Há quem sofra, e eu? Eu não…

Há quem sofra, e eu? Eu não…

aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio,
ponho-a eu no exame das minhas próprias dores,
nessa comparação tosca das minhas com as deles…

ante o que me doi e o que te doi,
desdenho das tuas, mas jamais as minhas ofereço
tenho o dom de sofrer, às vezes silenciosamente
quieto, sem inquietar, mesmo que apenas me doa a alma…

dói-me que alguém sofra pela minha dor
pelos meu sofrimento… prefiro ser a montanha
essa cápsula que guarda dentro de si um vulcão
sobre uma estrutura cerebral gélida… impassível…

abstraio-me das necessidades humanas
das necessidades de homem, de alma…
deixo que tudo seja o que desejam que seja…
anulo-me na nulidade da existência sofrida
mas são aparentemente felizes…
e eu aparentemente não me doi
e aparentemente não sofro…
tudo porque me revolta
aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio…
dói-me essa alegria mesquinha diante da dor do outro…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

16/12/2021

Um adeus que não esperava.

Um adeus que não esperava.

Nasce-me um adeus no peito,
Em notícias incrédulas, tanto havia
 – Tanto há e cá não estas…

Não fica comigo a saudade,
Nem na alma actos passados,
Fica a memória de outros tempos
E tempo que já não temos…

Por um instante despedes-te de Deus
Despedes-te de mim, das saudades que tinhas
Da tristeza que sentias…

Lágrimas que perdem sentido
Diante das palavras que me crescem
Na dor do silêncio da mente
Silêncio que me envolve na alva bruma
Pesado cansaço opressor das ideias,
Adormeço em mim, sabendo que já não vives…

Nascendo-me um adeus no peito,
Para renascer num amanhã, sabendo que não estás
Na alvorada de um novo dia, partistes para junto da tua vida…
Adeus tio…

Alberto Cuddel

Adeus meu tio… RIP

em 29/11/2018 até sempre…

A tua leitura

A poesia é uma das artes nobres de monólogo entre quem produz a arte e quem a intreperta… não sou eu que escrevo a mensagem mas sim tu que na leitura a reconheces…

A noite ergueu-se devagar
Sem pressa para chegar
Como se o dia, não quisesse
Não fizesse falta nascer…

Nesse tempo, sem pressa
Bastou-nos um abraço
Para dar todo o significado
Ao sentir do verbo amar…

Alberto Cuddel

Despiciente desejo

despiciente desejo…

nasce inconsequentemente pensado
difuso desejo da carne
ainda que me sobrem palavras, presas no beiço
talvez como arte caia em desprezo
sangue que me ferve no peito!
fora de ti, um mundo
em ti não és nada, mas um tudo
no desejo, um pomar florido,
odor de fruta madura
vontade sem cura
rios, transportam folhas
secas de um ontem, auspicioso
e os morangos aquecem solitariamente
sob a gelada mesa de mármore
o desejo da carne que te consome!

não há letras, versos,
que aplaquem a miséria dos minutos
prendes olhar numa porta fechada,
trancada, na velada esperança
que o cheiro dos campos
inunde o quarto, -ou apenas o meu cheiro
doce, intenso, do suor escorrido
de um orgasmo desejado
na fresca água da ribeira
que te molha os pés!
não há mistério,
apenas um desejo,
que seja o amor que te traga,
atravessando pontes e campos
flores no regaço, cavalos brancos
que no fim… suados digamos, sim
permanentemente permanecemos,
para sempre até um fim…

Alberto Cuddel
12/06/2015

Poema do dia 13/01/2018

Poema do dia 13/01/2018

Vocábulos amarelos e húmidos
Bolorentos e sem entreves
Livres soltam-se da alma…

Não sou poeta, mas finjo-o
Poeta actor dos versos
Sem uma inspiração do coração…

Não me escrevo por necessidade
Nem alimento voyeurismos torpes
Encontro-me nos silêncios que calo
Entre portas e janelas fechadas…

Ontem, ontem quiseram calar-me
Eu que nada disse de mim
Quem sabe a necessidade aguçada
De dar gozo aos dedos, seja carência…

Um dia escrever-me-ei num livro
Um desses de numerosas páginas
Todo ele da cor da alma,
Negra como que quer e se deseja…
Tal e qual existo…

Alberto Cuddel
13/01/2018
01:00

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: