Raiva da memória que me atraiçoa

Raiva da memória que me atraiçoa

esse suave gosto como o do exílio,
em que sentimos o orgulho do desterro
esbater-nos em volúpia incerta a vaga
inquietação de estar longe, ali, mesmo ao lado
de mão dada…

não há perda no reencontro
na certeza absoluta deque o reencontro é a confirmação da perda
essa consciência absurda de que chove apenas por assim ter de ser
e cresce o que é natural, e as perdas são apenas consequências
de uma culpa partilhada, sem que os gestos se unam em conciliação…

há na raiva da memória que me atraiçoa, uma evidencia
o mar é… e eu não poderei ser, ou seca-lo…
o resto é uma consequência da sabedoria
da inacção do coração…
eramos tão felizes na ignorância…

o meu mundo sentido foi sempre o único mundo verdadeiro para mim.
nunca tive amores tão reais, tão cheios de sangue e de vida
como os que tive quando senti o que eu próprio criei.
que pena! tenho saudades deles, porque, como os outros, passam…
não que tenha deixado de sentir, sinto mais do que o consigo fingir
mas tenho saudades de ser e de existir… porque sou…
E nos gestos que minto, sou tudo o que de verdadeiro sinto…
Eu… existência física e material do mar de palavras, eu poeta…

Alberto Cuddel
02/09/2021
02:00
Alma nova, poema esquecido – XXX

Veste-me de loucura…

Veste-me de loucura…

corta-me a lucidez e o discernimento e veste-me de loucura
trespassa-me a alma com açucenas, rasga-me de paixão…

cega-me com o movimento amplo das ancas em pleno voo
lambe-me longamente o ego com tulipas negras
calça-me os pés de troncos secos, e arrasta-me pelas areias…

há este fogo de céu, estas marés de sargaço que me abraçam
na loucura com que me vestes como nesse excesso de velocidade
de não cumprir as regras do código da estrada e voar…

veste-me da loucura de te odiar no amor que me inunda…

e depois de tudo, rasgas-me as vestes e afogas-me no ar da tua boca
expiras e inspiras gemendo longamente a dor que se crava pela saudade…

mas dói-me essa loucura com me vestes…
perdido que estou na indefinição do que sou…
há um orgasmo contido nessa metáfora chamada poesia…
e a loucura é apenas o reflexo de me pensar existir em ti…
enquanto tu és meramente sonho…

Alberto Cuddel
17/01/2021 23:08
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XIII

Loucura

Loucura

Sinto-me
Abraçado pela realidade
Da escrita que me abraça
Na urna do tempo que teço
Libertação em fazer-me de mim
Sonho eterno sem fim!

Solenidade do acto heróico
Desenhado letras sem nexo
Amor perplexo do desejo
Beijo sonhado gélidos lábios!

Esconjuro o sol que adentra nos prados
Lua que se deita em sonhos queimados
Clareira de choro perfeito
Caminho negro e estreito
Miopia do cristalino
Ilusão contida nas lágrimas!

O resto?
O resto são sonhos
Vontade de morrer de pé,
Num busto em qualquer lugar
Escondido da luz do dia!

Alberto Cuddel
22/05/2017
21:06

Esquizofrenia perseguida

Esquizofrenia perseguida

Desisti de saber qual é o teu nome
Se por um acaso ainda o mantens
Na desventura da vida, da tua fome
Sopro da fama, incúria mantens reféns

Perseguição alucinada, dom que não tens
Mas na tua loucura todos de ti o desdenham
Vês sombras na noite, fantasmas sustens
Pobre poeta circunscrito, rimas aponham

Chamar-te a ti poeta -autor, talvez engano
Ainda que do grotesco seja gosto humano
Sejam as palavras que te envaidecem, enfim!

Desisto de opinar o que quer que seja
Da tua crença e louca pertença igreja
Tua loucura nunca me mudará a mim!

Alberto Cuddel
15/06/2017

Poema XXVIII

Poema XXVIII

Escrevi o teu nome por toda a cidade,
Nas casas, nos muros, nos carros,
Na loucura de te anunciar aos céus,
Doces, ternos, loucos, pecados meus!

Gritei das torres aos ventos, pelos sinos,
Gemi sofrendo, vocábulos pequeninos,
Arrastados pelo olhar preso no luar
Passos apressados sem te encontrar!

Ardo no distante ciúme, corpo quente,
Onde mirro calado, por este amor ausente,
Arde no peito pelo crer certa vivacidade
Corro procuro-te por toda a barca cidade!

Lembrando que o amor não é doença
Mas a cura de toda nossa humanidade…

Alberto Cuddel
07/10/2017
14:15

Poema do dia 02/11/2017

Poema do dia 02/11/2017

Psicografia de um louco

De todas as almas que me possuem
Existem, desistem,
Condenam-me e libertam-me…
Rasgam-me a carne
Volúpia de sangue
Contemplo a vida
As gaivotas, as ondas
As marés, o florir das rosas
Movimento dos girassóis…
Nas almas que me habitam
Sedentas de prazer,
Dedos que desenham
Que desdenham corpos
Carnes quentes e húmidas…
Que esperam amor eterno
Ardente no peito o sempre
O já e agora morto no beijo…
Contradigo-me
Dizendo o que não disse
Dizendo o que sempre calei
Apontando o dedo na revolta
Tudo por nada sem volta…
Suicido-me a cada poema
A cada noite cinzenta
A cada presença, a cada ausência
Na espera eterna que chegues
Que venhas, que fiques
Ainda que ames eternamente…
Espero-te
Na consciente volúpia que me habita
Mulher insatisfeita na vida, fria
Os dias… arrastam-se, nas palavras
Nessas que não assumes, gritando
Que apenas me amas…
Que seja já
Cada frase consumada
Na aliança dos dias
Em que sempre te perdoo
A vida cresce a cada verso…
A alma, divide-se, multiplica-se
Inscreve-se em pequenos versos dispersos
Na unidade que o todo lhe concede…

Alberto Cuddel
02/11/2017
03:50

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