Rabiscos da busca eterna…

Rabiscos da busca eterna…

palavras obrigatórias
(gesto, sombras, hoje, bocas, breves, beijo, asas, chicotes, instante, terra, pregão, nosso)

há nesse pregão atirado ao acaso
uma fome de bocas, que se abrem
como se as sombras das palavras
nesse gesto incontido lhes saciasse a alma
são breves esses dizeres eclécticos
essas verdades furtivas que se estendem
e fogem de asas abertas a um mar nosso
ali, depois de ontem ou num hoje pedinte…

por um instante calo-me
[…]
é breve o silêncio que me corta o corpo
como chicotes arremessados por mãos estéreis
judas também o deu… um ósculo, um beijo
uma traição premeditada trazida à terra…
estava escrita, ele não a escolheu, foi escolhido…

escuto…
[…]
há esse silêncio que nos condena…
essa verdade cavernosa que nos come por dentro
a consciência…
e o olhar melancólico de uma mão estendida
e a minha, encolhida, vazia…
mas… no meu silêncio, arremessada como uma pedra…
atiro…
– desculpa, perdoa-me, nada tenho, além das palavras que me deram…

Alberto Cuddel
13º Desafio Livro Aberto 2021

15/07/2021
1:00
Alma nova, poema esquecido – XI

(sem) Abrigo

Desafios palavras soltas

De : Ruth Collaço  / Ventos Sábios em parceria com João Gomez photography

Tema: Abrigo

(sem) Abrigo

(Des) abrigo-me dessas pedras construídas por uma sociedade hipócrita e egoísta, quem vos convenceu que eu quero viver numa gaiola preso a despesas fixas, com horários fixos a fazer todos os dias coisas que não gosto? E eu é que sou o errado, o que dá mau ambiente à cidade? E as vossas caras fechadas que se cruzam comigo pela manhã, de olhar fixo no chão, sem olhar o céu, sem dizer bom dia, sem apreciar os pássaros e as flores porque em um horário a cumprir, para pagar despesas e impostos que não queriam e não pediram… E o errado sou eu?

Sim eu (sem) abrigo, vivo livre, quantos presidentes me quiseram enjaular, inserir-me no mercado de trabalho, prendam-me em Évora, talvez lá seja mais livre que numa jaula de um prédio qualquer de uma avenida escondida da cidade, pagando o que não quero por uma coisa que não pedi, fazendo o que nunca quis… Eu, eu não quero abrigo, as minhas paredes são as pernas, e o meu texto o céu… Vou onde a vontade me levar…

Januário Maria

Foto de : João Gomez photography

Corpo-Abrigo

Corpo-Abrigo

Há nesse Corpo-abrigo uma esperança de vida, uma sorte, um desejo-amor, uma fórmula mágica que nos recolha do mar, que nos faça acordar do desespero da solidão. Há nesse corpo-abrigo uma calma que me espanta, um querer que me arrebata, uma força que me chama, e nele quero existir, nele faço-me, a ele me entrego na plenitude humana de ser tudo, e completo.

Depois desabrigo-me neste calor que se avizinha, nesta fúria do caminho em corrida, em que a noite minga, e o tempo faz-se luz e cansaço, e depois, depois aninhamo-nos no espaço curto de um abraço enquanto esperamos pela frescura ampla da madrugada, e amamo-nos quando todos estão calados…

E antes que a vida nos separe, juramos sentires eternos, ali diante dos céus, das estrelas e do paraíso, porque de inferno literal estão os dias cheios e fartos de uma separação rasgada imposta por uma sociedade corrupta inimiga da felicidade humana…

E no teu-nosso corpo-abrigo existimos plenamente além da realidade física, somos alma ungida e abençoada pelos espíritos livres que nos vagueiam pela mente…

Somos a perfeição do que de nós fizemos, mesmo antes da vida ser vida estávamos destinados a existir… ser eternamente confiança, corpo-abrigo meu…

200 – palavras

Alberto Cuddel
30/03/2021 09:20
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha L

Imagem de João Gomez photography

Poética XIII

Poética XIII

Há na noite vadia,
Pronuncio de sede
A leveza das palavras
E esse querer livre que nos consome…
Há copos partilhados
Segredos bebidos nos lábios
Voltas nocturnas nas dunas
E bronzeados de lua…
Esse tesão consumido
Querer gravado nos silêncios
E vírgulas em contramão.
Contra-ordenações da interpretação
Orgasmos nas exclamações
E comboio que passam
Sem a noção real das rimas
Caldeira cheia de carvão…
Pouca terra, pouca terra
Água que nos enche a caldeira
Mel bebido nos lábios
Em prece oração fálica
Bebes segredos da poética
E entre autores, ética…
Ninguém mama da inspiração
Apenas beija os seios
Do amago da significância…
Entre as eloquências da aparência
És… de Prada despida mulher
Rubro batom nos lábios
Verniz encarnado, nas faces de quem lê…
Assim é o orgasmo poético
Bebido lentamente
Em copos de poemas…
Engarrafados no tempo
Em que o poeta sadino
Com escarnio e bem-dizente
Cantava os orgasmos da corte…
Em resposta e contra-resposta
Que o ignorante nos pague a conta
Deste poema grosso
Que nos enche a boca…

Alberto Cuddel
22/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVII
Poema resposta a Cristina Pinheiro / @asas da Cris

“Cabaré”

Gosto da noite vadia
Ostenta luxo e fantasia…
Sinto em mim odor sexo. ainda quente…
Excitante rotina de prazer!
Sou menina vestindo oiro
Talvez Prada ou Gucci talvez!
Me reinvento dia a dia
Neste alegórico trilho
Que preenche a minha vida…
Desfilando pelo baile
Oiço risos de engate
Derivam estes por vezes
Do Grant’s já embebido
De um coração desesperado…
Sim, gosto que olhes para mim
E me chames para ti…
Mas presta atenção… tem coragem
Olha-me nos olhos da verdade
Ouve o bater do coração…
Somos dois seres tão iguais!
Lembra-te que um dia eu também fui criança
Talvez criada no Nada…
Quedas mais quedas eu dei
Fiquei desenformada do que um dia talvez fui…
Tantas vezes o odor do vício desprezível me agoniza
E então vomito estas sequelas vividas…
De mim fujo!
Transformando-me então naquela boneca vestida de Prada preenchida d’um nada…

Cristina Pinheiro

Foto de João Gomez photography

Poética X

Poética X

o que mostras nesse olhar?

mostras-te mulher, fértil
nessa fertilidade poética
nessa plenitude da existência
nas metáforas incompreendidas…

leio-te nos silêncios
nas quimeras sonhadas
estampadas no rosto
nas verdades ocultas por detrás do olhar…
leio-te nesse arco armado sem flecha
sem coração onde apontar
nas desilusões da alma
na carência do corpo…

leio-te sem julgamentos ou medo da morte
compreendo o sentir e a sentença aplicada…

leio-te no verde que carregas no olhar,
na falta de luz que o ainda faz brilhar
e essa tristeza ondulante como chama
de uma luz que arde, cintilante, mas frágil
soprada pela brisa de um vento sem norte…

entre a fronteira… uma tinha ténue
entre a vida e a morte, entre o amor e a sorte
entre o ódio e o azar, entre a partida e o ficar…
fica quem não ama, ama quem parte, e odeia…
odeia a sorte de não saber em que dia conhecerá
a sua alma a morte…

Alberto Cuddel
15/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLV

Resposta ao desafio directo 1º de Ruth Collaço

Os tempos e as transparências verdes

Os tempos e as transparências verdes

corriam os sonhos livres e brancos
e o beijo doce da montanha-selvagem
amedrontando o calor das estepes veraneias
memórias e saudades, pulmões cheios de ar…

o quotidiano é materno.
depois de uma incursão larga na serra,
aos montes da aspiração sublime,
aos penhascos do transcendente e do oculto,
sabe melhor, sabe a tudo quanto é quente na vida
sabe a poesia, esse sabor do orgasmo preso na garganta…
sabe a essa pureza virginal da neve,
da erva pura que se fuma, saboreia-se o ar da palavra…

nada me comove que se diga de homem que tenho pouco
que passe por louco ou néscio, que me confundam no feminino
que tantas supera um homem vulgar e mediano tido por valente
em muitos casos e conseguimentos da vida (ela) é bem superior
mas tantas vezes olho os penhascos de cima, e se saltasse ou caísse
quem seria?
ou se me despisse e tomasse banho nas águas límpidas
seria eu perdoada desta minha libido,
sem que notes, que repares que existo…

aquela malícia incerta e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano um sexo puro
esse que acontece do nada entre dois seres
perscrutados pelos olhares do monte e o desconforto alheio,
exponho-a eu no exame das minhas próprias dores,
levo-a tão longe que nas ocasiões em que me sinto
existo… mesmo que curvado ao prazer
as vezes sinto-me ridículo ou mesquinho, gozo-a como se fosse outro que o fizesse
por uma estranha e fantástica transformação de sentimentos,
acontece que não sinto essa alegria maldosa e humaníssima
perante a dor e o ridículo alheio, mas sim sinto-a minha…

no serrilhado da vida, tudo é natural
e nós, inventamos complicações
seriamos nós, e uma mantinha…
e uma tarde de amor…

Alberto Cuddel
11/02/2021 17:05
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXVIII

Foto gentilmente cedida por:
@jõao Gomez Photography

Um poema novo de troncos velhos

Um poema novo de troncos velhos

revoltam-me as palavras imperfeitas
da metade do tempo em que não existimos,
não nos basta a certeza da existência do silêncio,
precisamos senti-lo nos lábios
firma-se os seios e o ventre
mulher-natureza que nos seduz…

calam-se em ti as palavras que não sentes
as mãos que não vivem e os pés frios…

há abraços que não demos,
há beijos que ainda não sentimos…
exprimo e espremo versos
regatos e pontes de pedra e água
lágrimas incomodas e incontidas
neste sorriso que vem na chegada
como quem parte numa floresta velha…

enchem-me o peito os ecos
dessa respiração ofegante que guardo
registada na ponta dos dedos que te buscam…

revoltam-me as saudades e os silêncios
que forçosamente calo,
na masculinidade que não choro…
húmus e líquenes geradores de vida
pela palavra húmida e lágrimas
se faz nova a vida sem sexo…
cruzam-se os toros hirtos
nas árvores macho, que teimosamente
morrem de pé, sem glória…

Alberto Cuddel
10/02/2021 07:45
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXVII
Foto gentilmente cedida por:
@Jõao Gomez Photography

Cavalgada de capricórnio

Cavalgada de capricórnio

içam as velas os nobres avós
indigentes dos dias, partida
desconhecida terra, vera cruz

há nesse mar salgado a eternidade
fertilidade contida em cada por do sol
nascente reversão do acordar,
cascos que correm em fuga ordinária
príncipe errante em busca do beijo

ponte que me trespassa a alma
entre o hoje e o amanhã, lá longe
ambição dos trópicos após equinócio
um braço estendido porto de abrigo
ao lado da torre… Tejo, Tejo…
esse querer que sempre foi, chegada…

Alberto Cuddel
08/02/2021 00:45
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XXIII

Nesse olhar temeroso

Nesse olhar temeroso

olho-te, olho-te
nesse olhar temeroso
nesse medo do adormecer
saudades de uma vida plena

rasga-se-me a alma cheia
nesse olhar que irei perder
nesses olhos que não me reconhecem
nesse olhar de medo de criança
e é tão fácil arrancar-te um sorriso
tão fácil chorar, tenho medo
não por ti
mas pelo vazia que iras deixar…

olho-te, olho-te
vejo-te criança assutada
com medo de tudo e de nada
por já não saberes quem sou
pelo alheamento que tens da morte

embalsamo na alma rosas negras
laminas que me cortam as palavras
e sorrio, perante as lagrimas retalhadas
e esse olhar temeroso que me ira deixar…

Alberto Cuddel
30/08/2020
23:13
Poética da demência assíncrona…

Assim soubesses tu…

Assim soubesses tu…

Assim soubesses tu compreender o sonho de um sonhador, nesse devaneio de colocar um prato com urtiga num jantar de noivado…
Assim soubesses tu compreender a essência da molécula poética que se faz vida, ali no desabrochar de uma flor no corpo de mulher…
Assim soubesses tu o que é a morte diante do perigo de viver sem sonhos e sem palavras, sem versos a brotarem-te dos dedos…

Assim soubesses tu o que é o medo de perder
O medo de cegamente amar sem arreios
Assim soubesses tu a dor que me arrasta pela estrada
Essa viagem negra com um destino incerto…

Queria que, sonhando eu e se tu pudesses sonhasses em mim, um luar cheio e ecos de canções que saltitam no lago da vida, queria que soubesse que o sonho povoa-me por fora, como uma floresta envolta em neblina, com um sonho em cada esquina…

Assim soubesses tu o quanto desejei não ser poesia este sonho que sonhei…
Assim soubesses tu… o quanto me dói em vida a vogal aberta que abre um poema…

Alberto Cuddel

A possibilidade do ser…

A possibilidade do ser…

A sala ficou de novo vazia, apenas risos e lágrimas ressoavam nas paredes gastas, a luz da esperança de outrora já não produzia sombras, os moveis e os quadros tinham partido, os sonhos e promessas tinham morrido, tudo é agora uma memória decadente do que podia ter sido, porque eu não cheguei, eu? Que faço eu aqui enterrado na dor que é existir sem ti?
Já nada é real, nada é efectivamente colorido, os dias são como esta sala, vazios, decadentes, uma existência mundana…
E se eu? Se o tempo fosse apenas isso uma mera possibilidade? Se esta sala fosse apenas a projecção do pesadelo, criada pelo subconsciente do medo, como uma lucidez tosca da infelicidade que geramos pela possibilidade de fazermos o depois?
Acordo:
O Amor é a realidade que fazemos e não a memória do que podia ter sido, na sala tudo continua como no dia em que cheguei…

A de Alberto Sousa
Por detrás da Luz…

Foto captada num dos sítios abandonados de Portugal.

Fotografia de José Carlos Teixeira
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