Ai, se eu te desse a vida

Ai, se eu te desse a vida

como gostava de ser desempregado
e não ter nada que fazer por dentro
vaguear cheio de mim como gado
correndo contra as esquinas no centro!

ai, se eu te desse a vida, que farias tu com ela?
que farias de mim sem ela, se eu te desse a vida
doar a vida é despejar-me de mim
é ter a alma própria e inteira.
e pensar em nada, é viver intimamente
o fluxo e o refluxo da vida… e sentir-te
não estar pensando em nada.
é como se me tivesse encostado mal, um desconforto
uma dor nas costas, ou num lado das costas,
que mói, não chega a ser a dor que é…

há um amargo de boca na minha alma:
é que, no fim de contas,
não estou pensando em nada,
E a vida, a pouca que me resta, doei-a…

Alberto Cuddel
12/10/2021
13:00
Alma nova, poema esquecido – XL

O tédio das coisas simples

O tédio das coisas simples

às vezes quando olho a vida, escondo-me por detrás da sombra
por uma aversão às coisas inertes, que estão ali, porque sim

às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros que leio
coisas inventadas e a ausência de vida própria,
sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar,
ao erguer os olhos a uma luz falsamente adquirida
mas que transcende os números e realidade…
e vejo-me em viagens ao submundo da existência
ali, onde tudo é real e possível… onde podemos matar
onde podemos fazer nascer, onde nos podemos apaixonar…

a vida desgosta-me como um remédio inútil,
e é então que eu sinto com visões claras
como seria fácil o afastamento deste tédio
se eu tivesse a simples força de o querer
de possuir em mim a garra de deveras me afastar

já pensei emigrar para um livro em branco
e construí-lo com palavras novas por inventar
desenhar montanhas submersas de desejo
e rios secos de angústia… quem sabe escrever um massacre global
ou então não escrever nada, e simplesmente permitir-me
sonhar e sentir tudo, como uma primeira vez…
mas depois invade-me essa inercia da acção
esse tédio de olhar o mundo e ficar quieto…
cheio de ideias, mas imóvel…
apenas invadido pelo tédio,
olho, apenas olho, sem falar nada…
uma cadeira tem quatro longas pernas
e as minhas apenas duas doem-me…

Alberto Cuddel
06/10/2021
19:00
Alma nova, poema esquecido – XXXVIII

Amo porque sim

Amo porque sim

… amo talvez por não me lembrar de um bom motivo para deixar de amar, por me ter esquecido de como é viver a vida sem amor, na mais completa felicidade de estar sozinho, sem amar ninguém. Acho que não me lembro de como se faz, de como se é capaz de percorrer sozinho a estrada da vida, correndo ou andando mas chegando sempre em segundo lugar! Esqueci-me e ainda bem que o fiz, pois hoje lembrei-me o quão bom é caminhar de mão dada!

Alberto Cuddel®

28/05/2016

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

A inconstante habilidade para coisa nenhuma

Temo que o erro não seja uma inaptidão para a assertividade
Mas uma constante desconcentração visual pela a exactidão do pensamento…

Criticamente escrevo mais lentamente do que a velocidade do pensamento
E voam os dedos no teclado minúsculo, ou no desenho artístico das letras
Nessa inadaptação ao querer que seja já sendo o que foi
Penso que pensar não seja arte, mas uma ferramenta técnica de vida
Pensar é num acto simples estar vivo…
Sendo a poética a arte da inutilidade linguística
O deslumbramento frásico sobre a beleza da curvatura das vogais
Em pleno acto isolado de voar no céu da boca
Assim são as opiniões estabelecidas
E o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões.
Como estão cheias de árvores as florestas ou deixaram de o ser.

Ser poeta é:
Ter a arte e o engenho de perder tempo, nesse tempo que não tem
Enquanto rodeado de ninguém observa um pássaro que nada num céu sem estrelas
Enquanto Santo António prega sem martelo sermões às sardinhas
Que num acto de misericórdia divina
Foram condenadas por bruxaria à expiação dos pecados pelo fogo…
Ser poeta é amar todo o universo contido numa gota de água que cai
E encontrar num lago a gota de chuva perdida…
“É amar assim perdidamente” todo o mundo e toda a gente
É olhar a alma por dentro e descobrir que não tem cor
Nem raça ou credo… e que os deuses se revoltam
Por não terem uma cerveja gelada…

E neste acto glorificado pelos canos das espingardas
Que deram liberdade aos cravos…
Os poetas morrem… enjaulados pelas prateleiras poeirentas da biblioteca…
Sem que as palavras mudas gritem em pleno Rossio…
Há vida para lá da rima… o poeta, fugiu…

Alberto Cuddel
29/12/2020 03:51
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha VI

Lanço poemas

Lanço poemas

Em tudo o que faço e refaço.
Meus pedaços em troca de laços
Dar o que em mim ainda há
Tanto sofro como choro
Tanto rio como sorrio!
De que me afasto se me basto
Chega! Agora basta!

Odes delirantes de alfobres
Berçários de versos, reversos
Saudades…
Amores, paixões, desejos profanos,
Sonhos e dores…
E arde em silêncio a candeia
Que me ilumina e incendeia
Chama que dança –lua cheia,
Triste e amargurado poeta
Por onde arrastas teus versos
Peregrinos, lançados pela janela
Ao colo de uma donzela,
Sofre em si abstinência do corpo
Lágrimas que lhe correm no leito
Pelos tremores do desejo,
Tudo por nada, apenas por um beijo!

Ai poema, poema,
Onde me levas, debruado na noites
Em cama de estrelas, sonho vê-las,
Palavras soltas, directas, concretas,
Rimando apenas na beleza do seu busto,
Nos versos procuro e rebusco, o sim,
O não, o amor, a paixão, ou apenas a visão
De te ver passar mais uma vez,
Lançando-te poemas para o colo!

Alberto Cuddel®
15/07/2016

Se houvessem arco-íris

Se houvessem arco-íris

Se arco-íris houvessem no mar
E escadas que que erguessem aos céus
Quem teria eu de subornar nos infernos
Para que todos os teus beijos fossem meus…

Malditos sejam todos os caminhos, que nos cruzam as cidades
Malditos sejam as saudades, e todas as aves sem ninhos
Ergui muralhas de areia molhada, escondi tesouros na estrada
Cortei nuvens de algodão, luzes coloridas de uma canção…

Se houvessem arco-íris onde se esconde o caldeirão
Subornaria o duende, e plantar-me-ia no coração…

Erguem se as copas aos céus, por entre os degraus do olimpo
Há no templo de Salomão, ainda perdão a este impio…

David, David, porque de Abraão viemos?
Há moças que correm de espada
E rapazes soltos sem matilha…
Por um justo, foste poupada…
Por uma pecadora condenada…

Se arco-íris houvessem no mar
Os ventos não me abandonariam à má sorte
Longe persegue-me a calma, e a morte…

Se houvessem arco-íris
Em pomares de pêssegos maduros
Tudo seria calma, tudo seria apenas futuro…

Alberto Cuddel
14/11/2020
20:50
Poética da demência assíncrona…

Incertas certezas

Incertas certezas

Certamente que a incerteza existe
Coisas certas desistem,
As incertas persistem,
O sonho vive, antes que morra!

As pedras da calçada gastas do uso
Pelo caminho percorrido
Levam, trazem, param e convivem
Antes que o caminho se feche
Sem levar a lugar nenhum!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi

Nos passeios da vida

Nos passeios da vida

caminhando nas horas incógnitas,
encontros sucessivos e sem relação,
no passeio em que fui, o mesmo pelo que vim
na noite, no dia à beira ou distante do mar.
ali sob o céu, calcando a terra
e todos os pensamentos, os que fazem os homens
os que procuram, os que encontram
os que sonham mulher…
e todos os outros que têm feito viver os homens,
depois de todas as emoções, de todas as desilusões
de todos os sentimentos e todos os gestos
parar é sem dúvida o acto, o derradeiro acto
pelo qual os homens têm deixado de viver…

Alberto Cuddel
21/09/2020
11:17
Poética da demência assíncrona…

Diário branco

Diário branco

Definem-me pelo tudo que tenho, sendo o eu o nada que possuo
Nem os meus pensamentos gritados ao vento são posse minha,
Perdem-se na chuva de gritos perdidos nos ouvidos do mundo,
Espero apenas que a lua se deite, para que amanheça em mim,
E por fim, descanso, do cansaço que o pensamento me causa,
Noite branca, dormente na inquietude pensante total e vazia,
Fustigam-me ideias suicidas de novos versos e reversos poéticos,
Poema inacabado, borboletas que esvoaçam perdidas no mar,
Doce imagem do teu corpo nu, vestido com a alma apavorada
Triste solidão que te conforta, no vazio silêncio que a noite dita!
– ai de ti poeta das rimas feitas e fazes vazias,
Onde te deitas? Tábuas negras e frias!

Tenho mais certezas que duvidas, pois duvido de todas a certezas,
As dúvidas que me assaltam, espreme-me, esvaziam-me
Deixam-me nu, nunca me acostumo a despir-me das palavras,
Nem à ideia de que as gaivotas fogem do mar,
Ou que sejam as andorinhas a comandar a Primavera,
A casa essa está fechada, nada aberto, nem porta nem janela,
-mesmo assim duvido, que mesmo fechada vivas nela.

Nunca esperei um fim, um principio,
Tudo segue um rumo, um destino,
Um sussurro, um abafado grito,
Desdigo-me, minto, finjo
Nem de ti, nem de mim, nada dela,
Que me contas, do tempo do nada?
Porque te finges ser um tudo,
Se no tudo que do alfabeto se pensa,
És meramente actor, um mero poeta!

Alberto Cuddel
30/05/2017

Penso às vezes com parcimónia

Penso às vezes com parcimónia

penso às vezes com parcimónia na possibilidade futura
essa arte de pensar a linha recta de uma geografia
uma vã e fútil da consciência de nós próprios

não há nada que nos emocione mais que pensar
pensar sem saber no que os outros pensam
daquilo que fomos e nos mostramos

há uma dimensão falsa de alma querendo corpo
e há talvez outras dimensões onde vivemos outras coisas, coisas desiguais tão iguais aos outros que somos
apraz-me às vezes deixar de pensar
de possuir o mundo pela meditação do inútil
dessa imaginação fálica com que perscruto a feminilidade
da vã existência,
numa busca pela multiplicação
da sobrevivência da humanidade tão egoisticamente
prazerosa ao individualismo do homem…

às vezes penso com parcimónia,
neste pensamento que desgasta
e que nada me vale a vida a não ser por morte…

Alberto Cuddel
10/02/2020
12:15
In: Nova poesia de um poeta velho

Um de nós

Um de nós

um de nós ou outro qualquer que ainda não tenhamos feito nascer, que nos arremata na loucura da perseguição da fé, esse acto laico de um egoísmo educacional a tantos chamam “felicidade”, um de nós será feliz na loucura do seu mundo com ele próprio, depois de tudo isto, sentamo-nos a uma mesa sozinhos e comemos uma refeição que não gostamos, lendo um livro que não queríamos, tudo para que possamos ser felizes com o oposto a isto mesmo.

as nuvens continuam a correr para nascente, são independentes do que sinto, há casas coloridas e passeios cinzentos, há até soleiras de pedra onde dorme gente…há reflexos de poemas escritos por outros, entre janelas verdes e mares salgados, formas humanas que correm com sentido disforme, não pensando em nada, quem sabe a maioria nunca leu um poeta, nunca roubou tempo à vida para se sentar, calmamente, sentir o perfume do papel, e aspirar as letras, e ficar ali, a remoer o poema, como se fosse o último chocolate do prato.

mas um de nós corre, um de nós grita, um de nós geme, um de nós chora, o outro? o outro fica, e corre na perseguição dos dias, e grita de alegria a cada notícia, e geme de dor a cada vez que se levanta da cadeira torcida, e chora a cada beijo, a cada nascimento do dia… um de nós vive, um de nós morre, um de nós é, porque um de nós existe…

enquanto o outro se esconde.

Alberto Cuddel

13/04/2019

Nestas horas que nascem,

Nestas horas que nascem,

Rodam rodas na estrada apressadas e sem destino, com pressa de chegar lá longe onde nos mora a felicidade, e passam os que vem e os que vão, e os outros que se perderam nos atalhos do conformismo da vida.

E sopram e bebem licores
Andam dias acima em pés de lã
Amam como loucos os dias
Noites de solidão onde se desejam
E os monótonos tempos comigo mesmo
Olhando a gente que passa e que está
(estou só entre tanta gente)
Procuro parado no tempo que espero!
Desenhando trajectos do amanhã
Entre sonhos e certezas!

Olho esse vazio que se me apresenta pela frente, que esse passado cheio não me chega, procuro o que já encontrei, na certeza certa de saber onde pertenço, e sei onde devo estar, não atrás, à frente, por baixo ou por cima, mas ao lado de mão dada, se temos pena? Nenhuma…

Conduzo sonhos, sem carro, apenas pela vontade de os tornar possíveis, realizáveis, beijáveis, nesses caminhos que abrimos sem licença, onde se movem fantasmas de amigos imaginários, tão palpáveis, tão reais… somos, a saudade das horas, pelos beijos que ficam por dar… mesmo que espere olhando a porta, tudo vale a pena, quando amamos, tudo vale a pena… e amamo-nos de novo, as vezes apenas no olhar preso num abraço e num beijo roubado na sombra, à vista de todos!…

Alberto Cuddel
15/11/2018

Divagações da procura da alma gémea…

Divagações da procura da alma gémea…

Jamais te procurarei, por entre os nomes que te deram, [nunca te chamam, eu chamo-te], seja doença ou cuidar ausente, [Um poder maternal, ou entrega de amor], eu chamo-te mulher, talvez até Maria!

Criei-te diferente, sonho crente, sendo, foste, estando, és, [não mãe, ou esposa, talvez amante, talvez amiga], no sentir que sinto, crio-te novamente, como sempre te procurei, em tudo igual, em tudo diferente, um nome, um rosto!

Invento-te, a cada nova conjugação
A cada novo verso, a cada esgano do sentir
Representação perfeita das máscaras
Que de mim invento, que de ti sinto,
Que em mim represento, que sou cá dentro!

A cada nome, uma nova forma de ser
O que efectivamente em ti és… Perfeição, saudade, mesmo aqui, ao alcance da mão!
 [mesmo assim sou novo… ou talvez não]
Talvez apenas seja o que sempre fui…
Talvez sejas o que sempre procurei
O que de mim eu encontrei…

Alberto Cuddel
15/11/2018
Castanheira do Ribatejo

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Às vezes para me entreter – porque nada mais me entretém que a proximidade de ti, ou este querer absoluto das coisas fúteis que calamos no olhar e abraçamos como se não existisse amanhã – apenas escrevo inutilidades da alma e saudades, nestas futilidades cabem todos os dejectos da sociedade, até o esquecido que dorme no vão de escada do número 3 da rua de trás… Mesmo que nestes minutos que me asfixiam na tua ausência, tenhas voado do meu pensamento, pelas artes da sinapses da memória selectiva que me condena, entre frases e versos já escritos por vários mortos antes de mim, fazes me falta, nestes dias que não fazemos e não cumprimos.

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Invento sonhos que nunca sonhei, em dias que nunca dormi, poemas que nunca escrevi, mesmo que sinta em mim que o fiz, que o quis, nesta poética macabra de pensar o nada e o tudo, o tempo que foi e o mundo, uma ausência temporária, uma outra imposta, neste tempo que avança sem retrocesso, neste novelo que desenrolamos! Passeamos pela tarde de mão dada, em jardins que nunca floriram, embalados pela brisa do fim do Verão, sem nunca lá termos estado, beijei-te, como quem beija intensamente e sem pecado, ali, diante de todos, de nós e do mundo, fomos sonho, e carne, e sentir, e desejo, fomos tudo… E os dias? Os que não fazemos, apenas existem, esperamos o depois de amanhã, ou um futuro que chegue, ou um sonho, um poema, ou apenas um acordar juntos com o sol batendo no rosto!

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Alberto Cuddel
12/11/2018
Marvila, Portugal

Ladram as gentes que vem cão

Ladram as gentes que vem cão

E os gatos em telhado de zinco
Eu sem dormir até o trinco

Vão e vem as noites pela avenida
Depois do terceiro andar
Ainda ninguém dormia,
Quase meia-noite, antes da noite meia!

Não há sombras na parede
Nem luz que o alumie
Ladra o cão sem gente
A gente rosna a solidão

Sono maldito, insónias do tempo
Nas voltas da madrugada
Neste silêncio de nada
Rezam o terço as beatificadas
Desse rosário de ladainha
 – Estou só, assim sozinha.
 – Tenho frio, junta-te a mim?

E corro ladeira abaixo
Desse tempo sem Constança
Não há luxuria que me valha
Corro, corro, do medo dos canídeos
Portas que batem, luzes que se acendem
Maridos acordados, fumo nos telhados
Ladram as gentes que vem cão,
As cadelas estão no cio…

Alberto Cuddel
03/11/2018
Marvila, Portugal

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