Não me procures amanhã

Não me procures amanhã

não me procures amanhã,
porque amanhã não existo
procura-me e encontra-me hoje,
pois hoje estou, hoje sou
hoje sou, o que ontem vi
o que ontem senti,
o que ontem ouvi,
o que ontem disse,
o que ontem aprendi,
mas amanhã não,
não me encontras amanhã
pois hoje, ainda tenho muito
muito a ver, muito a ouvir,
muito a sentir, muito a dizer,
muito aprender, muito amar
ainda tenho muito a viver!

Alberto Cuddel®
09/12/2015

Poema sem tempo…

Poema sem tempo…

Nos tempos em que me encontro
Perco-me nas rochas esbatidas pela maresia,
-ouço o mar, distante de mim, de ti
Dias infinitos nos grãos de areia sob o andar
Nuvens de algodão transportam sonhos
Sorrisos e juras de jovens risonhos
Silencio do olhar, jovial certeza –(a)mar!
Caminhos, paredes esbatidas, solidão
Horizonte onde correm lágrimas, -Saudade
-tive-te aqui, mas partiste
Há verdade que se escondem nos papéis
Nas folhas soltas que esvoaçam ao vento
Tempos passados e esquecidos na memória
-queimam-se as ideias e sonhos
Corro por ruas estreitas, procurando janelas
Portas, vidas por detrás delas – procuro-te
Jardins onde ontem fui feliz em nós, quis-me
-jura-me, ainda voltas no meu tempo
Certa certeza de que o tempo não se esgota
Que é eterno ainda num novo nascer do sol!

Alberto Cuddel
10 de abril de 2016

A colecção de abraços que nunca se deram…

A colecção de abraços que nunca se deram…

a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à compreensão
a carência atroz do tempo que não findou
e a caderneta vazia, sem cromos ou memória…
Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor,
um momento, como uma veste que continua a roçar numa chaga
a dor amenizada pelos beijos, não morre pela carência do receber…

há um abraço por entregar…
e nasceu o sol, e veio a manhã, depois a tarde e nem à noite…
há uma clareira aberta, onde cantam os pássaros
um lenhador solitário, casas de chocolate…
flores que irão florir e ninhos de ovos férteis
uma monotonia no ruido dos bichos…
e somos bichos,
– sou bicho…
como a carência dos bichos e fome de Primavera

tudo quanto amamos ou perdemos — coisas, seres, significações
e tudo o que nos roça a pele e assim nos chega à alma,
e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa
mais que um leve roçar de sol na face…
e nada me faz salvo no alívio suposto,
o momento propício – um abraço com poder de beijo
um beijo com fome de prazer
e o poder perder tudo espontaneamente…

e uma colecção de abraços vazia…
com fome de vida…

Alberto Cuddel
09/08/2020
05:40

Poética da demência assíncrona…

Canção de país longínquo

Canção de país longínquo

“cantava, em uma voz muito suave,
uma canção de país longínquo.
a música tornava familiares as palavras incógnitas.
parecia o fado para a alma,
mas não tinha com ele semelhança alguma.”
Bernardo Soares

uma canção, um eco lamurioso
um país distante, ali, mesmo ali, à distância de uma porta
à distância de um abraço, nessa incógnita final
nada é, para protecção de todos…
parecia o fado para a alma, esse sofrer de vitória
entre derrotas individuais, sem esperança no amanhã
a nação erguida pela vitoria colectiva…
o ruído da cidade não se ouvia
não se escutava, apenas se sentia
um murmúrio, “vai ficar tudo bem”
e o bem não é de ninguém…
gemem a reclusão do tempo
para protecção da vida
que corre na esperança
de quem trabalha
e caminha pelas ruas vazias…
amanhã erguer-se-á a voz
em novos fados, canção de país longínquo
à distancia de uma porta, de um abraço…

Alberto Cuddel
25/03/2020
03:03
In: Nova poesia de um poeta velho

SOS

SOS

Em quantos dos teus irmãos viste,
Publicado um surdo grito de socorro?
E continuas a assobiar para o lado?
Quantos do teus amigos te enviam sinais,
Pedidos de socorro desesperados,
E tu segues inalterado o rumo traçado!
E tu? Quando pedires, quando gritares,
Quando estenderes a mão em sofrimento?
Que esperas encontrar?

Alberto Cuddel
06/03/2015

Esperança desse medo de ficar

Esperança desse medo de ficar

deitou-se no horizonte o medo
asas da alma que te elevam
sem que partas a lugar algum
bosques de silêncio onde te fitam os olhos
ribeiros mansos que correm
por ente avencas que se agitam, uma sombra,
olha comigo o rio, de mão dada
olha, não digas nada, espera a foz, esse desaguar
essa vontade de ser, de estar…

nas escaleiras solitárias
essa esperança,
esse medo de ficar,
o ir, o chegar…
o não for e o não estar…
e o existir ali, mesmo ali, na tua mão
de mão dada, olhando o rio…

Alberto Cuddel
27/01/2020
03:23
In: Nova poesia de um poeta velho

O inverso de agora

O inverso de agora

neste já que aconteceu antes de agora,
nesta pressa sem destino e sem recurso,
nesta fome solta a que chamam saudade,
há uma vontade férrea de ser presente,
de ser corpo, alma e mente…

há uma espera pedida
um querer anunciado
um abraço prometido
o prazer de uma vida…

neste inverso de agora
nessa promessa de saudade
há um ficar pela verdade
uma fidelidade jurada
uma vida declamada…

neste inverso de agora,
há o amanhã
e o acordar
antes mesmo do sonhar…
antes mesmo do amor,
cheguei, sem ter ainda partido
e fiquei… sem ter chegado!

Alberto Cuddel
18/01/2020
02:03
In: Nova poesia de um poeta velho

Dúvidas

Dúvidas

Se duvido, volta a confirma-me
Se te peço, com amor acredito…
Se te agradeço, foi-me concedido…
Se falo contigo, me ouves, te oiço…
Se me prostro, te venero…
Se me isolo, não me deixas só…
Se estou em silêncio, minha alma grita…
Fala com Ele,
Ouve a voz d’Ele…
Acredita…

Alberto Cuddel
07/10/2013

Esperança?

Esperança?

Perde-se em mim a esperança vã,
Que o amor tudo suporta,
Tudo supera, tudo perdoa,

A mágoa enegrece e arrefece,
Sentimentos tidos, em sonhos perdidos…

Apenas se vive, na esperança futura,
Que no seio da amargura,
Se ensaie e se construa,
Uma mudança forte e pura,
Que não te deixe consumir,
Pela falta do sentir…

Alberto Cuddel
19/09/2013

Espera

Espera

Um dia, uma noite,
Espera, dia após dia,
Um sinal, um querer, uma vontade,
Espera,
O despertar, o voltar a querer,
O quer amar, o querer sorrir,
O partilhar,
Espera,
O momento,
Aquele momento,
Espera,
Que ao acordar,
Na troca de um olhar,
Um toque faz despertar,
Espera…
Quase desespera….
Mas espera…

Alberto Cuddel®
01/07/2013

Exausto,

Exausto,

Deito-me exausto, sento-me, levanto-me,
Gritando silêncios de dor em alto pranto,
Visão distorcida uma sórdida humanidade,
Esquecida fora uma inócua e forte vontade,
De cuidar dos meus dos vizinhos humanos,
Vida em mim ideias, uns seres mundanos,
Sociedade corrupta, sem espirito, sem união,
Moral, humanidade, solidariedade, religião,
A morte espreita a cada esquina, a cada porta,
Podre sociedade esta que assim se comporta,
Sem dar a mão a seu irmão que morre no mar,
Não há preocupações ou poder indignar-se,
Seguem a triste vidinha sempre assobiar,
Dos outros irmãos, sempre outro vai cuidar!

Até ao dia em que serás tu,
Sim um dia tu
Tu também vais precisar,
De uma mão, uma palavra, um pão,
Da força, da vontade de um teu irmão,
Ai recordarás, todas as vezes que disseste não,
Para meu irmão não tenho tempo para cuidar!

Será tarde, ainda há tempo, vê, escuta,
Faz, ama, ajuda, muda a tua conduta,
Podes não mudar o mundo, não ficara aquém,
Na tua acção mudarás também a vida de alguém!

Alberto Cuddel

Cais…

Cais…

Há almas esquecidas no cais
Na ausência de um abraço
Perdidas sem um “onde vais?”
Sem um acolhimento no regaço!

Há corpos sem um porto de abrigo, nessa solidão assim comprometido, sem esperança, sem leve à deriva, sem uma brisa que lhe lhes aconchegue a alma!

Há gente perdida, sem um abraço, sem vida, há gente tão diferente, sem esperança e sem saída…

Há almas esquecidas no cais
Na ausência de um abraço
Perdidas sem “um onde vais?”
Sem um acolhimento no regaço!

A ti, que me acolhes, que me guardas e me guias, que te aninhas no meu peito, sem medo das noites e dos dias, a ti que és meu cais, meu porto de abrigo, dona dos meus ais, a ti, a ti mesma, eu digo, és dona do resto da minha vida!

Há almas esquecidas no cais
Na ausência de um abraço
Perdidas sem um “onde vais?”
Sem um acolhimento no regaço!

Alberto Cuddel
01/10/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

Poema do dia 12/07/2018

Poema do dia 12/07/2018

Já tive pressa enquanto o tempo andava devagar,
Já senti falta do sol, em muitos dias cinzentos…

Hoje os muros parecem-me tao altos, quase intransponíveis, do outro lado, o sonho e a vida, andam gaivotas em terra, não pela tempestade, mas pela abastança de comida… pendem eras dos beirais onde antes chovia, hoje apenas um sorriso, sem motivo, apenas pela ausência de tristeza…

Já tive pressa enquanto o tempo andava devagar,
Já senti falta do sol, em muitos dias cinzentos…

Amei-te acima das nuvens, depois sentamo-nos, olhando apenas na profundidade do outro, perscrutando a alma… nessas palavras caladas em que dizemos tudo, em que nos afirmamos crentes e cientes dos erros, vadios do estar, ainda que nosso olhar nos condene…

Já tive pressa enquanto o tempo andava devagar,
Já senti falta do sol, em muitos dias cinzentos…

Corri como louco pelos caminhos direitos, encontrei-te à janela, numa pequena viela, olhando distante o teu futuro, do outro lado do muro… o amanhã está ali à distância de um salto, à distância de uma noite…

Já tive pressa enquanto o tempo andava devagar,
Já senti falta do sol, em muitos dias cinzentos…

Alberto Cuddel
02/07/2018
15:35

Vida por viver

Vida por viver…

Tão longe e distante o fim dos dias
E a minha pressa de vida…

Expressão intelectual da emoção,
Indistinta da vida, dessa que corre lá fora
Na juventude correria das horas
E a vontade de ser e fazer, tudo e coisa nenhuma
Nas ideias abertas que me aprisionam,
As ciências distorcidas e filosofias vãs
E eu? Quem sou, sem te perseguir
Formo-me na consciência cabal
De que irei ser, o tudo que de mim farei
Na consciência de que tudo me condiciona…

Vida,
É com esse sonho que fazemos arte.
Outras vezes com a emoção
A Paixão é a tal forma forte que,
Embora reduzida a acção, a acção,
A que seduz, já não a satisfaz!

E a vida, essa coisa esquisita
Que passa diante de mim
Dia a pós dia…
Terei pressa,
Calma, tempo…
Mas ainda a irei sonhar,
Viver, sentir
Apaixonar,
Amar…
Sem pressa…
Bem devagar…

Alberto Cuddel
13/04/2017
11:21

Foto By Vasco Rafael

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Poema do dia 12/04/2018

Poema do dia 12/04/2018

Deixei que se afinassem os silêncios
Bastou que a notícia ecoasse na sala
O mundo que não nasceu, desabou
Toda a esperança arrebatada na mala…

Não posso ter a certeza, estranhei a calma
Agarrada aos dentes, a dor que te pendia da alma
Presa numa garganta seca, como seca é a doença
Essa que te mói por dentro e te destrói…

Depois de me destinar, soluços convulsos
Cais nos braços, nas lágrimas que escorrem
Gritos e prantos de dor, clamas com fulgor
Nos gestos de amor, vives a esperança do já…

Aquela é a primeira mulher
E mesmo assim fazia o chão evaporar,
Deixei que a posse da tua voz
Se fizesse em mim nova esperança…
Acordamos amanhã… Quem sabe depois…

Alberto Cuddel
12/04/2018
04:10

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