Um vaso quebrado cheio de tudo

Um vaso quebrado cheio de tudo

a minha alma partiu-se como um vaso vazio
tão cheia de vida, uma palavra fora de tempo
um desastre anunciado, amaldiçoado humano!

barulho na queda estilhaços de versos
lanças arremessadas com selo de morte
maldito ego destrutivo, inveja do que não é…

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos,
não conscientes deles, da sua pequenez…

era um vaso cheio, de bondade, de alegria
hoje quebrado, apenas angústia, raiva e pouca vida…

Alberto Cuddel
23/08/2020
17:24
Poética da demência assíncrona…

Seco o sonho de chuva

Seco o sonho de chuva

– humedeceste os lábios finos
pedras soltas atiradas pelo vento
e o destino quem o soubesse?

no espaço sepultado da fome
rasga-se o desejo da sede
procura mundos e fundos
mares e marés nesse querer fecundo
maternidade que te abandona o corpo

cânticos de Salomão
– ilusão dos seres mitológicos
sereias que me embalam
que me venham as virgens de candeia
a força de Sansão, o uivo materno
esse alimento de gémeos…
multipliquem-se os peixes e a fome
voz que sacia os espíritos,
acalmem-se as águas…
que seja pedra a força e a voz
edifique-se sobre ela a poética
neste sonho seco de uma chuva mórbida
de silêncios lidos em lábios gretados
clama o deserto por lucidez
e pendem-me espadas de calcário no olhar
pela inveja mesquinha do homem novo…

Alberto Cuddel
23/05/2020
19:15
In: Nova poesia de um poeta velho

Poema do dia 30/10/2017

Poema do dia 30/10/2017

Toda a nossa vida é vã em vida
Na morte serei lido, reconhecido
Esquartilhado, dissecado, cada sentido
Para cada verso sentado, um outro significado…

Jamais desistirei dos sonhos
Das palavras gravadas em tábuas
Dos amores fingidos, dos ocultados
Dos sentidos e nunca revelados
Da poesia, da escrita curta,
Da nua, ou da fingida…
Mas tu, tu continuarás a ler…
Tu serás eterno, tu que lês…

Serei tudo, serei ditongo
Verbo, acção, adjectivo
Serei luz na escuridão
Serei negro em pleno dia
Sombra perseguida
Serei tudo, serei nada
Serei a tua própria alma…

Serei poeta? Talvez não o seja
Talvez apenas seja
O sonho que uma pobre alma almeja
Por entre toda a triste inveja
De ser invejado pelo que não sou
Sendo-o por nascimento…

Alberto Cuddel
30/10/2017
08:30

Olho mas não vejo…

Olho mas não vejo…

“Apurem-se em mim os sentidos
O que sei, os sonhos perdidos
Bebo a traços largos a tua oferta
Sei que ser e ter é em mim certa.”

Cega nas banalidades do querer
Palavras longínquas e iníquas…
Que me arda o corpo pelo ser
Mãos inquietas e promiscuas
Que me amarram e prendem
Verdade com que me atendem…

Circulam agoiros distantes, rapinas
Não vejo, na cegueira do desejo
Sei-me plena ninfa e fonte certa
Dos beijos que te brotam das mãos!

Eleva-me, concede-me o pecado
Invejado momento o invocado
Por entre vontades de escombro
Um simples e quente beijo no ombro….

M. Irene Cuddel
02/08/2017
16:00

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