Jardim de ontem!

Jardim de ontem!

Colhi em mim as flores abandonadas
Num qualquer outro jardim plantadas
Numa qualquer esperança, ali regada
Encantamento, fonte das aves amada!

Caminhos, passeios, não levam a lugar algum,
Rodopiam, contornam, ladeiam, circundam,
Caminhos, correm, pulam, dançam, choram,
Ficam, partem, caem sozinhos na triste solidão
Sozinho assim fica sentado no único banco
Que o jardim moribundo não viu partir!
Aves que ontem se abrigavam, partiram
Os jogos de tabuleiro, acabaram
As crianças que brincavam, cresceram
Hoje passam apressadas, não param
Pobre cantoneiro saudoso, sentado
Deixado só, na saudade, tempo passado!

Alberto Cuddel®
08/12/2015

Cúpula do tempo

Cúpula do tempo

É nessa cúpula do tempo
Na dualidade de ser palavra
Que me divido, entre a loira e a morena
Tempo enraivecido pela pasmaceira das horas
Há um verde de esperança que me brota do silencio
E flui a conversa e o trago, entre um cigarro e o outro
Discutimos, discutimos longamente
Como um casal velho…
Eu e tu, maldita caneta que teimosamente não escreves…

(…)
Nesse vento distante que te agita os braços
Um sussurro veraneio, um chamamento
Um pedaço de vida que se agita, um cigarro cortado
Uma palavra fresca, solta assim na mesa
Como uma conversa distante sem nexo, sem sexo, apenas poema
E a vida acontece à mesa, ali à distância dos dedos
Palavra a palavra…
Enquanto se saboreia o tempo
Pleno de companhia…

Alberto Cuddel
11/06/2021
00:30
Alma nova, poema esquecido – II

Desafio de Ruth Collaço, Foto de João Gomez photography

Poema do dia 24/09/2018

Poema do dia 24/09/2018

… não sei que coisa estranha e bela existe nos jardins de montanha que o seu perfume me inunda o peito, apenas sei que me povoa, como coisa eterna que me pertence por direito divino…

Nessa luz da aurora reflectida nos lagos iluminando
Rosto do desejo que me povoa os sonhos, paixão
Perfume do teu corpo giestas ondulantes na brisa
Como camélias e o doce dos frutos de Outono…

… não sei que coisa estranha e bela existe nos jardins de montanha, que me inebria para lá da memória, que me arrebata para lá do visível, sei que sou, existo neste lugar sacro, onde ainda não estive, onde ainda não existimos.

Nesta cama de azáleas perfume de pinho
Passos quedos, vagarosos, olhando além
Partimos sem ter chegado, na viagem do amanhã
Hoje, hoje apenas estamos neste limbo!
Paixão crente, em cama fértil,
Brisa no rosto, cabelo solto, corrente…

… não sei que coisa estranha e bela existe nos jardins de montanha, esta paisagem pertence-me, existo nela, como figurante de um tempo que não passou, que não chegou, sou, existo aqui, contigo, contigo em mim, nesta plateia morta espalhada no chão, que será vida, não hoje, não amanhã, mas depois, talvez depois de nós!
Apenas sei que o perfume me inunda o peito, apenas sei que me povoa, como coisa eterna que me pertence por direito divino, que nos pertence…

Alberto Cuddel
24/09/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

Poema do dia 28/08/2018

Poema do dia 28/08/2018

Voaram gaivotas sobre o mar
Em dedos entrelaçados no monte
Abraços perdidos no tempo
Olhares que ficaram por cruzar!

Escorrem verdejantes os canteiros
em passos sincronizados,
vão florindo esperanças rosas,
amarelas, arco-íris plantado
regado nas palavras cantadas!

Na questão de uma pergunta calada
Lábios que se abrem, silêncio da resposta
Gravada a ferros na alma, nessa dor
A que chamam felicidade…

O tempo corre em sentido contrário
Como que a água voltasse a passar no moinho
Recuperando o tempo suspenso
Onde o ontem, volta a ser hoje
Florindo nova esperança para o depois…
O depois é, vai ser, todo o nosso tempo…

Alberto Cuddel
28/08/2018

Poema do dia 10/08/2018

Poema do dia 10/08/2018

No culminar das pétalas que se desfolham
Sem culpa, entre a indecisão e o pecado
Morrem os desejos na estrada sob o calor
Hoje, hoje já não há pressa, apenas paciência…

Nessas almas que se perdem alugando o tempo
Pagam-se marés entre dunas húmidas ao luar
Mesas frescas, palavras e amores
Aromas de café e gelados… espero a tarde!…

Existem cidades que se despem para a noite
Mulheres que nos procuram há janela
Entre laranjas e rosas, lingeries negras
Formas redondas e beijos, candeeiros perola…

Há fervorosos pensadores e filósofos de esquina
Largando frases com o mesmo cheiro das vielas
Ao desbarato pescam na noite com isco gasto…

No culminar do tempo em que se desfolham pétalas
Fica a culpa, de ver morrer no jardim mais uma flor…
Triste, cabisbaixa, já descrente no amor e na vida,
A felicidade foi-lhe arrancada pela raiz, já não crê…

Alberto Cuddel
10/08/2018
15:51

Poema do dia 05/08/2018

Poema do dia 05/08/2018

   – Já lavei as mãos vezes sem conta
Ainda assim continuam cheias de poemas
     Talvez uma maldição de Deus,
Um fado vagarosamente suportado em contratempo…

Nos pés fixos ao chão pelo cansaço
Já não carrego rimas ou léxicos floridos
Tão pouco carrego nos costados, poemas de amor
Apenas poemas, cansados…

Nas artes perdidas das palavras
Invento quimeras, conquistas
Reinvento-me poeta!

Rumo a terra, porto seguro
Raio de luz que me guia
Na calma e aprazível
Baixa-mar, elevas-me
Conquistas-me,
No louco movimento,
Com que me rebolas na alma… Calma… calma…

Olho-me sentado, olhando o ontem e o passado
Desfolho malmequeres, violetas, dálias amarelas
Conto borboletas azuis, recordo quimeras…
Sonhos de letras impressas, bibliotecas…

Força, salto de cavalo, ou bispo, ou torre… meros peões…
A saudade dos jogos, das discussões, e da poética…
Essa que levaste contigo…

– Já lavei as mãos vezes sem conta,
Mas a tinta e as palavras brotam-me dos dedos,
Apenas o verde me acalma, sossega… as noites?
Essas torturam-me, sem ti, sem ela…

Alberto Cuddel
05/05/2018
17:34

Poema do dia 29/07/2017

Poema do dia 29/07/2017

Olhar acetinado pousado nas estrelas
Nessa luz quente que ilumina esquinas
Pudesse eu entretê-las, mergulhar nelas
Em madrugadas alvas e vespertinas…

Corresse eu em cidades vazias procurando jardins,
Montes e colinas floridas na alegria, árvores de ramos agitados
Braços abertos, no acolhimento dos dias…
Nesta relva que piso, sinto o mundo,
Sinto-te, solto, livre, espirito vagabundo…

Aremos a vida, semeando novos dias
Uma palavra, um encontro, o silencio de um abraço,
Amizade, celebração do cansaço…

Bailemos, nas mãos que se entregam
Na solenidade da celebração
És solidariamente uníssono…
Um coração que bate com o meu… 

Olhar acetinado pousado nas estrelas
Nessa luz quente que ilumina esquinas
Pudesse eu entretê-las, mergulhar nelas
Em madrugadas alvas e vespertinas…
Encontrando em todo de ti um amigo
Alguém que levo na vida comigo…

Alberto Cuddel
29/07/2018
19:05

Poema do dia 21/06/2018

Poema do dia 21/06/2018

Nas majestosas formas paralelepipedas que piso, entre o negro dos dias e a alvura da noite, percorro as vielas da vida, contornando sombras, sob varandas pelejadas de sardinheiras violetas de veludo, e mulheres que apupam diante da forma máscula que caminha…

Não há nada a ver vizinha,
Apenas um ser que caminha,
– Vem cá vem, ver como ninguém
O que sou e fazia, enquanto há vida!

Nos jardins, bancos vazios e jornais abandonados, há amores-perfeitos no canteiro do lado, há vidas esquecidas quando o atravessam, numa diagonal perfeita esquecendo a sorte… declamo poemas vazios do palanque do centro, escutam os carros e montras da periferia, o poeta, os poetas, não vivem… morrem para serem lembrados…

“Alma Gentil que partiste,”
Depois de tão maltratado,
Não há povo mal-agradecido,
Apenas um modo de ser invejado…

Percorro vielas abertas e becos com saída… avenidas estreitas e linhas direitas, os poemas, esses talvez se fechem na redundância das estrofes… para uma dissecação linguística sob a luz do vosso ser…

Alberto Cuddel
21/06/2018
14:30

Poema do dia 10/04/2018

Poema do dia 10/04/2018

Na fragilidade da malva-rosa
Colhi nuvens como pecado
Desejo de te percorrer o jardim
Encontrar-me nele por fim…

Na virginal puberdade, correndo descalço
Pisando pétalas de rosa e nevoeiro
Correndo na inocência juvenil atrás do beijo
Olhar fixo nos vales e monte de encanto
Rios que desaguam nos teus seios…

Oh saudade, dessa outra consciência
Um futuro sem tempo, no sonho eterno
Uma vaidade desconhecida, da vã ciência
Um adormecer, suave, num sonho terno!

Desfolho memórias sem mácula
Sem pecado de outros corpos
Do sempre que sou, volúpia máscula
No olhar alheio, sempre desejos mortos…

Alberto Cuddel
10/04/2018
04:41

Inconsequências

Inconsequências

Contrárias são todas as vontades
Inimizades criadas e nascidas do corpo
Abstinência do prazer provocado
Jardim do Éden amaldiçoado…

Jogo que jogas jogando
Mão estendida em sedução
Vales depilados sem relva
Aves que voam em círculos
Não abdicam de ti, de mim
Creiam pois nos agoiros
Afoitos desejos pulsam nos corpos
Pelas tristezas do abandono
Criadas por uma vida longínqua…

Tão perto e tão longe mora o teu corpo do meu…
Mesmo que o pecado durma ao teu lado…

Alberto Cuddel
03/11/2017
05:00
#Solutampoetica

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