Um poder misterioso

Um poder misterioso

entre aquilo de que é feito
e o seu feitio, o porte…
essas escadas que não dão para porta nenhuma
a não ser para a janela da dispensa da casa da tua vizinha
e que subo devagarinho numa esperança vã
como que num golpe de sorte lá fosses pedir açúcar…

e depois as andorinhas não voltaram
e não partiram as cegonhas
e os flamingos nunca mais foram vistos
e o tempo ficou seco
como secos estavam os meus olhos
que fitavam o fim da estrada
sem que chegasses…

há um poder misterioso
nesse pedaço de peito
que levaste contigo
fazes me falta sabias?
fazes-me falta…
mesmo que nunca tenhas sido minha…
mesmo que eu nunca to tenha dito
fazes-me falta
andorinha…

Alberto Cuddel
01/01/2021 16:07
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VII

Do primeiro antes do depois…

Do primeiro antes do depois…

falo de ti às flores e à madrugada
falo como se calado estivesse
de lábios cerrados pelas brasas
nesse luar que desabrocha no lago…

falo de ti ao mar e as rochas fustigadas
as areias que correm e ao sol que se esconde
de alma aberta grito silêncios do alto da escarpa
nesse barco solitário que longe atraca…

falo de ti para não morder a língua
jangada de pedra, vento de leste
nesse barlavento em sentido oposto
falo de ti, mãos no rosto, e o beijo…

falo de ti, de mim não…
eu que pertenço à raça de construtores de impérios
de castelos de areia e de sonhos, eu que sou poeta
que enclausuro dentro de mim o homem que me habita
falo de ti aos céus, aos deuses, de mim não…

se falar como sou, não serei entendido,
porque não tenho poetas que me escutem
nem aves ou peixes, nem mesmo tu…
porque eu sou como sou,
uma confusa imensidão de mim,
e de todos de mim
é de ti que falo
desde o primeiro dia
bem antes do depois
porque o depois de que de ti falo é agora…

Alberto Cuddel
12/12/2020
03:10
Poética da demência assíncrona…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Disléxico poema, uma vida cinzenta…

Palavras mote de uso obrigatório:
“Homens, trabalham, lâmpada, morte, fonte, escuro, nascente, sombra, pedra, loucura, procura, lugar, saída.”

Nascem do prazer do trabalho, tempos passados após a loucura
Desejo concedido pelo génio da lâmpada que se esfrega,
Esse bater das marés em pedra dura, bate que bate e fura…

Remam os homens barcaças de vime
Ventos que os acoitam de frente
E corre o sol alto com medo da sombra
Os montes erguem-se preguiçosos…

Trabalham as mães, os cueiros e a terra
A água na nascente, fonte da vida
Nos caminhos de pedra solta
Há uma procura da saia, uma mão que as prende…

Partem noite escuro, de encontro à morte
A faina não perdoa, nem a barriga de fome
Nessa procura divina, por uma saída…
Caminha a fé sob as águas neste lugar…

Num disléxico poema, uma vida cinzenta
Uma prece ao tempo, um filho no ventre
Uma espera apertada, uma alma dilacerada…
Nascem do prazer do trabalho,
Tempos passados após a loucura…

Alberto Cuddel
15/11/2020
12:50
Poética da demência assíncrona…

Se houvessem arco-íris

Se houvessem arco-íris

Se arco-íris houvessem no mar
E escadas que que erguessem aos céus
Quem teria eu de subornar nos infernos
Para que todos os teus beijos fossem meus…

Malditos sejam todos os caminhos, que nos cruzam as cidades
Malditos sejam as saudades, e todas as aves sem ninhos
Ergui muralhas de areia molhada, escondi tesouros na estrada
Cortei nuvens de algodão, luzes coloridas de uma canção…

Se houvessem arco-íris onde se esconde o caldeirão
Subornaria o duende, e plantar-me-ia no coração…

Erguem se as copas aos céus, por entre os degraus do olimpo
Há no templo de Salomão, ainda perdão a este impio…

David, David, porque de Abraão viemos?
Há moças que correm de espada
E rapazes soltos sem matilha…
Por um justo, foste poupada…
Por uma pecadora condenada…

Se arco-íris houvessem no mar
Os ventos não me abandonariam à má sorte
Longe persegue-me a calma, e a morte…

Se houvessem arco-íris
Em pomares de pêssegos maduros
Tudo seria calma, tudo seria apenas futuro…

Alberto Cuddel
14/11/2020
20:50
Poética da demência assíncrona…

Sabor a (a)mar

Sabor a (a)mar

Na turbulência das ondas, na crista a alva espuma,
Revolta contida, espraiada na areia, silencioso voo das aves
Gaivotas que se juntam e separam, em voo picado sob águas quietas
Estranho mar nublado, sob luz rompendo, vento que a barca move
Apagando o tempo, réstia aflorada memória, sofrer nas ruidosas batidas,
Gemidos e palavras ditas, calma da baixa-mar, reflexos da brancas nuvens,
Desenhando ondas azuis, formas do desejo no azul do teu olhar,
Calma serena, na brisa que tange à sua passagem, corpos quentes
Perfume de maresia, nos poros do teu corpo, no toque de Deus
Sussurro soprado, nos mistérios da sua mão criadora
Com me acaricias os cabelos, paisagem de teu corpo que me prende,
À vontade de mim, que me eleva e me move, na dura direção da bolina,
Nos dias e tardes de luz adormecida no olhar, que na rocha sentada,
Onde quero encalhar, escorrem algas secas ao sol como finos cabelos,
Naufrágio no teu delicioso corpo, afogando-me em teu ser,
Sopro das palavras, onde respiro, nos versos em que me perco
Onde me encontro, nas sílabas que desenho na areia, húmida da maré
Que me trouxe o sal, a origem da vida, a vogais do meu ser, consoantes,
Na alva espuma, no azul do céu, descobri o sentido do (a)mar!

Alberto Cuddel®

Ondas

Ondas

As mesmas que se quebram
Que se enrolam e escorrem
Numa areia mexida, remexida
Misturada entre espuma e algas
Nuvens que encobrem os dias
Chamamento da saudade
Cadência que me acalma
No doce e odioso canto do mar
Vai, vai, um dia irás voltar?

Alberto Cuddel
18/05/2017
00:27

Rebordo amordaçado do luar

Rebordo amordaçado do luar

aquilo mesmo que senti me é claro.
alheia é a alma antiga; o que me sinto
chegou hoje, de longe uma onda que morre
enrolada n’areia fina que se move, espuma-se…

não há nuvens entre mim e o céu
as estrelas brilham e adormecem
Maria imóvel baila nos pensamentos e adormece
como quem beija o penhasco, fustigado pelas águas
entre a claridade das copas, brilha a lua que esmorece…

pares e diferentes nos regemos
por uma norma própria, e ainda que dura,
será à liberdade, inconfidência clara
de tudo é que por Deus ama, e sofremos
mesmo que morramos um no outro, sentimos
porque sentir é amar plenamente,
mesmo que nada façamos, a vida condena-nos
a esta verdade estupidamente humana
que é amar apenas por isso,
por ser esse o nosso propósito…

Alberto Cuddel
17/05/2020
05:17
In: Nova poesia de um poeta velho

Tardiamente congrego  

Tardiamente congrego
 

Tardiamente congrego em mim o queixume

Redoma de amor chorado, e os ais gemidos

Compassos espaçados, carência a miude

Esmoreço no perfume da saudade, margaridas

Espaços entre gozos e cansaços, madre-silvas

Espasmos, e dormências do corpo, gaivotas

Bater de asas sereno, pegadas na areia seca

Brisas e ventos, xailes enrolados no corpo, dunas

Entre mãos, pernas, coxas quentes, olhos meigos

Entardecer, laranja e azul, e o cheiro de maresia

Perfume do teu corpo gravado em maré crescente

A tua ausência, e eu? Olhando o mar, doente…
 

Alberto Cuddel

02/05/2014

18:35

Por onde me vai o Amor

Por onde me vai o Amor

Atravessarei contigo os mares do mundo
Na busca inglória por garrafas vazias
Mergulho permanente a perder o medo
Apneia dos passos que juntos perseguimos

Não sei em quantos modos te sigo?
Se posso chamar de amor este meu jeito de gostar,
Perco-me todos os dias nesse olhar,
Castanhos, verdes, cinza, azuis…
Tintos, brancos, maduros… sei lá!
Apenas sei que me faz bem…

Nas noites longas, desespero,
Para que cheguem as curtas,
E as curtas passam tão depressa…
Mesmo que amarrados num abraço!

Já gastamos tantas palavras, meu amor,
Que hoje na sua transparência
Falamos apenas por um olhar,
Nesse teu de maresia escondida
Em quanto a lua canta novas
Marés de agosto, mosto de setembro
Os dias juntos que cruzamos o outono…

Alberto Cuddel
Julho 2016

Mar Revolto

Mar Revolto

Chega com a fúria na alma,
E nessa fúria logo se acalma,
De sentimentos revolto o Mar,
Mas pela Lua se volta afagar!

Que triste o constante vaivém,
Ora calmo, belo e espelhado,
Ora revolto querendo levar alguém,
Deitando por terra o que foi sonhado!

Deixam-me o tempo parar,
Deixa-me votar a sonhar,
Deixa-me voltar a teu lado caminhar,
Deixando de novo gravar,
As pegadas do que é Amar!

Alberto Cuddel

18:50 29/05/2013

Há uma ilha perdida em mim…

Há uma ilha perdida em mim…

“Há uma ilha em mim, entre mim e o mundo és-me o mar que me mantém integro”

és o eco de todas as palavras, o silêncio que ninguém interpreta,
és o segredo escancarado ao mundo que ninguém absorve, és mar
és vida plena onde existo poeta, onde me faço homem, onde sou amante
és razão divina da minha fútil existência, apenas vivo, entre o chegar e o partir…

fiz-me licor em teus lábios, unindo sentires que não sentias, fugaz é a vida
desejo com o pobre e o infeliz um céu de algodão
esperança certa que o dia chegará, e depois a noite, e novamente o dia
na grande claridade do sossego do tempo, serão os braços o amparo
serão os pés o caminho, serão os lábios o alimento, será o corpo nosso lar…
o luar? testemunha silenciosa do reflexo do mar…
a ilha? tabernáculo perfeito, dois copos, duas vidas, um horizonte, uma saída…

e vinha por fim a Primavera, e aquecia, e floria, e tornava-se eterna,
o querer voava polinizando o desejo, como corpos abertos em flor…

o querer é um sonho, o desejo intenção, mas a ilha, a ilha é a realidade da nossa razão
como um ninho em construção…

Alberto Cuddel
05/04/2019

Sabes o número de vezes que disse não?

Sabes o número de vezes que disse não?

Nessa busca da verdade em monossílabos,
não encontro paralelo com os rios que me brotam do ser,
pelas ruas esconsas desta noite que me abraça
procuro respostas onde apenas existem interrogações…

Nessa gaivota que paira sobre o mar
não há segredo, apenas vento, apenas medo
nos rostos dos seres invisíveis que habitam as águas
esse esperam o “não”, o “não” que seja agora
prolongando o momento eterno de um “agora”…

Nesses “nãos” que são afirmativos na intenção
há intenções robustas e firmes
outra tão frágeis e ténues, como ténue é a luz no crepúsculo,
não é a noite que me abraça, mas a luz que me abandona…
o número de vezes que disse não é irrelevante
válida é a força com que ele se manteve…

Alberto Cuddel
15/01/2019

Noite anárquica,

Noite anárquica,

Mundo onde navego,
Velas armadas,
Ventos disformes,
A noite,
Que tudo oculta,
Desejo ardente,
Escondido,
Resguardado
Alimentado na ilusão,
Presas, fácil caçada
Ávidas, sedentas,
Sequiosas, iludidas,
Caçadoras eximias,
Armadas,
Que pensam caçar,
Apenas são usadas,
Num jogo periclitante
Sedução sonhada,
Assisto de camarote,
Pela noite em silêncio
A um jogo antes jogado
Do qual, sai derrotado,
Navego hoje,
Nas asas da ilusão,
Assistindo, a quedas,
De virtuais sentires
Que se elevam
No virtual desejo da paixão!

Sírio de Andrade
30/09/2015

Mar de Letras!

Mar de Letras!

Pequeno,
Fragilmente só,
Remando contra a ignorância,
Perdido na fantasia do sonho,
Histórias, contos, poemas, letras,
O infinito mundo da solidão,
Embrenhado no jardim
Florido, nas hipérboles,
Do solstício das metáforas,
Rimas, epopeias, tragedias,
Romances, amores, fantasia,
Infinito mar, a cada rede uma frase,
Cada anzol, uma rima, cada remada,
Nova descoberta, um avanço,
Livros, pensamento em forma de tinta,
Tinta em forma de palavras,
Palavras que geram imagens,
Sonhos, personagens!
Remo, perdido no saber,
Deslumbrado,
Criança que vive em mim!

Alberto Cuddel

Mar revolto!

Mar revolto!

Chega com a fúria na alma,
E nessa fúria logo se acalma,
De sentimentos, revolto o Mar,
Mas pela Lua volta-se a afagar!

Que triste o constante vaivém,
Ora calmo, belo e espelhado,
Ora revolto querendo levar alguém,
Deitando por terra o que foi sonhado!

Deixa-me o tempo parar,
Deixa-me voltar a sonhar,
Deixa-me a teu lado caminhar,
Deixando de novo gravar,
As pegadas do que é Amar!

Alberto Cuddel

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