Dor da alma inquieta que há de partir…

Dor da alma inquieta que há de partir…

os meus passos soam no passeio
como um dobre ridículo a finados,
um ruído de espanto que nos acorda a noite
como uma gaiola ou uma janela.

separo-me de mim e vejo que sou
não que existo, mas que apenas sou
pela eloquência do estar vivo.

morreu quem eu nunca fui.
esqueceu a deus quem eu havia de ser.
da minha necessária morte
ninguém se lembra, não há coisa alguma a recordar
apenas era, antes de ser e de estar.

hoje ninguém sabe de onde vim
-nem mesmo eu…
apenas sei que pela palavra me fiz
entre o bolor dos livros, e as palavras dos antigos
obriguei-me a nascer poeta, antes de uma outra coisa qualquer
por isso fiz-me morrer, para nascer assim…

amante idiota das palavras por inventar…
-noivo de um livro por escrever…
viúvo de uma língua que se martiriza
por vergonha das almas velhas…

Alberto Cuddel
13/06/2021
03:00
Alma nova, poema esquecido – V

Ondulação metódica do caos que é o ser

Ondulação metódica do caos que é o ser

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

e os degraus eram três
depois dos dois que antes estavam sujos
e eu descei-os, deixei-os para trás
lá onde a infância morre…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

ecoava o cravo na nave vazia
esse ferir das cordas como quem mata
estridentes e lancinantes notas sem rosto…

e eu, eu tu, ali diante do altar…
a minha mão na tua, e pusemo-nos andar
a cidade vazia, o cheiro de morte no ar
não há vida para la porta, para lá do chão…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas minhas palavras…

tantos de nós, de vós fechados em conchas
túlipas que secam em campos murados
sem palavras que nos alimente a alma
em raízes voláteis e secas de conhecimento…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

começa a haver noite e frescura,
em vozes que aparecem daqui e dali,
e vales e montes, e mãos e pés que caminham…
trovões e bombos…
músicas do tempo de agora,
de ontem que se lembram…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

As paredes oprimem e aquecem,
fecham ideias em janelas abertas,
o mundo entra dentro do quarto, da sala, mas prendem-me o corpo…
neste intervalo de tudo o que sonho e escrevo,
perco-me procurando-me entre as brumas que não chegam e nevoeiros,
meras recordações turvas dos copos
que tilintavam entre gargalhadas e brindes…
eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

“Amores entre aromas de café”*
a vontade de o dizer de pé,
de o gritar, poemas de amor, ridículos, como ridículas as cartas…
nesta vontade de escrever silêncios, calo-me e fico, apenas fico…
nessas pedras empilhadas, o sino que chama
nesses rumos longínquos do tempo que passa
a lua vem… não arrefece, não aquece, não chega ninguém…

e eu?

Eu vou amar-te…
para que me perca
ainda que me encontre,
nas tuas palavras,
que levemente atiras na despedida
“amo-te ainda que não o saibas…”

Alberto Cuddel
02/04/2021 4:44
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LII
*Livro de Tomé Nicolau

Poética XV

Poética XV

…se escrevessem de mim, seria meramente um ponto
ali, escarrapachado no fundo da folha, no canto inferior direito…
talvez tivesse um traço hirto por cima
que admiração, um ponto… e tudo era ele, apenas final…

vieram os dias e as noites e a moléstia do conformismo
e as palavras que vagueiam ausentes, sem um calor que as ergam
já não me advém os sonhos, ou o desassossego da criação
as coisas são o que são, e tu morreste… nem um adeus…
nem uma carta, uma despedida… simplesmente desististe de acordar…

atiro-me para uma rua vazia, que nunca me leva a lugar algum,
nem mesmo esse parapeito alto da janela fechada,
em aros verdes e vidros transplantastes,
que ocultam o azul que se faz reflexo olhar.

nitidamente os passos dados nunca significam nada,
no sonho, nem a queda do precipício deste pesadelo sem fim que é a vida…
ainda que as nuvens me amparem,
por entre beijos salgados, por lágrimas de amor,
juras eternas e tempos perdidos no transito por uns meros vinte minutos,
sim vale a pena, ainda vale a pena…
já as lagrimas da saudade essas jamais apagaram
e as velas ardem iluminando as noites em perfumes de canela e maça…

neste tempo quase tão irreal quanto o sonho, nada é, que não o façamos…
e eu? Que tão pouco sou e quase nada faço… apenas sobrevivo ao tempo…
esse que passa sem macula, esse em que estamos presos dentro de nós mesmos
revelando que afinal nada somos, nem número… apenas um ponto…
no final da folha… no canto inferior direito…

Alberto Cuddel
27/03/2021 17:25
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIX

E porque o meu aniversario é amanhã…

E porque o meu aniversario é amanhã…

o dia do meu aniversario é amanhã
não é hoje, e se não fosse amanhã, ou se não fosse lembrado, nada aconteceria
já houve um ano em que foi hoje,
porque tu com todo o teu amor de mãe, te enganastes
mesmo com aquele bolo de dois andares e cobertura de açúcar, com perolas brilhantes
não foi no dia que havia de ser, mas um dia antes…

o meu aniversario não é hoje. mas quem se importa? comemoramos o quê?
mais um dia de conhecimento? a subtracção de um dia à esperança de vida?
que me importa o somatório dos dias em que vivi, se em tantos deles dormi…
porque não contamos as noites? mas apenas os anos?
quem se importa com os anos?

virão os Invernos, e depois as Primaveras…
e os abraços prometidos, beijos desejados
as sementes perdidas, as sementeiras dos campos
virão as chuvas e as neves, as tardes quentes…
e virá o tempo que não se conta, e o outro que passa…
e esse tempo que perdemos a caminho de coisa nenhuma

o meu aniversario é amanhã
um dos aniversários que tenho, dos tantos que inventei e que poucos se lembram
ainda há muitos que recordam aquele domingo chuvoso…
seriam umas quinze e trinta, e irrompi por entre as pernas da minha mãe
e gritei… não me importo se o esquecessem… já não me faz falta que o lembrem
já vivi mais, do que me falta viver…

o meu aniversario é amanhã…
nem todos se lembram
mas eu sei que descontarei ao que me resta
um dia, aos dias que me faltam…

o meu aniversario é amanhã…
e mesmo que não fosse
o mundo seria o mesmo mundo
e eu o mesmo que sou…
mesmo que ainda não saiba
o tempo que me resta…

Alberto Cuddel
13/01/2021 00:05
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XI

Se quereis conhecer-me…

Se quereis conhecer-me…

se quereis conhecer-me não me procureis nas ambiciosas palavras
nos versos que grito ou nas palavras que calo
procurei-me nos silêncios… nessa visão oculta do feminino da alma…

na fragilidade da vida, morro… como se morre ao nascer, morrendo semente…
e o rio corre diante do murmúrio da saudade da chegada
há uma palavra que escorre por entre a vida do deslumbramento
uma lágrima que escorre na clareira enquanto voa um condor que espera…
no corpo quente de sereia que me encanta, em silêncio fecho os olhos
repudio a consequência e sonho-me livre, diante da abstinência

nos silêncios que grito, escorrem-me mentiras nos versos que declamo
no antagonismo da morte, vivo amplamente o prazer de estar vivo

penso sem consequências a hipótese da comprovação científica
pela experimentação do resultado confirmo,

grito mais nos silêncios do que nas palavras em que minto…
não sente o poeta o que escreve?
mas desce ao inferno na busca da dor perfeita, da repulsa e do grito…

se querei conhecer-me, descalça-me, veste a minha vida e percorre os meus caminhos…

abraça-me, abraça-me longamente o silêncio
e porque me quis a alma, assim o fiz, de mim mentindo
tudo afirmei, dizendo toda a verdade ou meramente o seu oposto…
e olho a sorrir o titulo da folha…
e sei que nem mesmo eu me conheço

apenas por que ainda me procuro onde nunca estive…

Alberto Cuddel
10/11/2020
23:30
Poética da demência assíncrona…

Eu…

Eu…

sem voz e cheio de palavras
calo e grito filosofias
e grito e calo verdades
e esqueço os sonhos nunca sonhados
e os outros…
fui pai, plantei uma árvore, escrevi um livro, e outro, e outro…
e agora sonhar o que para amanhã…
se todos os sonhos do Homem morreram…

e atravessei a rua sem olhar…
com uma esperança vã
e comprei tabaco
e morro aos poucos
sem pressa…
porque há palavras a gastar
a ser escritas
a serem gemidas…

e vivo, sobrevivendo sem morrer
a uma dor que me consome…
há nessa floresta negra uma voz que me alegra
um bule que fala, uma rainha de copas
e tu… Alice…
nessa negritude iluminada, sem perspectiva do depois
e uma morte que não chega
um amor que não nasce,
alguém que se cala…
que não se mostra…

e tanto
tanto amor a dar…
soubessem eles o que é o amor
soubessem eles como receber o que há a entregar…

e veio o vento, e o transito em sentido contrário
e essa ideia de fim, sem vontade de acabar
apenas na esperança de um abraço, por quem o saiba dar…

Alberto Cuddel
03/08/2020
21:20

Poética da demência assíncrona…

Todo o prazer é um vício

Todo o prazer é um vício
há na minha orquestra uma alma desafinada,
palavras silenciosamente fora de tom
uma maresia de um azul suave, sob o laranja das horas
o tédio que me houvesse imposto o destino grita
uma fadiga crónica incrustada no não-pensamento…

todo o prazer é um vício, uma corrida ampla pela satisfação
depois ao último ponto final a ressaca, as tremuras…

perco-me se me encontro, e pasmo-me
diante de uma palavra simples, tentando compreendê-la
absorver-lhe o som, os movimentos toscos da boca
a forma dos lábios, a contorções da língua…
e pasmo-me nessa beleza de me perder ali
diante do nada e do tudo, como se o vício morresse…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do tempo
desse que nos preenchia os abraços, desse que se fazia voz
desse tempo/palavra que se fazia poema, na mãe de todas as letras
de todas as palavras, esta a felicidade do vício, da repetição…

esperar? que tenho eu que espere, que me espere
se não escrever todas as palavras e todos os sons
e percorrer ruas e vielas e olhar as paredes e os céus
em todas as horas de todos os dias
para absorver o poema da rua direita
dessa que se entra pela esquerda e sobe…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do silêncio
esse onde se gritam surdamente todas as palavras
escritas pelos poetas,
e no pensamento dos que silenciosamente as mastigam…

todo o prazer é um vício e havia-me esquecido do meu…

Alberto Cuddel
28/07/2020
19:15

Poética da demência assíncrona…

Considerações

Considerações

Talvez tenha enfiado a vergonha num bolso roto
A humildade no bolso da camisa, talvez esteja morto
Esse abjecto desejo da beleza consensual os olhos do mundo
Numa circunferência perfeita em volta do meu egoísmo
Essa ignóbil inspiração em mim mar fecundo, profundo
Os amores, as flores, as paixões, tudo apenas sonho, lirismo!

Procuro na essência o divino, longe fora de mim
Em mim diabolicamente anuncio, apenas e só o fim
Não corro em casulo fechado na estepe
Olho e absorvo quem passa, e os que procuro
Nas cores da vida, nada cinzento ou crepe
Um quadro incompleto, sem moldura, imaturo!

Indago de mim se eu próprio tenho paixão
Se não fechei o olhar sem qualquer consideração
Grandes poemas desaparecem também nas letras
Essas que se tornaram consumíveis e pequenas
Que balbuciam amores, e outras tristes tretas
E longas tragédias e sofrimentos de uma morta Atenas!

Há objectos que me inspiram os dedos
A caneta não tem vida, eu conduzo-a
Considero que a palavra soprada ao papel
Não morre, nunca morre, apenas vive noutro olhar!

Alberto Cuddel
30/05/2017
10:05

Desse sonho que se faz noite

Desse sonho que se faz noite

O que na memória trago, trago-o visualmente,
se susceptível é de assim ser trazido.
mesmo no querer evocar em mim
uma qualquer voz,
um perfume qualquer,
uma qualquer memória de um corpo nu…
é visualmente que o faço, porque sou,
tenho consciência de mim mesmo
no espaço e tempo em que existo
em que exististe…

não meço os sonhos pela probabilidade de serem
mas pelo prazer de os sonhar
pelo prazer de os fazer dia e noite
de serem carne cansada e fatigada no leito
os sonhos são a confirmação total
que a realidade da imaginação
executa a verdade da noite fazendo-se vida…

e desse sonho que se faz noite,
nasce o poeta criado no pesadelo de viver…

Alberto Cuddel

Desse “eu” tão completamente abstracto

Desse “eu” tão completamente abstracto

nascido que houvera o dia
por entre serras cansadas e mosto
catam o lume das lareiras e pão
esse cansaço tão dormente e tão só
a loucura por companhia e um cajado
um lápis rombudo e papel sujo…
curva-se o horizonte sobe o rio,
serpenteando os vales e as letras foscas que tecem a vida…

é na loucura que me encontro, amado o real
abstracto sou, prisioneiro do teu querer
ciclo vicioso da existência da vida, faço-me em nós
para que na morte exista

onde florir as macieiras e apodrecer as pêras
as abelhas irão dançar sob as flores dos morangueiros
ira chover e nascerão os cogumelos, esse fogo que arde
na cura do fumeiro que nos mata…
e tudo é tão abstractamente real…
tudo é tão duramente sofrido a cada sorriso…
e tu?
Desse “eu” tão completamente abstracto
Fazes da loucura a doce viagem lida
Pela existência da lucidez alcoólica
Impregnado no odor emanado pelo copo vazio…

Alberto Cuddel

Um de nós

Um de nós

um de nós ou outro qualquer que ainda não tenhamos feito nascer, que nos arremata na loucura da perseguição da fé, esse acto laico de um egoísmo educacional a tantos chamam “felicidade”, um de nós será feliz na loucura do seu mundo com ele próprio, depois de tudo isto, sentamo-nos a uma mesa sozinhos e comemos uma refeição que não gostamos, lendo um livro que não queríamos, tudo para que possamos ser felizes com o oposto a isto mesmo.

as nuvens continuam a correr para nascente, são independentes do que sinto, há casas coloridas e passeios cinzentos, há até soleiras de pedra onde dorme gente…há reflexos de poemas escritos por outros, entre janelas verdes e mares salgados, formas humanas que correm com sentido disforme, não pensando em nada, quem sabe a maioria nunca leu um poeta, nunca roubou tempo à vida para se sentar, calmamente, sentir o perfume do papel, e aspirar as letras, e ficar ali, a remoer o poema, como se fosse o último chocolate do prato.

mas um de nós corre, um de nós grita, um de nós geme, um de nós chora, o outro? o outro fica, e corre na perseguição dos dias, e grita de alegria a cada notícia, e geme de dor a cada vez que se levanta da cadeira torcida, e chora a cada beijo, a cada nascimento do dia… um de nós vive, um de nós morre, um de nós é, porque um de nós existe…

enquanto o outro se esconde.

Alberto Cuddel

13/04/2019

Calo o que penso escrevendo…

Calo o que penso escrevendo…

Nestas frases caladas que me inundam a alma, onde grito em silêncio esse amor que me explode no peito. São recados velados à alma de quem me lê, sei que me lês como ninguém, este eu poeta que paira nas nuvens desenhando futuros secretos ao comum dos mortais!…
Rasgam-se os céus que se abriram aos sonhos, nessa hora afoita em que se passeia a alma por entre gástricos desejos de uma fome que me povoa…
Seja essa fome corpo ou uma inglória filosofia de partilha a que hoje chamam o românticos e saudosistas de amor, se assim é, então amo, amo com toda a minha alma pelo simples facto de sim, de amar, e o amor não se explica, apenas faz-se, livremente sem imposições!
Amo como quem perscruta o horizonte pelo farol em dia de nevoeiro, amo como quem olha as estrelas procurando o norte, amo por ser o amor o combustível para a vida, e todos os beijos a ignição do querer…
Amo apenas por isso, porque amar é estar vivo e o seu contrário a morte!
Assim sou, pela consciência que vivo amo, e amado existo…

Alberto Cuddel
08/02/2019
21:13

E agora?

E agora?

 E agora depois de lançado o 3º livro? O que escrever, o que dizer, o que vale a pena?

Talvez nada, talvez tudo, talvez um humano crescimento ou meramente a loucura!

Talvez me reinvente, talvez me faça de novo, talvez seja romance ou novela, talvez seja nada!

O meu Poema

O meu poema

Não, não
Não esticarei a perna para que caias,
Não gritarei alto
Não me porei no teu caminho
Quero que as minhas, apenas as minhas palavras se tornem fósseis
Que morram no papel, para que sejam encontradas…

Lês-me, lês-me
Como quem descobre o universo
Como quem ama numa palavra
Como quem mata no silêncio
Como quem chora na chegada
Lês-me, lês-me…

Em tudo o que não escrevi
Na flor que não floriu
No arco íris nascido em céu limpo
Nas marés vivas de verão
Lês-me onde nunca estive
E estive tão perto, tão dentro
Tão longe, tão certo…

Procuras encontros e amantes
Procuras amores em terras distantes
E eles ali, ao alcance da mão…

Quantas mãos estendidas
Quantos braços caídos
Quantos gritos por salvação
Quantos tios, primos, irmãos…

Quantos humanos esperam pão?

No meu poema cabe o mundo todo
No centro da minha mão…

Cabe o amor, a paixão
Um corpo despido
O fogo do tesão…
Cabe a luxúria, o ego e a traição
Cabe o sofrimento, a perda e a desilusão
Cabe a vitória, a alegria e o campeão
Cabe o correcto, a política e a sociedade,
Cabe a chegada, a partida e a saudade,
Cabe a brejeirice, o fado e a canção…

No meu poema cabe o abecedário
A vida e o coração…

No meu poema cabemos todos
Sem qualquer excepção…

Alberto Cuddel
07/12/2018
Poema a todos os que lêem e escrevem poesia… Sem rede e sem frio…

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Às vezes para me entreter – porque nada mais me entretém que a proximidade de ti, ou este querer absoluto das coisas fúteis que calamos no olhar e abraçamos como se não existisse amanhã – apenas escrevo inutilidades da alma e saudades, nestas futilidades cabem todos os dejectos da sociedade, até o esquecido que dorme no vão de escada do número 3 da rua de trás… Mesmo que nestes minutos que me asfixiam na tua ausência, tenhas voado do meu pensamento, pelas artes da sinapses da memória selectiva que me condena, entre frases e versos já escritos por vários mortos antes de mim, fazes me falta, nestes dias que não fazemos e não cumprimos.

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Invento sonhos que nunca sonhei, em dias que nunca dormi, poemas que nunca escrevi, mesmo que sinta em mim que o fiz, que o quis, nesta poética macabra de pensar o nada e o tudo, o tempo que foi e o mundo, uma ausência temporária, uma outra imposta, neste tempo que avança sem retrocesso, neste novelo que desenrolamos! Passeamos pela tarde de mão dada, em jardins que nunca floriram, embalados pela brisa do fim do Verão, sem nunca lá termos estado, beijei-te, como quem beija intensamente e sem pecado, ali, diante de todos, de nós e do mundo, fomos sonho, e carne, e sentir, e desejo, fomos tudo… E os dias? Os que não fazemos, apenas existem, esperamos o depois de amanhã, ou um futuro que chegue, ou um sonho, um poema, ou apenas um acordar juntos com o sol batendo no rosto!

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Alberto Cuddel
12/11/2018
Marvila, Portugal

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