Nuvens de algodão não sabem a torradas

Nuvens de algodão não sabem a torradas

seria cevada e broa, açúcar amarelo
um sabor salgado de mar
esse ventre da memória rasgado na herança
e toda a infância ali, junto ao céu da boca…

o cheiro da terra molhada, o pinho dos montes
e o primeiro beijo, roubado ente canas
ainda sinto o cheiro do carvão,
e o calor das carruagens…
nas mãos o frio da escola…

seria a memória traição da certeza
no empedrado do caminho os aros
esse compasso marcado pelos cascos…

deitado na erva sinto…
viajo pelo horizonte dos sentidos
na certeza que as nuvens de algodão,
não sabem a torradas…

Alberto Cuddel
26/10/2020
16:34
Poética da demência assíncrona…

O tempo da conversa…

O tempo da conversa…
há nessa lareira acesa o peso da nostalgia
conversas de ecos do tempo que foi
– morde-me a memória os tornozelos
o cheiro dos restos da poda ainda húmidos
o fumo branco… e palavras desfiadas
a voz doce, e doce a sopa de castanhas…

(…)
desce a neblina na serra, há cartas ainda não escritas
e foi o tempo em que era, hoje apenas lembrança…

desfilam novas palavras no horizonte,
escadas e escaleiras, presas por um cambito
um equilíbrio ténue, ali diante do que lembro…

(…)
cachos que se secos pendem do tecto
e o fumeiro que pinga…
e a conversa vai, a conversa vem
anuncia-se mais uma neta,
um sorriso, uma esperança de nova vida…

(…)
e pôs-se o sol antes de recordar
acordou menina…
apalpando a vida reconheceu pelos dedos a pele mimosa
do acreditar nesta fé que é esperança
inunda a paz o seu corpo…

o futuro é o que foi,
edificado na memória do ontem
e tudo é certo
e nada se repete
apenas eterno enquanto lembrado…
Alberto Cuddel
14/08/2020
16:48

Poética da demência assíncrona…

Que tempo é este?

Que tempo é este?

Que tempo é este em que acordas do sono?
Em que voas acordado em sonhos negros
No trespasse gelado nas águas da alma?
Morrerias se voltasses, se acordasses do sono…
Queria voltar a ser criança, apenas criança
Sem o saber de hoje, sem o falso amor dos grandes
Apenas queria ser pequeno, com pequenos sonhos…

Os significados dos dias em mares salgados do olhar
Só comparavelmente ao abraço do teu sorriso
Esse que me lanças no cruzamento das mãos
Sob lençóis quentes e húmidos, entre beijos de licor
Nesse tempo quero ser quem sou, ainda que seja
Tudo o que perdi, corremos atrás do tempo que já não temos…
Mas que juramos conquistar a cada minuto…

Que tempo este sem dias de memória, sem história
Na espera pelo tempo que tudo traga e tudo faça
E sabes, tudo depende do sim ao tempo
Enquanto ainda digo não, ainda digo espera-me…

E mesmo assim sonho o tempo todo
Com o tempo, que será apenas nosso
Sem pressa que a noite chegue, que o dia acorde
Que a saudade morra, sim, não quero ser criança
Quero ser quem sou e quem me fazes ser…

Alberto Cuddel
11/01/2019

A pressão imposta…

A pressão imposta…

rasgados os véus da memória perdidos no tempo,
uma infância regida pela intermitente figura paterna
as chuvas e as caminhadas para a escola, e o campo
regressos, partidas, chegadas, e as melhores notas
entre a pressão do sucesso, o descomprimir das cigarras
as corridas sem destino pelos montes, ausência de pensamento
as quedas esporádicas de uma realidade dorida,
e os joelho esfolados ou uma estúpida mordidela
de um qualquer pastor alemão que não gostava de escondidas…

viagens interminavelmente diárias,
para um comboio que me arrasta
a cada dia para a escola, e a matéria
a pressão absoluta das formulas,
dos léxicos, das línguas, da física
e uma filosofia que me devora as entranhas
ainda assim, mesmo assim, o melhor…

e as ferias? Umas na aldeia, e outras no trabalho,
a infância talvez tenha terminado, muito antes de tempo,
e ao mesmo tempo, talvez nunca tenha começado
ainda assim, eu sou, parte do que me fiz…

Alberto Cuddel
Quando eu era pequenino- Miká Penha edições- 2017 – ISBN 978-989-691-648-0

“Quando eu era pequenino…”

“Quando eu era pequenino…”

Por entre jogos da tradição
Anda ele com a irmã pela mão
A corda, a bola e o pião
As cartas e a televisão
– com dois canais, a preto e branco
E catequeses aprendidas num banco
Brincadeira de crianças e sorrisos
Estampados nas caras, sardas e tranças
Os concursos de domingo, as matinés
As corridas, e descalços os pés
E o Sr.. Engenheiro, esse que não esquece
Despeço-me com amizade!

Alberto Cuddel
Quando eu era pequenino- Miká Penha edições- 2017 – ISBN 978-989-691-648-0

Poema do dia 03/02/2018

Poema do dia 03/02/2018

“Ressaltam as jogas na lagoa,
Nos risos inocentes das crianças,
Entre mão que dão sem esperar
Sem culpa, sem maldade, brincam!”

Saudades da infância e do pó da terra
Da fruta madura colhida no Verão
Do cheiro da terra molhada, da chamada…

Tempo sem inveja, sem vontades errantes
O tempo de tudo, de donos do nosso pequeno mundo
E o mundo era a nossa doce imaginação…
Uma cana, um pedaço de cortiça, um carro…
Uma folha de papel, dois ou três vincos, um avião…
Os beijos roubados numa esquina, e sermos pais…

Tudo era longe, amanhã na pressa de sermos grandes
Ó doce inocência perdida, ali morava a felicidade
Num doce, num rebuçado, num gafanhoto saltitão
Numa borboleta que voava errante, na letras
Na magia dos livros que nos levavam a viajar…

Um dia crescemos, e apenas tivemos saudades…

Alberto Cuddel
03/02/2018
01:30

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