Joana Vala – Este inferno de ser mulher

Joana Vala – Este inferno de ser mulher

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
todas as hormonas, progesterona
estrogénio, hcg, ocitocina
estradiol, estriol e testosterona
talvez seja esse o inferno que me faz mulher

não queria muito, apenas que me amasses
não nesse entre o beijo da chegada e partida
não no prazer, mas queria sentir-me mulher
queria sentir-me humana, amada…
é-te assim tao difícil homem compreender-me?

que me importam as roupas, o desejo dos vadios
os piropos e os assédios, sim sou boa e daí?
amais-me? ou apenas me desejais?

tudo isto me arde no ventre e no peito
quero ser quem sou, dando-me
e dou-me sem estímulo, sem desejo,
sem esse amor que me toca na mão,
sem essa palavra que me suporta
sem os gestos banais que me carregam ao colo…

é-te assim tão difícil másculo ser compreender?
essa necessidade básica de ser mulher?
tão igual a ti, e tão completamente diferente
sou-te tudo o que não tens, tudo o que não és…

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
é-te assim tão difícil saber quando são as consultas?
quando estou menstruada? quando estou mal e cansada?
é tão difícil para ti nesse cérebro tosco de macho
compreender-me na minha imensidão da existência?

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
talvez queria uma coisa tão simples de tão difícil
talvez queria ser simplesmente mulher, herdar o paraíso
e encontrar nos gestos simples do salto do pardal
um pouco de amor, doado sem pedir…

22/05/2022

A existência de almas além da minha

A existência de almas além da minha…

Na compreensão da vida, existo
Existo pela existência do outro
Na clausura do ego não há existência…

Seja a vida a plenitude da troca, da dádiva
Realizo-me cada vez que dou, que recebo
Enalteço-me no teu sucesso, na tua vitória
Seja na amizade, no ensino, no exemplo
Eu sou tanto mais eu quanto mais tu o reconheces!

Partilhar é um acto nobre de poder ser “mãe”
Sou grato pela vida que partilho, por ser
E ser é amar-me e amar o mundo, ter fé
Sentir-me parte do futuro, ser no amigo
No conhecido, no desconhecido, no pupilo
Reconhecer o outro como ser em crescimento
É apenas o primeiro passo para um outro amanhã!…

Na existência de almas além da minha
Vejo-me como único, não melhor, não diferente
Apenas único, podendo dar-me nesse amor
A vida é amor, apenas isso, amor a dar
A receber, fazer amigos é a arte de se doar
Não a arte de negociar contrapartidas e trocas
Acreditar na amizade e ter fé nela, e construir
Todas as pontes que nos irão levar ao amanhã…

Creio na existência de almas além da minha
Na tua que me escutas e em todas as outras
Que aos poucos edificaremos, doando-nos ao mundo!

Alberto Cuddel
13/02/2019
11:20

Provocação

Provocação

A provocação tem um preço…
As vezes alto de mais para se pagar…
Continua a provocar,
Depois não tem como se queixar…
O desejo provocado, ou é consumado….
Ou leva à loucura de um corpo marcado…

Sírio Andrade
24/03/2015

Pensei amar-te…

Pensei amar-te…

“pensei amar-te, mas queria-te possuir na alma
todos os teus orgasmos pertenciam-me, assim o desejava”

Doar-me-ei por inteiro na vida e na alma
Não pelo altruísmo do ego, mas por amor
Esse que ganha significância na dadiva plena
Entre um rubro luar e um laranja do sol por

Nessa réstia de humanidade sou-te pleno
Nesse ondular da perfeita e alva maresia
Num crente caminhar duro e terreno
Diante de tudo o que o sonho mais queria

Ofertei-me no corpo, na excitação rubra
Nesse almiscarado e doce odor do prazer
Diante do desejo que de mim te cubra

Força orgasmica do corpo conhecimento
Dessa força que nos amarra e faz viver
Todo o orgasmo, eternidade, momento…

Alberto Sousa
22/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

O mundo era…

O mundo era…

o mundo era…
e depois? não voltou a ser o mesmo…

depois da primavera que chegou sem aviso
ruas desertas e ervas nascidas
chegou depois de nós todos, e não lhe fizemos falta
chilreiam os pássaros soltos
ninhos armados onde podem
palhas que voam e estradas vazias…

e o mundo era… e continuou…
mesmo sem a gente de ontem…

Alberto Cuddel

Imagem própria:
Um borrão de café…

Conjecturas

Conjecturas

selamos o tempo
congeminamos teorias
inquirimos o nosso íntimo
apenas uma pergunta
uma única questão
sem qualquer resposta
sem qualquer razão
porquê?
porque continuam a florir as flores?

rebobinamos passados
procuramos, revemos
nada, sem hipótese
nem uma ínfima teoria
porquê?
continuam as ondas a chegar à praia?

que prepósitos ocultos?
que esperanças?
que ideias, que desejos?
que quebra de algo
que não descortinamos?
porquê?
a vida é um ciclo sem fim?
porque o vidro depois de quebrado não pode ser colado?

nessas conjecturas sem propósito, sem significância cabal
caminhamos parados numa terra que gira,
de um tempo que não pára nem abranda
é tudo é, como tudo será, mesmo que ninguém intervenha…

Alberto Sousa
20/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Abandono

Abandono

abandonaste-me à loucura do sofrimento,
na mais abençoada solidão,
cama vazia de tormentos,
não espero, não anseio tua chegada,
cansei-me da vida, cansei-me do tudo, do nada,
cansei-me apenas da ânsia de ti!
acordo livre solta, apenas mim!

Sírio de Andrade
20/03/2015

Não me dês a mão

Não me dês a mão, não me segures ou ampares, não me ergas ou me eleves… quero-te apenas comigo a meu lado…

Quero o teu amor feito lábios, ainda que o sol nasça todos os dias, a cada madrugada por detrás as montanhas. Quero os teus lábios feito beijo, a cada banho, a cada café forte bebido, a cada manteiga derretida no pão quente, a cada manhã…
Quero o teu amor novo descoberto a cada acordar, a cada gesto de paixão, a cada beijo do despertar, a cada vontade de se fazer dia, de nascer e viver, de olhar o céu…
Quero um amor feito de areia molhada, caminho traçado, a cada pegada, a cada perdão do passado…
Quero o teu amor conquistado, a cada abraço, a cada vontade de ficar, a cada saudade, em cada liberdade de partir, na vontade de sorrir…
Quero o teu amor feito braços, feito pernas que se entrelaçam…
Quero apenas amar-te hoje, não ontem ou amanhã, apenas hoje…

Alberto Cuddel

Asas do querer!

Asas do querer!

Devastação da noite,
Gélido tremor que te trespassa,
Asas das trevas cobrem-te e envolvem,
Gritas, prazer na solidão,
Agrilhoado, preso e ferido,
Por sorte, prazer ou morte!

Penas, sonhos que te fazem voar,
Palavras gemidas, gritadas,
Esquecidas no amordaçar,
Aí dona de mim que me condenas,
Asas partidas, soltas na cela,
Há fome, há sede,
Há vontade de te querer,
Revolta em mim, dor
Nesta lua me prende!

Sírio de Andrade
30/01/2015

Voltas

Voltas,

Volteios nas palavras,
Torces e retorces,
Valendo-te da tua verdade,
Nada mais importa,
Nos retorcidos volteios,
Da imposição velada,
Do querer ver o já gasto
E fechado portão onde
Constantemente procuras-me,
Assim por meias-verdades assumidas,
Abalas todo o muro que o suporta,
Fazendo pender de novo a corda,
Enlaçada na figueira,
Despertando os espíritos
Os fantasmas que este portão encerra,
Soltos na noite que se abateu em mim!

Sírio Andrade
26/01/2015

Fantasmas!

Fantasmas!

Reescrevo sem longas considerações,
Angústias veladas, perdidas no tempo,
Aninhado em mim, querendo partir,
Escuros lugares de onde quero fugir!

Há trevas que me envolvem, fantasmas,
Desoladores pensamentos, pesadelos,
Triste passado, sempre e sempre recordado,
Na fuga quero, sair de mim e esquecê-los!

Há vontade de mim que me consome,
Recolhe em mim no interior o sofrimento,
Que a ti nada te turbe, neste feliz momento!

Quero dar, sem sair, extrair o negro ser,
Triste e enfadonho, frio e calculista,
Que a capa exterior recolhe cá dentro!

Sou, sem ser, o que vês e não crês!

Sírio Andrade
26/01/2015

Ausência

Ausência

Não a escuridão não existe,
É apenas ausência de luz!
Não o frio não existe,
É apenas ausência de calor!
Não o mal não existe,
É apenas a ausência do bem!
Não o ódio não existe,
É apenas ausência de Amor!
Não a depressão não existe,
É apenas a ausência de ti,

Assim estou vazio,
Sem que o espaço em mim
Esteja por ti preenchido!

Sírio Andrade
17/01/2015

Não sou por não existir

Não sou por não existir

crendices poéticas, bebendo palavras,
rimas quebradas, plágios, ditas por ti,
vês, pelos meus olhos, os que os teus apenas imaginaram,
adjectivos, imagens transcritas, sentimentos 
finjo ver, escutar teu mundo
agarrar, aprisionar em mim
o som das marés, o abafado
caminhar dos teus pés…

não, não sou diferente
finjo poeticamente, ouvir-te
no bater de asas de um morcego
ver-te no brilho quase apagado
de uma estrela no firmamento…

não sou poeta, não sou ninguém,
escondo-me, por detrás das palavras,
nas entrelinhas, nas vogais, 
por detrás de um ódio, figadal
à luz, que me abrasa, que me queima
que me entorpece os dedos,
que me faz ser, 
quem não quero revelar,
por apenas querer,
continuar a ser,
palavra,
nada mais!

Sírio Andrade
 13 de Agosto de 2015

Selos perdidos…

Selos perdidos…

aqui testigo
diante deste calvário de vida
quanta palavra perdida, quanta jura esquecida?
baderna anárquica, repentina herança das horas
bordam-se canídeos que ladram, que te seguem pelo faro
sepultam-te as ideias antes de as teres concretizado
e nesses selos perdidos depois de tanto teres jurado
morres, vives apenas sem esperança,
essa que a terão matado no seio…

matas os sentidos que te formigam nos dedos
– e mesmo assim na copa cantam os pássaros
pergunta o carteiro por tua morada
mas sem resposta, nada…

há cartas que nunca serão entregues,
e se o fossem que diferença fariam?
e caminhas a correr sem ter onde chegar
queres diferente sem saber por onde começar
e ontem ou depois, que mal tem o errar
se tudo na vida é aprender
qual o outro sentido de caminhar?
de partir ou de ficar?

que vontade sôfrega é essa de ser feliz
se isso está aqui, em ti
que fome é essa de romantismo, de Paris?
se foi na nublada Londres que eu te quis?
na dura Berlim que fui feliz…
que importa a terra, o rio ou mar
que te importa o prédio, a moradia, a tenda ou lar
que te importa a fome, que não queremos engordar?

e queremos ter, queremos tanto ter…
para quê, para quê?
se o que importa na vida é ser…

ser palavra recordada, ser ideia, ser forma lembrada…

Alberto Sousa
06/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Pesadelo!

Pesadelo!

cego no errante vício caminhante,
hirtas árvores erguidas aos céus,
força da sorte nas tábuas cortadas,
repouso caído, fechado por pregos,
firmemente cravados no madeiro,
onde o corpo do filho do homem,
padeceu cravado por minha incúria!
revolvo nos pés rubras folhas,
gastas e desgastas no tempo,
como escritas num passado,
que se quer esquecido, apagado,
sombras disformes, humanas,
no pesadelo assombrado do sonho,
que um dia este mísero homem,
ousou sonhar a felicidade!

Sírio Andrade®
26/08/2015

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