De onde vivi, para onde olho?

De onde vivi, para onde olho?

Caem-me as névoas nos olhos olhando o fim da rua
                Que noite cai tão escura em avenidas largas
                                        Janelas estreitas de vidros partidos…

Olham-me com olhos tristes os olhos que me fitam
              Nunca conheci outro alguém que me olhasse assim
                                        Longamente, demoradamente, diferente dos teus…

Esse olhar de mãe que me condena quando parto pelo mundo
Olhos que choram a felicidade do encontro na palavra perfeita
Olhas que amam, que brilham na chegada…

As névoas desse mar interior nas vivências em poemas de mel e limão
Não há como fazer amor na pele da palavra, no sereno florir das coisas
São livros cheios de sentir que me iluminam os dias, e me dão brilho ao olhar…
E olho ao longe, sentires alheios aos meus, em rimas perfeitas de palavras cheias…

Eu que tantas vezes me dei, que tantas vezes me esvaziei
              Apenas olho, com olhos de ver, as coisas e as almas
                                   Que em mim passeiam crentes que são gente que vive…

E vivo… tantas vezes morto, por não saber de mim…
                        Sabendo sempre onde pertenço…
                                    E pertenço-te, desde sempre sem o saber…

Alberto Cuddel
11/01/2019

Poeticamente a vida em que não se morre…

Poeticamente a vida em que não se morre…

Ó gente que viva caminha
Nestas palavras inscritas no peito
Giesta, Zarco, Costeira, Bernardino, Dordio
Nunes, Pires, Rebelo, Marques,
E tu maria, mulher entre as mulheres
Eva, mulher primeira sem pudor ou pecado,
Que me advenho os Januários de restelo
O Sírio do céu e a Pixis, as joanas que sozinhas gritam
Os suicídios das letras e a dor do peito
Ó Tiago dos prazeres e frases sem sentido…

Que loucura esta de estar vivo
De amar intensamente e sem sentido
Que me arda no peito e me morra
Na despedida em manhã de nevoeiro
Ó madrasta sorte, padrasto nascimento
Desses enteados feitos nos dedos
Versos sem medos
 – Ó, onde te mora a sorte
(amor que me queima na vida)

Ó NODUA, anti depressivo de um acordar
Amo, como quero amar, nesta vida estupida
Onde apenas me vejo ao teu lado…

Selado seja o tempo em que ficamos
Não crescemos e não vivemos
Que surdos sejamos
Entre deus e o diabo…

Ingrata seiva que não dás vida, não cresces e não fecundas,
Sejam as palavra creme, balsamo e desmedida
Que seja morte, na solidão da noite,
Que seja angustia sentada no jardim
Que sejam de plástico os bancos de madeira,
Sejamos acções voando a vida inteira…

Ó vida onde poeticamente não se morre
Por amigos que não nos conheciam…

Alberto Cuddel
03/12/2018
Marvila, Portugal

Destrocando os trocos…

Destrocando os trocos…

Que sejam vis os cobres
Que te nascem em bolso roto
Que alimentam o escroto
Em banais arquitecturas…

Ó vil orgulho narcisista da palavra
 – Rasga a crença do pecado
Alado seja o sonho sonhado
Desenhado em palavra cantada.

Ardem-me as orelhas, conversas desfiadas
Garfos partilhados a uma mesa sem escrúpulos
Que loucas sejam as noites, e os loucos perseguidos
Que mansos sejam os dias e os lençóis de linho
 – Os mares calmos que se navegam pelos luares…

Que trocados sejam os dias, do trabalho pelo descanso
Que quentes sejam as manhas nos teus braços
As tardes em tuas almofadas, e os beijos dados!

Que morra eu no teu descanso
 – Que viva eu no teu cansaço…
 – Que felizes sejamos um no outro
 – Que a vida nos agracie com a velhice…

Que trocados sejam os trocos…
  – Pelas notas dos nossos dias…

Alberto Cuddel
29/11/2018

Dessas outras coisas…

Dessas outras coisas…

Dessas outras coisas que me inquietam
Filosofias vazias e infecções do ego
Pandemias literárias que se alastram
 – Onde nasci eu? De Deus ou diabo?

E chove, mesmo antes do sol raiar
Nessa pontinha de terra onde hei-de morar
Corro manhãs serpenteando o atraso
Nessa pressa de chegar, de estar ao lado…
Do lado onde fico e moro, sinto-me
Pela existência terrena de ti…

Escorrem verdes, monte abaixo
Arvores hirtas que me nascem das mãos
Frases perfeitas em rimas redondas
Nesse amor absorvente que nos envolve
 – Arde-me o peito pelas borboletas da noite!

Dessas outras coisas do sonho
Reais até que sejam sempre
Entre esperanças e certezas do olhar
Mãos que se entrelaçam
Em passos certeiros
Seguimos caminhos empedrados
Caindo, erguendo, levantando
Mão na mão, olhar firme e coração…

Somos desígnio do passado
Inscrito no destino
Que nos foi traçado
Pela ironia da vida…

Agora, esse agora que projectamos
Já ali, depois do dia…

Alberto Cuddel
23/11/2018
Marvila, Portugal

Relógio, o congelador do tempo

Relógio, o congelador do tempo

Contamos o tempo mediano
Entre uma chegada, uma partida
O tempo que falta, um fim do ano
O tempo antes da despedida!

Esse milagre da chegada da madrugada
Bebendo silêncios por entre os lábios
Na chuva que teima em cair do céu
Que milagre é a noite em que és amada?

Damos o tempo que não temos
Pelo tempo que recebemos
Roubando à noite o dia, esperança,
Dando ao dia, a noite, confiança!

No tempo que eternizamos,
Congelamos olhares, abraços
Entre os ponteiros do relógio
Correm distâncias sem pressa,
Memórias gravadas no sempre
Entre as estrelas que nos espreitam…

E fico, e parto, levo-te comigo
Deixando-me livre, solto
Em ti, na escolha própria
Que de mim faço…
Congelando o tempo mediano
Entre um ficar e um partir
Sinto, saudade do sentir!

Alberto Cuddel
20/11/2018
Marvila, Portugal

Às vezes chove

Às vezes chove

Cuidas tu que a noite cai para todos? Não, existem aqueles que não se lembram de ver o dia, que olham o chão sujo, que não dizem bom dia, ainda assim não chove em todas as almas, algumas apenas existem, deambulando com fantasmas. Outras há que a chuva lhes escorre pelas janelas da alma, num sofrimento causado pelo mundo dos homens, e homens que não cuidam, que dizem não, que não ficam, que não pedem perdão. Há homens, nesta dura humanidade que orbitam o comodismo do seu umbigo, e como demónios fazem chover.
Às vezes chove, outras faço-me chover, neste inconformismo do desassossego que me habita e me povoa, às vezes encho-me de água, esvaziando-me em sorrisos, outros, contenho as nublosas inquietações que me perseguem, outra evaporam-se com o teu sorriso, na suavidade da tua voz…
Mesmo assim chove, porque a chuva também limpa a alma, e purifica os demónios do passado que nos perseguem, umas vezes chove, outras apenas te banho o rosto com o meu sorriso, num leve sussurro, como brisa tocando nos lábios, abre-se o sol no teu rosto… às vezes chove mesmo com sol, e abre-se entre nós o arco-íris…

Alberto Cuddel
10/11/2018
Marvila, Portugal

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