Tudo é uma corrida do tempo…

E tudo é uma corrida do tempo…

“tudo me interessa e nada me prende.
atendo a tudo sonhando sempre;
fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo,
recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos”

e tudo porque tenho o tempo que não tens
esse que gastas sem ter a noção que o perdes
sem nunca o ter perdido por não ser teu o tempo

perdes a noção de humanidade, corres para chegar
sem perceber que na corrida a meta se afasta
olhas o teu umbigo, não percebendo que todos tem um mesmo destino
não olhas a paisagem, o lado de dentro das coisas
sentes o beijo, mas não dialogas com a alma que o ofertou…

desejas chegar, partir, nunca amas estar, produzir
desejar ter, mas esqueces de ser…
e tudo é uma corrida contra o tempo
esse que perdes sem viver, sem olhar o caminho
sem apreciar a paisagem, sem sentir o calor da mão
que a tua segura… conduzes depressa,
comes depressa, dormes depressa, cresces depressa
para ter o que perdes… e iras perder o tempo que tentas ganhar
porque depois… depois não terás tempo…
tão pouco esperança…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada
22/12/2021

Amanhecer em mim

Amanhecer em mim

sou, despido de qualquer capa,
definho na tua ausência,
anoiteceu em mim,
na falta da tua luz,
no gélido querer,
corpo coberto pelo teu,
espero em vão na noite,
certo que amanhecerei em ti,
quieto, palpitante coração,
sôfrego choro, clamor,
arde por dentro, saudade,
conto horas, minutos, segundos,
na memória, o beijo, e o estrondoso,
ruído do bater da porta,
fechou-se em mim,
consciência de não te ter,
velas que ardem em silêncio,
num corpo mal despido,
trémulo, ressacado pela falta,
pela abstinência do teu,
teu calor, tua paixão,
teu amor…
fico, tremendo na espera,
que amanheças em mim!

Alberto Cuddel
Sedução e Erotismo – 25
24-08-2015

Há quem sofra, e eu? Eu não…

Há quem sofra, e eu? Eu não…

aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio,
ponho-a eu no exame das minhas próprias dores,
nessa comparação tosca das minhas com as deles…

ante o que me doi e o que te doi,
desdenho das tuas, mas jamais as minhas ofereço
tenho o dom de sofrer, às vezes silenciosamente
quieto, sem inquietar, mesmo que apenas me doa a alma…

dói-me que alguém sofra pela minha dor
pelos meu sofrimento… prefiro ser a montanha
essa cápsula que guarda dentro de si um vulcão
sobre uma estrutura cerebral gélida… impassível…

abstraio-me das necessidades humanas
das necessidades de homem, de alma…
deixo que tudo seja o que desejam que seja…
anulo-me na nulidade da existência sofrida
mas são aparentemente felizes…
e eu aparentemente não me doi
e aparentemente não sofro…
tudo porque me revolta
aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio…
dói-me essa alegria mesquinha diante da dor do outro…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

16/12/2021

Sonho corrido!

Poesia,
Gritos ecoam por entre neurónios entorpecidos,
Dormentes do cansaço, as palavras que rodopiam,
Doem mastigadas, impeditivas do repouso, do dormir,
Reescrevo vezes sem conta todos versos já escritos!

Palavras,
Seguem compassadas numa absoluta perfeição,
Nascem, uma após outra e seguem a sucessão,
Formando orações, frases, versos, poemas intermináveis!

Amor,
Combustível que me move, na vontade de seguir,
Elo inabalável da vontade de permanecer na união,
Na total comunhão da alma, compreensão dos corpos,
Fio condutor da linha da vida, partilhada na imortalização,
Das palavras decididas, assumidas no desejo uno!

Queda,
Solidão momentânea na tristeza que inunda o ser,
Imobilidade, sem desejo, querer ou vontade,
De se mover psicologicamente para longe do abismo,
Curiosidade mórbida de entender a mecânica
Do passo em direcção ao nada!

Fuga,
Corrida a passos largos sem sair do lugar,
Escondendo fino desejo de parado ficar,
Tudo roda em tua inquieta permanência,
Apenas o sonho te leva para longe deste lugar!

Sonho,
Ai o sonho,
Se sonho durmo,
Se durmo descanso,
Se descanso posso parar,
Se paro para quê mais pensar,
Se não penso para quê mais escrever,
Intermináveis versos sem sentido, num sonho agora tido!

Alberto Cuddel
01/04/2015

No sopro de uma brisa,

No sopro de uma brisa,

Despi-me de ti,
Desnudei meu ser e esperei,
Me abrindo, te abracei,
No suave encanto de um dente-de-leão,
Soprado ao vento, chegando ao coração,
Espalhando sementes, em fértil ser,
Querendo mais, querendo saber,
A razão do encanto, a razão da paixão,
Que feitiço é esse em que me prendes,
Em que querendo conquistar,
Sou completamente conquistado,
Em que querendo seduzir,
Sou seduzido,
Em teu jogo, em teu enredo,
Em que fugindo, me esperas,
E esperando, me afastas,
Deveras em teu jogo estou viciado,
No vício da paixão, me sinto amado,
E fico descansando em teu aconchego,
Partilhado contigo a vida,
A tristeza, alegria…
Renovando a cada dia,
A chama que nos alimenta,
Neste jogo, nesta partilha…
Que é o Amar metade de nós…
Sendo um…

Alberto Cuddel
01/04/2015

Desumanizado…

Desumanizado…

desflori os lírios e aprisionei as borboletas
a vida é uma bicicleta sem corrente
uma clareira de uma floresta abatida
um rio seco de pedras polidas na espera da enxurrada…

depois um tempo sem história, sem crença e sem memória
um tempo sem sentir, inerte, tosco, e sem suprir…
as calçadas apenas caminhadas sem destino
apenas a chegada a um lugar vazio, talvez porque sim
o contrário será exactamente o mesmo, porque não?

perde-se essa vontade de vida, uma eutanásia da alma
o corpo vive pela massa carbónica…, mas as ideias?
essas morreram, perderam o sentido, a existência do caminho…
já não são, já não eram, e ficam-se por ali
essa virtude defeituosa chamada desejo…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

11/12/2021

Visto-me de rasgos de lucidez

Visto-me de rasgos de lucidez

entre o tempo morto que perco
e esse outro em que me condeno
visto-me de escolhas em cada defeito
entre um céu nublado e outro encoberto
serpenteio as gotas que caem e as que molham
caminhando por estradas lamacentas
realidade suja e ordinária na falsidade
tudo parece o que não é…

rasgas silêncios em palavras gritadas
pelas verdades sentidas, escondidas
nunca proferidas ou ditas, gemes em silêncio…

(onde moram as honestas declarações)
perfidamente confesso-me sentenciando-me
por verdades omitidas e mentiras ditas
sentimentos fingidos e outros sentidos
outros omitidos na alma, no silêncio escuro…

(onde me escondo? de quem?)
na poesia finjo ser quem não sou
sendo verdadeiramente o poeta que escrevo
nesta irrealidade das palavras sinto-me
na verdade, sou mentira, que inscrevo
sendo que a verdade é…
(quem de mim dirá o que sou,
sendo eu nada, sempre posso ser tudo)

percorro estradas vazias cheias de gente triste
penso, medito chuto pedras quadradas
morro? parto? perdoo-me?

entre um rasgo de lucidez e um corte nos pulsos
tatuo no peito um desejo… amor… e perdoo-me!

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

22/11/2021

Mulher!

Mulher!

Segura de si, firme vontade,
Confiante no teu estado de mulher,
Sabes quem és, sabes ser,
Firme aura que teu ser emana,
Inviolável perseguição ao sonho,
Azul celeste que em ti perdura,
Luz que reflecte a contagiar,
Agir, transformar, acreditar,
Olhares que te seguem,
Que te perseguem,
Trono divino da humana criação,
Ventre perfeito, humana geração,
És jardim florido na Primavera,
És a chuva do frio Inverno,
És raio de sol no calor do Verão,
És fruto maduro no Outono,
És tímida, delicada e sonhadora,
Forte, decidida, edificadora,
Mãe, amiga, esposa, amante,
Incansavelmente constante,
Porto seguro de amor ardente,
Teu sorriso, cansado, confiante,
Mesmo assim mulher sedutoramente
Bela e definitivamente certa,
Que ninguém lhe fica indiferente!

És mulher decidida, firme vontade,
Segura entre outra gente!

Alberto Cuddel

25/08/2015

Recebe-me

Recebe-me

Recebe-me apenas em teus braços,
Deixa-me dormir em teu regaço,
Quero apenas acabar com cansaço
Estampado em mim, finos traços,
Desgaste outonal, corrida veraneia,
Noite serena, preenchida lua cheia!

Recebe-me apenas em teus braços,
Como os filhos no ninho a cotovia,
Reforça hoje amor os nossos laços,
Afaga-me os cabelos, forma lascívia,
Beija-me, demora-te, volta amar-me,
Recebe-me, agora, volta a beijar-me!

Recebe-me apenas em teus braços,
Confirma-me de novo com ontem,
Renovadas que estão os sonhos,
Os novos quereres que agora existem,
Assim me dou, com apenas um pedido,
Recebe-me apenas em teus braços!

Alberto Cuddel
26/08/2015

Inverno da Vida

Inverno da Vida

Gélida brisa que nos arrebata,
Na terna queda da folha dourada,
Suave perfume da castanha assada,
Audíveis sons com que é apregoada…

Frio que converte, em calor o sentimento,
Calor que nos tira do perfeito isolamento,
Juntos revolvem memorias passadas,
Pelo suave cheiro das castanhas assadas…

Em queda como a folha,
A vida de vai esvaindo,
Abandonando passo-a passo,
Os nossos envelhecidos corpos…

Vivem cada momento,
Meditam e recordam,
Ao sabor do vento,
Alegrias, tristezas,
Dias, meses, certezas,
Duvidas, segredos,
Da vida que lhes foge,
Por entre os trémulos dedos…

Ficam as memorias, palavras ditas,
Fica a saudade pelas ideias escritas,
Os dois, que só um formaram,

No fim dos seus dias se separam….

Alberto Cuddel
30/11/2013

Porque esperas?

Porque esperas?

esperas do tempo uma resposta,
esperas do tempo uma atitude,
reclamas, balbuciando do tempo,
reclamas, agastado pelas atitudes,
reclamas do tempo que faz,
do estado das coisas,
das coisas do estado,
do estado da saúde,
do estado da educação,
da educação do estado,
do estado civil,
dos civis que trabalham para o estado,
do estado do trabalho,
da falta de trabalho,
do pagamento do trabalho,
mas com tanta reclamação,
ainda continuas sentado?
afinal, como chegamos a este estado?
se reclamamos e nada é mudado,
talvez seja tempo,
de mudar de estado!…
e passarmos ao gasoso…

Alberto Cuddel
28/08/2015

Janela de luar…

Janela de luar…

Segue a noite plena de teu corpo,
Prateado reflexo de tuas curvas,
Inundas-me o olhar, louca sedução,
Nas eróticas sombras projectadas,
Pela ténue luz de ter ser emanada,
Lua mulher, abrigo dos amantes,
Noites quentes, perdidas,
Encontradas por ti em teu seio,
Testemunha silenciosa dos gemidos,
Das juras, das trocas de fluidos,
Mãos que se cruzam no ar em ti,
Corpos que rolam no chão,
Ao som silencioso do teu
Quente e prateado luar!

Alberto Cuddel
29/08/2015

Sedução da Noite,

Sedução da Noite,

Não se fiquem pelas promessas da noite,
Assumam por inteiro o dia em vossas vidas,
Na noite cegamos pela paixão da parca luz,
No dia assumimos a visão global do todo,
Do bem e do mal, desejo e contradição,
A cima de tudo o dia é já decisão!..

Alberto Cuddel
30/08/2015

Essa verdade de querer

Essa verdade de querer

Insinuas-te nessa provocação feminina
Nessa arte de sedução perfeita
Nesse querer de me possuíres em ti
Provocas-me, nessa partilha de paixão
Desprovida de vergonha, como se quer
Amas-me, conquistas-me, possuis-me
Inteiro pela visão dúbia do tesão
Amor, essa paixão que me prende
Força de vontade que me vence
Ali, mesmo ali, longe do leito
De tudo, de nada, aberto o peito…

Fodes-me…
Paixão religiosamente entregue como devoção
Oração fálica, que os deuses me protejam
Olho-te, olhas-me
Nessa confiança que te faz mulher
Sou teu, tao somente teu…
Como nunca fui de alguém
Porque tu és
Classe, paixão
Vontade e tesão
E possuis-me
Por inteiro
Apenas no olhar…
Amo-te, amas-me…
Amar-te-ei eternamente…

Tiago Paixão
05:35 01/03/2021

Afúriadasaudade

Na saudade do tempo em que te tenho

Na saudade do tempo em que te tenho

No despertar eléctrico de todas as sinapses,
O tremor e o desejo que me trespassa o corpo
Mãos preguiçosas que se movem pela roupa
Apartando os cabelos e os sonhos húmidos
Nesses momentos de sonho, onde me vejo
Existimos em nós mesmos pelo sentir da alma
Que se faz dor no corpo pela abstinência…

Cavalguem do nascer do sol todas as amazonas
Trote confusos de cascos, onde estas tu?
Que me manténs acordado,
Que me despertas na noite,
Que me fazes desejado,
A quem me entrego, nesta ausência
Seja a noite, curta, longa, ausente, distante

Fantasio realidades inatingíveis
Sonho beijos tangíveis afagando-me o corpo
Aplacando-me a sede e a fome de ti…
Quero-te, sonho-te em mim
Em delírios escondidos na alma
Querer que nem a imaginação acalma
Na força do toque, na dor que me trespassa
E a saudade do trote…
Cavalgando madrugadas
Fazendo do meu querer o teu…
Emprestando-te as mãos, que percorreram meu corpo…

Mata-me apenas outra vez
Esta saudade que me queima
Mata-me apenas outra vez
Esta fome de prazer…
Percorre todo o meu corpo nu
Toda a minha alma despida

Sejamos carne e prazer…
Amemo-nos a cada madrugada
Dispamo-nos de pudores
E fodamos… até que os nossos corpos caiam extenuados
Na loucura de gemer em uníssono
Essa eléctrica descarga que nos percorre o ventre…
Na saudade do tempo em que te tenho
Apenas te quero, de novo…

Tiago Paixão
11:03 31/03/2021

Afúriadasaudade

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