Poética III

Poética III

Palavras obrigatórias:
Memória, manhãs, chaminés, partida, vento, rouxinol, plenitude, cantar, velas, quebradas, noite.

Rasgam-se as vozes sem tempo que ecoam na noite
Memória das manhãs claras, vapor das chaminés
Desenhos formados nos olhos pela mente num acoite
Plenitude da imaginação empurrada pelo vento…

Nessa partida do cais rumo ao norte,
velas quebradas… apenas um casco…
E o silvo da vida morre longe, na saudade…

No parapeito da janela,
[ali no momento em que o sol se ergue]
Como que num chamamento de despertar lembrando a casa
Um rouxinol a cantar… canta… canta…

E a vida corre longe… longe de casa, longe das planícies da savana
Longe dos animais, das bestas e dos bestiais…
E acordo aqui, desterrado, entre o rio e a serra.
Perto do céu, mas longe da minha terra…

Alberto Cuddel
01/03/2021 03:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXXVII

Perdeu-se o mundo na madrugada…

Perdeu-se o mundo na madrugada…

e despiu-se… de alma vestida despiu o corpo
e correm alvoraçadas rua abaixo ainda confinadas
as folhas soltas do Outono douradas pelo tempo
cravam-se desenhos aleatórios na parede, cores garridas…
há uma camisola de malha esquecida e um jornal…

de joelhos ergue os punhos aos céus,
libertando as mãos dos cabelos seus,
lábios abertos e boca cheia, nem um grito
um gemido… engole…

perdeu-se o mundo na madrugada
não há já esperança no acordar
é tudo agora, depois, depois nada…

ouço calado notícias do fado
não há saudade, não há medo
nem desespero, nem amparo
nem conhecido, ou segredo
perdeu-se o mundo na ombreira da porta
mesmo ali, diante da escada…
nesta vida não vales nada… nada…

e os homens? esses esqueceram de acordar…
dormem, como vagabundos abandonados
usados, bem usados… mas sozinhos…
porque elas já não precisam deles…

e caminham sozinhos assobiando satisfeitos
sem conhecerem a solidão que os habita
que os vai corroendo por dentro
como um cancro incurável que os mata…

Alberto Cuddel
09/12/2020
03:10
Poética da demência assíncrona…

Doí-me a ausência

Doí-me a ausência

Procuro palavras perdidas
Explicação para lágrimas vertidas
Para a escorregadia calçada da saudade
Procuro nas mentiras a luz da verdade
Encontro paredes negras e sombrias
Que me asfixiam na solidão do quarto
Gritos nocturnos de um qualquer parto
Clareiras de hirtos pinheiros mansos
Grasnar aflitivo de alvos gansos
Partida, rumo ao sul calor do Verão
Sussurro para mim mesmo dores de paixão
Sonho teu rosto esquecido no adeus
Do jardim, nem memória, nem um jasmim
Nem rosas ou margaridas,
Apenas uma janela fechada,
Um amontoado de silêncios
Uma chuva miudinha que me lava a alma,
E as lagrimas salgadas, essas são calma!
Por nada, apenas estou assim,
Diferente, morto em mim!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 55

A noite é escura, muito escura

A noite é escura, muito escura

a noite é escura
na sua escuridão faz brilhar a mais ténue luz
há na distância um casario, na janela uma luz
uma pequena luz que ilumina um busto,
e brilha… uma luz que me faz mais humano
e mora la alguém que são sei que é
e se soubesse que importância teria…

nada me importa naquela luz
não sei quem ilumina,
apenas a luz reflectida pela lua no lago
há entre mim e a luz um lago
um pedaço de espelho que me reflecte o céu
eu que irei habitar o inferno

em relação à distância onde estou há só aquela luz,
e o lago que me separa, a noite esta escura
há o homem e a família dele
são reais do lado de lá da janela
eu estou do lado de cá,
a uma grande distância…
a luz apagou-se.
que me importa que o homem continue a existir?
se a noite escura não me incomoda…

Alberto Cuddel
28/08/2020
23:35
Poética da demência assíncrona…

Ergue-se o sol

Ergue-se o sol
Ergue-se o sol,
Desvirginando a noite,
Papoilas dançantes
Na dureza do teu olhar
Denunciando a noite,
Sol que muda
Que se faz novo
Que renova
Aquece e enlouquece
Corações esquecidos
Amargurados e feridos,
Novo alento na esperança
Na ajuda e temperança
Que novos amigos dão,
A esse teu coração
Que hoje acorda,
Para de novo deixar-se levar!

Hoje, sim hoje,
Hoje escolho-te a ti!

Alberto Cuddel
03/12/2014

Palavras Desconexas – 30

A noite chega

A noite chega

A noite chega,

Pé ante pé..

Termina o dia,

Chegam as sombras…

A noite chega,

Pé ante pé…

Falta a vontade,

Falta a verdade…

A noite chega,

Pé ante pé…

Bailam ideias,

Uivam as alcateias…

A noite chega,

Pé ante pé,

Esconde-se sol,

E a lua atrás do lençol…

A noite chega,

Pé ante pé…

Traz miséria,

Traz desprezo,

Esconde sofrimento,

Oculta mentira…

A noite chega,

Pé ante pé…

Alberto Cuddel®

15/09/2013

Acordar

Acordar

Nasce o dia!

Da noite escura,

Traz lembranças do sonho tido,

Memórias do que foi perdido…

Nasce o dia!

Da noite escura,

Não apaga ela o pesadelo tido,

As privações e sofrimento sentido…

Nasce o dia!

Da noite escura,

Viver de novo é o que se impõe,

Amor de amigo é do que dispõe,

Nasce o dia!

Da noite escura,

Caminha sozinho,

Por esse caminho…

Alberto Cuddel®

15/09/2013

Noite ordinária…

Noite ordinária…

Ainda assim haverias de querer na tua cama
Que te amasse com toda a minha alma?
Enquanto procuravas palavras doces
Líquidas, ásperas, deleitosas, libidinosas
Obscenamente prazerosas, era assim
Tudo do querer que procuravas
Mas não menti gozo prazer lascívia
De cabelos bem agarrados e corpo arqueado
Não ocultas a alma que procura prazer
De querer minha alma na tua cama?
Orbitam serrados teus olhos azuis
No gemido profundo que lanças
Rejubilas nas formas do teu corpo
Hirtas dos orgasmos profundos que proclamas
Na tua amada memória de coitos e de acertos.
Procura de novo, encontra-me, obriga-me
Ama-me na plenitude do teu Sexo…

Alberto Cuddel

A vida da história da noite simples

A vida da história da noite simples

na véspera da partida desse sol que era
– à um gemido surdo que anuncia o crepúsculo
esse abraço de fim de dia ainda a dar…

há uma história a contar da história da vida
– um surto aconchegante do amor que se renova
uma noite simples, que simples é a vida
como os barcos que aportam no porto
– e todos os que partem para a faina…

houve uma vida, dentro da vida da gente
uma vida nova a cada alvorada
uma outra que desponta a cada madrugada…
correm sonâmbulos pelas vielas os corpos cansados
os sem tecto e os sem esperança, os sem vida
os que chegam e os que partem…

há a cada esquina uma história
uma noite simples…
uma vida cansada… uma vida lembrada…

Alberto Cuddel
19/06/2020
20:34
In: Nova poesia de um poeta velho

Desde ontem

Desde ontem

Aqui, precisamente aqui
Desde ontem, ou já
Cansaço ladeado de flores
Separados pela distância do ponteiro
Um acordar
Manta que deslaça de quente
Sentir que se governa
Decide e impera
Dormindo na traseira do dia
Na esperança da noite fechada
Calado, olho, reparo, concentro
Cuidado,
Voltas e reviravolta de uma vida
Estupidamente fingida
Viagem vertiginosa dos minutos…
Espero,
Esperas,
Dormes,
Acordas,
Sob uma manta quente
Que te separa de mim
Assim,
A vida nos encobre
Sob o olhar desconfiado dos dias!

Alberto Cuddel
19/05/2017
05:46

Sempre ou nunca

Sempre ou nunca

as noites morrem todos os dias
os dias nascem de todas as noites…
(…)
inevitavelmente persigo o tempo
todo aquele que perco
no qual me encontro nos teus lábios
nos sonhos recompenso-me
notícias que me nascem na consciência
alma voa pela letra da melodia
pisando flores, perfumando
a dura e bela essência da vida!
(…)
combates com obuses cor-de-rosa
que se calam ao poder económico
manténs o eu inviolável, e o nós?
caem crianças à morte sem vida
sob o peso do meu egoísmo
movimentam-se orações audíveis
braços elevados aos céus, à vista
mas cruza-os na solidão do mundo!
(…)
– talvez o amor te salve!
salvífica virtude, essa a de amar
sem homem, sem mulher, apenas amor
humanidade que te procura,
benevolência que te encontra,
(quanto nos vale o eu, o ter?)
quanto nos vale um sorriso?
os sorrisos acabam com as guerras!
(…)
sempre esqueceste o amor, o sentir
o decidir e perdoar, o buscar perdão!
nunca te importaste com o mundo?
tu bastas-te a ti próprio?
a felicidade reside em ti?
ou no mundo que te abraça?

Alberto Cuddel
18/05/2020
0:20
In: Nova poesia de um poeta velho

Imensidão da noite

Imensidão da noite

“É tamanha a noite que me sobra nos braços”
Florbela Lourenço

sobra-me a esperança da solidão que engulo
essa que se crava nos dedos como memória
esse orgulho falacioso e desprezivelmente vil
ser… sem estar… mas ser, tristemente é…

as noites desenrolam-se
como sombras desordenadas no tecto frio,
os lençóis dormem amarrotados e gélidos,
vazios de corpo, de gente, de nós…
os minutos desfilam como cordeiros
compassados, ordenados, mecânicos
o tempo é o que sempre foi…
uma tortura medível pela ausência
a solidão vem-me trazida pelo som
esse som do mundo em ranger de madeira
sobram-me os braços vazios
sobram-me as noites,
sobra-me a vida
sobra-me o dia e o sol…
sobro-me a mim por não me bastar…

Alberto Cuddel
05-03-2020
16:30
In: Nova poesia de um poeta velho

No abraço que nos ampara

No abraço que nos ampara

dorme sobre o meu abraço
sonhando um novo sonhar
no meu leito do cansaço,
novo dia iremos alcançar!

pudessem todas as noites ser a novidade da vida,
serem o descanso e cansaço que se nos prometia,
ser o leito o porto de chegada, o dia ponto de partida,
pudesse a alma revigorar-se, abstinência que já sentia…

ó alma doce que me ampara
nesse olhar de mel que me conforta
sejam as estrelas testemunhas
e a lua confidente,
seremos seres, seremos gente?
leito despido das noites
vazio dos dias que adormecem…
sem esse abraço que nos ampara…

Alberto Cuddel
28/02/2020
17:30
In: Nova poesia de um poeta velho

Desisti de te encontrar

Desisti de te encontrar

Desisti mormente de te procurar nos sonhos
Sonhar-te nas formas redondas e lascivas de mulher
Desisti do nome, da vontade, do sono…

Se a solidão da crença me abraça
Deixo que a virtude se desfaça
Num qualquer rosto da noite
Por troca confortavelmente negociada
Sei que tu não desistirás de mim…

Alberto Cuddel
04/06/2017
15:00

Em troca de quase nada

Em troca de quase nada

Solta-se o nocturno ser,
Que nas sombras se move,

Que nos vultos se envolve,
Peregrina na solidão,
Reprime sentimentos,
Gestos de paixão,
Movimentos ritmados,
Repetidos e amargos,
Pois não são recebidos,
Pela distancia dos sentimentos,
Que nos desentendimentos,
Sempre são balbuciados!
Se dá, se troca,
Mas que importa,
Se o que recebe,
Distorce o que de belo,
Era transportado,
Por tudo o que era dado,
Em troca de quase nada,
De um gesto,
De uma palavra!…

Alberto Cuddel
12/10/2013

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