Caem poemas…

Caem poemas…

Caem as palavras
momento ondulatório
um verso, desenhado
queda, folha dourada
sol outonal que me aquece
círculos que se afastam
queda do charco da vida
ali fica, ondulando,
ali fica, rodopiando
fingindo ser prosa
representando
desejando ser verso
ensaiando uma quadra
sem nada, poema
fim de vida, fingindo
ser o que fingia
poesia!

Alberto Cuddel®
10/12/2015

Poética VI – Escrita a duas mãos

Poética VI

rasgam-se os céus santificados pelos orgasmos poéticos
contorcem-se os anjos nas catacumbas a cada metáfora
as ninfas dançam na sedução hirta e máscula do pecado
finge tão completamente o poeta que chega a ser real
o sexo fingido que realmente pratica sentindo que não

e vive o que sente e se assume supremo divino
as deusas pagãs com rimas vermelhas seduzem os santos
que loucos, ardentes, sedentos lhes bebem o mel
num mar que intenso ulula se entregam nas ondas
fazendo até das sereias e ninfas, tocarem-se soltas
livres e audazes aos olhos vidrados de homens cobardes
que apontam os dedos, condenam impunes
e escondem o sexo, castigam com dor a paixão da carne…

rasgam e apartam o mar dos sonhos, azuis e verdes
nos espinhos rosados aplacam a dor de uma alma velha
nos lençóis de linho o odor do pecado, esse prazeroso declamar
imiscuem-se os lábios pelos ósculos irresistíveis do silêncio
fundem-se gozando os poetas e os versos, os dedos
que digitalmente criam prazer, escrevem fontes de vida…

palavras suadas, frenéticos corpos, canetas que gemem
escrevem nos mantos de ouro e púrpura dor
o prazer que alucina e dá fogo à alma, sem fôlego
desenterram-se amores, evocam temores
inventam sabores, exsudam odores, tremores
poetas e musas, elfos e ninfas, deusas e astros
num orgasmo profundo, orgia sonora de rimas…

e eu, e tu, e a escrita que nos cresce nos dedos
e todos os deuses e deusas, e a musas que nos elevam
nobre sadino sem pejo nas palavras, patrono dos orgasmos
inventemos segredos escondidos à vista de todos
e todo o conhecimento que desconsolados desconhecem
boatos, beatos, beatas e línguas de trapos
somos poesia, ditongos e consoantes, livros e folhas em branco
silêncio selado em segredo nos lábios….

Alberto Cuddel
Ruth Collaço

04/03/2021 21:58
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLI

Poética da demência assíncrona…

Poética da demência assíncrona…

há na realidade do pensamento humano,
uma essência flutuante e incerta,
tanto na opinião primária,
como em todas as outras pensadas
longamente na visão platónica do mar
como naquela outra que lhe é oposta,

as hipóteses do pensamento são em si mesmas instáveis
nesse rasgo visionário de um por do sol
ou no rasgo matutino gemido de um parto malformado
em dias de neblina pelo sol que se ergue no horizonte
no olhar não há síntese, pois, nas coisas da certeza,
apenas existe a tese da antítese apenas.

seja a areia do mar, registo flutuante do tempo
do que vai e do que vem, sem ter chegado a ser vidro
na síntese penso que sinto, e no que sinto sei o que finjo
na certeza do que é em mim, é verdadeiramente concreto
no que da minha alma brota, que em meu íntimo sangra…

nem os demónios me aceitam no convívio sádico da expressão
nem as rimas gritadas na dorida alma que orgasmicamente sente
nem no pensar concreto da consciência poética existe síntese
nem nas vogais, nas consoantes, nas orações desenhadas
só os deuses, talvez, poderão sintetizar este sentir atrófico
que finjo ser mentira de tão verdadeiramente sentido
num formigueiro que dolorosamente me percorre os dedos…

este pensar a poética pelo que alegremente se sente
numa consciência pagã do que se pode fingir
sentido que o que se escreve é ingenuamente a verdade da mentira…

Poética da demência assíncrona… ou a consciência da verdade…

Alberto Cuddel
24/12/2020
08:55
Poética da demência assíncrona…

Requinte da procura…

Requinte da procura…

Requinte último! Perversão máxima! A mentira absurda tem todo o encanto do perverso com o último e maior encanto de ser inocente, inocente não é quem sente, mas quem não procura. O conhecimento existe, perversão é ignorar a sua existência e manter-se fiel à sua perversa inocência, quiçá ignorância rebuscada pela não leitura, pela não cultura. Se amo, então amo como do novo e diferente a cada dia, seja o corpo ou as palavras, amo-as, nesta escrevência de sentires cultivo-me nas novas formas de o dizer, mesmo que diga sempre a mesma coisa, – di-lo-ei diferente.

Fingimos tantas vezes escrever mentiras, sentimentos passados e outras estórias, mas quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe mentirmos. E quando nos causar angústia, paremos, para que o sofrimento nos não signifique, nem se faça em nós perversamente prazer…

A poesia é a estética das palavras, a beleza do som, nobreza da mensagem, filosofia da alma, a elevação suprema do leitor ao estatuto máximo de poeta ma absorção do sentir. E então se isso acontece passaram a ser as palavras em si mesmas poesia.

Por que é bela a arte da escrevência absurda de sentires? Porque ser inútil. Por não servir propósito algum pré-definido. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções, porque é gestos, predeterminações com horários estabelecidos. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai! Esse é o propósito da arte, de espantar, de embebecer, de ficar e admirar, sem ir de um ponto ao outro, sem acrescentar ou retirar. A arte sente-se, mas não se vive…

— eu escrevo este livro para mentir a mim próprio, para trair a minha própria vida, para tornar real a mentira, mesmo que a creia real, como é real o ar que respiro, como é verdadeiro o amor que sinto, como é real a morte que me espera…

Alberto Cuddel
13/09/2020
05:30
Poética da demência assíncrona…

O bate que bate…

O bate que bate…

silêncio
o bate que bate na porta aberta
– ninguém entra ou sai por ela
sentado, nesse incomodo de estar
os ramos que batem nos vidros
os vidros polidos, baços, vazios…
depois que todos foram
e foi também a noite,
ficaram entre as sombras as vidas
esse fingimento da existência humana…
esse bate que bate e não abre
esse bate que bate e nada diz…
e foi, sem ter chegado, foi…

Alberto Cuddel
14/05/2020
12:50
In: Nova poesia de um poeta velho

Cansei-me de fingir

Cansei-me de fingir

Cansei de fingir ser quem não sou,
Cansei de ler em ti o meu sentir,
Decidir cair, vertiginosamente no eu,
No que realmente sou, na minha verdade,
Bani definitivamente de mim o verbo,
As suas múltiplas conjugações,
Bani o passado, o presente, o futuro,
Rasurei o meu dicionário interior,
Torno-me eu na minha negra plenitude,
Na minha fria, escura e oculta verdade,
Arranquei de mim, o verbo,
Serei feliz, decidi ser feliz,
Apenas na pura antítese da felicidade,
Torno-me amnésico consciente,
Esquecimento meu que deixou
De apenas te lembrar,
Risquei de mim o verbo Amar!

In: Antologia Depressiva

Sírio de Andrade
30/09/2015

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Poema do dia 22/11/2017

Poema do dia 22/11/2017

Visto-me de escolha em cada defeito
Entre um céu nublado e outro encoberto
Serpenteio as gotas que caem e as que molham
Caminhando por estradas lamacentas
Realidade suja e ordinária na falsidade
Tudo parece o que não é…

Rasgas silêncios em palavras gritadas
Pelas verdades sentidas, escondidas
Nunca proferidas ou ditas, gemes em silêncio…
(onde moram as honestas declarações)

Perfidamente confesso-me sentenciando-me
Por verdades omitidas e mentiras ditas
Sentimentos fingidos e outros sentidos
Outros omitidos na alma, no silêncio escuro…
(onde me escondo? De quem?)

Na poesia finjo ser quem não sou
Sendo verdadeiramente o poeta que escrevo
Na irrealidade das palavras sinto-me
Na verdade da mentira que inscrevo
Sendo que a verdade é…
(quem de mim dirá o que sou,
Sendo eu nada, sempre posso ser tudo)

Rasgando a alma, brotam sentires e desejos
Dos sonhos, dos beijos, de ontem, amanhã
Quem sabe talvez até depois….

Alberto Cuddel
22/11/2017
02:36

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