Por hoje…

Por hoje…

Dia, noite, tarde…
Tudo se confunde,
Tudo se infunde,
Miscelânea,
Noite de horrores,
Amanhecer, santificação,
Poema prosaico,
Desamores ensaiados,
Confúcios, traições mascaradas,
Noite, tiradas, raivas ofuscadas,
Encontros, jantares ocultos,
Ritos, crianças disformes,
Pedindo, enganando a fome,
Que dia, que noite,
Pérfida tradição,
Na pouca verdade,
Que a mentira contem,
E tudo pelo nada,
Que o hoje,
Apenas hoje,
A noite contém…

Alberto Cuddel®
02/11/2015

A noite que me abrace por dentro

A noite que nos abrace por dentro

Há nessa escuridão que nos abraça um conforto capaz, um abraço quente em nós mesmos, esse abrigo do vento das palavras vãs, esse crer absoluto de que nós somos, e somos apenas em nós, que que outra alma possua luz ou calor que nos reconforte… há momentos na vida em que abrimos portas, e por mais negro que seja o interior dessa sala entramos, por estar cansados, por estar fartos da luz, da existência, apenas procuramos o silêncio, a imobilidade, o ficar ali, enrostados num canto, sem absolutamente um som, uma gota, sem a distracção das sombras, do movimento… queremos apenas que tudo desapareça, absolutamente tudo… que não exista mais nada para além disto… eu quero apenas que o silêncio me preencha, que a escuridão me conforte… que nada mais exista…

António Alberto Teixeira de Sousa

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

O caminho segue amaldiçoado,
Por uma dourada ceara ceifada,
Toque da brisa Outubro na cara,
A manhã de Outono orvalhada!

Segue o destino da vida, o ciclo,
Do nascimento e morte, o vício,
De que no final tudo recomeça,
Temperada tarde de Primavera!
Cansado da solidão do pensamento,
Vive desgastando-se por dentro,
Na corrida perdida contra o tempo,
Desfilando palavras soltas no engodo,
Do engano sofredor do eterno perdão,
Lançado da busca da perfeição,
Buscando e redescobrindo o eterno modo,
Macabra e entediante dificuldade,
Na solidão encontrar uma saudade,
Conjunto dos tempos de felicidade!

Eterna contradição perdida da memória,
Num conflito interior de um pensamento,
Numa desfasada e nefasta ideia premonitória,
Que nos leva a este inevitável momento!

Noite esta que não desejei, ausente de mim,
Distante, na obscura luta da sobrevivência,
Noite de lúcidos pensamentos, divergentes,
Revoltantemente confusos, difusos no ser,
Entre o partir e o ficar, o sair a encontrar,
Entre a espada e a parede, desejos sem rede,
Noites estas de incúria, desmedido sentir,
Vivendo o feitiço da lua, nula sorte a tua,
Eu na noite, tu no dia, apenas um olhar,
Um sentir a amarga saudade, que noite,
Noite da saudosa aurora, do dia, encontro,
O doce toque do beijo, o calor de tua pele,
O parar o tempo e ficar, entre a despedida,
O doce e terno movimento do verbo amar!

Revolvo passados agindo pelo futuro,
Conforto de pensamento limpo e puro,
Por um presente em tudo diferente,
Vivido rodeado por muita outra gente!

Detém-nos a longínqua e ténue visão,
De alguém que recusa e diz não,
Que vencendo a morte se faz nascer,
Uma pequena flor em liberdade,
Na longa solidão da planície a crescer,
No aconchego deixando Saudade!..

Alberto Cuddel ®
01/12/2015

Madrugada capitular

Madrugada capitular

Sentia por antecipação
A madrugada despida
Orgulho caído do luar
Desvirginada manhã
Raio alucinadamente
Apaziguador do teu ser!

Fazes-me crer pela tua igreja,
Que te apresenta assim nua,
Despida nas doces preces,
Que ilusoriamente recrias,
Personagem descrente de ti!

Ai, madrugada oculta,
Que na luz revela-te,
Triste, dormente e fingida,
Louca e melancólica,
Vivendo apenas nos sonhos
Tresloucados amores da noite!

Alberto Cuddel®
30/03/2016

Morte do dia,

Morte do dia,

Assim vão desfilando os minutos,
Num velório anunciado, morreu,
Mais um dia nasceu, cresceu,
E se finou, assim sem anuncio,
Sem honra de abertura de jornal,
São assaltos, assassinatos, roubos,
Impostos, corrupção, mas e o dia afinal?
Nada, nem um rodapé, assim esquecido,
Mas que dia incompreendido este,
Que morte tão desolada,
Morreu, não é lembrada,
Apenas a noite, essa sim acarinhada,
Apenas a criançada um pouco contrariada,
Por chegar a hora da cama, não acha piada!

Mas também a noite nascida,
Com tudo onde está prometida,
Irá crescer, cobrir com seu manto,
O amante mais incauto,
Cumprir promessas feitas,
Trazer lágrimas às desfeitas,
E aos primeiros raios,
Também ela morrerá,
Não já, não hoje, mas amanhã!

Alberto Cuddel
16/05/2016

Poética III

Poética III

Palavras obrigatórias:
Memória, manhãs, chaminés, partida, vento, rouxinol, plenitude, cantar, velas, quebradas, noite.

Rasgam-se as vozes sem tempo que ecoam na noite
Memória das manhãs claras, vapor das chaminés
Desenhos formados nos olhos pela mente num acoite
Plenitude da imaginação empurrada pelo vento…

Nessa partida do cais rumo ao norte,
velas quebradas… apenas um casco…
E o silvo da vida morre longe, na saudade…

No parapeito da janela,
[ali no momento em que o sol se ergue]
Como que num chamamento de despertar lembrando a casa
Um rouxinol a cantar… canta… canta…

E a vida corre longe… longe de casa, longe das planícies da savana
Longe dos animais, das bestas e dos bestiais…
E acordo aqui, desterrado, entre o rio e a serra.
Perto do céu, mas longe da minha terra…

Alberto Cuddel
01/03/2021 03:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXXVII

Perdeu-se o mundo na madrugada…

Perdeu-se o mundo na madrugada…

e despiu-se… de alma vestida despiu o corpo
e correm alvoraçadas rua abaixo ainda confinadas
as folhas soltas do Outono douradas pelo tempo
cravam-se desenhos aleatórios na parede, cores garridas…
há uma camisola de malha esquecida e um jornal…

de joelhos ergue os punhos aos céus,
libertando as mãos dos cabelos seus,
lábios abertos e boca cheia, nem um grito
um gemido… engole…

perdeu-se o mundo na madrugada
não há já esperança no acordar
é tudo agora, depois, depois nada…

ouço calado notícias do fado
não há saudade, não há medo
nem desespero, nem amparo
nem conhecido, ou segredo
perdeu-se o mundo na ombreira da porta
mesmo ali, diante da escada…
nesta vida não vales nada… nada…

e os homens? esses esqueceram de acordar…
dormem, como vagabundos abandonados
usados, bem usados… mas sozinhos…
porque elas já não precisam deles…

e caminham sozinhos assobiando satisfeitos
sem conhecerem a solidão que os habita
que os vai corroendo por dentro
como um cancro incurável que os mata…

Alberto Cuddel
09/12/2020
03:10
Poética da demência assíncrona…

Doí-me a ausência

Doí-me a ausência

Procuro palavras perdidas
Explicação para lágrimas vertidas
Para a escorregadia calçada da saudade
Procuro nas mentiras a luz da verdade
Encontro paredes negras e sombrias
Que me asfixiam na solidão do quarto
Gritos nocturnos de um qualquer parto
Clareiras de hirtos pinheiros mansos
Grasnar aflitivo de alvos gansos
Partida, rumo ao sul calor do Verão
Sussurro para mim mesmo dores de paixão
Sonho teu rosto esquecido no adeus
Do jardim, nem memória, nem um jasmim
Nem rosas ou margaridas,
Apenas uma janela fechada,
Um amontoado de silêncios
Uma chuva miudinha que me lava a alma,
E as lagrimas salgadas, essas são calma!
Por nada, apenas estou assim,
Diferente, morto em mim!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 55

A noite é escura, muito escura

A noite é escura, muito escura

a noite é escura
na sua escuridão faz brilhar a mais ténue luz
há na distância um casario, na janela uma luz
uma pequena luz que ilumina um busto,
e brilha… uma luz que me faz mais humano
e mora la alguém que são sei que é
e se soubesse que importância teria…

nada me importa naquela luz
não sei quem ilumina,
apenas a luz reflectida pela lua no lago
há entre mim e a luz um lago
um pedaço de espelho que me reflecte o céu
eu que irei habitar o inferno

em relação à distância onde estou há só aquela luz,
e o lago que me separa, a noite esta escura
há o homem e a família dele
são reais do lado de lá da janela
eu estou do lado de cá,
a uma grande distância…
a luz apagou-se.
que me importa que o homem continue a existir?
se a noite escura não me incomoda…

Alberto Cuddel
28/08/2020
23:35
Poética da demência assíncrona…

Ergue-se o sol

Ergue-se o sol
Ergue-se o sol,
Desvirginando a noite,
Papoilas dançantes
Na dureza do teu olhar
Denunciando a noite,
Sol que muda
Que se faz novo
Que renova
Aquece e enlouquece
Corações esquecidos
Amargurados e feridos,
Novo alento na esperança
Na ajuda e temperança
Que novos amigos dão,
A esse teu coração
Que hoje acorda,
Para de novo deixar-se levar!

Hoje, sim hoje,
Hoje escolho-te a ti!

Alberto Cuddel
03/12/2014

Palavras Desconexas – 30

A noite chega

A noite chega

A noite chega,

Pé ante pé..

Termina o dia,

Chegam as sombras…

A noite chega,

Pé ante pé…

Falta a vontade,

Falta a verdade…

A noite chega,

Pé ante pé…

Bailam ideias,

Uivam as alcateias…

A noite chega,

Pé ante pé,

Esconde-se sol,

E a lua atrás do lençol…

A noite chega,

Pé ante pé…

Traz miséria,

Traz desprezo,

Esconde sofrimento,

Oculta mentira…

A noite chega,

Pé ante pé…

Alberto Cuddel®

15/09/2013

Acordar

Acordar

Nasce o dia!

Da noite escura,

Traz lembranças do sonho tido,

Memórias do que foi perdido…

Nasce o dia!

Da noite escura,

Não apaga ela o pesadelo tido,

As privações e sofrimento sentido…

Nasce o dia!

Da noite escura,

Viver de novo é o que se impõe,

Amor de amigo é do que dispõe,

Nasce o dia!

Da noite escura,

Caminha sozinho,

Por esse caminho…

Alberto Cuddel®

15/09/2013

Noite ordinária…

Noite ordinária…

Ainda assim haverias de querer na tua cama
Que te amasse com toda a minha alma?
Enquanto procuravas palavras doces
Líquidas, ásperas, deleitosas, libidinosas
Obscenamente prazerosas, era assim
Tudo do querer que procuravas
Mas não menti gozo prazer lascívia
De cabelos bem agarrados e corpo arqueado
Não ocultas a alma que procura prazer
De querer minha alma na tua cama?
Orbitam serrados teus olhos azuis
No gemido profundo que lanças
Rejubilas nas formas do teu corpo
Hirtas dos orgasmos profundos que proclamas
Na tua amada memória de coitos e de acertos.
Procura de novo, encontra-me, obriga-me
Ama-me na plenitude do teu Sexo…

Alberto Cuddel

A vida da história da noite simples

A vida da história da noite simples

na véspera da partida desse sol que era
– à um gemido surdo que anuncia o crepúsculo
esse abraço de fim de dia ainda a dar…

há uma história a contar da história da vida
– um surto aconchegante do amor que se renova
uma noite simples, que simples é a vida
como os barcos que aportam no porto
– e todos os que partem para a faina…

houve uma vida, dentro da vida da gente
uma vida nova a cada alvorada
uma outra que desponta a cada madrugada…
correm sonâmbulos pelas vielas os corpos cansados
os sem tecto e os sem esperança, os sem vida
os que chegam e os que partem…

há a cada esquina uma história
uma noite simples…
uma vida cansada… uma vida lembrada…

Alberto Cuddel
19/06/2020
20:34
In: Nova poesia de um poeta velho

Desde ontem

Desde ontem

Aqui, precisamente aqui
Desde ontem, ou já
Cansaço ladeado de flores
Separados pela distância do ponteiro
Um acordar
Manta que deslaça de quente
Sentir que se governa
Decide e impera
Dormindo na traseira do dia
Na esperança da noite fechada
Calado, olho, reparo, concentro
Cuidado,
Voltas e reviravolta de uma vida
Estupidamente fingida
Viagem vertiginosa dos minutos…
Espero,
Esperas,
Dormes,
Acordas,
Sob uma manta quente
Que te separa de mim
Assim,
A vida nos encobre
Sob o olhar desconfiado dos dias!

Alberto Cuddel
19/05/2017
05:46

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