Liberdade de escrever longamente…

Liberdade de escrever longamente…

“No dia brancamente nublado entristeço quase a medo
E ponho-me a meditar nos problemas que finjo…
(…)
Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.”

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro.

há no fingimento da realidade uma chuva miudinha que me turba o olhar
e penso, penso longamente do riso em riste, no punho erguido e na intolerância
não serão apenas humanos, sem catalogação de cor, raça, religião?
ou graça nessa humanidade perdida uma ignorância de lesa-a-pátria?
amaldiçoado o povo que não ri dos seus próprios defeitos, erguendo as mãos
defendendo uma fé cega da qual desconhece o fundamento…

a ideia de humanidade é minha, tão somente minha que não a evangelizo
creio que a realidade me consome as entranhas, pelo não questionamento
nua é a facilidade com que se crê, sem criticismos do que se escuta
tudo se toma pela verdade, mesmo que a mentira se escancare diante dos olhos…

já fui do tempo em que existia ciência,
em que as hipóteses de tese careciam de comprovação
hoje é uma mera questão de opinião crente…

as verdades não são perfeitas por serem escritas
mas antes por o ter sido questionadas, comprovadamente…
penso que a verdade é uma mera conclusão da irrealidade do sonho
e o mundo avança de mentira em mentira
perigosamente rumo a um passado que haviam esquecido…
reactivam-se as cameras de gás… há milhões em fila, rumo ao extermínio…
não dos corpos, mas dos ideais libertários de uma vida de pensamento livre
de uma vida com futuro…

ontem viajei o mundo mais rápido que o som, hoje não…
e calamos as vozes livres, porque elas condenam-nos…
por um bando de peçonhas que se acham donos da palavra…

“Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.”

Alberto Cuddel
10/11/2020 1:37
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
venha deus e escolha II

Viagem pelo pensamento bígamo da consciência…

Viagem pelo pensamento bígamo da consciência…

eu procurei primeiro o pensamento,
li, reli, apreciei a textura das letras
eu quis, depois, a imortalidade…
esse tempo sem tempo onde nada se esquece…

um como o outro só deram ao meu ser
a sombra fria dos seus vultos negros
como se o caixão que envolve as folhas
forre amarado pela tinta das letras
encimado por laços de vírgulas…

na noite eterna longe dos meus braços…
eu procurei depois o amor e a vida
para ver se ali, diante dos abraços prometidos
esqueceria a dor deste social afastamento animal…

do pensamento e da ciência firme
da certeza da morte, essa eternidade do esquecimento
nova salvação na promessa da alma, o amor.
mas o amor, esse sentir de quem guardou a alma inteira,
e não podia haver amor para mim, eu já o consumia ávido…

depois na acção cega e violenta, onde eu
afogasse de vez toda a consciência
da vida, quis lançar meu frio ser em mares visigodos
nessa herança régia de quem luta pela independência da sobrevivência
sem amarras declaradas a ideias formatadas,
nesse tudo que sou e do seu oposto…
mora em mim um bígamo pensamento
entre o prazer e a dor de me dar
entre a saudade e a vontade de debitar
palavras e letras
versos e estrofes,
poemas e textos onde pairam as nuvens
espreitando o sol por de trás do luar…
ergam-se as lendas celtas das ruínas dos mouros castelos…
que meus versos sejam quadros dependurados numa floresta cinzenta
árvores de betão que ontem arderam
lidas por mascarados sem rosto com medo da morte…

Alberto Cuddel
13/08/2020
17:17

Poética da demência assíncrona…

Foram-se as pedras e as ideias

Foram-se as pedras e as ideias

Abandonei voluntariamente o trono
E todas as escadas onde me ergui
Esqueci-me da noite, das palavras e de ti…

Deixei que o pensamento vagueasse na rua,
Que a fome roesse a mente, desilusão
Deixei de pensar um tudo e os sonhos
Correm as águas por valetas porcas e secas

Vi a luz apagar-se nos homens
A morte correr, espreitando janelas
E tubos fumegantes, por entre roupas rasgadas
E moços de calças baixas, rindo em grupo
Sob corpos estendidos no chão…

Não há pedras que se atirem
Ou escritas na areia de cabeça baixa
E as ideias? Prendem-se escondidas
Por entre massa cinzenta e paredes de cálcio
Calam-se as vozes, discriminam-se os que pensam
E todos pintam de dourado, os fios que pendem
De uma triste bola cimeira, onde nascem duas bolas
Que esbugalhadas seguem o rebanho…

Fetidamente escorrem os dejectos pelas soleiras,
Esperas timidamente na “fila” papel plástico estendido
Onde hipotecas os dias, e as noites, nos gestos mecânicos
Engordando os já gordos senhores do mundo…

Foram-se as pedras e as ideias…
Condenaram-se os mestres à pobreza
E os doadores de DNA, geram-te
Mas não te educam…
Esqueceram de te ensinar a pensar…
A censura do mundo dita, e tu ordeiramente
Fazes… Fezes a que chamas vida…

Alberto Cuddel

Um tédio de pensamento

Um tédio de pensamento

No tédio das palavras que não galopam
Apertadas pelo chicote da imaginação
Picadas pelas esporas do pensamento
Espero puras substâncias que dopam
Momentos de puro êxtase e excitação
No já agora, ou dentro de um momento!

Mordaz querer nas longas noites escuras
Cinzento luar, lobos que se silenciam,
Sono ausente nos trabalhos forçados
Ruas vazios, calçadas negras e puras,
Candeeiros apagados que não reflectiam,
Cães vadios que ficam apenas deitados!

Raiva aparente na distante vontade,
Pensamento que voa em plena cidade,
Voltas perdidas sem conta aparente,
Longos passeios no quarto ausente,
Insónia forçada no meio de gente,
Distante, cansada, de cama decente,
Tempo perdido pensando em rimas,
Acordado pensando nas últimas,
Palavras que debito sem um sentido
Sentado no nada maltratado juízo,
Martelado ruido de longínquo gizo,
Telefones prementes anafado ruido,
Silencio da noite assim poluído,
Correndo ao leito assim repousar,
Fazer este pensamento assim acabar!

Noites longas, escuras sem fim
Ficar acordado obrigado assim
Trabalho distante, na ignorância da noite
Por ti que dormes ignorando o acoite
No descanso no dia onde não dormia
Pelo ruido que em casa o vizinho fazia
Deitado na cama em dias de sol
Dormir na solidão do gélido lençol,
Que por ti clama na saudade do calor,
No terno feitiço que separa o amor!

Alberto Cuddel (26/04/2015)

A (nossa) Voz,

A (nossa) Voz,

No principio era o Verbo,
O verbo fez a carne, som
O som se fez voz, e comunicou!
Partilhou o entendimento
A voz desentendeu-se e matou,
Profetizou e clamou no deserto,
Anunciou, cantou, louvou,
A voz do longe fez perto,
Pregou aos peixes, declarou,
Encantou, até perder a fala,
Acarinhou, consolou, apoiou,
Apaixonou, fez história,
Foi incomoda, mal-amada,
Foi silenciada, amordaçada
Amaldiçoada, retirada,
Gemeu, clamou por liberdade,
Gritou clamou piedade,
No fim apenas a voz,
Pensamento feito som!

Alberto Cuddel

Poema do dia 04/10/2018

Poema do dia 04/10/2018

Nessa loucura de pensar livremente
Em padrões aleatórios de opiniões – próprias
Sou o puro conflito do que fui
Na negação de tudo o que apregoei!

Neste segredo que me consome a alma, guardado nas sete chaves na calma, entre os dedos de uma mão aberta, onde guardo o mundo, viagem quase certa entre um purgatório e um inferno, rumo ao céu e ao paraíso, seja eu louco neste desejo de me fazer são, entre os sorrisos de um acordar e um abraço no adormecer!

Que se juntem as palavras à história, que se façam novas e memória, sejam nuvens passageiras neste sol que me alimenta, seja agua pura e benta, a que me lava a alma e me purifica em nova vida.

Que louco seria eu nesta normalidade de rejeição da verdade que me corrói a alma, nos passos que perdi em areias molhadas apagados pelo tempo em águas mornas, passos dados atrás de um egoísmo convicto, assentes no pó de uma argumentação tradicionalista imposta por um deus menor, esse que nos verga a essa vil subjugação humana, da subtracção da felicidade, abençoada Eva.

Nessa loucura de pensar livremente
Em padrões aleatórios de opiniões – próprias
Sou o puro conflito do que fui
Na negação de tudo o que apregoei!

Alberto Cuddel
04/10/2018
Marvila, Portugal

Reflexão, porque os homens também pensam!

Reflexão, porque os homens também pensam!

Há mais ou menos um ano atrás alguém comentava: estou cansada, o meu marido não ajuda nada em casa, trabalho como ele, mas em casa ele não ajuda em nada, quando chega de trabalhar, toma banho e sai para o café com os amigos. Perguntei se foi sempre assim ao que respondeu sim desde o casamento, perguntei se algum dia ela pediu para ele fazer a cama junto com ela, ou ajudar na limpeza da casa, e ela simplesmente disse que ele não queria porque isso era trabalho dela!
Trabalho dela? E ela aceitou? Logo no início da relação? Como cobrar agora depois de anos neste sistema? Muitos dos homens entram numa relação com deficit de cultura de auto-suficiência, ou seja, a sua anterior mulher (mãe) não o educou para fazer as suas tarefas, como tratar da sua roupa, da limpeza do quarto, ensinar a cozinhar, essa tarefa de educação mutua esta a ser transferida para a esposa, e cabe a ela e aos dois educarem-se para a relação. Caso não o façam, tudo irá continuar a ser o que era até ai.
No fim da conversa, ela diz-me o seguinte, “Bem tenho que ir fazer a cama e arrumar o quarto do meu filho” que idade tem? 18. Dezoito anos e a mãe faz tudo para o rapaz? Como pode reclamar do pai dele? Se não está a educar o marido da nora? As mulheres tem o poder de mudar o mundo em poucas gerações mesmo assim não o fazem, para que outras sofram o que elas sofreram…

Alberto Sousa

Despi-me do arco-íris

Despi-me do arco-íris

Fechei os olhos e olhei-me

Caneta sem tinta gasta,

Desgastada pelos dias, pelas noites

Deixei caída no chão a pele de cordeiro

Cacei como quem caça…

Eu e todos os outros de mim

Eu e todos os outros comigo…

Pacto…

Quando chegarem as noites

Depois que foram manhãs

Tardes sei lá…

Perceberás… que nada

Absolutamente nada

Valeu a pena…

A mortandade que se anuncia

Nada é… nada será…

Perante o negro silêncio…

Alberto Cuddel

11/09/2017

17:30

Amanheceu

Amanheceu

“Amanheceu,
como se o dia esperasse por ele”
Vítor Costeira

Amanheceu,
Amanheceu no teu olhar, doce acordar
Deslumbramento primeiro, alvorecer
Apagando-se no firmamento as estrelas
Mar doce de encanto por ti a brilhar
Vermelho horizonte aurora do amanhecer
Aves canoras, novo dia cantam elas…

Amanheceu,
Como se o dia esperasse por ele,
Pelo sonho, pelo realizar, pela vida
Pelo sentir, pelo amar, pela partida…

Amanheceu,
Como em outro qualquer dia
Como se não existisse amanhã…

Alberto Cuddel

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