A carta

A carta

Era um adeus simples, um até depois, depois do nada, depois que a esperança morreu… foram palavras simples aquelas que o poeta escreveu, um mar calmo sem vento, uma floresta negra e morta pelo fogo que se extinguiu… foi um quase tudo que apenas foi nada, um fogo em cabeça de fosforo, que a brisa da mesmice dos dias logo apagou… De que te vale tentar incendiar lenha verde? De que te vale a procura de palavras sadias, se no final tudo se resume à loucura da embriagues de mais um copo de vinho… de que te vale esse prazer temporário de que “tudo esta bem” se continuas a morrer devagarinho, se deixas de acreditar no amanhã? Esse que tens certo como um dia igual a ontem, sem mudança, apenas depois de hoje… e colecciono esperanças e memória dos abraços, e Maio… foi em Maio… Perdi-me de todas as cartas que escrevi cheio de sonhos, hoje apenas lembranças desses tempos, onde ia ali a correr, gemer a felicidade… hoje já nem as palavras me fazem sorrir… Visto a tua mascara, essa que tantas vezes passeaste na rua, essa mascara do sorriso, por entre piadas e anedotas… mas na verdade, nem tão pouco te concedem a liberdade de estar triste, de ser triste, de ter a certeza de que a vida é um mero castigo, um mero sacrifício ser vivida… e o amor, a pouca esperança que te mantem vivo… ele é a derradeira chantagem enviada por Deus…E Deus espera-te, sem te conceder o acto de desespero que te leva directamente a ele…


Alberto Cuddel
22/06/2020
19:34
In: Nova poesia de um poeta velho

Poema do dia 14/10/2018

Poema do dia 14/10/2018

Não, recuso-me a despedir-me hoje,
Já disse, não, não quero um adeus,
Não quero um até sempre, recuso-me…

Seria certo que numa hora como esta ciente da realidade a que a minha vida se destina te dissesse um simples até logo, até amanhã, mas tanto ainda ficou por dizer, por escrever, por beijar, por abraçar, quantos orgasmos nos foram negados por essa mesma vida? Recuso-me a despedir-me, não já disse…

Suspendo o tempo entre a partida e a chegada, entre o pôr-do-sol e alvorada, entre uma metáfora e a outra, entre o querer e o poder, suspendo o tempo entre o rio e o mar, entre a montanha e o vale, entre o céu e a terra, fico apenas suspenso entre um momento e o outro, mas, recuso-me terminantemente a despedir-me…

Não, recuso-me a despedir-me hoje,
Já disse, não, não quero um adeus,
Não quero um até sempre, recuso-me…

Recuso-me a deixar-te vazia de mim, na carência de versos, recuso-me a partir, cheio de tudo o que não fiz e vazio de gestos, recuso-me a boiar na ondulação cadenciada dos minutos, abandonar o calor da tua alma, a despir-me no degelo do peito, na abstinência de me entregar à palavra. Recuso-me a suportar a inquietude de um silêncio que não respira, recuso-me a suportar a ideia de um corpo deitado em leitos de tabuas, enquanto o relógio avança na espera do tempo certo.

Nesta minha recusa, aponho o corpo e o peito aberto ao mundo, neste dourado Outono em que o frio me trespassa, na espera desse dia certo, em que somos de novo, sem pressa, abraço e letras, prosa e beijos, versos, rimas, desejos e orgasmos, enquanto isso convalesço estéril e sozinho, sofrendo de uma doença que nunca tive e para a qual não existe cura, a abstinência de ti, curar-me-ei, quando existir em ti sem despedidas, quando for eu poesia e tu musa dos meus dias, mas agora recuso despedir-me, por não querer ir, apenas para não ter que voltar…

Não, recuso-me a despedir-me hoje,
Já disse, não, não quero um adeus,
Não quero um até sempre, recuso-me…

Alberto Cuddel
14/10/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

A tua leitura

A poesia é uma das artes nobres de monólogo entre quem produz a arte e quem a intreperta… não sou eu que escrevo a mensagem mas sim tu que na leitura a reconheces…

A noite ergueu-se devagar
Sem pressa para chegar
Como se o dia, não quisesse
Não fizesse falta nascer…

Nesse tempo, sem pressa
Bastou-nos um abraço
Para dar todo o significado
Ao sentir do verbo amar…

Alberto Cuddel

Poema do dia 14/04/2018

Poema do dia 14/04/2018

Um último beijo
Como todos os últimos dados, pela manhã sob a ombreira da porta…
Vejo-te desaparecer lá ao fundo, naquela última curva à direita…

“despeço-me de ti meu amor, como todos os dias, na vontade do primeiro encontro,
a cada chegada, apenas porque podemos nunca chegar…”

Sabes? Claro que sabes o sabor do meu beijo
Mas guardo o teu, os teus silêncios, as tuas lágrimas
Os teus desejos, as tuas armas…

Há sempre um depois, mesmo que o nosso futuro tenha morrido ontem…
Seremos amanhã, eternos amantes…

Alberto Cuddel
14/04/2018
19:05

Despedida,

Despedida,
 
Corro a passo pesados,
Largos, espaçados,
Aperto no peito,
Sigo a direito,
Pressentindo o desfecho,
Negro asfalto,
Longo e estreito,
Ultimo suspiro,
Ultimo alento,
-espera um pouco,
Um pouco de tempo,
Corro, corro,
Chego, como chego,
Cansado, mas a tempo,
De um último
Um olhar, uma lagrima,
Um beijo, e partes
Em paz,
Nos meus braços,
Esperaste-me,
Como sempre,
Que chegasse,
O primeiro,
Para poderes
Por fim descansar!

Alberto Cuddel

Despedida

Despedida

Nos bolsos nada levo, nem carrego as lágrimas que verto
Ainda ontem tinha de ti tanto a receber, tanto a levar
Como tudo o que fora teu, fora meu também, mas hoje nada
Nem tão pouco as chaves de uma porta que range, escuta
Arrasto-me hoje, com pensamentos de ontem, a perda
 – Sabes amor? Que amor, como te chamarei hoje?
Não existe um ex-amor, tão pouco um ex-sentir
Hoje não existe absolutamente nada, nem palavras gastas
Inutilmente vagueio, gasto, carregado de remorsos vazios
Em bolsos cheios de nada,
Apenas a roupa, gasta, que hoje carrego no corpo…

Caminho de bolsos vazios, e olhos presos no chão
E no chão, não encontro nada
Nem me encontro a mim…

Alberto Cuddel

Adeus…

Adeus…

Não bastava um adeus?
Um simples beijo?
Um bater de porta?
Para quê o sofrimento
Das palavras escritas
Doloroso momento
Palavras convictas
Se verdadeiro fosse o sentir
Então por que partir?
Se dizes ainda amar
Porque não conversar?
Mas na tua cobardia
Partes, sem um adeus,
Sem um até um dia!…

Pyxis de Andrade

Poema VII

Poema VII

Na chuva que o rosto me lava
Levada no tempo a dor da saudade
Verdade caiada no ser ao ser chorada
Sal da tristeza na minha sinceridade…

Gemem as tábuas no beijo da despedida
Partida fora de tempo a ser sentida…

Dor que me trespassa o peito
Deitada morta no leito
Olhar que esmoreceu
E que em mim se calou!

Tempo perdido sem história
Ou doce memória,
O amor que sempre calei e nunca contei…

Na chuva que o rosto me lava
Vai a dor que meu peito carrega!..

Alberto Cuddel
19/09/2017
06:05

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