte anunciada da alma. não agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho, não escrever
não falar, não gritar ao mundo no grasnar de uma gaivota sempre me pareceu
um sonho arruinado e injustamente condenado pelo acto suicida do silencio…

escrever é objectivar sonhos, é criar um mundo exterior para prémio, é dar voz
aos pecadores que calam os sonhos…
podia nascer lua, surfar a crista de uma onda de prata, ser desejo ardente de um abeto
curvado ao vento… mas nessa cascata de fogo que me queima por dentro, há apenas o sonho, e essa voz que é pátria, que nos faz fado, que nos serve poesia em golos pequenos
que nos condena a nossa humilde condição de homens de sonhos, que nos condena a ser poeta… essa voz que me rasga por dentro, que se faz vida…
e depois somos apenas nós, tu que me cortas a alma em pedaços na leitura e eu, que vomitei palavras… pela dor que elas me causavam…

Alberto Cuddel
25/11/2020
02:30
Poética da demência assíncrona…

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