Caem poemas…

Caem poemas…

Caem as palavras
momento ondulatório
um verso, desenhado
queda, folha dourada
sol outonal que me aquece
círculos que se afastam
queda do charco da vida
ali fica, ondulando,
ali fica, rodopiando
fingindo ser prosa
representando
desejando ser verso
ensaiando uma quadra
sem nada, poema
fim de vida, fingindo
ser o que fingia
poesia!

Alberto Cuddel®
10/12/2015

Lanço poemas

Lanço poemas

Em tudo o que faço e refaço.
Meus pedaços em troca de laços
Dar o que em mim ainda há
Tanto sofro como choro
Tanto rio como sorrio!
De que me afasto se me basto
Chega! Agora basta!

Odes delirantes de alfobres
Berçários de versos, reversos
Saudades…
Amores, paixões, desejos profanos,
Sonhos e dores…
E arde em silêncio a candeia
Que me ilumina e incendeia
Chama que dança –lua cheia,
Triste e amargurado poeta
Por onde arrastas teus versos
Peregrinos, lançados pela janela
Ao colo de uma donzela,
Sofre em si abstinência do corpo
Lágrimas que lhe correm no leito
Pelos tremores do desejo,
Tudo por nada, apenas por um beijo!

Ai poema, poema,
Onde me levas, debruado na noites
Em cama de estrelas, sonho vê-las,
Palavras soltas, directas, concretas,
Rimando apenas na beleza do seu busto,
Nos versos procuro e rebusco, o sim,
O não, o amor, a paixão, ou apenas a visão
De te ver passar mais uma vez,
Lançando-te poemas para o colo!

Alberto Cuddel®
15/07/2016

Ecos do vento

Ecos do vento

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…
há na parede caiada um rasgo de alecrim
sorris, mas segues caminho diante dos desempregados
esses que te fitam por detrás das cortinas com medo da morte…

e fecharam as lojas e as caves…
fecharam as hortas e as adegas
não há ecos de talheres nem brindes…
os cafés parcos, não lançam baforadas de fumo
não se dizem poemas, não se discute, não se insultam árbitros…
confinaram-vos a alma, pelo medo da morte…
enquanto eras novo, fugias do sol…
abraçavas corpos, partilhavas copos…
depois infectavas os avós que morriam…
e as tias dos lares, as crianças da escola,
e os enfermeiros médicos, e tudo recomeçava…

agora olhamos o eco do vento que passa
sem que ninguém passe por nós…
e de noite? ninguém…
apenas os desempregados espreitam
os outros que ainda tem trabalho…

e essa merda de medo…
quando as regras de tão simples foram esquecidas…

deixei que ecoassem livres os ecos de um vento mascarado
nessa distância mensurável pelo humano olho
um afastamento das boas maneiras perdidas
um bom dia atirado pelo olhar…
puxam-vos as orelhas para a frente…

Alberto Cuddel
11/11/2020 02:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer
Venha deus e escolha III

Gélida devoção

Gélida devoção

Pesa em mim a devoção
O tempo já perdido
E um outro sorriso nos lábios
As noites esquecidas dos dias
As lágrimas nos olhos contidas!

Pesa em mim a devoção
O luar em lago seco
Um jardim que não floriu
Um encontro sonhado
Nunca fora realizado!

Pesa em mim a devoção
Das palavras e versos
De uns outros universos
Onde me vejo voar
Nas cristalinas águas desse outro (a) mar!

Pesa em mim a devoção
Que me molha o olhar
Por não ter no sonho
Vontades a realizar!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 53

Um vaso quebrado cheio de tudo

Um vaso quebrado cheio de tudo

a minha alma partiu-se como um vaso vazio
tão cheia de vida, uma palavra fora de tempo
um desastre anunciado, amaldiçoado humano!

barulho na queda estilhaços de versos
lanças arremessadas com selo de morte
maldito ego destrutivo, inveja do que não é…

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos,
não conscientes deles, da sua pequenez…

era um vaso cheio, de bondade, de alegria
hoje quebrado, apenas angústia, raiva e pouca vida…

Alberto Cuddel
23/08/2020
17:24
Poética da demência assíncrona…

Complexo

Complexo

Complexamente perfeito,
Nasce do nada, de um olhar
De um querer imperfeito
Mesmo que o bom senso
Na sua imperfeita humanidade
O negue a pés juntos
Nasce…

Mesmo que nascido das cinzas da dor
Manipulado no sorriso no momento
Nasce, decididamente certo e cego…

Perdesse nos minutos do tempo
Perdendo o tempo e as horas
No pensamento direccionado,
Morrendo a paixão a cada dia…

Ele nasce…
Do nada, bebendo
Matando a fome nos lábios
Nos corpos, alimentando-se
Abrindo os olhos, aceitando
Complexamente egoísta
Na dádiva de si mesmo…

Num olhar,
Numa palavra,
Num toque, num sorriso
No dialogo, na voz,
Na saudade, na dor,
Na felicidade, ele…
Complexamente nasce…

O Amor!

Alberto Cuddel

Mãe, e o teu tempo?

Mãe, e o teu tempo?

De um amor gerado
Barriga inchada, crença, criança
Bendito seio que alimenta
Bendito amor na noite, tensa
As alvoradas de olhares pesados
Dentes e choros…

Mãe, e o teu tempo?
E mulher, quando por mim
Deixaste de ser apenas mulher?

Nunca foi escolha, apenas amor
Ter filho apenas é, amor!

Mãe, que Deus ilumina,
Na sua dura sina, no dar, no doar
Nas provações do educar
Que nunca ninguém ensinou!

Obrigado mãe, pelo amor,
Pelo teu tempo, pela alegria,
Pelo sofrimento, e pela dor!

Alberto Cuddel
10-05-2017

Mariposa

Mariposa

sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo
a vida passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
trespassada a alma arma branca, baioneta…

há mansidão da luz que se apaga
rastos de uma vida que foi
cruzam os céus cadentes estrelas
e desejos que se pedem pelos dedos
há um mundo perdido entre segredos e medos
e uivos fora de horas…
morcegos e mariposas…

há uma luz perdida no monte
e um monte de luzes enfrente
uma mão que me embala
uma voz que me acalma
uma avó que chama…
essa avó partiu…
as luzes não tem o mesmo brilho
as mariposas, não sei se lá vão…
sentado numa pedra, perdido neste mundo
vida em volta alheia, indiferente a tudo

Alberto Cuddel
01/06/2020
02:16
In: Nova poesia de um poeta velho

Um poema simples, de uma noite simples…

Um poema simples, de uma noite simples…

As palavras faziam-se eco na mente
Quentes, delirantemente quentes…

A cada vírgula, rubescia-te o desejo
Na libido massajada pela imaginação
Percorrem-te as mãos o corpo
Desejo que floresce no sangue…

A fugacidade do sentir percorre-te a pele
Como os lábios imaginários do amante
Loucamente apaixonado pelo teu corpo
Sentes,
Sentes o calor do seu hálito descer o ventre…
Uma necessidade animal de prazer, não apenas emocional
Mas prazer… queres em ti o poema, queres em ti o desejo
Queres as mãos e o beijo,
Queres possuí-lo em ti…
Loucamente as tuas mãos desenham o poema
O teu poema, o teu amante,
Até o delírio do orgasmo…

Tiago Paixão
10/04/2019

Ps: Para muitos um tabu, mas a masturbação feminina é cada vez mais necessária, ao equilíbrio emocional, ao prazer, e como forma do auto-conhecimento do próprio corpo.

Palavras livres!

Palavras livres!

Como pedras arremessadas,
Num charco qualquer,
Criando ondas sincronizadas,
Como todos as podem ver!

Seguem compassadas numa absoluta perfeição,
Como que nascem, e puxão e seguem a sucessão,
Até perderem a força e o ímpeto de avançar,
E com calma na quietude voltar a ficar!

Palavras livres, soltas que animam,
Que nos confortam e mimam,
Que nos magoam, que nos ferem,
Mas que no vento se perdem!

São palavras que nada valem,
Sozinhas sem sentido,
Palavras que ditas por alguém,
Que mesmo estando perdido,
Pode dar voz e sentido,
Ao grito que no charco havia caído….

Alberto Cuddel
06/03/2015

Tenho escrito, apenas e só!

Tenho escrito, apenas e só!

“Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?”

Álvaro De Campos
15-10-1930

Por onde me encontraria na mentira da criação
Fossem os poetas executores de matéria
De onde lhes nasceria nova vida
No caos desordenado do alfabeto
Nas oitavas menores dos sons da noite…
Cantaria mentira o poeta? Por entre liras estridentes…
Serrados sejam os dentes, herege lançado à fogueira
Que poesia é obra do demo, nela vive o engano.
De mim, nada, nem inventado fora o verso,
Rima de um sentir enganoso e perverso,
Copistas de mentira e palavra já escritas
De um amor estupidamente camoniano
E a tua anarquia ordenada de ideias,
Campos, Campos, de ti Reis,
Libertos da libertinagem das palavras
Soltas e brancas… sem rimas eficazes
Onde o tudo escrito é apenas um nada
Que se apaga, como a lâmpada do quarto…

Alberto Cuddel
28/04/2017
09:08

Lanço poemas

Lanço poemas

Em tudo o que faço e refaço.
Meus pedaços em troca de laços, dar o que em mim ainda há
Tanto sofro como choro, tanto riu como sorrio!
De que me afasto se me basto, chega! Agora basta!
Odes delirantes de alfobres, berçários de versos, reversos
Saudades…
Amores, paixões, desejos profanos, sonhos e dores…
E arde em silêncio a candeia, que me ilumina e incendeia
Chama que dança – Lua cheia – triste e amargurado poeta
Por onde arrastas teus versos, peregrinos, lançados pela janela
Ao colo de uma donzela, sofre em si abstinência do corpo
Lágrimas que lhe correm no leito, pelos tremores do desejo,
– Tudo por nada, apenas por um beijo!
Ai poema, poema, onde me levas, debruado nas noites?

Em cama de estrelas, sonho vê-las,
Palavras soltas, directas, concretas,
Rimando apenas na beleza do seu busto,
Nos versos procuro e rebusco, o sim,
O não, o amor, a paixão, ou apenas a visão
De te ver passar mais uma vez,
Lançando-te poemas para o colo!

Alberto Cuddel
Amantes da Poesia Volume II – Modocromia – 2017 – ISBN – 978-989-99754-4-6

Poema do dia 04/06/2018

Poema do dia 04/06/2018

Sinto tanto e com tal intensidade que às vezes adormece-me a alma,
Neste adormecimento pergunto-me se de facto vivi, ou estive anestesiado…

Confundem-me as relações humanas, as manobras silenciosas, por detrás de cortinas vermelhas, apregoam do alto do seu púlpito, moral e bons costumes, façam cumprir a lei… (balbuciam em público), na sombra procuram apenas satisfazer o seu infeccionado ego e prazer… sejamos honestos quem não tem pecaminosos desejos? Quem não peca em pensamento? Guardando-os para si, raramente os expõe…

Quem sou eu de diferente? Nada, ninguém apenas um entre gente que se esconde acoberto da noite…

Sinto-me, sentindo que não sou, sendo, ainda que fora tudo o que sonhei, não o vivi nesse adormecimento do sonho…
Voam livre as gaivotas em busca de alimento, rodopiam pelas lotas duram te o abastecimento, sem trabalho comem sobras, sem muitos gastos não precisam de obras…

Sinto tanto e com tal intensidade que às vezes adormece-me a alma,
E nesse lapso de tempo em que não vivi, observo e sinto, o que dizem de mim…

Alberto Cuddel
04/06/2018
17:30

“Quando eu era pequenino…”

“Quando eu era pequenino…”

Por entre jogos da tradição
Anda ele com a irmã pela mão
A corda, a bola e o pião
As cartas e a televisão
– com dois canais, a preto e branco
E catequeses aprendidas num banco
Brincadeira de crianças e sorrisos
Estampados nas caras, sardas e tranças
Os concursos de domingo, as matinés
As corridas, e descalços os pés
E o Sr.. Engenheiro, esse que não esquece
Despeço-me com amizade!

Alberto Cuddel
Quando eu era pequenino- Miká Penha edições- 2017 – ISBN 978-989-691-648-0

Lendo-me…

Lendo-me…

Perco-me nas letras do vento bolinadas por um marinheiro
Nas loucas paixões sem ordem de um agente da lei
No pó erguido pelos versos desenhados no museu
Pela sensualidade da escrita, voz que sonha na radio
Pela literacia do amor nas palavras de quem ensina
No olhar poético do vale por quem o olha e canta
Pelas certezas incertas e solidão da dona de casa
Na arte escondida de quem pinta de pincel e lápis
Na volúpia despida de quem olha de dentro a natureza
Na certa e erudita poesia que quem usa o direito
Na que conta histórias de vida e fantasia
Na escrita em outras línguas e traduzida
Da verdadeira, da fantasia, da alma, ou fingida…
Na tua, também na tua, e na tua, e na dele, na dela…
Seja ela escrita, declamada ou apenas sonhada
Eu que me leio em cada poema teu…
Também eu sou a tua poesia…
Eu um mero leitor que nas letras se faz vivo…

Alberto Cuddel
27/02/2018
17:04

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