Pano pátria…

Pano pátria…

ondula ao vento o pano-pátria
essa chuva de mansinho que me escorre das mãos
ciência desmentida por cabalas sem sentido
e chora uma criança triste que perdeu a mãe no ventre…
e ele, ele desmente veemente o que os olhos sentem…

querem-me fazer crer que é mentira a verdade.
que somos todos conscientes do pecado,
vivemos aparentemente de aparências
não é a falta de convívio que vos incomoda,
mas o não saber da vida da vizinha, o corte e costura de uma casaquinha…

ondula ao vento o pano-pátria de um local que não é meu
fruto do acaso aqui nasci… não há diferença entre ontem e hoje…
como como ontem, vivo como hoje…
choram as filhas a morte da mãe… ninguém quer saber do pai…
que morra longe no lar onde o depositaram…

como às vezes num dia azul e manso
a chuva que cai e não molha
no vivo verde da planície calma
o sol que seca sem esperança
duma súbita nuvem o avanço
palidamente as ervas escurece
e tudo cuida, e tudo morre,
tudo foge e tudo escorre
um velho que se esconde
um novo que foge na noite…
uma praia perdida
dentro das saias de uma rapariga…

ondula ao vento o pano-pátria
essa chuva de mansinho que me escorre das mãos
e o mundo para e avança para alguns
outros apenas pediam comida…
os que eram solidários hoje já não ensinam a pescar…
divertem-se em ver o povo mendigar..

Alberto Cuddel
13/02/2021 02:10
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXIX

Nas escolhas convertidas…

Nas escolhas convertidas…

Recrutam-me para um exército que não sinto
Numa língua pátria que não escolhi…

I would write in English if I was born in Britain,
J’écrirais en français si j’étais né en France
Nas nasci com esta herança póstuma da poética
Numa guerra inglória entre soldados do mesmo batalhão…
Ó legado que me saiu em sorte?…
Escrever em vida por uma morte…

Converti-me nas escolhas que não fiz
Transpiração e dissertação das armas do sentir
Matamo-nos sem complemento
Neste atropelo infiel à pátria de Pessoa…

Já repararam como o antigamente é tão diferente do hoje em dia?
O antigamente é sempre baço, acastanhado, apenas apontamentos…
Rejeitamos o assim-assim, o mau, apenas a dor e o bom resiste…
À memória selectiva dum catano…

Querem-me fazer crer, que o português já não o é…
Mas alguma vez o foi?
Onde me mora Camões? Eça, Almada, Diniz, Mello, Régio,
Espanca, Andrade, Verde, Garrett, Quental ou o Nobre?
Fragmentos de uma memória, eu que tantas vezes os uso…
Apropriando-me das suas hábeis conjugações metafóricas…

Serei eu poeta, serei luso? Ou apenas uso o exército que me recrutou?
Aceitando as escolhas que me fizeram crer que fiz?

Alberto Cuddel
02/02/2019
19:00

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