Vislumbres de lucidez de uma alma reclusa

Vislumbres de lucidez de uma alma reclusa

Há nesses vislumbres do mundo um olhar distante
Uma fuga rasgada aos sonhos, à realidade fingida
Eram ontem e todos os dias depois, reclusão
As portas abertas, as janelas também, e o medo…

As paredes negras sem luz, e a voz da vossa mãe
Mas fico, ficas, ficamos, e a vida lá fora, distante
Há nas árvores que se agitam ao sabor do vento
Um não sei quê de liberdade, não vão a lugar algum
Mas vivem livres na sua reclusão das raízes térreas…

Onde moram os pássaros, e os peixes dos lagos?
[eu que tudo tenho para fugir, fico-me olhando o mundo]
Nesse amontoado de pedras a que chamam história
Não rosna a minha alma, eu fiz-me meramente palavra
E nela livre, dentro do meu próprio universo…

Sou, para lá de cada pedra, de cada vidro, de cada porta
Sou para lá da existência, sou consciência, lágrima e riso
Na lucidez que a prisão me devota, eu sou tudo, poeta do mundo…

Alberto Cuddel
11/06/2021
23:20
Alma nova, poema esquecido – IV

Janela

Janela

Da janela da tua alma,
Escancarada à calma maresia,
Perco-me no movimento,
Ondular do teu sentir!
Brisa leve que me acolhe,
Por inteiro no teu ser,
Asas que me elevam,
Que me fazem voar em ti,
No teu querer,
No teu saber,
No teu desejo,
Doce sabor do beijo,
Alma minha que me junta,
No disperso pensar,
No abrangente sentir,
Que faz luz na escura noite!

Janela, visão do teu olhar o mundo,
Imagens de mim a cada segundo,
Que me congrega como um espelho,
Que me prende na visão,
De ser e ver através dela!

Alberto Cuddel
06/07/2015

Tempo morto em que vivo, debruçando-me à janela

Tempo morto em que vivo, debruçando-me à janela

de manhã se acordo, não morri
e eu que pedi, não voltar a nascer…

assim é a essência da realidade o existir,
não o ser pensada, apenas sentida,
assim tudo o que existe, simplesmente existe
o resto é uma espécie de sonho que temos…
a vida é um sofrimento sentido ou olhado
vista do lado de dentro da janela…
janelas verdes e altas, de outro tempo ou da aldeia
e da janela do meu quarto vejo…
um rei ser esventrado, um presidente baleado
ou assaltante enforcado e um inocente condenado à morte

sorte do tira dentes que desmaia ao ver sangue…
sorte a da vizinha que lhe corre entre as pernas
sorte a da alcoviteira que tem o que contar…
todos sabem tudo, o que viram e o que contaram
nunca a verdade, nunca a realidade, mas o que inventaram.
e a china matou os velhos… não os novos que os infectaram…
mas os chineses… não a ganância dos empresários, mas os chineses…
tempo morto em que vivo, debruçando-me `a janela
de lembro-me de cair, vertiginosamente, na direcção de uma folha de papel pardo e ser palavra, vomito…

Alberto Cuddel
06/05/2020
23:00
In: Nova poesia de um poeta velho

À janela…

À janela…

Havia uma rua estreita cheia de janelas fechadas, era uma vila pequena, de gente simples, destacava-se uma janela, branca, alta, com um pequeno gradeamento e um sorriso, sempre meia aberta, paredes gastas quase sem tinta a notar-se ainda um tom ocre, gasto do tempo e das intempéries, uma janela onde acorriam os pombos, os pássaros, a única companhia de Dona Felismina, uma resistente da solidão, um “bom dia”, rasgava o silêncio da rua a quem passava, sempre com uma palavra amiga, um gesto de apreço, dois dedos de conversa…
Hoje a janela não se abre, na rua estreita que subia, já não mora ninguém, não há pombos nem pássaros, apenas andorinhas sobem e descem a rua, e nos beirais chilreiam as ninhadas, na rua estreita apenas mora a Primavera, no resto do ano, ninguém.
A Dona Felismina, morreu o ano passado e na rua estreita apenas mora o silêncio, quebrado pelos passos de quem a cruza, há como nesta vila muitas ruas cheias de janelas fechadas, e outras cheias de gente sozinha…

Alberto Cuddel
10/04/2019
In: Dor da salinidade do olhar

Vidro fosco da janela

Vidro fosco da janela

a vida corria lá fora da janela
porta fechada saindo por ela
a rua deserta
destino morto
vida suspensa, cabos bambos
e toca sem destino a chamada urgente
não é bicho, não é mato, é gente…

a morte à porta
o vento de leste
uma névoa solta
as notícias que leste
um vidro baço…
fechado, emoldurado na janela…
um olhar perdido
braços caídos
dia sem sentido…

Alberto Cuddel
20/02/2020
02:45
In: Nova poesia de um poeta velho

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto vejo outras janelas,
Umas fechadas, outras abertas, e outras apenas janelas,
As pessoas que nelas vivem, escondem-se por detrás delas,
E são apenas habitantes espreitando por elas.
Da janela do meu quatro,
Vejo o mundo onde vives,
Vejo a imagem que projectas,
Os sonhos, os quereres,
Tudo quanto te fez sofrer!
Da janela do meu quarto, vejo a vida lá fora,
Vejo o desenrolar de uma vida, o já e o agora,
Da janela do meu quarto, viajo pela tua casa,
Vejo-te rir, chorar, partir, ficar, bater a asa,
Vejo um mundo de ilusões,
Quereres, vontades, paixões!
Da janela do meu quarto, vejo o mar,
Aquele outro mar, onde navegamos,
Partilhamos conversas, sentimentos,
Fingimos nos importar, amparar, apoiar!
Da janela do meu quarto, conheço-te,
Tu conheces-me, somos amigos,
Mas quando a porta saímos?
Tudo foi ilusão,
Tudo foi em vão,
Pois a janela do meu quarto,
É apenas um portal,
Para um mundo virtual!

Alberto Cuddel

Poema do dia 13/09/2018

Poema do dia 13/09/2018

“Nessas janelas transparentes,
por onde espreitei a felicidade,
vejo-me no reflexo da solidão,
quem já não sou,
o que desejo para depois!”

Vi a negritude das paredes que me aprisionam, na luz que emana do mundo, do teu mundo, do nosso, vi a cadeira vazia, e eu nela, sem esperança, sem ninguém no colo, ladeado por livros vazios de conteúdo, apenas simples letras, uma lareira sem chama, uma amizade indiferente, e uma mera sucessão de dias e noites iguais a tantos outros!

“Nessas janelas transparentes,
por onde espreitei a felicidade,
vejo-me no reflexo da solidão,
quem já não sou,
o que desejo para depois!”

Vi lá fora a luz, o desejo de mundo nos braços abertos, os jardins e arco-íris, o crepitar do fogo, os gemidos da brisa, o fulgor de uma vida, vi a natureza dos gemidos, a fusão da esperança, a criação da vida, vi novos rios de alegria, vi-me novo, liberto de mim mesmo…

“Nessas janelas transparentes,
por onde espreitei a felicidade,
vejo-me no reflexo da solidão,
quem já não sou,
o que desejo para depois!”

Vi-me correr lado a lado, sem cobranças, vi-me em caminhos novos, em leitos de algodão, vi-me viajar, embebecido e embriagado na paixão, senti o transpirar das mãos que abraçam a vida, senti novo mel, novas formas de dizer, novos beijos, viajar sem destino, parar, ficar e partir, sem perguntar se vens, apenas estou, estamos, partimos e vamos…

“Nessas janelas transparentes,
por onde espreitei a felicidade,
vejo-me no reflexo da solidão,
quem já não sou,
o que desejo para depois!”

Crepitam lá fora novas horas, enraizadas por um passado interrompido, desta janela translucida e transparente, vejo uma felicidade latente, um abrir de porta, e tudo ali, tão novo, tão diferente, uma fuga a esta ainda vida demente, uma nova realidade, tão perto, tão ali, diante do olhar, num abrir de porta…

“Nessas janelas transparentes,
por onde espreitei a felicidade,
vejo-me no reflexo da solidão,
quem já não sou,
o que desejo para depois!”

13/09/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto vejo outras janelas,
Umas fechadas, outras abertas, e outras apenas janelas,
As pessoas que nelas vivem, escondem-se por detrás delas,
E são apenas habitantes espreitando por elas.
Da janela do meu quatro,
Vejo o mundo onde vives,
Vejo a imagem que projectas,
Os sonhos, os quereres,
Tudo quanto te fez sofrer!
Da janela do meu quarto, vejo a vida lá fora,
Vejo o desenrolar de uma vida, o já e o agora,
Da janela do meu quarto, viajo pela tua casa,
Vejo-te rir, chorar, partir, ficar, bater a asa,
Vejo um mundo de ilusões,
Quereres, vontades, paixões!
Da janela do meu quarto, vejo o mar,
Aquele outro mar, onde navegamos,
Partilhamos conversas, sentimentos,
Fingimos nos importar, amparar, apoiar!
Da janela do meu quarto, conheço-te,
Tu conheces-me, somos amigos,
Mas quando a porta saímos?
Tudo foi ilusão,
Tudo foi em vão,
Pois a janela do meu quarto,
É apenas um portal,
Para um mundo virtual!

Alberto Cuddel

Quarto

Quarto

Na janela do meu solitário quarto iluminado,
Cantam pássaros a solitária canção do acordar,
Parapeito da saudade, no assim ter despertado,
No leito vazio, outrora ocupado, acto de amar!

Há, vontade de aqui ficar aninhada no teu calor,
Saudade da copiosa forma de teu corpo em mim,
Querer, vontade, alma minha entregue no teu odor,
Lençóis suados bem amarrotado neste mar carmim!

Que dor esta da saudade, onde o querer me faz voar,
Perdendo noção do tempo, aninhada no teu leito,
Recostada no calor do teu peito onde me vejo sonhar.

Sol que me aquece a alma nos quentes raios de luz,
No som envolvente da tua excitante e quente voz,
Que nos bons dias, não alivia da triste saudade a cruz!

Alberto Cuddel

Janela

Janela

Não feches a janela fechada
A noite não é dor na alma
O dia proclama verdade nua
Acordar segura que a vida é tua!

Amor?
Inusitada vontade
Solidão quebrada
Arrastada pelo chão da saudade…

Alberto Cuddel

Acordar

Acordar

Sempre que o sol entrar pela janela
Janela que me transposta ao mundo
Mundo que me abarca a alma
Alma aberta de par em par
Par que que me ampara a vida
Vida que vivo diferente
Diferente que se toma sempre!

Alberto Cuddel

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